Pesquisadores encontraram o primeiro exemplo de outro mamífero ‘cultivando’ sua comida

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(Créditos: JeannetteKatzir/iStock/Getty Images Plus)

Traduzido por Julio Batista
Original de David Nield para o ScienceAlert

Pensava-se que os humanos eram únicos entre os mamíferos quando se tratava de agricultura – mas dependendo de quão rigorosos somos com as definições, podemos não estar sozinhos quando se trata de cuidar da terra para cultivar alimentos.

Cientistas descobriram que uma espécie de geomiídeo (Geomys pinetis) também pratica uma forma de agricultura.

Estudos em um campo contendo tocas construídas pelas pequenas criaturas sugerem que eles não apenas colhem as raízes de pinheiros de folhas longas que crescem em suas casas – eles as cultivam.

Com centenas de metros de comprimento, esses túneis sinuosos são continuamente modificados e retrabalhados. Isso sem falar na fertilização.

Embora haja algum debate científico sobre o que constitui agricultura e o que não pode ser considerado agricultura, os pesquisadores por trás do novo estudo apontam várias indicações claras de que os geomiídeos sabem o que estão fazendo quando se trata de manejo de raízes.

“Os geomiídeos do sudeste são os primeiros mamíferos agricultores não humanos”, disse o biólogo Francis Putz, da Universidade da Flórida. “A agricultura é conhecida entre as espécies de formigas, besouros e cupins, mas não outros mamíferos.”

O projeto de pesquisa com geomiídeos foi inspirado em canos de esgoto, que muitas vezes são pressionados pelo crescimento das raízes. A equipe estava ansiosa para ver se as raízes também tentavam continuamente invadir os túneis em que os esquilos vivem e como os roedores podem cultivar a fonte de alimento em túneis que já foram feitos, bem como em novas tocas.

Ao estudar o crescimento da raiz em uma parte isolada de uma rede de túneis de geomiídeos, os pesquisadores calcularam que a raiz crescendo na rede de túnel poderia fornecer 20-60 por cento das calorias diárias necessárias pelas criaturas – e é preciso muita energia para manter essas redes subterrâneas.

Uma vez que as raízes atingem as tocas, seu crescimento é incentivado por meio de cocô e xixi de geomiídeo. Embora possa não ser a forma mais sofisticada de agricultura, os pesquisadores sugerem que seria algo parecido com o que os seres humanos fazem.

Também está claro que os animais gastam tempo e energia para defender suas plantações. Por outras palavras, a manutenção das tocas e a gestão das condições onde as raízes podem continuar a crescer são o que constitui esta forma de agricultura.

“Eles estão fornecendo esse ambiente perfeito para que as raízes cresçam e as fertilizem com seus resíduos”, disse a zoóloga Veronica Selden, da Universidade da Flórida (EUA).

As raízes que entram nos túneis são a única fonte de alimento que os geomiídeos têm e raramente interferem nas atividades humanas. Eles também são importantes “engenheiros do ecossistema”, disseram os pesquisadores – arejando o solo enquanto escavam e devolvendo nutrientes à superfície.

Alguns especialistas argumentam que a agricultura adequada requer o ato de plantar as plantações, além de ajudá-las a cultivá-las e colhê-las – mas a equipe por trás da pesquisa aponta que isso nem sempre foi o caso da agricultura humana.

As árvores frutíferas da floresta são um exemplo de agricultura onde as culturas são cuidadosamente manejadas em vez de plantadas, e o mesmo pode ser dito de qualquer cultura perene que cresce por conta própria. Sob essa definição, os geomiídeos podem se juntar ao clube de agricultura.

“Plantar a colheita, para algumas pessoas, é o que constitui a agricultura”, disse Putz. “Acho que toda a questão é intelectualmente intrigante porque não está realmente resolvida.”

A pesquisa foi publicada na Current Biology.