As doze mentes mais brilhantes da história da medicina

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Os médicos fornecem um serviço inestimável que ajuda a melhorar o mundo em que vivemos. Eles tornam a população mais saudável, melhoram nossa qualidade de vida geral e ajudam a nos orientar em nossa busca pelo bem-estar. Sem as contribuições dos médicos, nossas vidas seriam muito diferentes e muito menos agradáveis.

A medicina evoluiu junto com as sociedades ao longo da história. Um fato tão simples como lavar as mãos após a realização de uma autópsia pode ter sido extremamente controverso na época de sua proposta, mas graças a figuras históricas que inovaram no conhecimento médico ou decidiram ir contra a corrente, hoje contamos com o melhor sistema de saúde que já existiu na história da humanidade.

Cada procedimento médico é realizado pelas mãos de um profissional capacitado, que conta com o conhecimento acumulado ao longo dos séculos verificado pela comunidade científica. Entre essas figuras, algumas destacam-se. Neste artigo, apresentaremos algumas das mentes mais brilhantes da história da medicina, cujas descobertas não só revolucionaram nosso conhecimento acerca do corpo humano, como também salvaram vidas de milhões de pessoas no mundo todo.

Andreas Vesalius (1514-1564)

Andreas Vesalius foi um médico e anatomista flamengo. Seu estudo do corpo humano o levou a seu livro influente sobre anatomia humana: Da Organização do Corpo Humano. Este livro tornou-se tão influente que Vesalius é considerado o pai da anatomia humana moderna. Vesalius teve uma carreira médica de prestígio e viajou por toda a Itália com padres para ajudar as pessoas que sofriam de hanseníase, mais conhecida como lepra. Na época, a maior parte do conhecimento da anatomia humana vinha de observações de animais, pois as leis religiosas proibiam o estudo e a dissecação de cadáveres humanos. No entanto, Vesalius realizou dissecações públicas, notadamente no corpo de um famoso criminoso chamado Jacob Karrer von Gebweiler após sua execução. Vesalius montou os ossos do esqueleto que ainda está preservado e em exibição na Universidade de Basel. Suas descobertas contrariaram as visões tradicionais de anatomia que existiram por séculos e essas visões persistiram durante sua vida e depois. Séculos depois, quando o estudo da anatomia se tornou mais estabelecido e mais fácil de realizar, suas opiniões, baseadas em sua própria experimentação e observação, tornaram-se a base para a anatomia moderna.

William Harvey (1578-1657)

No início do século XVII, o funcionamento do sangue no corpo era mal compreendido. A hipótese dominante dizia que o sangue fluía e refluía através do coração por meio de poros no tecido macio. Entre os que acreditavam nessa teoria estava um médico inglês chamado William Harvey. Ele era fascinado pelo funcionamento do coração. Quanto mais ele estudava os corações pulsantes dos animais em sua mesa de dissecação, mais ele percebia que a hipótese do fluxo sanguíneo não poderia estar certa. Em suas dissecações, Harvey observou que o coração possuía válvulas unidirecionais que mantinham o sangue fluindo em uma só direção. Algumas válvulas deixavam o sangue entrar enquanto outras o deixavam sair. Esta foi a sua grande descoberta. Ele percebeu que o coração bombeava sangue para as artérias e que retornava através das veias, fechando um círculo de volta ao coração. A descoberta de Harvey gerou grandes avanços nos campos de pesquisa anatômica e cirúrgica. Nas salas de cirurgia de centros de trauma em todo o mundo, grampos cirúrgicos são utilizados para obstruir o fluxo sanguíneo e manter a circulação de um paciente intacta. Um dispositivo simples, mas que evoca a grande descoberta de William Harvey.

Edward Jenner (1749-1823)

Também conhecido como “Pai da Imunologia”, Edward Anthony Jenner foi um cientista inglês famoso por sua descoberta da vacina contra a varíola. Esta foi a primeira vacina bem-sucedida a ser desenvolvida e continua sendo o único tratamento preventivo eficaz para a doença fatal da varíola. O termo vacina é derivado da palavra vacca, que significa vaca em latim, já que Jenner usou a varíola bovina para provar sua observação. Em maio de 1796, ele resolveu pôr à prova a sabedoria popular que dizia que quem lidava com gado não contraía varíola. Ao observar que as mulheres responsáveis pela ordenha quando expostas ao vírus bovino tinham uma versão mais suave da doença, então ele conduziu sua primeira experiência com James Phipps, um menino saudável de oito anos. Jenner inoculou James Phipps usando pus das bolhas das mãos de Sarah Nelmes, uma leiteira que adquiriu a varíola bovina através do contato com gado. O menino teve um pouco de febre e algumas lesões, mas não desenvolveu a infecção da varíola completa, tendo uma recuperação rápida. Meses depois, Jenner expôs o garoto à varíola, e o menino não foi infectado. Seu experimento foi repetido em outras pessoas com sucesso. Estava descoberta assim a propriedade de imunização. A varíola só seria erradicada na década de 1980, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Edward Jenner foi capaz de descobrir a vacina para essa doença que tanto matava naquela época. Sua descoberta foi um enorme avanço médico e salvou inúmeras vidas.

Horace Wells (1815-1848)

Crawford Long  (1815-1878)

William Morton (1819-1868)

Apesar das grandes primeiras descobertas sobre a anatomia humana terem permitido que os médicos salvassem mais vidas, elas não ajudaram muito a diminuir a dor. Sem a anestesia, as cirurgias eram um pesadelo de olhos abertos. Os pacientes eram subjugados ou amarrados a uma mesa e os cirurgiões trabalhavam o mais rápido que podiam. Durante séculos, vários medicamentos foram utilizados para aliviar a dor durante as cirurgias. Alguns como o ópio, um extrato da raiz da mandrágora, eram narcóticos. A partir de 1840, vários indivíduos abriram o caminho para descobrir anestésicos mais eficientes. Em Boston, dois dentistas que se conheciam: Horace Wells e Thomas William Green Morton. E na Geórgia, um médico de uma cidade pequena, chamado Crawford Long. Eles fizeram experiências com duas substâncias químicas que teriam o poder de reduzir a dor: o óxido nitroso e o éter. Mas quem descobriu a anestesia ainda é uma questão polêmica: todos os três doutores reivindicam sua descoberta. Uma das primeiras demonstrações públicas de anestesia ocorreu em 16 de outubro de 1846. William Morton já fazia experiências com éter há meses, tentando encontrar uma dosagem que permitiria ao paciente ser submetido a uma cirurgia sem sentir dor. Com um dispositivo que havia criado, ele realizou uma demonstração diante de uma plateia de cirurgiões e estudantes de medicina de Boston. Ele administrou éter em um paciente que estava prestes a ter um tumor removido do pescoço. Para a surpresa geral, o paciente não gritou e depois da cirurgia, relatou não ter sentido nada durante todo o procedimento. O pesadelo das cirurgias havia acabado: a anestesia, enfim, havia sido descoberta.

Ignaz Semmelweis (1818-1865)

Joseph Lister (1827-1912)

Em 1846, muitas das mulheres que davam a luz em Viena, acabavam morrendo. A causa era a febre puerperal, uma infecção do útero. Quando Ignaz Semmelweis veio trabalhar em uma das maternidades da cidade, ele ficou alarmado com a dimensão do problema e intrigado com uma curiosa discrepância. Semmelweis observou que na ala onde os médicos faziam os partos, 7% das mães morriam, enquanto que na área onde as parteiras trabalhavam, apenas 2% das mães morriam. Semmelweis decidiu descobrir o que estava acontecendo e se perguntou se os médicos estariam transportando algum agente invisível em suas mãos, que ao entrar em contato com as pacientes, provocaria suas mortes. Para descobrir, ele pediu para que seus estudantes de medicina, lavassem as mãos em uma solução de cloro e, repentinamente, a porcentagem de morte entre as mães caiu para 1%. Com essa demonstração, Semmelweis percebeu que a febre puerperal tinha uma única causa e se você a eliminasse, a doença não ocorreria. Mas na sua época muitos médicos não conheciam a ligação entre microrganismos e doenças, até a chegada de Joseph Lister. Lister introduziu o uso de ácido carbólico para limpeza de feridas e esterilização de instrumentos cirúrgicos, o que levou à redução das infecções pós-operatórias e deu a ele a alcunha de pai da cirurgia moderna. Antes das descobertas de Lister, os cirurgiões costumavam deixar suas batas de cirurgia sujas, exibindo as manchas como uma demonstração de experiência. A partir de sua pesquisa, ele instruiu os cirurgiões a usar luvas limpas e lavar as mãos antes e depois de cada cirurgia. Hoje isso parece óbvio, mas esse conceito foi um dos mais revolucionários da história da medicina.

Karl Landsteiner (1868-1943)

No final do século XIX e início do século XX, as transfusões de sangue eram vistas com grande entusiasmo em toda a Europa. No começo, muitos médicos afirmavam que elas tinham maravilhosos efeitos terapêuticos, mas em alguns meses, a euforia foi substituída por relatos de pessoas que haviam morrido. Por que algumas transfusões de sangue funcionavam e outras não? Um médico austríaco chamado Karl Landsteiner estava determinado a encontrar a resposta. Ele misturou a amostra de sangue de vários indivíduos e estudou os efeitos. Em alguns casos, as amostras se misturavam com segurança. Mas em outras combinações, o sangue se aglutinava e se tornava pegajoso. Em uma análise mais rigorosa, Landsteiner descobriu que a aglutinação ocorria quando certas proteínas no sangue do receptor chamadas anticorpos se ligavam a outras proteínas das células vermelhas do doador denominadas antígenos. Landsteiner percebeu que o sangue humano não era igual em todas as pessoas e determinou que o sangue humano poderia ser dividido em quatro grupos distintos: A, B , AB e O. A transfusão de sangue só podia ser realizada com segurança quando as pessoas recebiam o sangue de alguém que pertencia ao mesmo grupo sanguíneo. O impacto da descoberta de Landsteiner foi imediato. Em poucos anos, as transfusões de sangue eram praticadas em todo o mundo, salvando inúmeras vidas. A partir de 1950, a tipificação sanguínea precisa ajudou a viabilizar os transplantes de órgãos. Hoje, somente nos Estados Unidos, uma transfusão de sangue ocorre a cada 3 segundos. Sem ela, calcula-se que 4 milhões de norte-americanos morreriam a cada ano.

Alexander Fleming (1881-1955)

Alexander Fleming descobriu a penicilina, cujo uso como antibiótico salvou incontáveis milhões de vidas. Em 1914, a Primeira Guerra Mundial estourou e Fleming, de 33 anos, ingressou no exército, tornando-se capitão do Royal Army Medical Corps, trabalhando em hospitais de campanha na França. Fleming voltou da Primeira Guerra Mundial com um sonho: pesquisar uma forma de reduzir o sofrimento dos soldados que tinham suas feridas infectadas, impondo dor e por tantas vezes um processo ainda mais acelerado em direção à morte. De volta ao seu laboratório em Londres, em 1928, dedicou se a estudar a bactéria Staphylococcus aureus. Estudou tão intensamente que, um dia, exausto, resolveu se dar de presente alguns dias de férias. Saiu, deixando os recipientes de vidro do laboratório, com as culturas da bactéria, sem supervisão. Esse desleixo fez com que, ao retornar, encontrasse um dos vidros sem tampa e com a cultura exposta e contaminada com o mofo da própria atmosfera. Estava prestes a jogar todo o material fora quando, ao olhar no interior do vidro, percebeu que onde tinha se formado bolor, não havia Staphylococcus em atividade. Concluiu que o mofo, oriundo do fungo Penicillium, agia secretando uma substância que destruía a bactéria. Ainda que por acaso, estava criado o primeiro antibiótico da história da humanidade: a penicilina. Com a descoberta de Alexander Fleming, abriam-se as portas de um novo mundo, com o surgimento de uma grande indústria que passou a se dedicar à produção de penicilina e outros antibióticos responsáveis pela possibilidade de vida com qualidade para pessoas que sofriam de tuberculose, pneumonia, meningite, sífilis, entre outras infecções.

George Hitchings (1905-1998)

Gertrude Elion (1918-1999)

O tratamento de doenças como leucemia, malária, gota e herpes evoluiu em virtude das valiosas contribuições de George Hitchings e Gertrude Elion, dois pesquisadores laureados com o Prêmio Nobel de Medicina em 1988. Ambos desenvolveram uma técnica que possibilitou interferir no crescimento das células por meio de drogas criadas com a ajuda de um método novo à época. Seus métodos de pesquisa inovadores marcaram um afastamento radical da abordagem de tentativa e erro adotada pelos farmacologistas anteriores. Elion e Hitchings examinaram claramente a diferença entre a bioquímica das células humanas normais e as das células cancerosas, bactérias, vírus e outros patógenos (agentes causadores de doenças). Eles então usaram essas informações para formular drogas que poderiam matar ou inibir a reprodução de um patógeno específico, deixando as células normais do hospedeiro humano intactas. Ao longo dos anos, a filosofia de pesquisa de Elion e Hitchings formou a base para o desenvolvimento de novos medicamentos contra uma variedade de doenças. Durante os anos 1950, eles desenvolveram tioguanina e 6-mercaptopurina contra leucemia e pirimetamina contra malária. A azatioprina (remédio que previne a rejeição de órgãos transplantados), o alopurinol (utilizado no tratamento da gota) e o aciclovir (primeiro medicamento eficaz no tratamento de infecções pelo vírus do herpes) foram desenvolvidos em 1957, 1963 e 1977, respectivamente.

Albert Sabin (1906-1993)

Jonas Salk (1914-1995)

No início da década de 1950, ocorriam 25.000 a 50.000 novos casos de pólio a cada ano. Jonas Salk tornou-se um herói nacional ao dissipar o medo da temida doença com sua vacina contra a poliomielite, aprovada em 1955. Ele recusou uma patente por seu trabalho, dizendo que a vacina pertencia ao povo e que patenteá-la seria como “patentear o Sol”. Embora fosse a primeira vacina contra a poliomielite, não seria a última. Albert Bruce Sabin introduziu uma vacina oral nos Estados Unidos na década de 1960 que substituiu a de Salk. O sucesso obtido por Salk dificultou que a vacina de Sabin fosse testada em larga escala nos Estados Unidos. Mas Sabin não desistiu e organizou, com pesquisadores soviéticos, testes com milhões de crianças no Leste Europeu. A vacina morta de Salk, administrada por injeção, é a vacina aprovada hoje nos Estados Unidos devido à sua maior segurança. A vacina oral de Sabin (a famosa “gotinha”) é administrada em muitas partes do mundo, principalmente em países subdesenvolvidos, devido à sua facilidade de administração. A poliomielite foi erradicada do mundo, exceto em partes do Afeganistão, Paquistão e Nigéria. Salk passou os últimos anos de sua vida empenhado em desenvolver uma vacina com o vírus morto para prevenir o desenvolvimento da AIDS em pessoas infectadas com o HIV. Sabin também desenvolveu vacinas contra outras doenças virais, incluindo encefalite e dengue, e investigou possíveis ligações entre vírus e algumas formas de câncer. Centenas de escolas, hospitais, clínicas e instituições brasileiras levam o seu nome.

Maurice Hilleman (1919-2005)

Hilleman produziu um número impressionante de descobertas fundamentais. Ele é o inventor de mais de 40 vacinas, incluindo aquelas que previnem o sarampo, caxumba, rubéola, Haemophilus influenzae tipo b, hepatite A, hepatite B e varicela. Os epidemiologistas costumam se referir às primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial como a era de ouro da vacinologia. Pode ser mais correto chamá-las de período de Hilleman. De acordo com uma estimativa, suas vacinas salvam quase 8 milhões de vidas por ano. Hilleman também descobriu o SV40 e os adenovírus, foi o primeiro a purificar o interferon e o primeiro a demonstrar que sua expressão é induzida por RNA de fita dupla – descobertas que lançaram vários ramos da biologia molecular e imunologia e deram início à busca por medicamentos antivirais. Ele também descobriu como o vírus da gripe pode se modificar, desenvolvendo uma vacina em 1957 que impediu o surto da gripe asiática e que poderia se tornar uma segunda edição da gripe espanhola de 1918 (que matou mais de 20 milhões de pessoas). Hilleman acreditava que o futuro das pandemias de gripe poderia ser previsto a partir de pandemias passadas. Depois do surto da gripe asiática, nas 3 décadas seguintes, ele produziu e testou mais de 20 vacinas. Nem todas funcionaram, mas ele chegou muito perto. Até os últimos dias de sua vida, ele não parou de tentar. Sua última pesquisa inacabada focava-se na cura do câncer, que o matou. Suas vacinas salvam vidas, mas Hilleman nunca ganhou o Nobel e morreu na triste constatação de que ninguém sabia quem ele era e o que havia feito.

Luc Montagnier (1932)

Robert Gallo (1937)

Françoise Barré-Sinoussi (1947)

As primeiras pistas sobre a AIDS surgiram no início do anos 80. Inúmeros pesquisadores relataram que um número crescente de pacientes estava morrendo de infecções raras e câncer. Amostras de sangue revelaram que os pacientes apresentavam níveis extremamente baixos de linfócitos T-CD4+, glóbulos brancos vitais para o sistema imunológico do corpo. Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur de Paris, e Robert Gallo do Instituto Nacional do Câncer em Washington, dividem o crédito pela pioneira descoberta que finalmente desvendou a causa da AIDS: o HIV, sigla em inglês para vírus da imunodeficiência humana. Na maioria dos casos, um vírus se liga a uma célula hospedeira e então libera sua formação genética dentro dela. Isso permite que o vírus assuma as funções normais da célula, redirecionando-as para produzir novas partículas de vírus. Essas partículas são então liberadas para atacar mais células. O HIV não é um vírus convencional. Ele pertence a uma categoria que os cientistas chamam de retrovírus. A informação genética de um retrovírus na forma de RNA se converte em DNA. Após uma infecção, o DNA é incorporado aos nossos genes e se torna parte de nós, deixando a pessoa infectada pelo resto da sua vida. A descoberta de que o HIV é um retrovírus e provoca a AIDS gerou avanços na luta contra a doença e além dela. Em geral, pensava-se que, como os vírus usurpavam nossas células para poder se reproduzir, seria quase impossível atingi-los sem envenenar uma pessoa. A AIDS abriu as portas para a pesquisa antiviral, tanto nas empresas farmacêuticas quanto nas universidades de todo o mundo e também gerou mudanças sociológicas positivas. É irônico pensar que uma doença tão terrível conseguiu unir tantas pessoas e nações diferentes no mundo todo.

John Michael Bishop (1936)

Harold Varmus (1939)

John Michael Bishop e Harold Varmus uniram forças para pesquisar o câncer pela primeira vez nos anos 70. Na época havia várias teorias dominantes sobre a causa da doença. Uma das teorias abordava o vírus do sarcoma de Rous, um vírus que causava câncer em galinhas. Quando o vírus atacava as células de uma galinha, ele inseria seu material genético no DNA do hospedeiro. Segundo a teoria, o DNA viral depois se tornava um agente causador de câncer. Uma segunda teoria sugeria que uma vez que o vírus do sarcoma de Rous inseria seu material genético na célula hospedeira, os genes que causavam o câncer não se ativavam sozinhos, mas permaneciam inativos até serem ativados por influências externas como substâncias químicas prejudiciais, radiação e até infecções virais. Esses genes que provocavam o câncer denominados oncogenes tornaram-se o foco da pesquisa de Bishop e Varmus. A dupla criou uma molécula radioativa que poderia ser usada como uma sonda para descobrir se o oncogene do vírus do sarcoma de Rous se parecia com o gene normal presente nos cromossomos de uma galinha. Bishop e Varmus descobriram que o gene causador de câncer já estava presente no DNA das células normais não infectadas das galinhas. O mais extraordinário foi que eles também descobriram esse gene no DNA humano, provando que as sementes do câncer talvez já estivessem dentro de nós no nível celular só esperando para serem ativadas. Essa descoberta se tornou a plataforma fundamental sobre qual quase todas as abordagens moleculares modernas do câncer são construídas. Ela ajudou a prever como o câncer irá se comportar e forneceu alvos para terapias realmente específicas que não tínhamos antes.

Leia mais artigos da série doze mentes brilhantes:

As doze mentes mais brilhantes da história da ciência

As doze mentes mais brilhantes da história da astronomia

As doze mentes mais brilhantes da história da física

As doze mentes mais brilhantes da história da matemática

As doze mentes mais brilhantes da história da biologia

As doze mentes mais brilhantes da história da química

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*Horace Wells, Crawford Long e William Morton compartilham a mesma posição e biografia na lista por dividirem historicamente o crédito pela descoberta da anestesia.

**Ignaz Semmelweis e Joseph Lister compartilham a mesma posição e biografia na lista por dividirem historicamente o crédito pela descoberta da contaminação por germes.

***Jonas Salk e Albert Sabin compartilham a mesma posição e biografia na lista por dividirem historicamente o crédito pela descoberta da vacina contra a poliomielite. 

****George Hitchings e Gertrude Elion compartilham a mesma posição e biografia na lista por dividirem historicamente o crédito pela descoberta de diversos medicamentos contra a leucemia, malária, gota e herpes. 

*****Luc Montagnier, Robert Gallo e Françoise Barré-Sinoussi compartilham a mesma posição e biografia na lista por dividirem historicamente o crédito pela descoberta do HIV.

******John Michael Bishop e Harold Varmus compartilham a mesma posição e biografia na lista por dividirem historicamente o crédito pela descoberta da base genética do câncer.

Morre James Randi, um dos maiores mágicos e céticos do século, aos 92 anos

O mágico, ilusionista e cético James Randi.

Faleceu ontem (20/10), aos 92 anos, o mágico, ilusionista e cético canadense James Randi, devido a problemas relacionados à idade. A notícia foi anunciada hoje (21/10) em uma nota da Fundação Educacional James Randi. Randi foi um dos principais defensores do ceticismo científico em relação a pseudociência e o sobrenatural.

Randall James Hamilton Zwinge nasceu em 7 de agosto de 1928 em Toronto, Canadá. Iniciou a carreira como mágico sob o nome de The Amazing Randi (O Incrível Randi) até se aposentar aos 60 anos. Dedicou parte de sua vida sendo um debunker (ou “desmistifcador”, apesar de não gostar do termo) de alegações paranormais e pseudocientíficas. Muitos desses eventos de debunking foram transmitidos ao vivo pela televisão.

Foi fundador da Fundação Educacional James Randi (JREF na sigla em inglês), voltada a educar o público e a mídia sobre os perigos de aceitar alegações sem fundamento em evidências e apoiar a pesquisa de alegações paranormais. Patrocinou o Desafio Sobrenatural De Um Milhão de Dólares, que oferecia o prêmio de US$1 milhão aos candidatos que demonstrassem evidências de qualquer atividade paranormal, forças ocultistas ou sobrenaturais (ou “woo-woo”, como Randi chamava), em um evento com condições de testes em acordo de ambas as partes. Até hoje, o prêmio não foi dado a ninguém.

Também foi cofundador do Comitê para a Investigação Cética (CSI, da sigla em inglês para Committee for Skeptical Inquiry) e escreveu sobre paranormalidade, ceticismo e história da mágica. Ele era um convidado frequente nos programas norte-americanos The Tonight Show Starring Johnny Carson e da famosa dupla de céticos Penn & Teller: Bullshit!, que também se inspiravam em Randi.

Randi deixa o marido Deyvi Orangel Peña Arteaga, com quem vivia desde 2013.

Nossos sentimentos a família e amigos.

Colaboração de Julio Batista.

NASA pousa com sucesso em um asteroide que tem uma pequena chance de colidir com a Terra

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A missão OSIRIS-REx da NASA se preparando para tocar na superfície do asteroide Bennu. Créditos: NASA / Goddard / Universidade do Arizona.

Por Morgan McFall-Johnsen
Publicado no Business Insider

A NASA acaba de pousar uma espaçonave em um asteroide e, se tudo correr como planejado, coletará uma amostra de poeira e rocha da superfície.

A 320 milhões de quilômetros de distância, a NASA e o membro da equipe de engenharia, Lockheed Martin, instruíram a espaçonave a pousar na superfície de uma rocha espacial chamada Bennu.

Em apenas 5 a 10 segundos, a sonda deve ter conseguido coletar amostras da superfície do asteroide. A sonda está programada para trazer esses pedaços de Bennu de volta à Terra daqui a três anos.

OSIRIS-REx, como a espaçonave é conhecida (abreviação de Origins, Spectral Interpretation, Resource Identification, Security-Regolith Explorer), concluiu esta operação “vai e volta” na noite de terça-feira.

A espaçonave enviou de volta a confirmação de que havia pousado na superfície de Bennu. Quando o sinal alcançou a Terra às 19h11 (horário de Brasília), cerca de 18 minutos após do pouso de fato, o Controle da Missão comemorou com gritos e aplausos.

“É algo transcendental. Não posso acreditar que realmente conseguimos isso”, disse Dante Lauretta, principal investigador da missão, durante a transmissão ao vivo da NASA sobre a operação. “A espaçonave fez tudo o que deveria ter feito”.

Levará alguns dias para determinar se a sonda coletou rocha suficiente. O objetivo era obter pelo menos uma amostra de 60 gramas, o que equivale em massa a um pequeno saco de batatas fritas.

OSIRIS-REx está orbitando Bennu desde dezembro de 2018, fazendo a varredura do asteroide e coletando o máximo de dados possível. Ele deve decolar de volta em março de 2021, com as amostras, e chegar à Terra em 24 de setembro de 2023.

A pesquisa da missão pode ser crucial nos próximos 100 anos, já que o caminho de Bennu o coloca em risco de colidir com a Terra.

“Bennu é um dos asteroides mais potencialmente perigosos, com uma chance não desprezível de impactar a Terra em algum ponto do século 22”, disse Lauretta em setembro.

“Parte de nossa investigação científica trata de compreender sua trajetória orbital, refinar a probabilidade de impacto e documentar suas propriedades físicas e químicas para que as gerações futuras possam desenvolver uma missão de mitigação de impacto, caso seja necessário”.

A comemoração do Controle da Missão com o pouso. Crédito: NASA.

Existem outras razões importantes para estudar Bennu: à medida que novas missões almejar estudar o espaço, elas precisarão fazer paradas para minerar asteroides em busca de recursos como água, que pode ser dividida em oxigênio e hidrogênio e servem de combustível para foguetes. Os dados que a NASA está coletando de Bennu podem servir de base para futuras tentativas de mineração de asteroides.

OSIRIS-REx também é, em certo sentido, uma missão de busca das nossas origens. Asteroides são pedaços de rocha antiga formados desde o início do Sistema Solar, por volta de 4,5 bilhões de anos atrás. O material restante que fez os planetas rochosos – Mercúrio, Vênus, Terra e Marte – coalesceram ao longo do tempo em asteroides, sendo amplamente preservado em sua forma original.

Um mosaico giratório de Bennu capturado pelo OSIRIS-REx em 2018. Créditos: NASA / Goddard / Universidade do Arizona.

Algumas teorias postulam que os asteroides entregaram ingredientes essenciais para a vida na Terra antiga. Em Bennu, os cientistas podem encontrar sinais desses ingredientes, talvez dando pistas sobre como a vida surgiu na Terra – e, possivelmente, em Marte ou Vênus também.

Se for bem-sucedida, esta missão será uma das primeiras a retornar amostras de rocha primordial. A espaçonave japonesa Hayabusa-2 também deve trazer amostras de asteroides em dezembro.

“Tudo se resume a compreender nossas origens, abordando algumas das questões mais fundamentais que nós fazemos como seres humanos: de onde viemos? E estamos sozinhos no Universo?”, disse Lauretta.

A nave espacial da NASA desceu 1 km para levantar a poeira do asteroide

Os primeiros dados do OSIRIS-REx revelaram um problema para a missão: Bennu é muito mais rochoso do que a NASA pensava. Aterrissar em um campo de pedras coloca uma espaçonave em risco de tombar e encalhar.

Para pousar no melhor terreno possível do asteroide, a equipe da missão OSIRIS-REx escolheu um local de pouso que é muito menor do que o planejado originalmente. Sua margem de manobra é de apenas 8 metros, enquanto o plano inicial previa que tivesse 50 metros.

Isso significa que a espaçonave, que tem aproximadamente o tamanho de uma van de 15 passageiros, teve que mirar em uma área aproximadamente igual a seis vagas de estacionamento no asteroide em rotação rápida.

O local de pouso é uma área relativamente lisa chamada Nightingale, que é coberta por uma poeira rochosa fina chamada regolito. Este é o material que OSIRIS-REx tentou recolher na terça-feira.

A espaçonave desceu lentamente cerca de 1 quilômetro, manobrando além de uma pedra do tamanho de um prédio de dois andares que os controladores da missão batizaram de “Monte Doom”. O OSIRIS-REx ensaiou esta descida duas vezes, praticando “basicamente tudo, exceto os dois minutos finais”, disse Mike Moreau, gerente de projeto.

A sequência é a seguinte: os propulsores da espaçonave disparam, empurrando-a para fora de sua órbita com um quilômetro de altura acima de Bennu. Em seguida, a sonda lança seu braço de coleta de amostras e aponta sua câmera de navegação para a superfície do asteroide. Cerca de 3 horas e meia depois – e cerca de 125 metros acima da superfície – a espaçonave dispara seus propulsores novamente para ir em direção ao local de pouso. Depois de outros 10 minutos e mais 79 metros de descida, a espaçonave liga seus propulsores para manobrar até um ponto de pouso preciso.

Toda a operação parece ter ocorrido de acordo com esse plano.

Se os instrumentos da espaçonave tivessem detectado rochas perigosas em seu ponto de aterrissagem, a sonda teria iniciado um recuo a apenas 5 metros acima da superfície.

Mas a espaçonave parece ter alcançado a superfície de Bennu com o braço de coleta de amostras esticado para baixo. Por meio desse braço – se a coleta ocorresse de acordo com o planejado – a espaçonave disparou gás nitrogênio de um recipiente, causando um impacto no regolito abaixo dela. Nessa perturbação, algum material deveria ter ficado preso na ferramenta de coleta na ponta do braço.

Pouco depois da aterrissagem, o OSIRIS-REx disparou seus propulsores para se afastar de Bennu.

A NASA vai decidir se vai guardar a amostra ou tentar novamente

Assim que a espaçonave estiver de volta à órbita de Bennu, levará alguns dias para que os controladores da missão da NASA analisem a amostra de regolito coletada. Se houver rocha e poeira suficientes, os líderes da missão irão comandar a espaçonave para armazenar a amostra em uma cápsula para seu retorno à Terra.

Mas se a espaçonave tiver menos de 60 gramas de regolito, ela tentará novamente em janeiro, visando coletar uma cópia de segurança em uma parte diferente do asteroide.

“De longe, o resultado mais provável que teremos em 20 de outubro é que entraremos em contato com a superfície e sairemos com uma grande amostra que excede nossos requisitos mínimos”, disse Moreau em setembro.

“Mas Bennu nos lançou uma série de obstáculos”.

OSIRIS-REx está carregando três recipientes de nitrogênio para levantar a poeira, permitindo três tentativas de pouso até a superfície de Bennu, e coletar uma amostra adequada.

A amostra do Bennu deve chegar à Terra em 2023

Quando o OSIRIS-REx retornar à Terra em 2023, ele deverá disparar a cápsula contendo as amostras para a atmosfera terrestre. As amostras devem cair de páraquedas no deserto de Utah para a NASA coletar.

“Provavelmente, o Natal vai ser antes da hora – em setembro”, disse Lauretta. “O melhor presente de Natal que já ganhei, essas amostras imaculadas do asteroide Bennu com as quais tenho sonhado – literalmente sonhado – há quase 20 anos da minha vida”.

Os cientistas começarão a analisar a amostra, mas a NASA preservará parte do regolito para estudos futuros.

“Essas amostras retiradas de Bennu também permitirão que futuros cientistas planetários façam perguntas que nem sequer podemos pensar hoje”, disse Lori Glaze, diretora da Divisão de Ciência Planetária da NASA, “e sejam capazes de usar técnicas de análise que nem mesmo foram inventadas ainda”.

Cientistas descobrem novo órgão na garganta

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Crédito: Instituto do Câncer da Holanda.

Por Stephanie Pappas
Publicado na Live Science

Cientistas descobriram um novo órgão: um conjunto de glândulas salivares localizadas na parte superior da garganta.

Acreditava-se que essa região da nasofaringe – atrás do nariz – hospedasse apenas glândulas salivares microscópicas difusas; mas o conjunto recém-descoberto tem cerca de 3,9 centímetros de comprimento, em média. Por causa de sua localização acima de um pedaço de cartilagem chamado toro tubário, os descobridores dessas novas glândulas as apelidaram de glândulas salivares tubárias. As glândulas provavelmente lubrificam e umedecem a parte superior da garganta atrás do nariz e da boca, escreveram os pesquisadores na revista Radiotherapy and Oncology.

A descoberta foi acidental. Pesquisadores do Instituto do Câncer da Holanda estavam usando uma combinação de tomografia computadorizada e tomografia por emissão de pósitrons (TEP) chamada TEP-TC PSMA (ou PET/CT PSMA) para estudar o câncer de próstata. Na varredura TEP-TC PSMA, os médicos injetam um “marcador” radioativo no paciente. Este marcador liga-se bem à proteína PSMA (do inglês: antígeno de membrana específico da próstata), que é produzida em massa nas células do câncer de próstata. Os ensaios clínicos descobriram que a varredura de TEP-TC PSMA é melhor do que a imagem convencional na detecção do câncer de próstata metastizado.

A varredura com TEP-TC PSMA também é muito boa na detecção de tecido da glândula salivar, que também é rico em PSMA. Até agora, havia três grandes glândulas salivares conhecidas em humanos: uma embaixo da língua, uma embaixo da mandíbula e uma na parte de trás da mandíbula, atrás da bochecha. Além disso, talvez mil glândulas salivares microscópicas estejam espalhadas por todo o tecido da mucosa da garganta e da boca, disse em um comunicado o coautor do estudo e oncologista do Instituto do Câncer da Holanda, Wouter Vogel.

“Então, imagine nossa surpresa quando as encontramos”, disse Vogel.

Para confirmar a descoberta, Vogel e seus colegas coletaram imagens de 100 pacientes (99 deles homens devido ao foco no câncer de próstata) e descobriram que todos eles tinham as glândulas recém-descobertas. Eles também dissecaram aquela região da nasofaringe de dois cadáveres de um programa de doação de corpos humanos e descobriram que a região recém-descoberta consistia em um tecido da glândula mucosa e dutos que drenavam para a nasofaringe.

A descoberta pode ser importante para o tratamento do câncer. Os médicos que usam radiação na cabeça e pescoço para tratar o câncer tentam evitar a irradiação das glândulas salivares, disse Vogel, porque danos a essas glândulas podem afetar a qualidade de vida.

“Os pacientes podem ter problemas para comer, engolir ou falar, o que pode ser um verdadeiro problema”, disse ele.

Mas, como ninguém sabia sobre as glândulas salivares tubárias, ninguém tentou evitar a radiação naquela região. Os pesquisadores examinaram registros de mais de 700 pacientes com câncer tratados no Centro Médico Universitário de Groninga e descobriram que quanto mais radiação os pacientes recebiam na área das glândulas desconhecidas, mais efeitos colaterais relatavam em seu tratamento. A nova descoberta poderia, portanto, traduzir-se em menos efeitos colaterais para pacientes com câncer.

“Nosso próximo passo é descobrir qual seria a melhor forma de poupar essas novas glândulas e em quais pacientes”, disse Vogel. “Se pudermos fazer isso, os pacientes podem sentir menos efeitos colaterais, o que beneficiará sua qualidade de vida geral após o tratamento”.