As rainhas do jogo dos reis: conheça as Beth Harmon da vida real

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“Quando os homens perdem contra mim, é porque sempre estão com dor de cabeça ou algo do tipo. Eu nunca derrotei um homem completamente saudável!” — Susan Polgár

A Dama é a peça mais poderosa do xadrez, mas apenas um punhado de mulheres obteve tanta popularidade e fãs quanto os homens. Embora o xadrez seja há muito dominado por jogadores do sexo masculino, o xadrez foi um passatempo popular das mulheres da classe alta desde a Idade Média até o século XVIII, incluindo a Rainha Elizabeth I e Maria, Rainha da Escócia. No entanto, uma mulher só receberia o título de Grande Mestre pela primeira vez no final dos anos 1970.

É bem provável que a maioria dos jogadores de xadrez famosos de que você já ouviu falar sejam homens, mas na verdade existem muitas jogadoras fortes que deixaram sua marca no jogo à sua maneira. Beth Harmon, da série original da Netflix O Gambito da Rainha, não é uma jogadora de xadrez da vida real, mas houve várias Grandes Mestres do sexo feminino ao longo dos anos.  Este artigo irá apresentá-lo a seis das melhores jogadoras de xadrez de todos os tempos. Todas elas ganharam torneios internacionais abertos ou derrotaram um campeão mundial e, na maioria dos casos, ambos. Suas realizações as tornaram ícones do jogo e suas partidas estão imortalizadas nos tabuleiros de xadrez.

Vera Menchik (16/02/1906-27/06/1944)

Aos 19 anos, derrotou Edith Price, campeã britânica feminina da época, em dois matches.

Aos 21 anos, venceu o primeiro Campeonato Mundial Feminino de Xadrez, tornando-se a primeira campeã mundial feminina da história.

Aos 23 anos, dividiu o segundo lugar no Torneio de Ramsgate de 1929 com o fortíssimo Grande Mestre Akiba Rubinstein, marcando 5 pontos em 7 possíveis e terminando apenas meio ponto atrás de José Raúl Capablanca, “a máquina de jogar xadrez”.

Aos 25 anos, venceu o terceiro Campeonato Mundial Feminino de Xadrez, com uma pontuação perfeita de 8/8 (8 vitórias em 8 jogos). Ela viria a repetir tal feito mais três vezes: em Praga 1931 (14/14), Folkestone 1933 (8/8), Varsóvia 1935 (9/9) e Estocolmo 1937 (14/14).

Foi a primeira mulher a desafiar os melhores jogadores de xadrez do mundo. Entre as suas melhores partidas, destacam-se as vitórias contra Max Euwe (ex-campeão mundial), Edgard Colle (onze vezes campeão belga de xadrez), Samuel Reshevsky (oito vezes campeão americano de xadrez), Frederick Yates (seis vezes campeão inglês de xadrez),  Sultan Khan (três vezes campeão britânico de xadrez) e Sir George Thomas (duas vezes campeão inglês de xadrez). 

Foi a primeira mulher a entrar no Hall da Fama Mundial do Xadrez, e uma das doze mulheres a já receber tal honra.

É, até hoje, a campeã mundial feminina de xadrez com o reinado mais longo da história, tendo mantido o título por 17 anos (de 1927 até 1944).

É, até hoje, a maior campeã do Campeonato Mundial Feminino de Xadrez, com 8 títulos oficiais conquistados (1927, 1930, 1931, 1933, 1935, 1937 I, 1937 II e 1939).

Entre a sua primeira participação no Campeonato Mundial Feminino de Xadrez em 1927 e a sua última defesa de título em 1939, marcou 91½ pontos em 99 jogos que disputou, perdendo apenas três partidas oficiais em 12 anos.

Dá o seu nome, desde 1957, à Taça Vera Menchik, o troféu que premia o time vencedor das Olimpíadas de Xadrez Feminino da FIDE.

Nona Gaprindashvili (03/05/1941)

Aos 15 anos, venceu o Campeonato Georgiano Feminino de Xadrez de 1956, tornando-se a campeã georgiana mais jovem até então.

Aos 20 anos, venceu o Torneio de Candidatos Feminino de 1961 sem perder uma partida sequer, marcando 13 pontos em 16 possíveis (10 vitórias, 6 empates e nenhuma derrota).

Aos 21 anos, venceu o Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 1962 por um placar esmagador de 9 a 2 (7 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota), tornando-se a campeã mundial feminina mais jovem até então.

Aos 22 anos, venceu o Hastings Challengers de 1963/1964, tornando-se a primeira mulher a vencer um torneio internacional de xadrez disputado por homens.

Aos 23 anos, derrotou todos os jogadores britânicos e empatou com o fortíssimo Grande Mestre Paul Keres no Hastings Premier de 1964/1965, terminando o torneio em quinto lugar.

Aos 35 anos, venceu o Lone Pine International de 1977, dividindo o primeiro lugar com os fortíssimos Grandes Mestres Oscar Panno, Yuri Balashov e Dragutin Sahovic.

Aos 37 anos, tornou-se a primeira mulher Grande Mestre, recebendo o título após incrível desempenho no torneio Lone Pine International de 1977.

Aos 45 anos, venceu todos os dez jogos que disputou na Olimpíada de Dubai em 1986, conquistando três medalhas de ouro e alcançando um rating performance de 2877, 137 pontos a frente do campeão mundial absoluto da época, Garry Kasparov.

Foi campeã olímpica vinte vezes e conquistou vinte e cinco medalhas gerais: 20 de ouro, 4 de prata e 1 de bronze.

É, até hoje, a pessoa com mais medalhas de ouro na história das Olimpíadas de Xadrez (20), tanto individuais (9), quanto por equipes (11).

É, até hoje, a maior campeã do Campeonato Soviético Feminino de Xadrez, com 5 títulos oficiais conquistados (1964, 1973, 1981, 1983 e 1985).

É, até hoje, a maior campeã do Campeonato Mundial Feminino Sênior de Xadrez, com 7 títulos oficiais conquistados (1995, 2009, 2014, 2015, 2016, 2018 e 2019).

É, até hoje, a maior campeã do Campeonato Europeu Feminino Sênior de Xadrez, com 5 títulos oficiais conquistados (2011, 2015, 2016, 2017 e 2018).

É a primeira, e até hoje única, mulher campeã mundial feminina de xadrez a também conquistar o título mundial feminino sênior. Entre os homens, apenas Vasily Smyslov, campeão mundial de xadrez de 1957 a 1958 e campeão mundial sênior em 1991, conseguiu repetir tal feito.

Dá o seu nome, desde 1998, à Taça Nona Gaprindashvili, o troféu que premia o país com o maior número total de pontos combinados entre jogadores masculinos e femininos nas Olimpíadas de Xadrez.

Maia Chiburdanidze (17/01/1961)

Aos 10 anos, venceu o Campeonato Georgiano Júnior de Xadrez de 1971, tornando-se a campeã georgiana júnior mais jovem até então.

Aos 12 anos, disputou um match contra Vlasta Maček, campeã iugoslava da época, derrotando-a por 4 a 0.

Aos 15 anos, venceu o Campeonato Soviético Júnior Feminino de 1976, tornando-se a campeã soviética júnior mais jovem até então.

Aos 16 anos, venceu o Campeonato Soviético Feminino de 1977, tornando-se a campeã soviética mais jovem até então.

Aos 17 anos, venceu o Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 1978, tornando-se a campeã mundial feminina mais jovem até então.

Aos 18 anos, tornou-se a mais jovem jogadora número um do mundo até então, ultrapassando Nona Gaprindashvili no ranking FIDE de janeiro de 1980.

Aos 21 anos, derrotou Vladimir Tukmakov, campeão ucraniano da época e um dos maiores jogadores de xadrez rápido de todos os tempos, sacrificando suas duas torres para desencadear um ataque imparável.

Aos 24 anos, venceu o Torneio de Banja Luka de 1985, ficando à frente de vários campeões nacionais, entre eles Nigel Short, Iván Faragó, Lev Psakhis e Dragoljub Velimirović.

Aos 25 anos, tornou-se a primeira mulher a entrar na lista de classificação dos 100 melhores jogadores da FIDE, ocupando a 77º posição no ranking FIDE de janeiro de 1987.

Aos 32 anos, venceu o Torneio Mulheres contra Veteranos de 1993, ficando à frente de vários Grandes Mestres fortíssimos do passado, entre eles Vasily Smyslov, Efim Geller, Bent Larsen e Borislav Ivkov.

É, até hoje, a pessoa com mais medalhas na história das Olimpíadas de Xadrez (26), tanto individuais (13), quanto por equipes (13).

Foi campeã olímpica catorze vezes e conquistou vinte e seis medalhas gerais: 14 de ouro, 5 de prata e 7 de bronze.

Entre a primeira rodada da Olimpíada de Buenos Aires em 1978 e a quarta rodada da Olimpíada de Novi Sad em 1990, permaneceu doze anos seguidos sem perder uma partida olímpica sequer, até ser derrotada pela campeã olímpica Susan Polgár.

Susan Polgár (19/04/1969)

Aos 4 anos, venceu o Campeonato Feminino de Xadrez de Budapeste (Sub-11), com uma pontuação perfeita de 10 pontos em 10 possíveis.

Aos 12 anos, venceu o Campeonato Mundial Juvenil Feminino de Xadrez (Sub-16), seu primeiro título mundial.

Aos 15 anos, tornou-se a mais jovem jogadora número um do mundo até então, quebrando o recorde anteriormente detido pela ex-campeã mundial feminina Maia Chiburdanidze.

Aos 17 anos, tornou-se a primeira mulher a se classificar para o ciclo do então chamado Campeonato Mundial Masculino de Xadrez, mas foi impedida de competir pela Federação Húngara de Xadrez por não ser homem.

Aos 22 anos, tornou-se a terceira mulher Grande Mestre e a primeira a conquistar o título pelos mesmos requisitos exigidos para homens (Nona Gaprindashvili e Maia Chiburdanidze haviam recebido o título anteriormente por serem campeãs mundiais femininas).

Aos 23 anos, venceu o Campeonato Mundial Feminino de Xadrez Blitz de 1992 e o Campeonato Mundial Feminino de Xadrez Rápido de 1992, tornando-se a primeira pessoa a ser campeã mundial das duas modalidades.

Aos 26 anos, venceu o Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 1996, tornando-se a primeira pessoa a conquistar a tríplice coroa do xadrez: os Campeonatos Mundiais Femininos nos estilos Clássico, Rápido e Blitz.

Aos 35 anos, conquistou uma medalha de prata por equipe na Olimpíada de Calvià em 2004, a primeira medalha olímpica da história da Seleção Feminina de Xadrez dos Estados Unidos.

É a primeira, e até hoje única, mulher a conquistar a tríplice coroa do xadrez: os Campeonatos Mundiais Femininos nos estilos Clássico, Rápido e Blitz.

É a primeira, e até hoje única, pessoa a conquistar as seis coroas mais prestigiadas do xadrez: os Campeonatos Mundiais Femininos Clássico, Rápido, Blitz e Juvenil, a medalha de ouro olímpica (individual e por equipe) e a classificação mundial número 1 no ranking feminino da FIDE.

Detém, até hoje, o recorde mundial de mais partidas consecutivas disputadas: 1131, contra 551 adversários (com 1112 vitórias, 16 empates e apenas 3 derrotas).

Foi campeã olímpica cinco vezes e conquistou doze medalhas gerais: 5 de ouro, 4 de prata e 3 de bronze.

Entre a sua estreia na Olimpíada de Tessalônica em 1988 e a sua despedida na Olimpíada de Calvià em 2004, nunca perdeu uma partida olímpica sequer,  vencendo 31 jogos e empatando 25.

Judit Polgár (23/07/1976)

Aos 12 anos e 3 meses, tornou-se o mais jovem Mestre Internacional até então, quebrando o recorde anteriormente detido pelo ex-campeão mundial Bobby Fischer.

Aos 12 anos e 4 meses, tornou-se a pessoa mais jovem até hoje a ser medalhista de ouro em uma Olímpiada de Xadrez, ao conquistar três medalhas de ouro na Olímpiada de Tessalônica em 1988.

Aos 12 anos e 6 meses, tornou-se a a mais jovem jogadora número um do mundo e a mulher mais jovem até hoje a entrar na lista de classificação dos 100 melhores jogadores da FIDE, ocupando a 55º posição no ranking FIDE de janeiro de 1989.

Aos 15 anos e 5 meses, venceu o Campeonato Húngaro de Xadrez de 1991 e tornou-se o mais jovem Grande Mestre até então, quebrando o recorde anteriormente detido pelo ex-campeão mundial Bobby Fischer.

Aos 16 anos, derrotou o ex-campeão mundial Boris Spassky em um match de exibição, por um placar de 5½ a 4½ (3 vitórias, 5 empates e 2 derrotas).

Aos 18 anos, venceu o Torneio Magistral de Madrid de 1994 sem perder uma partida sequer, ficando à frente de nove dos mais fortes Grandes Mestres da época, entre eles Alexei Shirov, Gata Kamsky, Valery Salov, Evgeny Bareev e Ivan Sokolov.

Aos 19 anos, tornou-se a primeira, e até hoje única, mulher a ser classificada entre os dez melhores jogadores do mundo, ocupando a 10º posição no ranking FIDE de janeiro de 1996.

Aos 21 anos, derrotou o campeão mundial FIDE da época Anatoly Karpov em um match de xadrez de “ação” (30 minutos por jogo), por um placar de 5 a 3 (2 vitórias, 6 empates e nenhuma derrota).

Aos 22 anos, tornou-se a primeira, e até hoje única, mulher a vencer o Campeonato Aberto de Xadrez dos Estados Unidos, dividindo o primeiro lugar da edição de 1998 com o Grande Mestre americano Boris Gulko.

Aos 23 anos, venceu o Torneio Japfa Classic de 2000, um dos torneios mais fortes já realizados na Ásia, sem perder uma partida sequer, ficando à frente de nove dos mais fortes Grandes Mestres da época, entre eles Anatoly Karpov, Jan Timman, Alexander Khalifman, Yasser Seirawan e Gilberto Milos.

Aos 24 anos, venceu o Festival de Xadrez Miguel Nadjorf de 2000 sem perder uma partida sequer, ficando à frente de oito dos mais fortes Grandes Mestres da época, entre eles Anatoly Karpov, Nigel Short, Rafael Leitão e Gilberto Milos.

Aos 26 anos, tornou-se a primeira, e até hoje única, mulher a vencer uma partida contra um jogador número um do mundo, derrotando Garry Kasparov no match entre a Rússia e o Resto do Mundo, em setembro de 2002.

Aos 29 anos, tornou-se a primeira, e até hoje única, mulher a competir pelo título mundial absoluto, ao disputar a fase final do Campeonato Mundial de Xadrez FIDE de 2005.

É a primeira, e até hoje única, mulher a ultrapassar 2700 pontos de rating, atingindo uma classificação de pico de 2735 pontos nos rankings FIDE de julho e outubro de 2005 e ocupando a 8º posição nos rankings FIDE de abril, julho e outubro de 2005.

É a primeira, e até hoje única, mulher a vencer o Campeonato Mundial Juvenil Absoluto de Xadrez, nas categorias Sub-12 (em 1988) e Sub-14 (em 1990).

É a única mulher a derrotar onze atuais ou ex-campeões mundiais no xadrez clássico: Magnus Carlsen, Anatoly Karpov, Garry Kasparov, Vladimir Kramnik, Boris Spassky, Vasily Smyslov, Veselin Topalov, Viswanathan Anand, Ruslan Ponomariov, Alexander Khalifman e Rustam Kasimdzhanov.

Foi a jogadora número um do mundo de janeiro de 1989 até 13 de agosto de 2014, quando se aposentou das competições oficiais.

Foi campeã olímpica cinco vezes e conquistou oito medalhas gerais: 5 de ouro, 2 de prata e 1 de bronze.

Após a sua derrota para Nona Gaprindashvili na Olimpíada de Novi Sad em 1990, permaneceu 22 anos sem perder uma partida clássica de xadrez para uma jogadora feminina, até ser derrotada pela campeã mundial feminina da época Hou Yifan no Festival Internacional de Xadrez de Gibraltar de 2012.

Hou Yifan (27/02/1994)

Aos 9 anos, venceu o Campeonato Mundial Juvenil Feminino de Xadrez (Sub-10), seu primeiro título mundial.

Aos 12 anos e 1 mês, se classificou à fase eliminatória do Campeonato Mundial Feminino de 2006, tornando-se a jogadora mais jovem até hoje a participar do Campeonato Mundial Feminino.

Aos 12 anos e 4 meses, conquistou duas medalhas de bronze e uma de prata na Olimpíada de Torino em 2006, tornando-se a mais jovem medalhista da história das Olimpíadas de Xadrez.

Aos 13 anos, venceu o Campeonato Chinês Feminino de Xadrez de 2007, tornando-se a mais jovem campeã chinesa feminina até hoje.

Aos 14 anos e 6 meses, foi vice-campeã do Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 2008, tornando-se a mais jovem mulher Grande Mestre até hoje e a mais jovem finalista da história dos campeonatos mundiais.

Aos 16 anos, venceu o Campeonato Mundial Feminino de Xadrez de 2010, tornando-se a mais jovem campeã mundial feminina até hoje.

Aos 17 anos, foi vice-campeã do Festival Internacional de Xadrez de Gibraltar de 2012, ficando à frente de mais de duzentos jogadores, entre eles Judit Polgár, Shakhriyar Mamedyarov, Alexei Shirov, Peter Svidler e Michael Adams.

Aos 20 anos, foi terceira colocada do Festival Internacional de Xadrez de Gibraltar de 2015, ficando à frente de mais de duzentos jogadores, entre eles Veselin Topalov, Wei Yi, Pentala Harikrishna, Peter Svidler e Richard Rapport.

Aos 21 anos, atingiu uma classificação de pico de 2686 pontos, ultrapassando o rating clássico de Judit Polgár e encerrando um reinado de 26 anos consecutivos de Judit como a jogadora com a melhor classificação do mundo.

Aos 23 anos, venceu o Festival Internacional de Xadrez de Biel de 2017, ficando à frente de nove dos mais fortes Grandes Mestres da época, entre eles Etienne Bacrot, Pentala Harikrishna, Ruslan Ponomariov, Péter Lékó, Alexander Morozevich e David Navara. 

Na sétima rodada do Festival Internacional de Xadrez de Gibraltar de 2012, tornou-se a primeira jogadora feminina, desde 1990, a derrotar Judit Polgár em uma partida clássica de xadrez, quebrando uma invencibilidade de 22 anos.

Nas primeiras rodadas do GRENKE Chess Classic de 2017, derrotou Fabiano Caruana, segundo melhor jogador do mundo da época, e empatou com Magnus Carlsen, campeão mundial da época. (Um ano depois, ambos se enfrentariam no Campeonato Mundial de Xadrez de 2018).

Foi campeã olímpica duas vezes e conquistou doze medalhas gerais: 2 de ouro, 6 de prata e 4 de bronze.

É, até a data da publicação desse artigo, a jogadora número um em todas as modalidades do xadrez: clássico (2658), rápido (2621) e blitz (2601).

Curiosidades extras sobre a série:

Embora a própria Beth possa não ser real, sua árdua batalha contra o sexismo é muito real

No início da série, vemos os organizadores do torneio zombar de Beth, tentando dissuadi-la de competir. Em sua primeira luta no Campeonato Estadual de Kentucky, Beth enfrenta a única outra competidora, que explica que as mulheres devem competir entre si antes de poderem competir com os homens. Essa atitude sexista era onipresente na época, atingindo até mesmo e especialmente os escalões superiores do esporte, com os principais luminares do xadrez insistindo que as mulheres nunca escalariam as mesmas alturas que os homens. Em uma entrevista de 1963, Bobby Fischer disse que as jogadoras são “terríveis”, com a provável explicação de que “elas não são tão espertas”.

Até o Campeonato Mundial de Xadrez de 1986, quando Susan Polgár lutou para se classificar e remover a palavra “masculino” do título, o campeonato era aberto apenas para competidores do sexo masculino. Mais de três décadas depois, apenas uma mulher já competiu pelo título do campeonato: Judit Polgár, que, em 2005, competiu bravamente, mas não conseguiu levar o prêmio principal.

A próxima Beth Harmon pode ser você

Embora O Gambito da Rainha não faça rodeios ao descrever as lutas de Beth para superar o sexismo inerente ao esporte, a série também postula que uma campeã feminina pode ser abraçada em todo o mundo, com Beth amada por fãs apaixonados em todos os lugares, de Paris a Moscou. Ao escrever o romance, Tevis vislumbrou um futuro mais brilhante para o xadrez, onde o respeito pudesse ser concedido às jogadoras e a igualdade governasse um dia.

A história de Beth pode ser ficção, mas isso não significa que não existam mulheres reais que possam dominar o esporte. Na verdade, existem atualmente 38 mulheres classificadas como Grande Mestres, e não há como dizer quantas mais estão em formação. Claro, não há uma “Beth Harmon da vida real” agora, mas provavelmente ela está lá fora – talvez até treinando em um porão de orfanato com um zelador, apenas se preparando para nocautear todo mundo.

Alguns feitos notáveis da carreira de Elizabeth Beth” Harmon (02/11/1948):

Aos 10 anos, derrotou todos os doze membros do clube de xadrez da Duncan High School em partidas simultâneas.

Aos 14 anos, venceu o Campeonato Estadual de Xadrez de Kentucky de 1963, derrotando jogadores fortíssimos como Townes (1724 pontos de rating), Sizemore (2050 pontos de rating) e Beltik (2150 pontos de rating e campeão estadual da época). 

Aos 15 anos, venceu o Torneio de Cincinnati de 1963, derrotando na final o fortíssimo Mestre Americano Rudolph.

Aos 17 anos, foi vice-campeã do Mexico City Invitational de 1966, derrotando os fortíssimos Grandes Mestres Georgi Girev (da União Soviética), Octavio Marenco (da Itália) e Diedrich (da Áustria).

Aos 18 anos, venceu o Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1967, derrotando na final o fortíssimo Grande Mestre Benny Watts (campeão americano da época).

Aos 19 anos, foi vice-campeã do Paris Invitational de 1967, derrotando os fortíssimos Mestres Internacionais A. Bergland (da Noruega), P. Darga (da França), S. Malovicz (da Iugoslávia) e R. Uljanov (da União Soviética).

Aos 20 anos, venceu o Moscow Invitational de 1968, derrotando todos os Grandes Mestres mais fortes do mundo – Hellstrom (da Suécia), Duhamel (da França), Flento (da Itália), Laev e Shapkin (da União Soviética) – e dois campeões mundiais – Luchenko (ex-campeão mundial) e Borgov (campeão mundial da época), ambos da União Soviética.

Entre a primeira partida do Campeonato Estadual de Xadrez de Kentucky de 1963 e a final do Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1966, permaneceu três anos seguidos sem perder uma partida sequer, até ser derrotada pelo campeão americano Benny Watts.

De novembro de 1963 a dezembro de 1966, perdeu apenas três partidas oficiais: a final do Campeonato de Xadrez dos Estados Unidos de 1966 (para Benny Watts) e as finais do Mexico City Invitational de 1966 e do Paris Invitational de 1967 (para Borgov).

Leia mais artigos sobre a série O Gambito da Rainha:

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Esqueletos misteriosos de um povo desconhecido reescrevem a história dos ancestrais japoneses

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Uma caveira do final do período Jomon. Créditos: Shigeki Nakagome / Trinity College Dublin.

Por Harry Baker
Publicado na Live Science

Pesquisadores reescreveram a história japonesa depois de descobrir um terceiro, e até então desconhecido, grupo de ancestrais de populações japonesas dos dias modernos que migrou para o Japão há cerca de 2.000 anos.

O Japão antigo pode ser dividido em três períodos principais: o período Jomon (13.000 a.C. a 300 a.C.), uma época em que uma pequena população de caçadores-coletores proficientes em cerâmica vivia exclusivamente na ilha; o sobreposto período Yayoi (900 a.C. a 300 d.C.), quando os agricultores migraram do Leste Asiático para o Japão e desenvolveram a agricultura; e o período Kofun (300 a 700 d.C.), quando o Japão moderno começou a tomar forma.

Pesquisas anteriores haviam sugerido que as duas principais origens genéticas das populações japonesas modernas eram os caçadores-coletores originais que viveram durante o período Jomon e os fazendeiros que migraram para o Japão durante o período Yayoi.

Agora, uma análise do DNA encontrado em ossos antigos revelou uma terceira origem genética durante o período Kofun, quando um grupo de ancestrais até então desconhecidos migrou para o Japão, relataram pesquisadores em um novo estudo.

Um esqueleto enterrado do início do período Jomon. Créditos: Shigeki Nakagome / Trinity College Dublin.

“Estamos muito entusiasmados com nossas descobertas sobre a estrutura tripartida [de três partes] das populações japonesas”, disse o autor principal Shigeki Nakagome, professor assistente da Faculdade de Medicina da Trinity College Dublin, na Irlanda, à Live Science.

“Acreditamos que nosso estudo demonstra claramente o poder da genômica antiga para descobrir novos componentes ancestrais que não podiam ser vistos apenas a partir de dados modernos”.

Origens incertas

Os caçadores-coletores do período Jomon podem ter aparecido pela primeira vez no Japão 20.000 anos atrás e mantiveram uma pequena população de cerca de 1.000 indivíduos por milhares de anos, disse Nakagome.

Há evidências de pessoas que viviam no Japão há 38 mil anos, durante o Paleolítico Superior, disseram os pesquisadores em um comunicado, mas pouco se sabe sobre essas pessoas.

“Uma hipótese antiga é que eles foram ancestrais dos povos do período Jomon”, disse Nakagome. Isso significa que o povo do Paleolítico Superior pode ter se transformado no povo Jomon há cerca de 16.000 anos, acrescentou ele.

Outra explicação possível é que o povo Jomon se originou no Leste Asiático e cruzou o Estreito da Coreia quando ele ficou coberto de gelo durante o Último Máximo Glacial – o momento mais recente durante o Último Período Glacial quando os mantos de gelo estavam em sua maior extensão – cerca de 28.000 anos atrás, de acordo com o comunicado.

“No entanto, se essas hipóteses são verdadeiras ou não segue sendo desconhecido devido à falta de genomas paleolíticos do Japão”, disse Nakagome.

Uma caveira do final do período Jomon. Créditos: Shigeki Nakagome / Trinity College Dublin.

No início do período Yayoi, houve um influxo de pessoas da China ou Coreia com experiência em agricultura. Essas pessoas introduziram a agricultura no Japão, o que levou ao desenvolvimento das primeiras classes sociais e ao conceito de propriedade da terra.

O período Yayoi fez a transição para o período Kofun, durante o qual os primeiros líderes políticos surgiram e uma única nação, que mais tarde se tornou o Japão dos dias modernos, foi formada. No entanto, até agora, não estava claro se a transição ao Kofun foi o resultado de uma terceira migração em massa ou apenas uma continuação natural do período Yayoi.

“As transições culturais poderiam ter acontecido sem envolver mudanças genéticas”, disse Nakagome. “Mesmo que as culturas pareçam muito diferentes entre os dois períodos, isso não significa que o processo envolveu o fluxo gênico”.

Pesquisas anteriores haviam sugerido uma terceira entrada genética de imigrantes na época, mas até agora, ninguém havia sido capaz de sequenciar o DNA de nenhum indivíduo Kofun para descobrir.

Elo perdido

No novo estudo, Nakagome e sua equipe analisaram os genomas de 12 indivíduos de todo o Japão. Nove datavam do período Jomon e três eram do período Kofun, tornando-o “o primeiro estudo que gerou dados de sequência do genoma completo de indivíduos Kofun”, disse Nakagome.

Os resultados revelaram que, conforme previsto por outros, um terceiro grupo geneticamente distinto de ancestrais japoneses migrou para o país durante o período Kofun. Esses ancestrais vieram do Leste Asiático e provavelmente eram da etnia han da China antiga, disse Nakagome.

“Os han são geneticamente próximos dos antigos chineses do rio Amarelo ou do rio Liao Ocidental, bem como das populações modernas, incluindo Tujia, She e Miao”, disse Nakagome. “Achamos que esses imigrantes vieram de algum lugar dessas regiões”.

As descobertas da equipe não são nenhuma surpresa para outros historiadores que suspeitaram da existência deste terceiro grupo de ancestrais japoneses.

“Evidências arqueológicas há muito tempo sugerem três estágios de migração, mas o último foi amplamente ignorado”, disse Mikael Adolphson, professor de história japonesa da Universidade de Cambridge que não esteve envolvido no estudo, à Live Science.

“Esta nova descoberta confirma o que muitos de nós sabíamos, mas é bom que agora obtenhamos evidências também da área médica”.

As descobertas também mostraram que a maioria dos genes entre as populações japonesas dos dias modernos se originou do Leste Asiático, durante os três principais períodos de mistura genética.

A análise da equipe determinou “aproximadamente 13 por cento, 16 por cento e 71 por cento dos ancestrais Jomon, do Nordeste e do Leste Asiático, respectivamente”, disse Nakagome. “Portanto, a ancestralidade do Leste Asiático é dominante nas populações modernas”.

No entanto, o estudo não esclarece se a migração dos povos do Leste Asiático contribuiu para a transição da agricultura para um estado imperial durante o período Kofun.

“Os indivíduos Kofun sequenciados não foram enterrados em montículos em forma de buraco de fechadura [reservados para indivíduos de alto escalão], o que implica que eles eram pessoas do baixo escalão”, disse Nakagome. “Para ver se essa ancestralidade do Leste Asiático desempenhou um papel fundamental na transição, precisamos sequenciar as pessoas com uma classificação mais elevada”.

Nakagome e sua equipe estão entusiasmados por ter ajudado a confirmar um novo pedaço da história do Japão e esperam que as descobertas possam abrir as portas para novas descobertas.

É importante saber “de onde viemos e a história única de nossos ancestrais”, disse ele.

O estudo foi publicado online em 17 de setembro na revista Science Advances.

Um vulcão gigante não impediu os antigos maias de pegar as cinzas e construir uma pirâmide

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Estrutura Campana e o complexo vulcânico de San Salvador. Créditos: Antiquity Publications / A. Ichikawa.

Por Mindy Weisberger
Publicado na Live Science

Cerca de 1.500 anos atrás, os construtores maias criaram uma pirâmide maciça de rocha que havia sido ejetada por um vulcão, em uma erupção que foi tão poderosa que esfriou o planeta, descobriram cientistas recentemente.

Por volta de 539 d.C., no que hoje é San Andrés, El Salvador, a caldeira vulcânica Ilopango entrou em erupção no que foi o maior evento vulcânico da América Central nos últimos 10.000 anos.

Conhecida como erupção Tierra Blanca Joven (TBJ), o vulcão produziu fluxos de lava que se estenderam por dezenas de quilômetros e expeliu tantas cinzas na atmosfera sobre a América Central que o clima esfriou no hemisfério norte, relataram pesquisadores anteriormente.

Por causa do poder destrutivo do vulcão, os cientistas pensaram que muitos dos assentamentos maias da região foram abandonados, possivelmente por séculos.

Mas em uma análise recente de uma pirâmide maia conhecida como Estrutura Campana, Akira Ichikawa, arqueólogo mesoamericano e pós-doutorado associado do Departamento de Antropologia da Universidade de Colorado Boulder (UCB), nos Estados Unidos, descobriu que as pessoas voltaram à região muito mais cedo, construindo o monumento apenas décadas após a erupção.

Uma nova análise da pirâmide, localizada a cerca de 40 quilômetros do vulcão no Vale do Zapotitán, também revelou que os construtores maias misturaram blocos de pedra cortada e terra com blocos esculpidos em piroclasto – rocha ejetada por um vulcão.

Esta é a primeira evidência de que material ejetado vulcânico foi usado na construção de uma pirâmide maia e pode refletir o significado espiritual dos vulcões na cultura maia, disse Ichikawa.

Os estudiosos têm debatido a data da erupção TBJ por décadas, com alguns argumentando que o vulcão entrou em erupção muito antes, entre 270 e 400 d.C., escreveu Ichikawa no novo estudo, publicado em 21 de setembro no período Antiquity.

No entanto, a recente datação por radiocarbono (comparando proporções de isótopos de carbono radioativo) em troncos de árvores de El Salvador sugeriu que 539 d.C. era uma estimativa mais precisa, disse Ichikawa.

A pirâmide Campana se estende sobre uma plataforma que mede quase 6 metros de altura, 80 m de comprimento e 55 m de largura, e a pirâmide em si tem cerca de 13 m de altura.

Planta 3D da estrutura Campana, mostrando onde foram realizadas as escavações. Créditos: Antiquity Publications / A. Ichikawa.

A plataforma também inclui quatro terraços e uma ampla escadaria central. Foi o primeiro edifício público erguido no local do vale de San Andrés após a erupção TBJ, que teria enterrado grande parte do vale sob quase 0,5 m de cinzas, de acordo com o estudo.

Ichikawa calculou a idade da estrutura usando amostras de carbono retiradas de diferentes materiais de construção na pirâmide, datando-os entre 545 e 570 d.C. Isso sugere que as pessoas voltaram ao local e começaram a construção da pirâmide muito antes do esperado, possivelmente cinco anos após a erupção do TBJ, disse Ichikawa.

A quantidade de piroclasto na pirâmide também foi surpreendente, disse ele à Live Science por e-mail. Cerca de uma década atrás, o arqueólogo da UCB e professor Payson Sheets detectou piroclasto em uma “sacbé” maia ou “estrada branca” – uma via elevada – no sítio arqueológico Joya de Cerén.

Também localizada em El Salvador, a comunidade agrícola pré-hispânica de Cerén foi soterrada em uma erupção vulcânica por volta de 600 d.C. e é conhecida como a “Pompeia das Américas”, explicou Ichikawa.

No entanto, Campana é o primeiro monumento maia conhecido a incluir o piroclasto como material de construção. No sacbé de Cerén, o piroclasto de cinza branca “pode ​​ter sido percebido como tendo um significado religioso ou cosmológico poderoso” por causa de sua origem vulcânica, e o piroclasto pode ter tido uma importância semelhante na pirâmide Campana, de acordo com o estudo.

Desastres climáticos e ambientais, como erupções vulcânicas, costumam estar ligados ao colapso ou declínio de civilizações antigas; no Egito ptolomaico (305 a 30 a.C.), um vulcão pode ter condenado uma antiga dinastia, e quando um vulcão do Alasca entrou em erupção em 43 a.C., pode ter representado o fim da República Romana, relatou a Live Science anteriormente.

Mas a estrutura de Campana conta uma história diferente, demonstrando que os povos antigos eram capazes de reconstruir a partir das cinzas da destruição e que eram mais resilientes, flexíveis e inovadores do que se suspeitava anteriormente, disse Ichikawa.

Explosão de rocha espacial destruiu cidade antiga com 1.000 vezes o poder de Hiroshima

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Impressão artística de uma rocha espacial na atmosfera. Créditos: Roger Harris / Getty Images.

Por Christopher R. Moore
Publicado no The Conversation

Enquanto os habitantes de uma antiga cidade do Oriente Médio agora chamada Tall el-Hammam realizavam suas tarefas diárias há cerca de 3.600 anos atrás, eles não tinham ideia de que uma rocha espacial de gelo e invisível estava se movendo rapidamente em direção a eles a cerca de 61.000 km/h.

Passando pela atmosfera, a rocha explodiu em uma enorme bola de fogo a cerca de 4 quilômetros acima do solo. A explosão foi cerca de 1.000 vezes mais poderosa do que a bomba atômica de Hiroshima.

Os moradores chocados da cidade que olharam para ela ficaram cegos instantaneamente. As temperaturas do ar subiram rapidamente acima de 2.000 graus Celsius. Roupas e madeira imediatamente se consumiram em chamas. Espadas, lanças, tijolos de barro e cerâmica começaram a derreter. Quase imediatamente, a cidade inteira estava em chamas.

Alguns segundos depois, uma enorme onda de choque atingiu a cidade. Movendo-se a cerca de 1.200 km/h, foi mais poderosa do que o pior tornado já registrado. Os ventos destrutivos varreram a cidade, demolindo todos os edifícios.

Eles arrancaram os 12 metros superiores do palácio de 4 andares e jogaram os destroços no vale vizinho. Nenhuma das 8.000 pessoas ou quaisquer animais dentro da cidade sobreviveu – seus corpos foram despedaçados e seus ossos explodidos em pequenos fragmentos.

Cerca de um minuto depois, 22 km a oeste de Tall el-Hammam, os ventos da explosão atingiram a cidade bíblica de Jericó. As muralhas de Jericó desabaram e a cidade foi destruída pelo fogo.

Tudo soa como o clímax de um filme desastroso de Hollywood. Como sabemos que tudo isso realmente aconteceu perto do Mar Morto, na Jordânia, milênios atrás?

Agora chamada de Tall el-Hammam, a cidade fica a cerca de 11 quilômetros a nordeste do Mar Morto (Dead Sea), onde hoje é a Jordânia (Jordan). Tradução da imagem: Oriente Médio (Middle East), Mar Mediterrâneo (Mediterranean Sea), Egito-Sinai (Egypt-Sinai), Falha do Mar Morto (Dead Sea Rift), Árabia Saudita (Saudi Arabia) e Iraque (Iraq). Crédito: NASA.

Obter respostas exigiu quase 15 anos de escavações meticulosas por centenas de pessoas. Também envolveu análises detalhadas de material escavado por mais de duas dúzias de cientistas em 10 estados dos Estados Unidos, bem como no Canadá e na República Tcheca.

Quando nosso grupo finalmente publicou as evidências recentemente na revista Scientific Reports, os 21 coautores incluíam arqueólogos, geólogos, geoquímicos, geomorfologistas, mineralogistas, paleobotânicos, sedimentologistas, médicos e especialistas em impacto cósmicos.

Veja como construímos esse cenário de devastação no passado.

Tempestade de fogo em toda a cidade

Anos atrás, quando os arqueólogos observaram as escavações da cidade em ruínas, eles puderam ver uma camada escura e misturada de carvão, cinzas, tijolos de barro derretidos e cerâmica derretida, com cerca de 1,5 m de espessura.

Era óbvio que uma tempestade de fogo intensa havia destruído esta cidade há muito tempo. Essa camada escura passou a ser chamada de camada de destruição.

Pesquisadores perto das ruínas, com a camada de destruição no meio de cada parede exposta. Crédito: Phil Silvia.

Ninguém tinha certeza do que tinha acontecido, mas essa camada não foi causada por um vulcão, terremoto ou guerra. Nenhum deles é capaz de derreter metal, tijolos de barro e cerâmica.

Para descobrir o que poderia acontecer, nosso grupo usou a Calculadora de Impacto Online para modelar cenários que se encaixam nas evidências. Construída por especialistas em impactos cósmicos, esta calculadora permite aos pesquisadores estimar os muitos detalhes de um evento de impacto cósmico, com base em eventos de impacto conhecidos e detonações nucleares.

Parece que o culpado em Tall el-Hammam foi um pequeno asteroide semelhante ao que derrubou 80 milhões de árvores em Tunguska, Rússia, em 1908. Teria sido uma versão muito menor da rocha gigante com quilômetros de largura que levou os dinossauros à extinção há 65 milhões.

Tínhamos um provável culpado. Agora precisávamos de uma prova do que aconteceu naquele dia em Tall el-Hammam.

Encontrando ‘diamantes’ na poeira

Nossa pesquisa revelou uma ampla gama de evidências.

Imagens de microscópio eletrônico de numerosas pequenas rachaduras em grãos de quartzo de impacto. Crédito: Allen West.

No local, existem grãos de areia finamente fraturados chamados quartzo de impacto que só se formam a 13.000 kg por metro quadrado de pressão (5 gigapascais) – imagine seis tanques militares Abrams de 68 toneladas empilhados em seu polegar.

A camada de destruição também contém minúsculos diamonoides que, como o nome indica, são duros como diamantes. Cada um é menor do que um vírus da gripe. Parece que a madeira e as plantas da área foram instantaneamente transformadas neste material semelhante a um diamante pelas altas pressões e temperaturas da bola de fogo.

Diamonoides (DLC, centro) dentro de uma cratera (crater), formados pelas altas temperaturas e pressões da bola de fogo nas plantas. Crédito: Malcolm LeCompte.

Experimentos com fornos de laboratório mostraram que a cerâmica e tijolos de barro em Tall el-Hammam se liquefaziam em temperaturas acima de 1.500 Celsius. Isso é quente o suficiente para derreter um automóvel em minutos.

Esférulas feitas de areia derretida (parte superior esquerda), gesso (parte superior direita) e metal fundido (partes inferiores). Crédito: Malcolm LeCompte.

A camada de destruição também contém pequenas bolas de material derretido, menores do que partículas de poeira no ar. Chamadas de esférulas, elas são feitas de ferro vaporizado e areia que derreteu a cerca de 1.590 Celsius.

Além disso, as superfícies da cerâmica e do vidro derretido se dividiram em minúsculos grãos metálicos derretidos, incluindo irídio com um ponto de fusão de 2.466 Celsius, platina que derrete a 1.768 Celsius e silicato de zircônio a 1.540 Celsius.

Juntas, todas essas evidências mostram que as temperaturas na cidade aumentaram mais do que as dos vulcões, guerras e incêndios urbanos comuns. O único processo natural que resta é um impacto cósmico.

A mesma evidência é encontrada em locais de impacto conhecidos, como Tunguska e a cratera de Chicxulub, criada pelo asteroide que desencadeou a extinção dos dinossauros.

Um quebra-cabeça remanescente é por que a cidade e mais de 100 outros assentamentos da área foram abandonados por vários séculos após essa devastação. Pode ser que os altos níveis de sal depositados durante o evento de impacto tenham impossibilitado o cultivo.

Não temos certeza ainda, mas achamos que a explosão pode ter vaporizado ou espalhado níveis tóxicos de água salgada do Mar Morto em todo o vale. Sem plantações, ninguém poderia viver no vale por até 600 anos, até que as chuvas mínimas neste clima desértico lavassem o sal dos campos.

Houve uma testemunha ocular sobrevivente da explosão?

É possível que uma descrição oral da destruição da cidade tenha sido transmitida por gerações até que fosse registrada como a história da Sodoma bíblica. A Bíblia descreve a devastação de um centro urbano perto do Mar Morto – pedras e fogo caíram do céu, mais de uma cidade foi destruída, fumaça densa subiu dos incêndios e os habitantes da cidade foram mortos.

Poderia ser este o relato de uma testemunha ocular antiga? Nesse caso, a destruição de Tall el-Hammam pode ser a segunda destruição mais antiga de um assentamento humano por um evento de impacto cósmico, depois da aldeia de Abu Hureyra, na Síria, cerca de 12.800 anos atrás. É importante ressaltar que pode ser o primeiro registro escrito de um evento catastrófico.

O mais assustador é que quase certamente não será a última vez que uma cidade humana terá esse destino.

Explosões aéreas do tamanho de Tunguska, como a que ocorreu em Tall el-Hammam, podem devastar cidades e regiões inteiras e representam um grave perigo para os dias modernos.

Em setembro de 2021, havia mais de 26.000 asteroides próximos à Terra conhecidos e uma centena de cometas de curto período próximos à Terra. Um inevitavelmente colidirá com a Terra. Outros milhões permanecem sem serem detectados, e alguns podem estar indo em direção à Terra agora.

A menos que telescópios orbitais ou terrestres detectem esses objetos perigosos, o mundo pode não ter nenhum aviso, assim como o povo de Tall el-Hammam.