O que os bilionários querem: a influência secreta das 100 pessoas mais ricas nos EUA

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Benjamin Page, professor de Ciência Política
na Northwestern University (EUA)

Jason Seawright, professor de Ciência Política
na Northwestern University (EUA)

Matthew Lacombe, professor de Ciência Política
no Barnard College da Columbia University (EUA)

Publicado originalmente pelos autores no The Guardian

Se julgarmos os bilionários norte-americanos pelos seus pares mais famosos, eles podem parecer um grupo bastante atraente: um grupo ideologicamente diverso (talvez até tendendo à centro-esquerda), franco em falar sobre suas opiniões políticas e composto por generosos filantropos que ajudam com o bem comum – para não mencionar os bens e empregos que ajudaram a produzir.

Os titãs mais importantes – Warren Buffett, Jeff Bezos e Bill Gates – assumiram posições de centro-esquerda em várias questões, e Buffett e Gates são modelos de filantropia. O ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, é conhecido por defender o controle de armas, os direitos dos gays e a proteção ambiental. George Soros (protetor dos direitos humanos em todo o mundo) e Tom Steyer (focado em jovens e questões ambientais) foram grandes doadores para os democratas. Nos últimos anos, jornalistas investigativos também chamaram a atenção do público Charles e David Koch, mega doadores para causas ultra-conservadoras. Mas, dada a grande proeminência de vários bilionários de centro-esquerda, isso [as matérias sobre os bilionários conservadores] pode parecer apenas um acerto da balança, preenchendo uma imagem de uma espécie de um pluralismo Madisoniano [1] entre os bilionários.

Infelizmente, esta imagem é enganosa. Nosso novo estudo sistemático dos 100 americanos mais ricos indica que Buffett, Gates, Bloomberg et al não são de todo típicos. A maioria dos bilionários americanos mais ricos – que são muito menos visíveis e menos relatados – se assemelha mais a Charles Koch. Eles são extremamente conservadores em questões econômicas: obcecados em cortar impostos, especialmente impostos sobre propriedades – que se aplicam apenas aos americanos mais ricos; opostos à regulamentação governamental do meio ambiente ou dos grandes bancos; desinteressados nos programas governamentais para ajudar com empregos, renda, assistência médica ou aposentadorias – programas apoiados pela grande maioria dos americanos; tentados a cortar déficits e encolher o governo cortando ou privatizando benefícios garantidos da seguridade social.

Como isso pode ser assim? Se isso é verdade, por que os eleitores não estão cientes e zangados com isso?

A resposta é simples: bilionários que favorecem políticas econômicas impopulares e ultraconservadoras e trabalham ativamente para promovê-las (ou seja, a maioria dos bilionários politicamente ativos) permanecem quase inteiramente calados sobre essas questões em público. Esta é uma escolha deliberada. Os bilionários têm bastante acesso à mídia, mas a maioria deles escolhe não dizer nada sobre as questões políticas do dia. Eles deliberadamente seguem uma estratégia do que chamamos de “política furtiva” [stealth politics, em inglês].

Chegamos a essa conclusão com base em um estudo exaustivo, baseado em web-scraping, de tudo o que os 100 bilionários mais ricos dos EUA disseram ou fizeram, durante um período de 10 anos, sobre várias questões importantes de políticas públicas. Para cada bilionário, usamos várias dezenas de palavras-chave cuidadosamente selecionadas para encontrar todas as informações publicamente disponíveis sobre suas conversas ou ações específicas relacionadas a qualquer aspecto da previdência social, qualquer tipo de tributação ou qualquer coisa relacionada ao aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo ou política de imigração.

Considere, por exemplo, a seguridade social, o maior e mais popular programa doméstico dos Estados Unidos. A seguridade social tem sido objeto de debates espirituosos há décadas. A seguridade social está indo à “falência”? (Não). Seus benefícios devem ser ampliados, para manter a renda de todos os aposentados bem acima da linha de pobreza? Ou – como defendido pelo bilionário Pete Peterson (co-fundador da empresa de private equity Blackstone) e seus aliados ricos que temem que altos gastos e déficits do governo corroam os valores dos títulos – os benefícios garantidos devem ser cortados, talvez por ajustes menos generosos relativos aos custos de vida ou mesmo encerrados inteiramente, deixando aposentados com contas privadas sujeitas a flutuações do mercado de ações?

A maioria dos bilionários norte-americanos mais ricos fez contribuições financeiras substanciais – no valor de centenas de milhares de dólares reportados anualmente, além de contribuições não reveladas de “dinheiro escuro” – a candidatos e funcionários republicanos conservadores que preferem os cortes muito impopulares em vez de expandir benefícios previdenciários. No entanto, durante o período de 10 anos que estudamos, 97% dos bilionários mais ricos não disseram nada sobre política de seguridade social. Nada sobre os níveis de benefícios, ajustes no custo de vida ou privatização. (Também nada sobre a popular ideia de aumentar as finanças da seguridade social, removendo o baixo “limite” de renda sujeito a impostos sobre a folha de pagamento e aumentando a renda dos ricos). Como os eleitores podem saber que a maioria dos bilionários está trabalhando para reduzir seus benefícios da previdência social?

De fato, as pessoas que prestam mais atenção à mídia podem ser as mais enganadas, porque a maioria dos poucos bilionários que se manifestaram sobre previdência social – como Buffett e Soros – apoiaram um generoso sistema de previdência social em entrevistas na televisão e artigos de jornal.

Ou considere o imposto sobre heranças [2]. Nosso estudo descreveu as atividades silenciosas de 12 dos bilionários mais ricos – incluindo os Kochs e (talvez sem surpresa) vários herdeiros ricos das fortunas de Walton e Mars – com o objetivo específico de cortar ou abolir o imposto sobre imóveis. Eles deram dinheiro a organizações orientadas a políticas públicas que procuravam abolir o imposto, ou fundaram essas organizações, e participaram em seus conselhos. Nenhum bilionário realizou essa atividade para apoiar esse imposto.

No entanto, também aqui os cidadãos podem ser seriamente enganados pelo que um punhado de bilionários famosos disse em público. Entre os que se manifestaram, mais da metade apoiou o imposto imobiliário. Isso inclui nossos suspeitos de sempre – Gates, Buffett e Bloomberg – que são muito atípicos dos bilionários dos EUA como um todo.

Nossas descobertas ajudam a esclarecer como a rede política construída pelos irmãos Koch poderia ter se tornado tão poderosa. Os Kochs têm um campo fértil de bilionários conservadores menos conhecidos para cultivar centenas de milhões de dólares em contribuições secretas e não relatadas. O empreendedorismo e as habilidades organizacionais dos Kochs, juntamente com as contribuições furtivas desses bilionários pouco conhecidos, produziram um grande empecilho político.

Tanto como indivíduos quanto como contribuintes dos consórcios do tipo Koch, a maioria dos bilionários norte-americanos doou grandes quantias em dinheiro – e muitos se envolveram em atividades intensas – para promover políticas econômicas impopulares, exacerbadoras e altamente conservadoras. Mas eles fizeram isso muito discretamente, dizendo pouco ou nada em público sobre o que estão fazendo ou por quê. Eles evitaram a responsabilidade política. Acreditamos que esse tipo de política furtiva é prejudicial à democracia.

Referência do livro: PAGE, Benjamin I.; SEAWRIGHT, Jason; LACOMBE, Matthew J. Billionaires and Stealth Politics. 1a ed. Chicago; London: University of Chicago Press, 2018.

[1] pluralismo madisoniano: referência a James Madison, filósofo político e 4º presidente dos EUA (1809-1817). Madison defendia que o sistema político-democrático deveria ser plural, abrangendo várias tendências políticas e demandas da sociedade, em contraposição a um sistema dominado por apenas uma facção política.

[2] em inglês estate taxes: imposto sobre heranças monetárias ou em forma de propriedades

10 argumentos que você não deve usar em uma discussão sobre misticismo quântico

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Por Thiago M. Guimarães
Publicado na Simetria de Gauge

Se você estiver em uma discussão sobre misticismo quântico, possivelmente nas redes sociais, utilize esse texto para que você não perca seu precioso tempo tentando discutir com os mesmo argumentos de sempre. Mãos a obra:

10 [+ 1] argumentos que você não deve usar ao discutir assuntos sem evidências científicas com físicos:

1. Apelo à autoridade

Um dos argumentos mais utilizados é uma falácia clássica do apelo à autoridade.

“Amit Goswami é (SIC) físico de Havard” 

 “Fulano de Tal, diretor do departamento de física de Cambridge, acredita no Capra” 

“Laércio Fonseca tem mestrado na UNICAMP” 

 “O renomado físico do departamento de mecânica quântica de Skirym faz meditação transcendental”

 “Walter White tomou homeopatia contra o câncer”, 

 “Einstein disse…”, “Heisenberg falou…”, “Homer Simpson provou…”

….clap, clap.

Se você está discutindo com um físico/estudante/ser humano normal e você pensa em usar um argumento parecido, semelhante ou que lembre alguma dessas frases acima, nem perca seu tempo. O fato de qualquer pessoa acreditar, ter falado ou “achar” algo não significa absolutamente NADA, não importando o quão graduada seja essa pessoa, pois existe um abismo entre opinião pessoal e uma evidência científica. A opinião não significa nada além de uma interpretação baseada unicamente nas experiências de vida e preconceitos de uma pessoa, não necessariamente passando por qualquer analise critica, o que é bem diferente de uma evidência científica. Então não adianta colar frases de Einstein ou dizer que fulano acredita nisso, se não existem evidências a respeito à opinião pessoal de Einstein é tão relevante quanto à do seu padeiro.

Ah, pra falar a verdade seria legal se você não usasse esse argumento nunca, não importa com quem ou o que você discuta, pois sem dúvida essa é uma das falácias mais babacas que existem.

2. A ciência provou

Ahhh… esse é desesperador, quando eu leio isso tenho vontade de jogar meu computador pela janela. Antes de dizer a “ciência provou”, que por si só já não é epistemologicamente muito correto, você deve saber quais foram os cientistas envolvidos nessa “prova”, onde o trabalho foi publicado, quantas vezes ele foi citado, etc. Sair dizendo que a “ciência provou” algo é simplesmente um argumento estúpido e vazio. Sem você mostrar como isso foi “provado” é impossível discutir sobre o assunto, então, por favor, encontre as publicações que “provem” o que você está dizendo, mas não vá pegar elas em livros como “Alma Quântica”, “Xacra Quântico”, “Saúde Quântica da Madame Satan” e muito menos em documentários. Documentários são simplesmente a mais baixa categoria informativa sobre descobertas científicas¹. Então encontre publicações científicas de verdade, se você não sabe como fazer isso é só assinar os feeds desse blog que em breve vou escrever um texto sobre como pesquisar por artigos.

3. Apelo à ignorância

“Universo é muito complexo, nossa ciência é muito primitiva, portanto, tudo é possível e não sabemos nada”.

Novamente essa é uma falácia muito usada para defender qualquer tipo de crença. Acho que sempre que posto algo relacionado à Mecânica Quântica esse é o ponto que mais marcam em cima. Mas serei razoável, pois realmente a mídia adora destacar que sabemos pouco do universo e que por isso tudo é possível.

a) O fato de não sabermos nada sobre um assunto não é prova de que você está certo, é no máximo um motivo para não descartarmos o que você está alegando.

b) Antes de você afirmar que não sabemos nada, pare um pouco e reflita. O que você sabe sobre a forma que a ciência agrega conhecimento, como ela lida e aplica e ele? Olhe para esse monte de tecnologia a sua volta, o que possibilitou isso tudo? Para construir essas tecnologias nos precisamos entender “corretamente” como o universo funciona? Para mandar corretamente nossas sondas para Marte, nossas teorias sobre gravitação têm que estar corretas? Para fazer seu iPhone, notebook, as leis da quântica que descobrimos podem estar erradas?

Eu, particularmente, não gosto de atrelar a tecnologia como justificativa para a ciência, mas acredito que, no momento, esse exemplo seja o mais palpável. Para termos toda essa tecnologia precisamos que nossa ciência esteja, mesmo com boa aproximação, correta. Nós compreendemos bem muitas leis do nosso universo, muitas forças, muitas interações, muitas partículas. Você pode ver isso facilmente, nós prevemos eclipses, máximos solares, prevemos a existência de planetas e depois descobrimos de fato, conseguimos mandar sondas para os mais diversos lugares e com grande precisão. Conseguimos fazer tratamentos médicos baseados na física moderna e mais uma infinidade de coisas que não seriam possíveis se nossas teorias estivessem erradas ou se nós não soubéssemos nada sobre o universo. São as mesmas teorias que nos permitem levar alta tecnologia a casa de vocês que também nos permitem, por exemplo, estudar assuntos mais abstratos como o bóson de Higgs, teoria do Big Bang, matéria escura. Felizmente existem muitos e muitos mistérios no universo a serem descoberto ainda, mas nós estamos trabalhando nisso e sabemos como prosseguir, não somos um bando de macacos em um laboratório fazendo coisas aleatórias para saber seus resultados.

Por favor, não use nossa ignorância para tentar corroborar assuntos que nem sequer a ciência trata. Nossa ignorância existe e é muito grande, porém existem muitas coisas que sabemos e são justamente essas coisas que sabemos que nos permite, com prudência, descartar hipóteses absurdas.

4. Humanização da ciência

Essa é até um pouco nova para mim, mas me deparei com um argumento desse tipo há pouco tempo aqui no blog.

“Considerar temas como “a mente colapsa a função de onda” são importantes porque humanizam a ciência e assim a gente não vai sair por aí jogando bombas nas cabeças uns dos outros.”

Ok, para mim não faz sentido, mas se pensa em usar alguma coisa nessa linha argumentativa mude de ideia. A ciência por si só já é uma coisa humana e ela não vai deixar de ser menos humana por não aceitar hipóteses sem evidência alguma. O mau uso da ciência em nada tem a ver com a forma que procedemos em aceitar alguma hipótese, têm a ver com ética profissional tanto de cientista, engenheiros, políticos, etc.

Eu enquadraria facilmente esse tipo de argumento em uma falácia non sequitur, pois não faz sentido associar o mau uso da ciência com uma suposta “não humanização” da mesma que nem ao menos existe. Afirmar uma desumanização da ciência é não ter conhecimento algum sobre como ela funciona, dê uma lida nesse breve texto:  A Ciência Exata é Social.

5. Nós não conhecemos nada da mecânica quântica e ela permite tudo

Esse argumento é muito semelhante ao terceiro, mas ele tem um adicional. Geralmente as pessoas acham que a física quântica é naturalmente sem leis, ou que apenas a estatística a rege. Os argumentos mais comuns nessa linha de pensamento são:

“Ninguém compreende a mecânica quântica de verdade, pois as leis são muito bizarras”

“Feynman falou que se você acha que entendeu mecânica quântica é porque você não entendeu nada”

“A mecânica quântica é uma terra sem lei.”

“A mecânica quântica dá margem a tudo”

Esses argumentos não procedem, e o segundo ainda vem com um adicional de apelo a autoridade. A mecânica quântica é uma teoria muito bonita que não funciona pra tudo, tem leis bem definidas que nós conhecemos muito bem, mas claro que existem alguns paradoxos ou efeitos que não conseguimos ainda explicar com perfeição, como o emaranhamento quântico, por exemplo. Em alguns casos nós até conhecemos bem as leis e sabemos como trabalhar com elas, mas não entendemos direito o porquê delas existirem exatamente.  Ainda sim nada disso dá margem a interpretações místicas ou embasa afirmações de que a Mecânica Quântica é incompreendida, ou que tudo pode acontece.

A quântica menos ainda dá margem a “tudo”, na verdade ela até restringe algumas coisas bem mais do que a física clássica. Quantizar significa atribuir valores discretos a algo, e por valores discretos compreenda como “não contínuos”. Assim se na mecânica clássica uma partícula pode ter momento angular (a,b,c,d), quanticamente pode ser que a partícula só possa ter momento (a,b), por exemplo. De forma mais palpável, imagine que a física clássica seja nossas leis de trânsito², por lei você sabe que em determinados lugares você deve atravessar sobre a faixa de pedestre apenas. Uma versão quântica das nossas leis de trânsito poderia dizer que você só pode atravessar na faixa de pedestre e pisando apenas sobre as faixas brancas. Dessa forma a nossa “lei quântica de transito” restringiu ainda mais as possibilidades de atravessar a rua, agora além de ser apenas na faixa de pedestre você só pode pisar na faixa branca. Da mesma forma acontece na quântica, muitas vezes ela é mais limitante do que a própria mecânica clássica.

6. Opinião pessoal

Muitas vezes quando estamos discutindo com alguém sempre caímos em um impasse legal, de um lado nós defendendo um ponto de vista que é um consenso na ciência e do outro a pessoa defendendo o que ela acha que é verdade. Aí surgem os argumentos:

“Ah, mas essa é a minha opinião”

Serei categórico e mal educado: Foda-se sua opinião! Se você não sabe nada de física, nada de ciência e quer discutir um assunto tão complexo quanto esse, a sua opinião simplesmente não tem peso algum. Se você se matou de estudar mecânica quântica e descobriu que o pensamento cura quanticamente as pessoas, então pare de perder seu tempo com discussões, escreva um paper e o submeta a uma revista científica que possua revisão por pares, que tenha um bom fator de impacto, espere ser citado muitas vezes e que comprovem ou refutem o que você está alegando.

7. Tipo diferente de ciência

Esse é ótimo e vem em várias versões. Tem a versão:

“Colchão quântico é uma ciência nova desconhecida”

E também a famosa:

“Ah, crochê quântico é um tipo de ciência milenar chinesa/indiana que nasceu no Tibet” (que?)

É até complicado tentar começar a falar sobre isso, pois é muito absurdo. Tipo, os caras pegam todo nosso jargão científico, falam de experimentos que fizemos, misturam isso em uma salada com misticismo oriental e vem falar que é outro tipo de ciência. Gostaria muito de saber que tipo de ciência é essa que não produz nada além de livros de auto-ajuda e quinquilharias quânticas que você pode comprar por um preço absurdo no Ebay.

Resumindo, um tipo misterioso de ciência oriental que não segue os mesmo métodos da ciência ocidental se apossa dos nossos jargões, aplicam em outro contexto que não tem relação nenhuma e a coisa ainda está certa?! É tipo como recortar a peça de outro cabeça para fazer ela se encaixar no seu?! Vou aproveitar para inventar um tipo diferente de misticismo que considera isso tudo um embuste!

8. A Ciência não é dona da quântica nem da ciência

Esse me faz chorar de rir:

“A Ciência não é dona da quântica”

“A Ciência não é dona da Ciência”

Que? Como assim? Alguém poderia explicar isso direito? A ciência constrói a teoria quântica e ela não é “autoridade” no assunto? Se um grupo de cientistas provarem algo e um monge lá do Tibet baseado em sua filosofia de vida disser que está errado, ou se o grande mestre Samael Aun Weor, em seu veículo astral, for até o Sol e os habitantes de lá disserem a ele que os cientistas estão errados então nós teremos que levar isso em consideração? é isso?

Esse argumento é altamente estúpido, pense bem antes de usar ele.

9. Argumento da paralisia mental filosófica

Esse é péssimo por inúmeros motivos. O principal deles é que uma conversa com uma pessoa que usa esse tipo de argumento simplesmente não chega a lugar nenhum. Pois não importa o que você diga, essa pessoa nunca vai mudar de ideia e você sempre será o cartesiano positivista da história. Então argumentos do tipo:

“Ah, mas a dialética….”, “Filosoficamente tudo pode existir”, “defina definir”, “Você está com um pensamento muito atomista”

Aqui a minha dica vai para o físico/estudante que está na discussão; não perca seu tempo, vá estudar que você ganha mais.

10. A evidência anedótica e o placebo

Um clássico que deve ter nascido com a humanidade. Em um belo momento da discussão a pessoa resolve usar ela própria como prova:

“porque eu senti, então existe”

“porque uma vez um ET quântico massageou minhas costas”

“Porque a cura quântica me curou”

Esses argumentos são clichês a máxima potência e não podem simplesmente ser levados em consideração, pois a forma que interpretamos experiências pessoais está diretamente relacionada há muitos fatores que ponderamos com extrema dificuldade. Duas pessoas que passam pelas mesmas experiências de vida nunca possuem exatamente os mesmo pontos de vistas e interpretações. Outro problema são os diversos efeitos que nosso psicológico causa na nossa percepção de mundo, mais intrigante ainda são efeitos que podem acometer até grupos inteiros de pessoas, como a histeria coletiva. Por si só, esses efeitos psicológicos e sociopsicológicos já são suficientes para enfraquecer esse tipo de argumento, fazendo que ele  caia no problema do ponto do vista que já falamos. Nem vou tocar no ponto de que você pode ter algum tipo de esquizofrenia ou outro transtorno social/neurológico que dificulta um julgamento mais conciso e lúcido de suas experiências.

Se você foi curado ou não pela cura quântica, vodu relativístico ou qualquer outra dessas coisas, simplesmente é impossível dizer, pois não podemos distinguir se foi efeito placebo ou não. A forma mais segura de verificar se realmente a cura quântica funciona é fazendo testes sérios com vários grupos, comparando placebos controles, etc. Então não adianta você falar o quão maravilhosa é a cura quântica, o ativismo quântico, ou qualquer coisa assim baseado apenas em sua vida, portanto não use esse argumento.

11. Comparação com teorias físicas ou…. “É só uma teoria”

De brinde, você ganha essa assustadora falácia. Ela funciona mais ou menos assim:

“A teoria do Big Bang também era absurdo”

“A mecânica quântica parecia pseudociência”

Esse tipo de argumento geralmente me faz encerrar a conversa na hora, pois demonstra o total desconhecimento da pessoa de como a ciência é feita. Todas essas teorias vieram de bases solidas e de interpretações científicas e matemáticas de outras teorias bem sucedidas que já tínhamos, não foi algo tirado do chapéu ou misturado com misticismo oriental. Esse argumento é bullshit total, evite isso!


Podemos resumir tudo que foi dito acima com “aprenda a discutir e a julgar racionalmente as informações, evitando ao extremo usar suas paixões”. Obviamente, esse assunto deve ser discutido, mas de forma séria e responsável, ou seja, sempre respaldando nossas afirmações com base em estudos científicos e revisões sistemáticas.

Notas

1. Documentários quase sempre cumprem função de divulgação científica, o que é bem diferente da função de um periódico. Então, note essa leve diferença no que falei.
2. É, acho que acabei de criar a legislação quântica de trânsito, se alguma editora tiver interesse podemos publicar algum livro de autoajuda, ensinando as pessoas a serem felizes quando estão dirigindo, usando as leis quânticas de trânsito.

Em defesa da cientificidade das ciências sociais

Por Sergio Morales
Publicado no Ciencia del Sur

Uma opinião comum e arraigada sobre as ciências sociais é que elas não são realmente científicas. Uma maioria importante “acusa os cientistas sociais de serem «brandos» e de lidar com teorias tão carentes de precisão e poder preditivo, que não merecem ser chamados de cientistas” (Horgan, 2013).

Entre os principais argumentos delineados pelos críticos das ciências sociais estão: a) não utilizam estatística e nem quantificam; b) não constroem teorias; c) não predizem fenômenos; d) não postulam leis; e e) são subjetivas. O quão correta são essas afirmações?

a) “As ciências sociais não utilizam estatística e nem quantificam”

Embora seja uma presunção fortemente estabelecida, uma revisão de especialidades, como da sociologia analítica, da sociologia econômica, da ciência política, da história econômica ou da econometria, pode rapidamente derrubar a crença de que as ciências sociais não utilizam estatística e nem quantificam. No entanto, vale a pena notar que o uso de estatística ou quantificação não constitui um requisito indispensável para a validade científica de uma investigação (a menos que o tema exija especificamente).

Além disso, essa maneira de ver as coisas degenera em um dualismo que contrapõe “metodologias quantitativas” (destinadas às ciências naturais e básicas) a “metodologias qualitativas” (destinadas às ciências sociais), criando um efeito insustentável em termos concretos (Aldrich, 2014). Nesse sentido, “ser metodologicamente responsável, modelando ou formalizando, não é o mesmo que «quantificar»” (Reynoso, 1995: 53).

Se alguém me perguntar se pode existir ciência sem estatística ou quantificação, eu responderia que sim. De fato, grande parte da questão formal utilizada pela metodologia experimental em ciências sociais (e mesmo nas naturais) é composta das chamadas matemáticas qualitativas (Rudolph, 2013).

b) “As ciências sociais não constroem teorias”

Uma teoria é uma explicação sobre o funcionamento de um fenômeno. Nesse ponto, os críticos não apenas afirmam que uma ciência que não teoriza não é científica, mas também que as ciências sociais não constroem teorias, pois, se construíssem, seriam menos objetivas e tão pouco válidas do que as ciências naturais. Na antropologia ou na sociologia, pode não haver teorias tão reconhecidas como as da biologia ou da química, mas, no entanto, existem diversas explicações sobre múltiplos fenômenos que recebem os nomes genéricos de “teoria antropológica” ou “teoria sociológica”.

Apenas em alguns casos recebem nomes mais específicos, como “funcionalismo estrutural” (de Parsons) ou “teoria da relevância” (de Sperber e Wilson). Segundo Reynoso (1995), “a ideia de teorias grosseiramente nomotéticas nas quais os irracionalistas se baseiam para nos questionar é inspirada por um estado de coisas que, mesmo entre os cientistas mais duros, tem seus bons 50 anos de atraso” (p. 55). E é fato que o cientista social está muito interessado em explicações e que, quanto mais sofisticadas, melhor. No entanto, é de pouco interesse saber se essas constituem teorias ou não. Vale acrescentar que, se uma disciplina não constrói teorias, não perde seu status, uma vez que a incidência na criação de teorias depende mais do objeto estudado do que da capacidade dos pesquisadores.

Alguém ousaria dizer que a física não é científica apenas porque não existe uma teoria da gravidade? Ao contrário da criação de teorias, “corroborar uma hipótese é indispensável na ciência” (Suárez-Iñiquez, 2004: 16) e, portanto, “independentemente das diferentes concepções da filosofia da ciência, todo cientista admite questões como que as hipóteses devem ser corroboradas” (Ibid., 17). Com isso, devemos acrescentar que, geralmente, dada a mudança em torno da realidade social, os cientistas sociais evitam postular teorias sobre qualquer fenômeno ao considerar que não durarão muito tempo no pódio.

Dessarte, o interesse em consolidar teorias científica declina em favor de buscar apenas explicações sólidas. Saber se essas constituem teorias levaria um bom tempo, no entanto, quem garante o contrário, deverá demonstrar o porquê.

c) “As ciências sociais não predizem fenômenos”

Falar de predição é dizer sobre a capacidade de um modelo de antecipar uma consequência específica com base em um estado de coisas anteriores. Segundo os críticos, as ciências sociais, por não serem capazes de construir teorias sobre os fenômenos que observam, não podem prever sua emergência ou evolução. No entanto, a predição, mais do que uma condição de cientificidade, constitui uma conquista especial. No estudo de sistemas caóticos – como o clima – a predição constitui todo um luxo. No entanto, isso não torna a teoria do caos ou a meteorologia não científicas.

Da mesma forma, ninguém argumentaria que a sismologia é uma disciplina não científica apenas porque não pode predizer a ocorrência de um terremoto. Muitas áreas excelentes, como a etologia, a zoologia e a primatologia, sobrevivem com base em descrições sistemáticas, estudos de caso ou longitudinais e, embora suas predições sejam nulas, isso não as tornam não científicas. Nas ciências sociais, a predição é um fato muito discutido desde a primeira metade do século XX (Kaplan, 1940) e hoje, graças à modelagem computacional, parece estar voltando à ativa (Hofman, Sharma & Watts, 2017).

Se existem disciplinas com maior capacidade de predição do que outras, não é porque elas são mais científicas, mas porque estudam objetos menos complexos em contextos mais controlados. Dito isso, não é o mesmo que predizer a explosão demográfica de uma cidade, o fluxo de tráfego veicular, a estabilidade da moeda, a emergência de um movimento social, a queda de um império, ou o crescimento de uma organização, que predizer se meu cão babará quando a campainha tocar.

d) “As ciências sociais não postulam leis”

Falar sobre uma lei científica é dizer sobre o estabelecimento de relação de causa-efeito entre elementos. Nesse sentido, a economia pode ser a ciência social que contém mais leis, ao contrário de outras, como a história ou a arqueologia. Isso ocorre por uma razão muito simples: descartando a falta de interesse, a capacidade de estabelecer leis responde não diretamente à inteligência do pesquisadores e nem ao seu arcabouço metodológico, mas à natureza do objeto estudado. Dados que eles lidam com um domínio complicado, “nem tudo o que temos nas ciências sociais pode ser levado ao laboratório” (Priest, 2015).

Como no caso anterior, isso não impede o estabelecimento de explicações causais para fenômenos socioculturais específicos, como Émile Durkheim e Max Weber provaram no início do século XX. Dito isso, postular uma lei científica não constitui um requisito de validade, mas um sinal de profundidade com a qual um problema específico é conhecido. O fato de uma disciplina carecer de leis científicas não significa que seja não científica ou menos científica do que aquelas que a possuem.

e) “As ciências sociais são subjetivas, mas não objetivas”

Dizer que as ciências sociais são subjetivas equivale a dizer que são intuitivas ou fantasiosas. Para aprofundar esse ponto, é pertinente questionar o assunto da objetividade/subjetividade nas ciências sociais.

Para Bunge (1999), “a subjetividade pode ter um lugar na ciência, mas não o subjetivismo” (p. 224). É que as ciências sociais não apenas estudam fenômenos dignos de serem fiscalizados (migrações, consumo, crescimento urbano, etc.), mas também outros que dificilmente são fiscalizáveis (ideologias, religiões, crenças, mitos, lendas, etc.). Esses exemplos constituem um domínio próprio das ciências sociais: a subjetividade.

É precisamente o reconhecimento desse campo, em particular, que permitiu distinguir as ciências sociais das ciências naturais ao longo da história: desde as “ciências morais” de Adam Smith (século XVIII), as “ciências do espírito” de Wilhelm Dilthey (século XX), até as “ciências moles” como distintas das “ciências duras” (século XXI), pressupõe-se que as ciências sociais são diferentes das naturais.

Para Horgan (2013), a maior diferença entre os dois domínios científicos é que “os prótons, os plasmas e os planetas são estranhos ao que os cientistas dizem sobre eles”, enquanto que “os sistemas sociais (…) constituem em objetos que assistem televisão, ouvem rádio, leem jornais, revistas, livros e blogs e, consequentemente, mudam seu comportamento“.

No entanto, o erro reside em suspeitar que esses domínios sejam totalmente diferentes e até opostos em termos metodológicos. Embora seja correto que as ciências sociais enfrentam seus próprios problemas metodológicos que “não são comuns nas ciências naturais” (Sandoval, 2012: 60), é errado afirmar que, por essa razão, as ciências sociais não devem utilizar o método científico (Kahhat, 2003; Konnikova, 2012). Embora ambos os domínios apresentem diferenças admissíveis, eles guardam mais elementos em comum do que podemos suspeitar.

“Durante anos, fomos informados e aprendemos com as [pessoas] das gerações passadas que as ciências sociais são radicalmente diferentes das ciências naturais, que naquelas o sujeito e o objeto de conhecimento são os mesmos e, portanto, não pode existir objetividade; que a análise depende da posição de classe; que nas sociais os juízos de valores não valem porque influenciam na pesquisa; que a verdade não existe, mas, sim, verdades; que as hipóteses não podem ser demonstradas como acontece nas ciências naturais; e que não existem, ou não podemos descobrir, leis gerais. À luz dessas ideias, parece que as sociais não se enquadram na concepção comumente aceita de ciência. Mas todas essas ideias estão erradas.” (Suárez-Iñiguez, 2004: 17)

Agora, o problema não é que o domínio da subjetividade não possa ser estudado cientificamente, mas que constitui um terreno muito mais fraco e ilegível. Para Suárez-Iñiguez (2004), “o fato de o sujeito e o objeto de conhecimento serem o mesmo e, portanto, impedirem a objetividade é um verdadeiro absurdo” (p. 17), por isso, “embora as ciências sociais não possam ter o mesmo grau de precisão que as ciências naturais, elas podem aplicar as ferramentas que a ciência fornece em suas análises” (Ibid., 25).

Devemos lembrar que as ciências sociais também são discursos sobre nós mesmos ao compor um dos campos de conhecimento que estuda quem o produz: o ser humano, um ente altamente subjetivo.

Concepção reduzida vs. concepção ampliada

Como as ciências sociais harmonizam um complexo de disciplinas diversas, é necessário especificar quais estamos nos referimos no momento da crítica. Disciplinas como sociologia analítica, neuroantropologia, história econômica, antropologia evolutiva, antropologia genética, complexidades sociais, análises de redes sociais, ciência cognitiva, teoria organizacional, análise comportamental, entre outras, caracterizam-se por empregar doses fortes de modelagem computacional baseada em agentes, matemática qualitativa, estatística descritiva e inferencial, modelos bayesianos, análises multivariadas, inteligência artificial e até programação.

Contudo, quando os críticos afirmam que as ciências sociais não são científicas, eles só consideram uma parte delas, expressada em correntes, como fenomenologia, hermenêutica, estruturalismo, pós-estruturalismo, interpretativismo, desconstrucionismo, pós-colonialismo, pós-modernismo, perspectivismo, construtivismo ou estudos culturais. De fato, os paradigmas mencionados são caracterizados por uma série de lacunas que, com toda justiça, nos fazem duvidar de sua validade.

No entanto, são precisamente essas correntes que acadêmicos, como Jaime Osorio (2009), Carlos Reynoso (2012) ou Jon Elster (2013), identificaram como responsáveis pela “literaturização”, pelo “irracionalismo epistemológico” e pelo “obscurantismo” da ciência social contemporânea, respectivamente.

Essas abordagens, embora massivamente populares, não constituem todo o campo; portanto, generalizando-as, promovemos uma concepção reduzida das ciências sociais focadas apenas em seus aspectos mais questionáveis. Caso contrário, reconhecer que o estudo do social também é composto de especialidades científicas corresponderia à promoção de uma concepção ampliada, mais objetiva e de acordo com a realidade.

Conclusão: foco no objeto

Afirmar que as ciências sociais não são científicas não só se refere ao problema da demarcação, mas também lança uma comparação. Como todos sabemos, para comparar dois elementos e obter uma conclusão, é necessário um referente.

No caso da epistemologia, esse referente é, geralmente, a física teórica. É comparando qualquer ciência social com a física teórica que alguns concluem que a antropologia ou a sociologia não são científicas porque não são como ela – aqui surge a conversa sobre a “inveja da física” (Clarke & Primo, 2012).

No entanto, comparações desse tipo são injustas, pois ignoram os objetos particulares das disciplinas. A afirmação de que o objeto das ciências sociais é radicalmente diferente do objeto das ciências naturais “é, por vezes, utilizado para justificar o menor desenvolvimento das ciências sociais contra as ciências consagradas” (Reynoso, 1995: 60), vale admitir que ambos os objetos tampouco são iguais, começando porque “muitos aspectos das ciências «naturais» tampouco se baseiam experimentação rigorosa” (Priest, 2015).

Por enquanto, a física teórica é responsável por construções teóricas – isto é, sistemas proposicionais – enquanto que disciplinas como a antropologia, a sociologia, a ciência política ou a economia são responsáveis por eventos empíricos, como as flutuações de mercado, o consumo, a diversidade cultural, a evolução humana, os movimentos sociais ou as dinâmicas migratórias.

Como o debate envolve uma comparação entre ambas as disciplinas, pela mesma razão que algumas “partes da física são menos empíricas e mais especulativas do que a antropologia mais humanista” (Horgan, 2010), devemos considerar seus diversos objetos, pois, sendo diferentes, elas não serão abordadas da mesma maneira.

Ainda que, segundo Reynoso (1995), “não existam realidades simples ou fenômenos complexos” (p. 60), é possível estimar a dificuldade de um objeto precisamente através das teorias que tentam explicá-lo: se tiverem que esperar um tempo considerável para resolver um certo problema comparado a outro, então estaremos diante de um objeto intrinsecamente complexo. O complicado processo de modelagem matemática computacional, que finalmente será possível utilizá-lo para predizer fenômenos sociais, é um bom indicador de que esse dito assunto não é um marco fácil de conquistar, mas muito pelo contrário.

Em um dos livros mais representativos sobre o tema, Rein Taagepera (2008) argumentou que “as ciências sociais não são tão científicas quanto deveriam” (p. 4). No entanto, segundo Reyes (2011), esse texto “falha quando generaliza seus argumentos para a totalidade das ciências sociais” (p. 350), uma vez que “não é capaz de demonstrar, com um único exemplo contundente, que nas ciências sociais existem relações entre variáveis como as que existem nas ciências naturais” (Ibid., 350-351), de modo que “a ideia de modelos preditivos como ferramenta necessária para tornar as ciências sociais mais científicas é, finalmente, apenas como um palpite” (Ibid., 351).

Embora o estudo do natural tenha elementos comuns com o estudo do social, existem diferenças notáveis capazes de permear as concepções sobre tais domínios. Embora muitas pesquisas realizadas nas ciências sociais “ainda deixam muito a desejar sobre seu pretendido cientificismo” (Rodríguez, 2017), é necessário demonstrar que, em vários casos, são tão científicas quanto a física teórica mais avançada.

Referências

Cultura científica e políticas científicas

Marcha Pela Ciência em São Paulo, Brasil. Créditos: Felipe Rau / Estadão Conteúdo.

Por Miguel Ángel Quintanilla

O que significa ser cientificamente educado? A maioria de nós responderia que uma pessoa é cientificamente mais educada na medida em que sua cultura, isto é, seu conhecimento, regras de comportamento, atitudes e valores, são muito semelhantes, ou mesmo formam parte da cultura que um cientista profissional deve ter para ser conhecido como tal. Na aparência, a questão não pode ser mais simples. Há dois tipos de pessoas: educadas e não educadas. E entre as educadas, por sua vez, há dois tipos também: as que compartilham e as que não compartilham uma parte importante da cultura profissional dos cientistas (incluindo, entre eles, os professores e professoras de ciências e os profissionais que desempenham trabalhos com base no conhecimento científico, como na medicina, na engenharia, na arquitetura, etc.).

A questão é por que essas distinções sutis entre tipos de culturas e relações entre culturas profissionais e cultura cidadã têm algum interesse para o público em geral?

Muito anos atrás (em 1972), a National Science Foundation começou a analisar nos Estados Unidos a extensão da cultura científica entre os cidadãos, com base no pressuposto anterior de que o nível de apoio dos cidadão à políticas voltadas ao avanço da ciência e a tecnologia no país dependia do nível de cultura científica dos próprios cidadãos.

Ao longo dos anos, esse interesse em conhecer o estado da cultura científica dos cidadãos foi mantido e se espalhou por todo o mundo. Na Europa, através dos eurobarómetros. Na Espanha, principalmente através das pesquisas da Fundação Espanhola de Ciência e Tecnologia (FECYT), que são realizadas a cada dois anos.

Como resultado de toda essa atividade, alguns dados impressionantes apareceram. O primeiro que devemos enfatizar é que o próprio conceito de cultura científica tem sido mais problemático e confuso do que se suponha. Quando esses estudos começaram, assumiu-se que “cultura científica” era sinônimo de “alfabetização científica”: um cidadão era mais educado cientificamente na medida em que compartilhava mais conhecimentos de cientistas profissionais. (Certamente porque foi assumido que o nível de conhecimento científico estava inseparavelmente ligado ao nível de atitude positiva em relação à ciência.)

Na prática, porém, observa-se que a cultura científica possui, pelo menos, dois componentes independentes: alfabetização científica, ou seja, o nível de conhecimento que as pessoas compartilham com cientistas profissionais e a atitude valorativa, positiva ou negativa, de confiança ou desconfiança, que adotam os cidadãos em relação ao conhecimento e às atividades científicas. E o que tem sido sistematicamente confirmado há anos é que, de maneira bastante generalizada, os níveis de apoio a decisões políticas que afetam a ciência (financiamento da pesquisa básica, por exemplo) dependem mais desse componente de atitude positiva em relação à ciência do que do nível de alfabetização científica estritamente dito.

As novas políticas da ciência exigirão maior envolvimento dos cidadãos. Isso significa que eles terão que melhorar o nível de sua cultura científica. Mas se os dados que temos continuarem sendo confirmados, medidas políticas específicas deverão ser adotadas, orientadas não apenas à difusão do conhecimento científico na população, mas também ao crescimento da confiança na ciência, à promoção de atitude positivas em relação à ciência, ou seja, o crescimento da cultura científica em um sentido amplo.

Esta é, pelo menos, a linha na qual trabalha um grupo de pesquisadores – filósofos, sociólogos, economistas, comunicadores, politólogos e historiadores – no Instituto de Estudos da Ciência e da Tecnologia (ECYT) da Universidade de Salamanca.