Pesquisadora da UNICAMP descobre que inibição de uma proteína protege camundongos da obesidade

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Imagem: Extraída da internet. Meramente ilustrativa.

Texto extraído do Portal Oficial do CEPID OCRC

Muitos chamam a depressão de “mal do século”, mas a obesidade é provavelmente uma candidata mais adequada. Atingindo 13% da população humana e crescendo assustadoramente a cada ano, a obesidade ocorre quando há acúmulo de gordura no organismo.

A obesidade é uma doença que é tanto genética quanto comportamental – ou seja, certas pessoas tem maior ou menor facilidade de desenvolvê-la, mas hábitos de alimentação e exercício também são cruciais. Sedentarismo e má alimentação podem condenar até mesmo os indivíduos mais geneticamente resistentes e, infelizmente, são hábitos cada vez mais comuns no nosso mundo moderno.

Portanto, entender como nosso metabolismo funciona é essencial para que possamos tentar reverter ou prevenir a obesidade. O metabolismo é controlado pelas ações de diversos órgãos, que por sua vez são compostos de diversas células. E, dentro dessas células, existe um universo inteiro de proteínas, pequenas máquinas biológicas que desempenham milhares de funções.

E é dentro deste universo que Gabriela Moreira Soares realizou sua pesquisa. Gabriela é Doutoranda em Biologia Funcional e Molecular pelo Instituto de Biologia da UNICAMP e desenvolveu o seu trabalho no Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, o OCRC (sigla em inglês), um dos maiores centros de pesquisa em obesidade, metabolismo e diabetes do país.

O estudo de Gabriela foi sobre uma proteína chamada ARHGAP21, que foi descoberta na própria UNICAMP. A ARHGAP21 foi descoberta no início do milênio pela pesquisadora Dra. Sara Teresinha Olalla Saad. A ARHGAP21 tem a função principal de inibir proteínas conhecidas como “Rho GTPases”, que agem como um “interruptor” para diversas funções dentro da célula, ligando e desligando conforme necessário através da ação de reguladores como a ARHGAP21. Apesar de a ARHGAP21 já ter sido descoberta há quase vinte anos, ela atraiu pouca atenção, e poucos estudos foram feitos sobre a mesma. A maioria desses poucos estudos se concentrava no papel da ARHGAP21 sobre o câncer – mas o grupo de Gabriela, capitaneado pela professora Dra. Helena Barbosa Sampaio, decidiu investigar se ela não poderia ter um papel importante no metabolismo do organismo.

Para investigar isso, Gabriela utilizou camundongos geneticamente modificados com menos ARHGAP21, e os alimentou com dieta rica em gordura. Usou dois grupos no experimento – um grupo de camundongos normais, e um grupo de camundongos deficientes em ARHGAP21. Esses grupos foram então divididos em mais dois, um recebendo dieta padrão, e outro recebendo uma dieta rica em gordura, uma tentativa de induzir nos camundongos problemas relacionados à obesidade.

Surpreendentemente, a falta da proteína ARHGAP21 nos camundongos geneticamente modificados gerou uma “proteção” contra os efeitos da dieta gordurosa. Ou seja, a falta de ARHGAP21 “protegeu” parcialmente esses animais da obesidade. Quando comparados aos animais normais alimentados com a dieta rica em gordura, os animais com menos ARHGAP21 apresentaram menor acúmulo de gordura no organismo, menor peso, e melhor sensibilidade à insulina (normalmente, indivíduos obesos apresentam resistência à ação desse hormônio, que é importantíssimo para manter o metabolismo normal. Resistência à insulina pode levar ao diabetes, um dos problemas mais comuns em indivíduos obesos).

A descoberta é bastante interessante, mas muito trabalho ainda precisa ser feito. “O próximo passo é entender porque isso ocorre” explicou Gabriela. “Nós descobrimos que a redução da ARHGAP21 parece proteger contra a obesidade induzida por uma má-alimentação, mas ainda não entendemos como isso acontece a nível celular – ou seja, os mecanismos desse efeito”. Talvez, no futuro, seja possível descobrir alguma forma de inibir a ARHGAP21 como forma de tratamento preventivo contra a obesidade, mas tal possibilidade ainda é distante, e exigirá muito estudo. Mesmo assim, a pesquisa de Gabriela e seus colaboradores ajuda a entender melhor os papéis da proteína ARHGAP21, e abre perspectivas interessantíssimas para estudos futuros.

Referências

Soares, Gabriela M., et al. “Whole Body ARHGAP21 Reduction Improves Glucose Homeostasis in High-Fat Diet Obese Mice.” Journal of Cellular Physiology, 2018, doi:10.1002/jcp.26527. (Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/jcp.26527)

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