SpaceX faz história e traz esperança para um mundo desesperado por boas notícias

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Por Associated Press

Publicado no The Dallas Morning News

Um foguete construído pela empresa SpaceX de Elon Musk decolou da Terra com dois americanos no sábado, inaugurando uma nova era de viagens espaciais comerciais e colocando a NASA de volta no negócio de lançar astronautas do solo americano pela primeira vez em quase uma década.

Doug Hurley e Bob Behnken, da NASA, voaram em direção ao céu a bordo de uma elegante cápsula Dragon em forma de bala, branca e preta, em cima de um foguete Falcon 9, saindo às 15h22 da mesma plataforma de lançamento usada para enviar os astronautas da Apollo para a Lua meio século atrás. Minutos depois, eles entraram em órbita com segurança.

“Vamos acender esta vela”, disse Hurley pouco antes da ignição, parafraseando as palavras usadas por Alan Shepard no primeiro voo espacial humano da América, em 1961.

Os dois estão programados para chegar à Estação Espacial Internacional no domingo, para uma estadia de até quatro meses, após os quais retornarão à Terra em um mergulho no mar no estilo Right Stuff.

A missão se desenrolou em meio à escuridão do surto de coronavírus, que matou mais de 100.000 americanos, e a agitação racial nos EUA devido à morte de George Floyd, um negro algemado, nas mãos da polícia de Minneapolis. Funcionários da NASA e outros esperavam que o voo fosse um incentivo à moral.

Com a decolagem pontual, a SpaceX, fundada por Musk, o visionário de carros elétricos da Tesla, tornou-se a primeira empresa privada a lançar pessoas em órbita, um feito anteriormente realizado por apenas três governos: EUA, Rússia e China.

O voo também encerrou uma seca de lançamento de nove anos para a NASA, o maior hiato da história. Desde que acabou com o programa de ônibus espaciais em 2011, a NASA conta com naves espaciais russas lançadas do Cazaquistão para levar astronautas americanos para a estação espacial.

Nos anos seguintes, a NASA terceirizou o trabalho de projetar e construir sua próxima geração de naves espaciais para a SpaceX e a Boeing, concedendo a eles US $ 7 bilhões em contratos em uma parceria público-privada que visa reduzir custos e estimular a inovação. A nave espacial da Boeing, a cápsula Starliner, não deve voar com astronautas até o início de 2021.

Musk disse no início da semana que o projeto visa “reacender o sonho do espaço e fazer com que as pessoas se entusiasmem com o futuro”.

Por fim, a NASA espera confiar em parte em seus parceiros comerciais, pois trabalha para enviar astronautas de volta à Lua nos próximos anos e para Marte nos anos 2030.

Antes de partir para a plataforma de lançamento em um Tesla SUV – outro produto de Musk – Behnken deu um abraço em seu filho de 6 anos, Theo, e disse: ”Você vai ouvir a mamãe e facilitar a vida dela?” Hurley mandou beijos para seu filho de 10 anos e sua esposa.

Uma tentativa de lançamento na quarta-feira foi cancelada com menos de 17 minutos para a contagem regressiva devido a raios. No sábado, o clima de tempestade na Flórida ameaçou outro adiamento durante a maior parte do dia, mas então o céu começou a clarear à tarde bem a tempo.

Nove minutos após a decolagem, o primeiro estágio do foguete pousou, como planejado, em uma barcaça a algumas centenas de quilômetros da costa da Flórida.

Dentro do Centro Espacial Kennedy, o atendimento era estritamente limitado por causa do coronavírus, e a pequena multidão de alguns milhares era uma sombra do que teria sido sem a ameaça do COVID-19. O presidente Donald Trump e o vice-presidente Mike Pence voaram para o evento pela segunda vez em quatro dias.

Segundo a contagem da NASA, mais de 3 milhões de espectadores sintonizaram online. Apesar da insistência da NASA de que o público permaneça seguro, ficando em casa, os espectadores se reuniam ao longo das praias e estradas com horas de antecedência.

Entre eles estava Neil Wight, um mecânico de Buffalo, Nova York, que observava a plataforma de lançamento de um parque em Titusville.

“Esse evento é historicamente significativo na minha vida e na vida de milhares de pessoas. Com tudo o que está acontecendo neste país agora, é importante que façamos coisas extraordinárias”, disse Wight. “Fomos bombardeados com desgraça e tristeza nas últimas seis, oito semanas, seja o que for, e isso é incrível. Isso une muitas pessoas.”

Os astronautas foram mantidos em quarentena por mais de dois meses antes da decolagem. Os técnicos da SpaceX que os ajudaram a vestir seus trajes espaciais usavam máscaras e luvas que os faziam parecer ninjas vestidos de preto. E no centro de lançamento, os controladores da SpaceX estavam sentados distantes.

Hurley, um fuzileiro naval aposentado de 53 anos, e Behnken, 49, coronel da Força Aérea, são veteranos de dois voos de ônibus espaciais cada. Hurley pilotou o ônibus espacial no último lançamento de astronautas de Kennedy, em 8 de julho de 2011.

De acordo com a propensão de Musk ao flash futurista, os astronautas usavam uniformes brancos angulares com detalhes pretos. Em vez da multidão habitual de mostradores, botões e interruptores, a cápsula Dragon possui três grandes telas sensíveis ao toque.

A SpaceX lança cápsulas de carga para a estação espacial desde 2012. Em preparação para o voo de quarta-feira, a SpaceX enviou uma cápsula Dragon com apenas um manequim de teste a bordo no ano passado e aportou suavemente no posto avançado em órbita, depois retornou à Terra em um splashdown.

Durante os programas Mercury, Gemini e Apollo e do programa com ônibus espacias, a NASA contou com empreiteiros aeroespaciais para construir naves espaciais de acordo com os projetos da agência. A NASA possuía e operava os navios.

Sob a nova parceria do século XXI, as empresas aeroespaciais projetam, constroem, possuem e operam as naves espaciais, e a NASA é essencialmente um cliente pagante em uma lista que pode eventualmente incluir pesquisadores não governamentais, artistas e turistas. (Tom Cruise já manifestou interesse.)

‘O que Elon Musk fez no programa espacial americano é trazer visão e inspiração que não tínhamos desde a aposentadoria dos ônibus espaciais em 2011”, disse Bridenstine, administrador da NASA, na véspera do lançamento. Ele chamou o chefe da SpaceX de “brilhante” e disse que Musk “se entregou absolutamente” a NASA.

Provar que a empresa pode lançar seres humanos com segurança é um primeiro passo crucial nessa jornada de exploração espacial. Com o sucesso do voo de hoje, o Crew Dragon pode começar um novo período emocionante de voos espaciais comerciais nunca antes vistos.

A empresa também planeja usar o Crew Dragon para lançar clientes pagantes no espaço. Isso pode incluir turistas espaciais que desejam visitar a estação espacial ou outros destinos – como orbitar hotéis espaciais. A ideia é fazer com que viajar para o espaço se torne tão comum quanto viajar de avião de um país para o outro.

A SpaceX, uma empresa fundada apenas dois anos antes do Facebook, alcançou algo que apenas três países (EUA, Rússia e China) alcançaram na história – lançar seres humanos ao espaço. Não importa o que aconteça a seguir, isso por si só é uma conquista incrível.

“Este é um sonho que se tornou realidade”, disse Musk antes do lançamento. “Não é algo que eu pensei que realmente aconteceria”.

 

Os piores desastres espaciais da história

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Por Brandon Christensen e Chris Young
Publicado no Real Clear History e no Interesting Engineering

O espaço é notoriamente perigoso. Infelizmente, o desejo da humanidade de explorar além da Terra e entender o Universo levou a alguns desastres ao longo da história das viagens espaciais. Aqui estão alguns dos piores desastres, juntamente com um pouco de informação sobre as almas corajosas que subiram ao espaço em nome de promover nossa compreensão científica do Cosmos.

10. Intelsat 708 (1996) – CHINA

Quando a China entrou na corrida espacial nos anos 90, ninguém levou Pequim a sério. As coisas mudaram. Em meados da década de 1990, porém, um lançamento de um foguete de teste deu errado e ele aterrissou em uma vila próxima, matando pelo menos seis pessoas e ferindo 57. O Intelsat 708 continha uma tecnologia sofisticada de encriptação de comunicações e, como partes dos destroços nunca foram localizados pelos desenvolvedores do satélite, eles podem ter sido recuperados pelo governo da República Popular da China. A Intelsat e a administração Clinton sofreram críticas nos Estados Unidos por permitir uma possível transferência de tecnologia ilegal para a China por empresas americanas. Estas preocupações levaram a uma investigação pelo Congresso dos EUA. As empresas foram multadas em milhões de dólares. E 1996 foi a última vez que Estados Unidos e China trabalharam juntos na ciência dos foguetes.

9. Alcântara (2003) – BRASIL

O acidente do VLS em Alcântara, que aconteceu com o programa espacial brasileiro, serve como um lembrete brutal do que acontece quando os países pressionam demais para obter resultados imediatos. Vinte e uma pessoas foram mortas quando o foguete explodiu em sua plataforma de lançamento no norte do Brasil. A fumaça do incêndio na selva iniciada pela explosão podia ser vista a centenas de quilômetros de distância. Ao mesmo tempo que ocorria o acidente o presidente da AEB Luiz Bevilacqua, dava uma entrevista coletiva sobre o acordo firmado entre o Brasil e a Ucrânia para uso da base de Alcântara. Sendo informado do acidente por jornalistas, ironizou dizendo “Só se for um foguete de São João”. Foi identificado que o processo de ignição ocorreu antes da hora e com isso a torre de lançamento não foi retirada a tempo sendo esta a principal causa do incêndio.

8. Plesetsk (1980) – URSS

Na União Soviética, em 1980, um desastre na plataforma de lançamento de Plesetsk matou 48 pessoas e feriu outras 87. O jornal Pravda informou ao povo soviético que o lançamento tinha sido um sucesso, e ninguém sabia do número de mortos até que, novamente, a glasnost seguiu seu curso e as informações começaram a chegar ao país. A explicação oficial para a explosão mortal atribuiu a culpa à tripulação morta, no entanto, menos de um ano depois, em 23 de julho de 1981, após um segundo desastre com a mesma causa ter sido evitado por pouco, descobriu-se que uma falha de projeto nos filtros de combustível do foguete provavelmente era a causa do desastre de 1980, embora tenha sido impossível confirmar que tipo de filtro foi usado no foguete que explodiu.

7. Nedelin (1960) – URSS

Enquanto os soviéticos testavam um míssil para lançamento espacial no que hoje é o Cazaquistão, ele explodiu, matou e mutilou centenas de pessoas. O número oficial de mortos ainda é desconhecido, mas as estimativas variam de 92 a 126 mortes e centenas de feridos. As pessoas mais próximas foram incineradas instantaneamente; as mais afastadas foram queimadas até a morte ou envenenadas pelos vapores tóxicos dos componentes do combustível. A explosão incinerou Nedelin, um dos maiores projetistas de sistemas de controle de mísseis da União Soviética e chefe das Forças Estratégicas de Foguetes da União Soviética. O desastre foi tão grave que a União Soviética recusou-se a reconhecer o evento até o último suspiro, nos últimos dias da glasnost.

6. Voskhod 2 (1965) – URSS

No início e meados da década de 1960, a União Soviética dominava a corrida espacial. Em março de 1965, Alexey Leonov se tornou o primeiro ser humano a realizar uma caminhada no espaço. Por 12 minutos e 9 segundos Leonov andou no espaço, mas quando tentou entrar novamente na Voskhod 2, descobriu que não podia entrar pela porta porque seu traje havia inflado e as coisas ficaram tão tensas dentro da nave espacial que a televisão soviética e o rádio foram cortados das massas. Os problemas para Leonov e sua equipe não terminaram por aí. Enquanto ele era capaz de se espremer dentro da Voskhod 2, fechar a porta provou ser um incômodo e foi apenas com alguns ajustes improvisados ​​soviéticos que a equipe conseguiu se isolar da vasta escuridão do espaço. A Voskhod 2 também pousou quase 500 km fora do curso, na tundra da Sibéria, onde as equipes de resgate não podiam alcançá-los por helicóptero. Então, eles enviaram um esquadrão de esqui que lhes construiu uma cabana de madeira e uma fogueira muito grande. Alexey Leonov comandou a metade soviética do primeiro projeto espacial conjunto entre os Estados Unidos e a União Soviética, antes de se aposentar.

5. Columbia (2003) – EUA 

Em 1º de fevereiro de 2003, retornando à atmosfera da Terra em sua 28ª missão, o ônibus espacial Columbia quebrou na reentrada, matando todos os sete astronautas a bordo. O incidente levou diretamente à aposentadoria da frota de ônibus espaciais da NASA em 2011 e à falta de missões verdadeiramente ambiciosas nos últimos anos, com a NASA atualmente trabalhando em um sucessor do Projeto Artemis. Uma investigação determinou que o problema começou durante o lançamento da Columbia na Terra 16 dias antes. Um pequeno pedaço de espuma isolante se soltou de um tanque de combustível durante o lançamento e perfurou um pequeno buraco na asa esquerda do ônibus espacial. A espuma havia realmente se desprendido durante lançamentos anteriores de ônibus espaciais sem incidentes, levando os funcionários da NASA a acreditar que não era um problema. No entanto, nessa ocasião, o pequeno buraco na asa levou à despressurização e à eventual quebra da aeronave, devido aos gases atmosféricos que sangravam no ônibus espacial durante sua rápida reentrada.

4. Apollo 1 (1967) – EUA

O programa espacial Apollo quase terminou antes de começar. Infelizmente, em outro exemplo de corrida pela glória em vez de priorizar a segurança, várias falhas foram apontadas pela equipe e pelos técnicos da Apollo 1 antes que um incêndio atingisse a cabine da tripulação da missão, matando os três astronautas a bordo. Uma faísca perdida iniciou o incêndio no ambiente de oxigênio puro dentro do módulo 204 da Apollo, matando os astronautas Virgil “Gus” Grissom, Edward White e Roger Chaffee por asfixia. Falhas no design da porta da escotilha a tornavam pesada e lenta para abrir, o que significava que era impossível os astronautas puxarem ela a tempo. Como parece ter sido o caso de uma quantidade infeliz de missões espaciais, a tripulação e vários engenheiros expressaram suas preocupações sobre os problemas da espaçonave Apollo 1 em vários estágios durante os preparativos. Apesar disso, as pressões no cronograma e o desejo de ser visto como um país pioneiro levaram a que medidas adicionais de segurança fossem descartadas em favor de uma janela de lançamento mais rápida.

3. Soyuz 1 (1967) – URSS 

Vladimir Komarov é uma das figuras verdadeiramente trágicas da corrida espacial que aqueceu entre os EUA e a Rússia nos anos 50. Na descida de volta à Terra, o sistema de pára-quedas da espaçonave Soyuz I falhou, levando seu único membro da tripulação, Vladimir Komarov, a cair no chão em uma bola de chamas. O que torna essa história tão trágica é que Komarov sabia que a missão estava comprometida. De fato, sua transmissão final gravada da nave o fez gritar e xingar seus superiores que, segundo ele, o “mataram”. O querido amigo, colega de Komarov e herói espacial soviético Yuri Gagarin, inspecionou a espaçonave com outros técnicos e encontrou 203 problemas estruturais. Apesar dos pedidos de adiar o voo espacial, Leonid Brezhnev, o líder da União Soviética da época, avançou os planos – o voo espacial foi essencialmente uma façanha para comemorar o 50º aniversário da revolução comunista e não pôde ser adiado. Tragicamente, Komarov e Gagarin pediram para voar. Cada um queria salvar o outro do que provou ser a morte certa. Antes de Komarov voar, os relatórios dizem que ele pediu um funeral de caixão aberto para que a liderança soviética pudesse ver o que isso havia feito com ele. Ele conseguiu seu desejo.

2. Soyuz 11 (1971) – URSS

Esse desastre é responsável pelas únicas três pessoas que morreram enquanto estavam no espaço. Após o bem-sucedido pouso lunar da missão Apollo, a União Soviética estava ansiosa para deixar sua marca em seu programa espacial e superar seus colegas americanos. Em abril de 1971, eles certamente deixaram sua marca ao lançar a primeira estação espacial do  mundo, Salyut-1. Dois meses depois, três cosmonautas ganharam status de herói na Rússia decolando no foguete Soyuz 11, atracando em Salyut-1 e passando três semanas a bordo realizando observações científicas. Tudo parecia estar indo conforme o planejado até a viagem de volta em 30 de junho. A sonda fez uma reentrada normal e um pouso perfeito. No entanto, quando os agentes de Terra abriram a escotilha, todos os três cosmonautas não responderam. A Soyuz 11 pousou automaticamente. Durante a descida, um respiradouro com defeito foi aberto, levando à despressurização da cabine. Nenhum dos cosmonautas usava trajes espaciais, o que significa que eles rapidamente ficaram sem oxigênio e provavelmente morreram sufocados aproximadamente 30 minutos antes do pouso. Como um legado do desastre da Soyuz 11, tornou-se um requisito obrigatório para os cosmonautas e astronautas usarem trajes espaciais durante qualquer estágio de uma missão em que a despressurização pudesse ocorrer.

1. Challenger (1986) – EUA 

A décima missão do ônibus espacial Challenger terminou em tragédia. O ônibus espacial, que transportava sete astronautas, incluindo Christa McAuliffe, uma professora do ensino médio que havia sido selecionada como parte do novo programa “Professor no Espaço” da NASA, se separou 73 segundos após o seu lançamento em Cabo Canaveral. Em seguida, colidiu com o oceano Atlântico a uma altitude de aproximadamente 15 mil metros. Uma investigação após o incidente constatou que a NASA sabia que temperaturas congelantes poderiam danificar os o-rings de borracha da espaçonave, construídos para separar os propulsores de foguetes e impedir vazamentos de combustível, além de impedir a vedação. Um engenheiro que trabalhou no ônibus Challenger, Bob Ebeling, havia tentado desesperadamente avisar que não havia dados suficientes sobre como os o-rings de borracha lidariam com temperaturas mais baixas que 12° C e que o lançamento deveria ser adiado. Seu pedido caiu em ouvidos surdos. Após uma reunião particularmente frustrante com funcionários da NASA, Ebeling teria ido para casa e dito à esposa que o ônibus Challenger explodiria. A NASA decidiu prosseguir com o lançamento, apesar desses avisos, levando a indignação generalizada e a suspensão temporária do programa de ônibus espaciais.

Felizmente, esses trágicos eventos levaram a um legado de viagens espaciais mais seguras. No entanto, não podemos deixar de sentir que algumas das lições, ou seja, diminuir a produção e os cronogramas de lançamento quando surgem preocupações de segurança, são voluntariamente deixadas de lado por algumas empresas hoje. Só podemos construir um futuro de viagens aeroespaciais seguras e prósperas quando a segurança das pessoas a bordo sempre for a primeira prioridade.

Pesquisadores buscam moléculas antivirais para tratamento da COVID-19

Moléculas sintéticas e oriundas de produtos naturais da biodiversidade brasileira estão sendo triadas por equipes do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos – um CEPID apoiado pela FAPESP na USP de São Carlos. Foto: Daniel Antonio / Agência FAPESP.

Por Maria Fernanda Ziegler
Publicado na Agência FAPESP

Pesquisadores vinculados ao Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar) estão buscando potenciais antivirais para o tratamento de COVID-19 entre compostos sintéticos e produtos naturais da biodiversidade brasileira, além de realizar estudos voltados ao reposicionamento de fármacos já existentes.

A ideia é buscar, em diferentes repositórios e banco de dados, compostos químicos capazes de bloquear a ação das chamadas “proteínas não estruturais” do novo coronavírus (SARS-CoV-2), essenciais para a replicação do microrganismo dentro da célula humana.

“Quando o vírus entra na célula, ele começa a fazer cópias de seu próprio material genético [no caso do SARS-CoV-2, um RNA] para poder se multiplicar e avançar pelo organismo infectado. Uma parte do genoma viral produz proteínas da superfície do vírus e também outras 16 proteínas não estruturais, que só aparecem depois que a célula é invadida. Essas moléculas são responsáveis pela replicação do genoma viral. Nosso objetivo é encontrar um composto que ‘grude’ em alguma dessas proteínas não estruturais e, assim, inviabilize a replicação do SARS-CoV-2”, conta Glaucius Oliva, coordenador do CIBFar, um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP).

O projeto multidisciplinar, apoiado pela FAPESP, reúne também pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP), dos Institutos de Química de São Carlos (IQSC-USP), da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Dois processos de triagem

A seleção de compostos está sendo realizada por duas maneiras distintas. Uma é a triagem virtual – por meio de técnicas computacionais, como inteligência artificial, e experimentais, como cristalografia –, que visa analisar a estrutura tridimensional das moléculas. O objetivo é verificar entre os compostos analisados quais têm estrutura química capaz de se encaixar no alvo (as proteínas não estruturais do novo coronavírus) e, portanto, potencial para impedir a replicação viral.

A segunda maneira de seleção envolve ensaios experimentais para avaliar a capacidade das moléculas de inibir as enzimas envolvidas no processo de replicação. Isso só é possível graças à produção recombinante das enzimas virais no CIBFar, entre elas a protease principal do SARS-CoV-2 conhecida como Mpro (enzima que quebra as proteínas codificantes do RNA).

“Já conseguimos, por exemplo, produzir no CIBFar a protease Mpro e estamos fazendo os ensaios de inibição com compostos naturais e sintéticos. O vírus precisa dessa enzima para cortar a longa cadeia de proteínas codificada por seu genoma. Em seguida, cada parte dessa cadeia vai se enovelar e compor o complexo de replicação”, explica o pesquisador.

Moléculas com a capacidade de inibir as enzimas serão validadas em ensaios de invasão e infecção de células humanas pelo novo coronavírus obtido de isolados virais de pacientes brasileiros, realizados no ICB-USP. “O que funcionar, seja no ensaio virtual, seja no ensaio enzimático, precisará ser confirmado em testes in vitro, para só depois passar para testes em animais e, por último, ensaios clínicos em pacientes. Invariavelmente, desenvolver novos fármacos consiste em um processo demorado até que se tenha certeza de sua eficácia e segurança”, diz.

Riqueza da biodiversidade

Para Oliva, um diferencial do projeto está na triagem de produtos naturais da biodiversidade brasileira, sobretudo pela existência da base de dados do Núcleo de Bioensaios, Biossíntese e Ecofisiologia de Produtos Naturais (NuBBE-DB), que reúne informações sobre a estrutura de mais de 54 mil moléculas naturais. O repositório foi desenvolvido com apoio do CIBFar.

“Evidentemente, uma molécula nunca antes usada como fármaco pode levar de cinco a 10 anos até que se prove a sua eficácia e segurança. Porém, temos algo diferente no Brasil: o acesso a produtos naturais e ao uso de extratos conhecidos pela cultura tradicional”, diz.

Como explica o pesquisador, plantas e microrganismos são importantes fontes de compostos medicinais. Por não terem sistema imunológico nem muita mobilidade, usam compostos químicos como principal arma contra predadores ou invasores. “Isso quer dizer que, ao longo de milhões ou bilhões de anos [no caso de bactérias e fungos], por seleção natural, foi possível desenvolver vias sintéticas para produzir moléculas protetoras. Como temos uma grande biodiversidade no Brasil e um importante trabalho prévio de identificação, caracterização e catalogação desses compostos, pode ser que sejam encontrados compostos oriundos de produtos naturais capazes de inibir a ação do novo coronavírus”, afirma.

Frentes diversificadas

O projeto também visa orientar o reposicionamento de medicamentos já aprovados para uso humano. Os pesquisadores vão avaliar 1.500 compostos já aprovados pela FDA (Food and Drug Administration, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos) e, dependendo da capacidade de realização dos ensaios celulares no ICB-USP, poderão ter acesso a milhares de compostos de bibliotecas da organização internacional Medicines for Malaria Ventures (MMV) e várias outras coleções de projetos que estão em desenvolvimento no Estado de São Paulo.

Segundo Oliva, o processo de desenvolvimento de novos fármacos tende a ser encurtado quando moléculas de medicamentos já existentes – que já passaram por todos os testes de segurança necessários – são analisadas para outras indicações. “Essas serão as primeiras moléculas a serem testadas, mesmo que sejam muito raros os exemplos de sucesso no reposicionamento de fármacos”, diz.

Epidemia de COVID-19 avança de forma heterogênea e ainda sem controle no Brasil

Conclusão é de estudo conduzido por pesquisadores do Imperial College London e apresentado em seminário on-line organizado pela FAPESP. Maior inquérito sorológico realizado no país também aponta discrepância entre estados e que casos reais da doença superam em sete vezes os notificados. Imagem:Pixabay.

Por Karina Toledo
Publicado na Agência FAPESP

A quarentena decretada em março por prefeitos e governadores de todas as regiões brasileiras promoveu uma queda substancial na taxa de contágio do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Mas, ao contrário do observado em países asiáticos e europeus que também adotaram medidas de isolamento social, o achatamento da curva epidemiológica no Brasil não foi suficiente para fazer o número de casos e de mortes por COVID-19 parar de crescer.

Segundo estimativa feita por pesquisadores do Imperial College London (Reino Unido), no final de fevereiro, o número de reprodução (Rt) do SARS-CoV-2 em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Amazonas estava entre 3 e 4. Isso significa que, nesses locais, cada indivíduo infectado transmitia o vírus para mais de três pessoas em média, fazendo a epidemia avançar rapidamente. No início de maio, estima-se que o Rt havia caído para valores entre 1 e 2.

“Houve uma redução acentuada na intensidade da transmissão, o que significa que o isolamento social ajudou a salvar muitas vidas e das pessoas mais vulneráveis da sociedade. Mas em nenhum estado o Rt caiu abaixo de 1. E somente quando isso ocorrer poderemos dizer que a epidemia está sob controle. O número de infecções diárias cairá significativamente, seguido pelo número de mortes”, disse Thomas Mellan, primeiro autor de um estudo que buscou descrever a evolução da COVID-19 em 16 estados brasileiros por meio de modelagem matemática. Ainda em versão preprint (sem revisão por pares), o artigo foi postado na plataforma medRxiv em 18 de maio.

Na avaliação do pesquisador, a adesão insuficiente da população ao isolamento social parece ser um dos fatores que explicam a menor eficácia dessa “intervenção não farmacológica” na contenção da doença no Brasil. “O motivo exato não está claro, mas ao analisar o Relatório de Mobilidade Comunitária do Google [baseado em dados de localização de usuários em 131 países] observamos que a redução da mobilidade da população brasileira durante a quarentena é menor do que a registrada na maioria dos países europeus”, contou Mellan à Agência FAPESP.

Alternativas metodológicas

A metodologia do estudo foi apresentada por Mellan e por seu colega do Imperial College London Samir Bhat no dia 21 de maio, durante o webinar “COVID-19 – Epidemiological monitoring and measurement of infectivity rates in key countries”, organizado pela FAPESP e transmitido ao vivo pelo canal da Agência FAPESP no YouTube.

Na ocasião, Bhat explicou que o objetivo do trabalho foi estimar a taxa de ataque (número de pessoas infectadas) e o Rt do novo coronavírus no Brasil, usando como referência o número de mortes por COVID-19 confirmado pelo Ministério da Saúde.

“Há várias estratégias para determinar esses indicadores epidemiológicos: vigilância populacional de infecções [testagem em larga escala para detectar casos sintomáticos e assintomáticos], análises genéticas [inferir o Rt com base em linhagens virais sequenciadas], inquéritos de soroprevalência [avaliar por amostragem o porcentual da população que tem anticorpos contra o vírus], estimar com base no número de casos reportados [método fortemente influenciado pela quantidade de testes realizados no local] ou estimar a partir do número reportado de mortes, que julgamos ser a forma mais segura para países como o Brasil, mas não é livre de erro”, ponderou Bhat.

Os resultados do estudo britânico indicam que cinco estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Amazonas – concentram 81% das mortes relatadas até o momento no país. Estima-se que, nesses locais, a porcentagem de pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 varie de 3,3% (com intervalo de confiança de 95%, podendo variar de 2,8% a 3,7%) em São Paulo para 10,6% (de 8,8% a 12,1%) no Amazonas. O estado com a segunda maior taxa de ataque foi o Pará (5,05%), seguido por Ceará (4,46%) e Rio de Janeiro (3,35%). Entre os 16 estados estudados, Minas Gerais apresentou menor proporção de infectados (0,13%), seguido por Santa Catarina (0,23%) e Paraná (0,25%).

Considerando a margem de erro da pesquisa, os números estimados pelo grupo do Imperial College London para São Paulo e Paraná estão próximos do encontrado nas capitais desses estados por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) na primeira fase do estudo EPICOVID19-BR: 3,1% na cidade de São Paulo e 12,5% em Manaus (AM). Realizado entre os dias 14 e 21 de maio, o inquérito sorológico abrangeu coleta e análise de amostras de sangue de mais de 25 mil pessoas, em 133 cidades. O objetivo foi calcular o porcentual da população que já desenvolveu anticorpos contra o SARS-CoV-2. O trabalho foi coordenado pelo reitor da UFPel, Pedro Curi Hallal, que foi um dos palestrantes do seminário online promovido pela FAPESP na semana passada.

Nas principais cidades do Pará, o estudo apontou que o índice de infectados chega a 24,8% na cidade de Breves, 15,4% em Castanhal e 15,1% na capital Belém. Em Tefé, município do interior do Amazonas, a taxa de soroprevalência foi de quase 20%.

No conjunto das 90 cidades em que o grupo do EPICOVID19-BR conseguiu testar mais de 200 pessoas (número mínimo para fazer as análises), a taxa de soroprevalência foi estimada em 1,4%, podendo variar de 1,3% a 1,6% pela margem de erro da pesquisa. Segundo os autores, os resultados não devem ser extrapolados para todo o país, nem usados para estimar o número absoluto de casos no Brasil, pois são cidades populosas, com circulação intensa de pessoas e que concentram serviços de saúde. De qualquer modo, a comparação dos números estimados pelo grupo da UFPel e os números oficiais do Ministério da Saúde aponta que, para cada caso confirmado de COVID-19 nesses municípios, existem sete casos reais na população.

Várias epidemias em uma

Os resultados do EPICOVID19-BR indicam que a região Centro-Oeste é a menos afetada do país até o momento. Nenhum teste positivo foi registrado nas nove cidades estudadas, embora já existam casos e óbitos notificados nesses locais. No Rio Grande do Sul, onde já foram concluídas, entre abril e maio, três ondas de testes sorológicos em nove cidades, a taxa de soroprevalência encontrada também foi baixa: variando entre 0,05% (primeira coleta) e 0,22% (terceira coleta).

A região Norte, por outro lado, tem hoje o cenário epidemiológico mais preocupante do país, segundo a pesquisa brasileira, abrigando 11 das 15 cidades com maior proporção de infectados.

A conclusão vai ao encontro dos resultados do modelo britânico, que mostram uma ampla heterogeneidade nas taxas de ataque dos estados estudados, sendo que as regiões Norte e Nordeste parecem estar em um estágio avançado da epidemia, que, em escala nacional, ainda pode ser considerada incipiente.

“Apesar dessa heterogeneidade, no entanto, em nenhum estado a imunidade de rebanho parece estar próxima de ser alcançada”, afirmam os pesquisadores do Imperial College, referindo-se à taxa necessária de infectados (estimada entre 60% e 70%) para que o vírus não consiga mais se propagar na população. “Dado o estágio inicial da epidemia no Brasil, há perspectiva de agravamento da situação caso outras medidas de controle não sejam implementadas”, concluiu o estudo.

Em busca de soluções

Além de Hallal e dos pesquisadores britânicos, o rol de palestrantes do seminário online contou com Cécile Viboud, pesquisadora do Centro Internacional Fogarty, vinculado aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, e Michael Levitt, ex-professor da Universidade Stanford (Estados Unidos) hoje baseado em Israel e vencedor do Nobel de Química em 2013. A mediação foi feita pelo professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Rui Maciel.

“Este é o primeiro de uma série de seminários online que a FAPESP pretende promover na tentativa de contribuir para a busca de soluções contra a COVID-19, instigando cientistas nacionais e internacionais e trazendo à tona perguntas e discussões relevantes”, afirmou durante a abertura Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fundação.

Em sua apresentação, Viboud apresentou resultados de estudos de modelagem que buscaram avaliar o impacto de diversas intervenções adotadas no início de janeiro para conter a epidemia na China, principalmente nas cidades de Xangai e de Wuhan.

“Uma das primeiras coisas que nos interessamos foi quantificar as mudanças no número de reprodução. Inicialmente, vemos um período de rápido crescimento da epidemia, com Rt de 2,5. Após 23 de janeiro muitas intervenções foram feitas, incluindo forte distanciamento social, e o Rt cai rapidamente abaixo de 1, e assim permanece até agora”, contou a pesquisadora.

Já Levitt, que tem sido um crítico contundente das políticas de isolamento social, argumentou que, ao contrário do que sugerem os principais modelos epidemiológicos – entre eles o do Imperial College London –, a COVID-19 não cresce exponencialmente, ainda que nenhuma medida de contenção seja implementada.

“Este seria um fenômeno realmente aterrorizante, pois saltaríamos de três casos para 1 milhão em um período de duas semanas caso houvesse crescimento exponencial puro”, disse.

Após avaliar as informações sobre os casos confirmados na China, Levitt concluiu que a curva epidemiológica da doença segue o padrão da chamada curva de Gompertz ou função Gompertz, modelo matemático em que o crescimento é menor no começo e no fim do período temporal.

“Essa coisa toda sobre achatar a curva não tem sentido, pois a curva começa a se achatar sozinha desde o primeiro dia da epidemia”, argumentou.

Na avaliação de Hallal, de fato a taxa de crescimento de novos casos e de mortes começou a baixar em países como Itália, Espanha e Inglaterra bem antes de ser atingido o porcentual de infectados necessário para a imunidade de rebanho.

“Com as medidas de isolamento, o vírus acaba circulando menos e o número de pessoas suscetíveis que ele encontra não é tão grande. A boa notícia é que não é preciso haver tanta gente infectada para os casos começarem a cair. Por outro lado, como a maior parte da população ainda não tem imunidade, é bem provável que daqui a algum tempo venha outra onda da doença. Não podemos subestimar o valor do distanciamento social”, disse à Agência FAPESP.