Psicanálise não é a mesma coisa que psicologia

Sigmund Freud, o pai da psicanálise.

Por Mario Bunge
Publicado na obra La Investigácion Científica: Su Estrategia y Su Filosofía

A psicanálise não deve ser confundida com a psicologia e nem com a psiquiatria. A psicanálise pretende ser uma teoria e uma técnica terapêutica. Como teoria seria aceitável se mostrada que é suficientemente verdadeira; como técnica, se mostrada que é suficientemente eficaz. Mas para sustentar a pretensão de verdade ou eficiência, um corpo de ideias e práticas deve apresentar o mesmo parâmetro com os cânones do desenvolvimento da ciência pura e aplicada, pelo menos se você quiser que seja absorvido por uma ciência. Agora, a psicanálise falha ao tentar passar nos testes de cientificidade:

1. As teses da psicanálise estão além da psicologia, antropologia e biologia, e, de maneira frequente, são incompatíveis com elas. Por exemplo, a psicanálise é estranha à teoria da aprendizagem, o capítulo mais avançado da psicologia. A hipótese de memória racial inconsciente não tem apoio algum em genética; a afirmação de que a agressividade é instintiva e universal se contradiz com a antropologia e a etnologia; a hipótese de que todo homem carrega um complexo de Édipo está em contradição com os dados da antropologia. Isso não seria grave se fossem pontos secundários da doutrina; mas são pontos importantes e, especialmente, a psicanálise não pode recorrer à ciência para eliminar essas partes de sua doutrina, porque ela se apresenta como uma ciência rival e independente.

2. Algumas hipóteses psicanalíticas são intestáveis; por exemplo, as da sexualidade infantil, da existência de entidades desencarnadas dentro da personalidade (o id, o ego, o superego) e o do sono como significativo de voltar para o útero materno.

3. As teses psicanalíticas que são testáveis têm sido ilustradas, mas nunca foram realmente testadas por psicanalistas com a ajuda dos fluxos de verificação técnica; em particular, a estatística não desempenha papel algum na psicanálise. E quando os psicólogos científicos submeteram essas teses à verificação, o resultado se mostrou um fracasso. Exemplos: a) A conjectura de que todo sonho é a satisfação de um desejo tem sido contrastada perguntando para indivíduos com necessidades urgentes e objetivamente conhecidas, como sede, o conteúdo dos sonhos; resultado: é muito escassa a correlação entre necessidades e sonhos. b) Segundo a hipótese da catarse, a contemplação de filmes que expõem comportamentos violentos deveria ter como resultado uma descarga de agressividade; a experimentação científica tem mostrado um resultado contrário (R. H. Walters e outros cientistas, 1962). c) Muitos estudos sistemáticos e persistentes (W. H. Sewell, 1952, e M. A. Strauss, 1957) têm destruído a tese psicanalítica de que existe uma correlação significativa entre hábitos alimentares precoces e excreção, por um lado, e traços de personalidade por outro. d) Na formação de um grupo para estimar a influência terapêutica psicanalítica na neurose, não foi encontrada influência favorável alguma, porque a taxa de cura foi ligeiramente inferior à taxa de curas espontâneas (resultados de H. H. W. Miles e outros experimentais, 1951, de H. J. Eysenck, 1952, e de E. E. Levitt, 1957); por outro lado, a técnica científica de recondicionamento tem obtido êxito na maioria dos casos (J. Wolpe, 1958).

4. Embora algumas conjecturas psicanalíticas tenham sido, isoladamente, contrastadas, e foram, como acabamos de ver, no entanto, não são tomadas como contrastadas como um corpo inteiro. Por exemplo: se a análise do conteúdo de um sonho não mostrar que esse sonho é uma satisfação imaginária de um desejo, o psicanalista afirmará que isso é só prova de que o sujeito tem reprimido energicamente o seu desejo, a qual está, portanto, além do controle do terapeuta; analogamente, a uma pessoa que não apresentar o complexo de Édipo, o psicanalista dirá que ele está muito reprimido, talvez por temer a castração. E dessa maneira, diversas teses, diversos membros desse empreendimento, protegem uns aos outros, e a doutrina como um todo é inatacável pela experiência.

5. A psicanálise, além de eliminar por absorção indiscriminada toda evidência que normalmente (na ciência) seria considerada desfavorável, resiste à crítica. E faz essa eliminação mediante o argumento ad hominem, segundo o qual o crítico está manifestando o fenômeno da resistência e confirmando assim a hipótese psicanalítica sobre esse fenômeno. Ora bem: se nem a argumentação, nem a experiência podem rachar com uma doutrina, então essa doutrina é um dogma, e não uma ciência. As teorias científicas, longe de serem perfeitas, são, ou quando falhas são esquecidas, ou quando bem construídas são perfectíveis e, portanto, são corrigíveis ao longo do tempo.

Para ver mais artigos críticos à psicanálise, clique aqui.

Espere… Talvez os hippies não estivessem certos

0

Recentemente, um texto de Tam Hunt foi publicado na Scientific American, que provocativamente declarou que os hippies estavam certos e que tudo se trata de vibrações.

A alegação de Hunt é que a consciência emerge dos efeitos ressonantes encontrados na natureza em uma ampla gama de escalas. Isso é uma reminiscência de argumentos que foram feitos desde o desenvolvimento da ciência da termodinâmica há mais de duzentos anos. Em resumo, características intrigantes e surpreendentes de sistemas complexos foram descobertas e rigorosamente definidas com termos tão tentadores como “emergência”, “ressonância” e “auto-organização”.

Esses tipos de características do mundo natural são tão surpreendentes – até mesmo estranhas – que inspiraram uma especulação selvagem quanto a suas possíveis implicações. Existem conexões profundas entre esses fenômenos e os aspectos mais misteriosos de nossa existência, como vida, consciência e inteligência? Poderiam até nos fornecer insights sobre possíveis respostas a questões expansivas fundamentais, como por que há algo em vez de nada?

Especular sobre tais mistérios é um passatempo compreensível. Diversos pensadores, de físicos a filósofos, psicólogos e teólogos, escreveram vários tratados tentando esclarecer as possíveis respostas a essas questões profundas. Ao longo do caminho, ideias inspiradas por resultados científicos tiveram graus variados de sucesso. Conceitos como magnetismo animal, vitalismo, sincronicidade e misticismo quântico tiveram seu dia ao Sol apenas para acabar sendo desmascarados ou rejeitados por céticos e cientistas que, ou apontaram a falta de dados empíricos apoiando as alegações ou mostraram que as ideias eram incompatíveis com o que descobrimos sobre o mundo natural.

À luz dessa história, li a obra de Hunt e o artigo que ele publicou no Journal of Consciousness Studies (revista acadêmica). Hunt oferece uma releitura do pampsiquismo, uma ideia com uma história interessante, mas em grande parte sem provas a favor ou contra. Embora as descrições de fenômenos naturais de Hunt pareçam amplamente corretas, o que eu não vi foi qualquer conexão convincente desses fenômenos a uma estrutura científica testável para explicar a existência da consciência.

Em vez disso, acho que sua apresentação é mais ou menos uma lista de conceitos que ele acredita serem consistentes com o pampsiquismo. Mas por que essa ideia deveria ser uma proposta mais razoável do que qualquer outra? Existe uma maneira de mostrar que a ideia de Hunt é correta e, por exemplo, a ideia de que a consciência é uma ilusão está incorreta?

Historicamente, a Scientific American tem se dedicado a reportar investigações metodologicamente cuidadosas, mas em áreas onde os mistérios permanecem eu posso entender que especulações um pouco mais fantasiosas podem ser permitidas. No entanto, é importante que ideias novas sejam apresentadas de uma forma que as submeta à crítica. Na minha aula “A Vida no Universo” no LaGuardia Community College, os alunos e eu gastamos tempo avaliando as afirmações feitas sobre a realidade de acordo com as heurísticas ásperas que Carl Sagan delineou em seu livro, O Mundo Assombrado Pelos Demônios: A Ciência Vista Como Uma Vela No Escuro. Neste trabalho, Sagan propõe que todos nós mantenhamos um “kit de detecção de mentiras” com ferramentas destinadas a nos ajudar a avaliar se as alegações estão corretas ou incorretas. Uma das coisas que Sagan nos pede para considerar é se o que está sendo apresentado é uma hipótese falsificável.

Pelos meus cálculos, a proposta de Hunt falha, minimamente, neste teste. De fato, em seu artigo Hunt parece até reconhecer isso: “… não há prova possível em relação à minha estrutura proposta. Mas ‘a ciência examina, não prova’ (Bateson, 1980). Devemos, cada um de nós, proceder à evidência, inferência e estética disponíveis.”

De fato, é verdade que nunca há “prova” na ciência, no sentido de que pode haver na lógica formal ou matemática; porém, crucialmente, há refutação. Eu afirmo que a ideia de Hunt em sua formulação expansiva não fornece nenhum meio para descobrirmos que ela está incorreta. É, ao contrário, um exemplo de um ipse-dixitism, uma afirmação que é apresentada como evidentemente verdadeira e não falsificável, e, por causa disso, passa de uma afirmação científica para uma informação qualquer.

Evitando previsões demonstráveis e mensuráveis, Hunt tem uma ideia que não pode ser avaliada em termos científicos. Isso tem o efeito de evitar o risco de que possa estar sujeito aos tipos de críticas que foram levantadas contra outras especulações tensas sobre a consciência. Por exemplo, Roger Penrose e Stuart Hammeroff propuseram que a consciência surge dos efeitos de coerência da mecânica quântica em neurônios, uma alegação de que, pelo menos em sua formação mais simples, Max Tegmark mostrou que foi falsificado pela decoerência quântica que ocorreria no ambiente de alta temperatura do cérebro.

Como proposta científica, pelo menos a ideia de Penrose e Hammeroff tem o louvável atributo de ser falseável em princípio. Em contraste, a proposta de Hunt é simplesmente infalsificável. Pode ser uma descrição atraente para alguns, mas não fornece nenhum meio para avaliarmos se é verdade.

Joshua Tan é professor assistente de física e astronomia no LaGuardia Community College, na cidade de Long Island.

Como totalidades complexas emergem a partir de elementos simples

Créditos: Lottie Kingslake.

Por John Rennie
Publicado na Quanta Magazine

Você poderia passar a vida inteira estudando uma molécula de água individual e nunca deduzir a precisa dureza ou o deslizamento do gelo. Assista a uma formiga solitária sob um microscópio durante o tempo que quiser, e você ainda não poderia prever que milhares delas podem de forma colaborativa construir pontes com seus corpos para atravessar lacunas. Você também pode examinar os pássaros em grupos ou cardumes de peixes, e você não iria encontrar um que esteja orquestrando os movimentos de todos os outros.

A natureza está cheia de exemplos de comportamentos complexos que surgem espontaneamente a partir de elementos relativamente simples. Os pesquisadores cunharam o termo “emergência” para descrever essas manifestações enigmáticas de auto-organização, o que pode parecer, à primeira vista, inexplicável. Afinal, de onde vem essa repentina injeção extra de ordem complexa?

As respostas estão começando a aparecer. Uma delas explica que esses fenômenos emergentes podem ser entendidos apenas como comportamentos coletivos – não há nenhuma maneira de entendê-los sem olhar para dezenas, centenas, milhares ou mais de elementos contribuindo em massa. Na verdade, essas totalidades são maiores do que a soma de suas partes.

Outra é que, mesmo quando os elementos continuam a seguir as mesmas regras de comportamento individual, considerações externas podem alterar o resultado coletivo de suas ações. Por exemplo, o gelo não se forma a zero graus Celsius, porque as moléculas de água tornam-se subitamente mais rígidas uma à outra. Em vez disso, a energia cinética média das moléculas se torna suficientemente baixa para que as forças repulsivas e atrativas entre elas caia em um novo equilíbrio, mais elástico. Essa transição de líquido-para-solído é uma comparação tão útil para os cientistas que estudam a emergência, que muitas vezes caracterizam fenômenos emergentes como mudanças de fase.

O nosso mais recente vídeo da série In Theory, explica um pouco mais como milhares de elementos simples podem se auto-organizar em um todo mais extraordinário:

É assustador como a emergência aparece e uma compreensão formal da mesma pode estar ao nosso alcance. Alguns pesquisadores estão à procura de regras universais que descrevem o fenômeno emergente em todo o sistema. Procedimentos estatísticos, como a renormalização, podem identificar com precisão quando e como fenômenos coletivos começam a se tornar mais significativos.

Como um conceito científico, a emergência têm seus críticos, que acreditam ser algo bastante escorregadio e pouco informativo em questão de utilidade. Mas, indo além, a emergência ajuda a ilustrar porque cientistas encontram hierarquias de leis e processos físicos que operam em diferentes escalas em toda a natureza.

Procurando por uma luz escura

Christopher Smith, Laboratório do Acelerador Nacional Norte-americano SLAC.

Por Manuel Gnida
Publicado na Simmetry Magazine

A matéria tal como conhecemos compõe menos de 5% do universo; o resto é preenchido por matéria escura invisível e energia escura. Cientistas trabalhando no novo experimento a ser conduzido nas dependências do acelerador norte-americano Thomas Jefferson esperam esclarecer alguns desses mistérios cósmicos.

De acordo com teorias específicas conhecidas como modelos de setor escondido (Hidden-Sector models, originalmente), matéria escura consiste em partículas que interagem com a matéria ordinária através da gravitação (e é desse modo que sabemos da existência da matéria escura), mas não através das forças fundamentais: eletromagnética, nuclear fraca e forte (e por isso a matéria escura é de difícil detecção). Tal matéria escura iria interagir com a matéria ordinária através das forças de setor escondido, ainda a serem detectadas. Cientistas acreditam que fótons pesados — também chamados fótons negros ou escuros — podem ser os mediadores de tal força escura, assim como os fótons normais são mediadores da força eletromagnética entre partículas carregadas ordinárias.

A Pesquisa em Fótons Pesados (Heavy Photon Search ou HPS, na sigla em inglês) no laboratório Jefferson procurará por esses ‘primos’ negros e massivos da luz.

“O fóton pesado poderia ser a chave para um universo inteiro rico em forças e partículas escuras,” afirma Rouven Essig, físico teórico na Universidade Stony Brook que recentemente ajudou a desenvolver a teoria para a pesquisa em fótons pesados.

Mesmo que a ideia de fótons pesados esteja pairando no ar por quase 30 anos, ganhou um novo interesse alguns anos atrás quando teóricos sugeriram que esta poderia explicar o porquê de vários experimentos detectarem muito mais pósitrons de alta energia —  os parceiros dos elétrons no domínio da antimatéria — do que era esperado pelos cientistas na radiação cósmica do espaço. Dados do experimento e satélite PAMELA; do instrumento AMS a bordo da Estação Espacial Internacional; do experimento LAT no telescópio espacial de raios gama Fermi e outros experimentos reportaram o mesmo excesso de pósitrons.

“O excesso de pósitrons poderia ser resultado da aniquilação mútua de partículas de matéria escura,” afirma Essig. “No entanto, os dados sugerem uma nova força entre partículas de matéria escura, com os fótons pesados como carregadores da nova força.”

Criando partículas de Luz Negra

Se fótons pesados realmente existem, pesquisadores querem criá-los em laboratório.

Teoricamente, um fóton pesado pode se transformar no que é conhecido como fóton virtual — uma flutuação de energia eletromagnética que tem uma vida curta, porém com massa — e vice versa. Isso deverá acontecer raramente e também durar um período curtíssimo de tempo, porém ainda significa que experimentos que produzirem fótons virtuais podem, em princípio, gerar também fótons pesados. Produzir quantidades enormes de fótons virtuais pode criar quantidades detectáveis de suas versões pesadas.

Nas instalações do acelerador de feixe contínuo de elétrons, CEBAF na sigla em inglês, do laboratório Jefferson, cientistas irão catapultar elétrons em um alvo de tungstênio, o que gerará grandes números de fótons virtuais — e talvez alguns fótons pesados, também.

“O CEBAF nos proporciona um feixe de elétrons bem estável e intenso que é quase contínuo,” afirma Stepan Stepanyan do laboratório Jefferson, um dos três porta-vozes da colaboração internacional HPS, que inclui mais de 70 cientistas. “É um lugar único para realizar esse experimento.”

Os fótons virtuais e potencialmente pesados produzidos no CEBAF irão decair em pares de elétrons e pósitrons. Um detector de silício posicionado bem atrás do alvo irá rastrear o caminho dos pares, e um calorímetro eletromagnético irá medir suas energias. Pesquisadores utilizarão essa informação para reconstruir a exata localização na qual o par de elétron-pósitron foi produzido e determinar a massa do fóton original que criou o par. Ambas, a localização do caminho dos pares e a medição de sua energia, são importantes dados para isolar os fótons pesados em meio aos outros.

A massa do fóton medida no experimento é relevante porque um fóton pesado possui uma massa única, enquanto que fótons virtuais aparecem para nós em um espectro variado de massas. “O fóton pesado se revelaria como uma anomalia em meio à um fundo de dados constantes de decaimento de fótons virtuais,” afirma John Jaros do Laboratório e Acelerador Nacional SLAC, outro porta-voz do HPS.

A localização na qual o par elétron-pósitron foi produzido importa também por que fótons virtuais decaem quase instantaneamente quando atingem o alvo, diz Timothy Nelson, líder do projeto do detector de silício, o qual está sendo construído no SLAC. Fótons pesados poderiam decair mais lentamente, após viajarem para além do alvo. Portanto, fótons que decaiam fora do alvo só poderiam ser os pesados. A habilidade única detector de silício do HPS de identificar os decaimentos fora do alvo o destaca em meio à outros experimentos na caçada mundial dos fótons pesados.

O calorímetro do HPS, cuja construção foi encabeçada pelos pesquisadores do Institut de Physique Nucléaire, na França; do Istituto Nazionale di Fisica Nucleare, na Itália e do Jefferson Lab. O calorímetro está atualmente sendo testado no Jefferson Lab, enquanto que cientistas no SLAC lançaram seu detector em 2015. O experimento começou na primavera de 2015.

Todos os primeiros resultados da busca pela luz escura e fótons pesados podem ser acessados aqui, e em breve serão traduzidos.