Polvos podem estar se adaptando à crescente acidez dos nossos oceanos, sugere estudo

0
196
Octopus rubescens. (Créditos: Kirt L. Onthank)

Traduzido por Julio Batista
Original de David Nield para o ScienceAlert

Sabemos que todo o excesso de CO2 que estamos levando ao ar – junto com uma série de outros efeitos prejudiciais – está aumentando a acidez dos oceanos conforme o composto afunda e se dissolve na água, mas parece que os resistentes polvos podem encontrar maneiras de se adaptar ao seu ambiente em rápida mudança.

Pesquisas anteriores sobre o impacto da acidificação dos oceanos em cefalópodes, como polvos, chocos e lulas, mostraram algumas indicações que o aumento do dióxido de carbono na água poderia impactar negativamente esse tipo de vida marinha.

No entanto, em um novo estudo, um grupo de Octopus rubescens – uma espécie de polvo comum na costa oeste da América do Norte – foi observado ajustando sua taxa metabólica basal (TMB) durante uma série de semanas em resposta à redução dos níveis de pH nas águas.

“Desafios para a fisiologia de um organismo muitas vezes se refletem em mudanças no uso de energia e, portanto, podem ser observados como mudanças na taxa metabólica aeróbica”, escrevem os pesquisadores em seu paper.

Um total de 10 polvos foram estudados em condições controladas de laboratório, com a TMB medida imediatamente após a exposição à água ácida, após uma semana e após cinco semanas. A pressão crítica de oxigênio – uma medida para saber se os animais não estão recebendo oxigênio suficiente – foi monitorada ao mesmo tempo.

Para começar, altos níveis de alteração metabólica foram detectados nas criaturas – o que chocou os cientistas já que entra em conflito com pesquisas anteriores sobre cefalópodes, que registraram uma redução na alteração metabólica em cenários semelhantes.

No entanto, a TMB voltou ao normal após uma semana e permaneceu a mesma cinco semanas depois, sugerindo que alguma adaptação ocorreu. O aumento da acidez teve um impacto sobre a capacidade dos polvos de manter o funcionamento de seu organismo com baixos níveis de oxigênio.

“Esta resposta na TMB sugere que O. rubescens é capaz de se aclimatar ao CO2 elevado ao longo do tempo”, escrevem os pesquisadores. “O aumento observado na TMB pode ser o resultado de múltiplas respostas agudas à hipercapnia [aumento de CO2 no sangue], possivelmente incluindo estratégias comportamentais e fisiológicas”.

Essas estratégias poderiam incluir a preparação para se deslocar visando encontrar um novo trecho de água para habitar, por exemplo, sugerem os pesquisadores (algo que não era possível dentro de um laboratório). O curto aumento da TMB também pode refletir os polvos fazendo ajustes rápidos em seus processos biológicos para se adequar ao novo nível de acidez.

O estudo é o primeiro a observar as mudanças de curto (uma semana) e de longo prazo (cinco semanas) nas taxas de metabolismo em cefalópodes em resposta à acidificação do oceano. Sabemos que essas criaturas são resistentes e parece que até têm estratégias de enfrentamento que podem permitir que se adaptem aos humanos destruindo o ambiente natural ao seu redor.

Porém, nada disso significa que deveríamos estar complacentes com a atual crise climática ou que não deveríamos tentar fazer grandes mudanças para revertê-la. Quando não cuidamos adequadamente do planeta, não somos apenas nós mesmos que estamos potencialmente fadados à extinção.

Além disso, esses testes foram feitos em condições de laboratório controladas que não levam em consideração muitos outros fatores de interligação no ambiente natural dos animais. Por exemplo, mesmo que os próprios polvos sejam capazes de se ajustar, e quanto ao suprimento de comida?

“Embora esta espécie possa ser capaz de se aclimatar à acidificação oceânica de curto prazo, os efeitos ambientais combinados da acidificação e da hipóxia podem representar um desafio fisiológico para esta espécie”, escrevem os pesquisadores.

A pesquisa foi publicada na Physiological and Biochemical Zoology.