Esquerda e direita: quem é mais feliz? E por quê?

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(Capa: à esquerda, foto por Caco Argemi CPERS/Sindicato, usada sob CC BY 2.0; à direita, foto por Larrion Nascimento)

Publicado no Política na Cabeça

Ao ler o título deste texto, seja você de esquerda ou de direita, é possível que tenha elaborado mentalmente uma resposta às perguntas ali levantadas e, então, iniciou a leitura em busca de possível confirmação de sua hipótese. Aí vai uma resposta curta: conservadores são mais felizes do que as pessoas de esquerda. Essa afirmação confirma ou não o que pressupunha? Seja como for, entender – de um ponto de vista científico – a extensão e o porquê dessa diferença pode mudar sua visão sobre o quão feliz você pode ser.

 O que diz a ciência?

A grande maioria das pesquisas indicam que conservadores são realmente mais felizes, na média, do que as pessoas mais à esquerda no espectro político-ideológico. Um estudo do Pew Research Center (PRC), nos EUA, apontou que 45% das pessoas de direita (republicanos) contra apenas 30% das de esquerda (democratas) consideram-se “muito felizes”. [1]  Apesar de esses dados serem de uma pesquisa com mais de uma década, o aspecto mais interessante dos levantamentos feitos pelo PRC é a constância nos resultados sobre felicidade: desde 1972, os conservadores consistentemente aparecem como mais felizes do que os progressistas.

Esquerda e direita: quem é mais feliz?
Afinal, quem é mais feliz? (Fonte: Pixabay)

Outro estudo, de 2014, feito por pesquisadores da Universidade de Nova Jersey, EUA, apoiado em uma gigantesca base de dados (mais de 1 milhão de indivíduos oriundos de 16 países europeus), também apontou que as pessoas de direita são mais felizes do que as de esquerda [2].  Por fim, em um terceiro estudo, envolvendo 15 países europeus, além dos EUA, pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia e da Universidade de Utah descobriram que conservadores veem maior significado na vida do que progressistas [3]. Um ponto curioso dessa pesquisa é que, entre as pessoas de direita, aquelas mais conservadoras nos costumes (contra o casamento gay e o aborto, por exemplo) foram as que mais acentuadamente reportaram ver a vida com grande significado.
Tais pesquisas levantam uma questão ainda mais importante: afinal, por que as pessoas de direita são mais felizes? A literatura científica a respeito do assunto aponta três grupos de fatores que influenciam nisso:  1) aspectos demográficos – tais como casamento e religiosidade; 2) diferenças ideológicas ou comportamentais – como o grau de crença na meritocracia; 3) e, por fim, até mesmo a ideologia predominante do governo do país em que essas pessoas vivem. Quanto a este último fator, principalmente se não está contente com o governo atual de seu país, dificilmente você duvidaria do impacto disso em sua felicidade, não é mesmo? Vejamos, então, o que a ciência diz sobre a relevância de cada um desses fatores para o nosso bem-estar.

1)  Fatores demográficos:

As pessoas de orientação política de direita casam-se mais [4], têm mais filhos [5] e são mais religiosas [6], quando comparadas às de esquerda. Ocorre que esses fatores todos se relacionam com a felicidade. Um estudo dos sociólogos Steven Stack and Ross Eshleman, da Wayne State University, encontrou que, em 16 de 17 países industrializados pesquisados, o casamento estava positivamente associado a um maior grau de felicidade [7]. E os conservadores não só se casam mais como, em comparação com esquerdistas casados, há maior probabilidade de se afirmarem “muito felizes” no casamento [8].

Uma família feliz. Quais as causas? [Fonte: Pixabay]

Quanto à crença religiosa, segundo o célebre psicólogo social Jonathan Haidt, pessoas que comungam da mesma fé costumam compor comunidades de apoio social mútuo, o que as torna menos isoladas [9]. Além disso, sistemas religiosos oferecem explicações sobre algumas das questões mais profundas que afligem os seres humanos, como sobre a finitude e o que ocorre após a morte [10]. A crença em tais narrativas pode aplacar a angústia existencial, o que tem o potencial de proporcionar maior nível de felicidade aos religiosos.

Quando tais fatores demográficos são considerados em conjunto, a diferença dos níveis de felicidade entre pessoas de ideologias políticas opostas pode ser muito expressiva. Segundo o cientista social Arthur Brooks, da Universidade de Harvard, 52% dos conservadores casados, religiosos e com filhos se afirmam muito felizes, contra apenas 14% das pessoas de esquerda solteiras, sem religião e sem filhos [11]. Esses fatores, porém, não explicam tudo. As próprias características ideológicas dos indivíduos também contam (e muito).

 2) Características ideológicas e comportamentais:

Segundo pesquisas do proeminente psicólogo social John Jost, da Universidade de Nova York, o conservadorismo político é uma ideologia que justifica o sistema social, isto é, seus portadores endossam e defendem o status quo, a realidade social, política e econômica como ela é [12]. Conservadores, além de aceitarem as desigualdades sociais, também as enxergam como causadas por mecanismos que consideram justos e legítimos. Assim, Jost argumenta que essa ideologia política acaba tendo uma função paliativa, ou seja, como pessoas de direita tendem a justificar a realidade social, é menor a possibilidade de  sofrerem em relação aos problemas sociais, como a desigualdade, o que as tornaria mais felizes do que as de esquerda [13].

Para testar essa hipótese, John Jost e a psicóloga social Jaime Napier realizaram três estudos baseados em surveys [14]. Como resultado desses estudos, amparados em dados de dez países, encontraram que, em comparação com pessoas de esquerda, o maior bem-estar subjetivo de conservadores está de fato relacionado à sua capacidade de racionalizar a desigualdade. Por “racionalização”, conceito bastante conhecido na psicologia social, entenda-se que as pessoas criam narrativas e explicações próprias para as coisas – explicações essas frequentemente bem distantes da realidade – para que se sintam confortáveis com suas crenças e formas de ver o mundo. Um exemplo disso pode ser observado quando uma pessoa conservadora considera que a pobreza seja resultado de apatia, de uma suposta indolência das pessoas: se são pobres, é porque não se esforçaram o suficiente. Eis aí uma típica e clara racionalização de um fenômeno social complexo.

Não à toa, com base nos estudos mencionados, Napier afirma que a crença na meritocracia – a ideia segundo a qual o trabalho duro leva necessariamente ao sucesso na vida – é o principal fator para se predizer quem é mais feliz. Quanto mais se crê na meritocracia, mais feliz é o indivíduo. E os conservadores são os maiores defensores dessa crença.

Esquerda e direita – nível de bem-estar em queda

Em um dos três estudos referidos, Jost e Napier encontraram também que o nível de bem-estar subjetivo geral diminuiu significativamente, nos EUA, entre as décadas de 1970 e 2000. E essa queda geral da felicidade acompanhou um aumento expressivo da desigualdade naquele país. Curiosamente, ao mesmo tempo que a felicidade da população como um todo declinou ao longo do período relatado, aumentou a diferença do nível de felicidade entre os lados ideológicos: as pessoas de direita também foram afetadas e tiveram queda no nível de felicidade, mas em proporção bem menor do que as de esquerda. Observe o gráfico:

(Relação entre orientação política e felicidade declarada como função do índice de Gini – 1974 a 2004 – Extraído de JOST & NAPIER, 2008)

Jost e Napier supõem que isso ocorra porque os conservadores possuem, em sua visão de mundo, um “amortecedor” ideológico contra os efeitos deletérios da desigualdade econômica no bem-estar das pessoas. Assim, conforme a desigualdade cresce, isso afeta negativamente a todos, mas atinge mais acentuadamente a esquerda, que, em vez de justificar a realidade social e suas mazelas sociais, a elas se opõe.

Contudo, tais características ideológicas das pessoas aparentemente também não explicam, por si só, sua diferença nos níveis de felicidade. O contexto político e social em que vivem também pesa nessa equação.

3) Diferenças no tipo de governo

“Para cada minuto que você sente raiva, perde sessenta segundos de felicidade”.

– Ralph Waldo Emerson

Se, por acaso, você se opõe firmemente ao governo atual de seu país, suas chances de ser bastante feliz diminuem. Difícil discordar dessa afirmação, não acha? Se os valores que permeiam os governantes no poder são opostos aos seus, isso tem grande potencial para reduzir seu bem-estar.  É nesse sentido que apontam alguns estudos.

Em um extenso estudo que envolveu 98 países (incluindo o Brasil), economistas da Universidade de Heidelberg, Alemanha, investigaram a relação entre felicidade individual e ideologia de um governo. Esta última foi aferida a partir da orientação político-ideológica do chefe do Executivo, no caso de sistemas presidencialistas, e a partir da ideologia do maior partido no governo, nos países de regimes parlamentaristas. Como resultado geral da pesquisa, encontraram que as pessoas de direita são, de fato, mais felizes em média; já as pessoas de esquerda têm maior probabilidade de se declararem satisfeitas com a vida quando vivem sob governos de esquerda [15].

Esquerda e direita
A ideologia política do governo de onde vivemos também impacta nossa felicidade

Em outro estudo bastante extenso, similar ao dos economistas alemães, psicólogas sociais da Universidade de Colônia também analisaram a questão. Com base em dados extraídos ao longo de 40 anos, de mais de 270 mil indivíduos, oriundos de 92 países (Brasil incluído), as pesquisadoras questionaram a universalidade da diferença de níveis de felicidade entre esquerda e direita. Segundo elas, seus dados mostram que, em comparação com progressistas, conservadores se declaravam mais felizes e mais satisfeitos com suas vidas à medida que a ideologia política conservadora prevalecia no contexto sociocultural do país em que viviam. Nesse estudo, as pessoas de direita se afirmaram mais felizes em 65% dos países e épocas analisados. Em parte das análises, não houve diferença significativa entre os lados ideológicos. Por fim, as pessoas de esquerda se afirmaram mais felizes em 5 dos 92 países estudados [16].

E a sua felicidade e bem-estar? Como andam?

E a felicidade, ainda que tardia, deve ser conquistada. – Sérgio Vaz

Fato já bem documentado na literatura científica, o grau de felicidade que sentimos se relaciona com a nossa orientação político-ideológica. Ocorre que essa última é provavelmente imutável por vontade própria. Em verdade, as pessoas que têm lado definido no espectro ideológico costumam mesmo exibir até certo orgulho de sua posição. É possível, porém, dar sua contribuição para que seu entorno mude a favor de sua visão de mundo. Em regimes democráticos, isso não só é possível, como também é absolutamente legítimo.

A luta política pode ser travada de mil maneiras na democracia. Quando você participa de manifestações democráticas de rua ou compartilha um post de cunho político e se posiciona, discutindo e debatendo temas, está influenciando as pessoas ao seu redor em algum grau. Sua meta maior pode mesmo ser a de dar sua contribuição para eleger um governo alinhado com seus valores. Nada mais legítimo. Afinal, sua felicidade e bem-estar podem disso depender.

Referências

[1] (2016) Are We Happy Yet? – Pew Research Center. Acesso em: 10 Out. 2021.

[2] Okulicz-Kozaryn, A., Holmes IV, O., & Avery, D. R.  (2014).  The Subjective well-being political paradox:  Happy welfare states and unhappy liberals.  Journal of Applied Psychology, 99(6), 1300-1308.

[3] Newman, D. B., Schwarz, N., Graham, J., & Stone, A. A. (2019). Conservatives report greater meaning in life than liberals. Social Psychological and Personality Science, 10(4), 494-503

[4] Wilcox, W. Bradford. & Wang, Wendy. (2019) Conservatives: Happier at Home, Worried for the Nation. Institute for Family Studies – IFS. Acesso em: 11 Out. 2021. {link}

[5] Stone, Lyman. (2020) The Conservative Fertility Advantage. Institute for Family Studies – IFS. Acesso em: 11 Out. 2021. {link}

[6] (2014) Religious Landscape Study – Religious composition of conservatives, Pew Research Center. Acesso em: 15 Out. 2021. {link}

[7] Stack, Steven. & Eshleman, Ross (1998) Marital Status and Happiness: A 17-Nation Study. Journal of Marriage and the Family, 60, 527-536.

[8] Wilcox, W. Bradford & Wolfinger, Nicholas H. (2015) Red Families vs. Blue Families: Which Are Happier? Institute for Family Studies – IFS. Acesso em 17 Out. 2021. {link}

[9] Haidt, J. (2006). The happiness hypothesis. New York: Basic Books.

[10] Myers, David G. 2000. The Funds, Friends, and Faith of Happy People. American Psychologist 55:56–67.

[11] Brooks, Arthur C. (2012) Why Conservatives Are Happier Than Liberals. The New York Times. Acesso em 17 Out. 2021. {link}

[12] Jost, J.T., Nosek, B.A., & Gosling, S.D. (2008). Ideology: Its resurgence in social, personality, and political psychology. Perspectives on Psychological Science, 3, 126–136.

[13] Jost, J.T., & Hunyady, O. (2002). The psychology of system justification and the palliative function of ideology. European Review of Social Psychology, 13, 111–153.

[14] Napier, Jaime L.  & Jost, John T. ( 20008) Why Are Conservatives Happier than Liberals? Psychological Science – Vol. 19, No. 6, 565-572

[15] Dreher, Axel & Öhler, Hannes. (2011) Does government ideology affect personal happiness? A test. Economic Letters. (2):161–5.

[16] Stavrova, Olga. & Luhmann, Maike. (2016) Are conservatives happier than liberals? Not always and not everywhere. Journal of Research in Personality. 63:29–35.

Agradecimentos

Este texto contou com a sempre excelente revisão de Caroline Frere e Eduardo J. Veríssimo, aos quais sou muito grato. Sem a decisiva contribuição do amigo Daniel Nunes, que trouxe referências, ideias e insights, o texto também não seria o mesmo. Gracias!

 

Cinco fascinantes descobertas da Idade do Gelo encontradas no pergelissolo de Yukon

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O solo congelado preservou o corpo deste filhote de lobo de sete semanas, que viveu durante a Idade do Gelo. (Créditos: Governo de Yukon)

Traduzido por Julio Batista
Original de Rachael Lallensack para a Smithsonian Magazine

No território canadense de Yukon, imponentes florestas de pinheiros e abetos cobrem as colinas e o rio Yukon e seus afluentes sinuosos cortam vales na paisagem. Os invernos nesta região noroeste do Canadá são rigorosos, mas os meses quentes de verão são iluminados pelo sol até a meia-noite.

Ainda mais ao norte, no entanto, fica a tundra alpina sem árvores, onde temperaturas frígidas mantêm o solo permanentemente congelado. O solo gelado é chamado de pergelissolo ou permafrost. Na maioria das vezes, apenas musgo, líquen e arbustos de raízes rasas podem crescer na tundra.

Embora o número de alces supere o de pessoas em quase duas vezes, Yukon tem uma indústria de mineração movimentada e 14 grupos das Primeiras Nações prosperaram na terra por milhares de anos. Eles são descendentes das últimas ondas de povos antigos que viajaram sobre a Ponte Terrestre de Bering onde hoje é a Sibéria há pelo menos 15.000 anos – antes da travessia ser inundada no final do último período glacial.

Comumente conhecido como a última Idade do Gelo, o último período glacial começou há cerca de 100.000 anos. Durante esse período, a maior parte da América do Norte estava coberta de geleiras, mas as condições no que hoje é o Yukon eram muito secas para a formação destas. Como a maior parte da água do mundo estava presa no gelo, estima-se que o nível do mar tenha estado a 150 metros mais baixo do que é hoje. Isso revelou o fundo do Mar de Bering, criando uma passagem entre o Alasca e a Sibéria conhecida como Beríngia.

Animais antigos fizeram a jornada dezenas de milhares de anos antes dos humanos, e Yukon se tornou um lar vibrante para criaturas gigantes conhecidas como megafauna. Mamutes-lanudos migraram para a América do Norte da Europa e da Ásia, e gerações de cavalos da Idade do Gelo originários da América do Norte podem ter cruzado a ponte de terra mais de uma vez. Ancestrais gigantes de camelos, preguiças, leões, hienas e muitos outros povoaram a paisagem. Quando esses animais morreram, seus corpos provavelmente se decompuseram, e tudo o que não foi eliminado tornou-se parte do solo congelado.

O solo frio do pergelissolo preserva perfeitamente quase tudo dentro dele, incluindo DNA. Genes antigos podem ser facilmente extraídos de ossos e tecidos moles, e os cientistas até encontraram material genético intacto em amostras de solo.

Hoje, os cientistas sabem como esses animais viveram e morreram porque seus ossos e corpos estão muito bem preservados no pergelissolo. Os povos das Primeiras Nações têm profundo conhecimento histórico dos animais da Idade do Gelo, bem como de seus fósseis. Da mesma forma, desde a corrida do ouro de Klondike na virada do século 20, os mineiros descobriram muitos ossos gigantescos – relíquias da Idade do Gelo que continuam a ser encontradas em massa em minas e margens de rios hoje. À medida que as mudanças climáticas avançam, o pergelissolo também está derretendo rapidamente e revelando seu conteúdo – uma espécie de corrida do ouro para os paleontólogos.

Aqui estão cinco descobertas fascinantes que retratam o passado de Yukon.

Filhote de lobo quase perfeitamente preservado

Nome científico: Canis lupus

Zhùr, um filhote de lobo mumificado que viveu cerca de 57.000 anos atrás, foi encontrado por um mineiro no território canadense de Yukon, pouco povoado, onde o pergelissolo preservou notáveis ​​achados paleontológicos por milênios. (Créditos: Governo de Yukon)

O que torna esta descoberta notável: “Ela é a múmia de lobo mais completa que já foi encontrada. Ela está basicamente 100% intacta – tudo o que está faltando são os olhos”, disse a coautora do estudo Julie Meachen, paleontóloga da Universidade de Des Moines, em Iowa (EUA), em uma coletiva de imprensa sobre a descoberta.

O que os cientistas descobriram: em 2016, um mineiro de ouro operando um canhão de água hidráulico na lama congelada descobriu um objeto que os paleontólogos reconheceram como um tesouro. Ele havia desenterrado um lobo-cinzento fêmea quase perfeitamente preservado que morreu há 57.000 anos. O animal da Idade do Gelo foi encontrado na terra ancestral do povo Tr’ondëk Hwëch’in, sendo nomeado de Zhùr, que significa lobo em Hän.

Raios-X de seus ossos e dentes mostraram que ela tinha pouco menos de sete semanas de idade quando morreu, de acordo com um estudo publicado na revista Current Biology. Os cientistas descartaram a fome ou o ataque de predadores como causas da morte porque ela foi preservada de forma tão imaculada. Em vez disso, eles concluíram que um colapso do seu covil provavelmente matou Zhùr.

Uma análise mais aprofundada mostra que sua dieta era rica em peixes, o que sugere que ela pode ter caçado com sua mãe ao longo dos rios, como os lobos modernos fazem hoje. Dados genéticos sugerem que Zhùr tinha parentes distantes na Eurásia e no Alasca. No entanto, os lobos que vivem no Yukon hoje têm uma assinatura genética diferente, o que significa que a população de Zhùr acabou sendo exterminada e substituída por outra.

Embora animais escavados daquela época, como esquilos terrestres do Ártico e furões-de-patas-negras, também tenham sido encontrados em condições semelhantes, “restos mumificados de animais antigos na América do Norte são incrivelmente raros”, disse Zazula em um comunicado. “Estudar este filhote de lobo completo nos permite reconstruir como esse lobo viveu durante a Idade do Gelo de maneiras que não seriam possíveis apenas observando os ossos fósseis.”

Zhùr está em exibição no Centro Interpretativo de Yukon-Beríngia em Whitehorse, Canadá.

Ossos de camelo ocidentais gigantes

Nome científico: Camelops hesternus

O nome em latim dos camelos ocidentais, Camelops hesternus, se traduz em “camelos do passado”. (Créditos: Centro Interpretativo de Yukon-Beríngia)

O que torna essa descoberta notável: os ossos reorganizaram a árvore genealógica dos Camelidae, fornecendo evidências concretas de que os animais estavam intimamente relacionados aos camelos modernos em vez das lhamas, de acordo com um estudo de 2015 publicado na Molecular Biology and Evolution.

O que os cientistas descobriram: A família dos camelos, Camelidae, na verdade se originou na América do Norte há mais de 40 milhões de anos. Sua linhagem acabou se dividindo em camelos e lhamas. Antepassados ​​dos vários dromedários e bactrianos familiares hoje migraram pela Ponte Terrestre de Bering, enquanto predecessores de lhamas e alpacas se mudaram para a América do Sul.

Enquanto isso, os agora extintos camelos ocidentais (Camelops hesternus, que se traduz em “camelos do passado” em latim) permaneceram na América do Norte até o final da Idade do Gelo. Enquanto a maioria deles se aventurou para o sul, até Honduras, alguns foram para o norte, para o Alasca e Yukon.

Ossos de Camelops hesternus encontrados no Yukon fotografados de diferentes ângulos. (Créditos: Heintzman et. al, Molecular Biology and Evolution, 2015)

Por muitas décadas, os cientistas supuseram que os camelos do Ártico estavam mais intimamente relacionados com as lhamas e alpacas nativas da América do Sul porque os ossos de C. hesternus se assemelhavam a uma “lhama gigante” ou “lhamas com esteroides”, disse o paleontólogo Grant Zazula, que trabalha para o território de Yukon.

Em 2008, garimpeiros em Hunker Creek, que fica a cerca de 100 quilômetros da fronteira com o Alasca, coletaram uma pilha de ossos da era do gelo que datam de 75.000 a 125.000 anos. Alguns espécimes peculiares revelaram-se vários ossos de pernas pertencentes a uma espécie extinta de camelos cujos restos raramente são encontrados tão ao norte. Os ossos estavam tão bem preservados nas condições frias que os pesquisadores mais tarde conseguiram extrair DNA.

Os dados genéticos mostraram que os camelos ocidentais da Idade do Gelo se separaram dos camelos modernos há cerca de dez milhões de anos. Os ancestrais dos camelos de hoje migraram pela Beríngia cerca de sete milhões de anos atrás. Os camelos ocidentais do Ártico provavelmente viajaram para o norte de seu alcance típico durante um período mais quente há cerca de 100.000 anos antes de serem extintos há cerca de 10.000 anos.

Dentes de hiena do Ártico

Nome científico: Chasmaporthetes

As hienas antigas provavelmente chegaram à América do Norte pela Beríngia, a ponte de terra que existia entre a Rússia e o Alasca durante vários períodos conhecidos como glaciações, quando grande parte da água do mundo estava contida em geleiras. (Créditos: Julius T. Csotonyi)

O que torna essa descoberta notável: “[Houve] mais de 50.000 ossos de animais da era do gelo encontrados na região de Old Crow no passado, e só temos dois ossos ou dois dentes dessa hiena”, disse Zazula ao CBC em 2019. “Então é um animal muito raro. Era quase como uma agulha no palheiro.”

O que os cientistas aprenderam: quando a maioria das pessoas pensa em hienas, elas provavelmente imaginam os robustos necrófagos que vivem em savanas africanas ou partes áridas da Índia. Os ancestrais dessas criaturas risonhas provavelmente se assemelhavam às hienas de hoje, mas tinham pernas altas e poderosas para correr rápido. Os Chasmaporthetes de fato evoluíram onde hoje é a Europa ou a Ásia há mais de 5 milhões de anos, e seus restos foram desenterrados em todo o mundo, inclusive na Mongólia, Kansas (EUA), México – e agora, em Yukon.

Suspeitava-se que um par de dentes fossilizados armazenado no Museu Natural Canadense em Ottawa seria evidência de hienas que viveram no antigo Ártico, mas uma análise formal não foi concluída até 2019.

Quando o biólogo evolutivo Jack Tseng, especializado em carnívoros pré-históricos, finalmente conseguiu estudar os dentes pessoalmente, ele soube “em cinco minutos” que o molar e o pré-molar de fato pertenciam aos Chasmaporthetes.

Os cientistas encontraram pela primeira vez os dentes fossilizados que agora residem no museu na década de 1970, perto de Old Crow. Charlie Thomas, um ancião da comunidade Gwich’in das Primeiras Nações fez parte do grupo para descobri-los.

Pesquisas recentes determinaram que esse dente, originalmente descoberto em 1977, pertencia à antiga hiena do gênero Chasmaporthetes. (Créditos: Grant Zazula/Governo de Yukon)

Por terem sido encontrados no leito de um rio e não em seu local de descanso original, os dentes são difíceis de datar. No entanto, com base na geologia da bacia, pesquisadores estimam que os dentes pertenciam a uma hiena que andava pela região entre 850.000 e 1,4 milhão de anos atrás.

Como as hienas de hoje, a antigo bicho do Ártico tinha uma boca cheia de dentes perfeitamente adequados para esmagar os ossos de suas presas, que provavelmente eram caribus antigos, bisões jovens ou talvez até mamutes bebês. Quanto ao motivo pelo qual elas foram extintas, os pesquisadores suspeitam que outros predadores da Idade do Gelo, como o urso-de-cara-achatada ou o extinto cão-quebrador-de-ossos, podem ter ganhado a competição dos Chasmaporthetes por comida.

Crânio de castor gigante

Nome científico: Castoroides ohioensis

Mais comprido do que a maioria dos humanos – exceto jogadores profissionais de basquete e vôlei – o castor gigante foi um dos maiores roedores registrados. (Créditos: Museu Natural Canadense)

O que torna essa descoberta notável: “Acho que sempre que alguém vê nosso crânio de castor gigante, eles ficam tipo, ‘Uau, deve ter sido um tigre-dente-de-sabre comedor de pessoas’”, disse Zazula ao Yukon News em 2019.

“Não, eles comiam apenas ervas daninhas da lagoa. É quase tipo, meio anticlimático, sabe? Você tem esse animal de quase dois metros de altura que só come pequenas ervas daninhas e você quer que seja algo mais impactante do que isso, mas não é.”

O que os cientistas aprenderam: Com 1,85 m de comprimento e 100 kg, o Castoroides ohioensis era do tamanho de um urso-negro moderno. A cauda deste enorme roedor se assemelhava mais à de um rato-almiscarado do que a cauda de remo do Castor canadensise moderno.

Este incisivo superior completo de Castoroides ohioensis foi encontrado em Old Crow. (Créditos: Scientific Reports/Foto de Tessa Plint)

Mas os castores gigantes não eram exatamente roedores de árvores e engenheiros do ecossistema que constroem barragens como os castores do Ártico são agora. Em um estudo do Scientific Reports de 2019, os pesquisadores analisaram as assinaturas químicas em vários ossos e dentes fossilizados encontrados em Yukon e Ohio (EUA), estimados entre 10.000 e 50.000 anos. Esses testes mostraram que a criatura pré-histórica preferia plantas aquáticas.

“Basicamente, a assinatura isotópica dos alimentos que você come se incorpora aos seus tecidos”, explicou a autora do estudo, Tessa Plint, da Universidade Heriot-Watt (Reino Unido), em um comunicado de 2019. “Como as proporções isotópicas permanecem estáveis ​​mesmo após a morte do organismo, podemos observar a assinatura isotópica do material fóssil e extrair informações sobre o que esse animal estava comendo, mesmo que esse animal tenha vivido e morrido dezenas de milhares de anos atrás.”

Pesquisadores estudam as dietas da extinta megafauna da Idade do Gelo para entender as mudanças climáticas atuais. Esses animais prosperaram em climas mais úmidos e morreram 10.000 anos atrás, quando se tornou mais quente e seco. Eles podem ter sido perdido a competição para castores menores, que também viveram durante a Idade do Gelo e sobreviveram para roer as madeiras de hoje.

“Ele fornece um análogo muito legal sobre o que está acontecendo hoje no Norte, porque vemos animais se movendo para o norte o tempo todo por causa das condições de aquecimento”, disse Zazula ao Yukon News.

”…[Esta migração] aconteceu há 100.000 anos também”, continuou ele. “Esses animais viram esses ambientes se movendo para o norte e seguiram o ambiente e acabaram em um lugar onde provavelmente não deveriam estar, como Yukon, porque são animais que evoluíram em condições mais ao sul.”

Osso de gato-de-cimitarra

Scientific name: Homotherium latidens

Os gatos-de-cimitarra eram caçadores temíveis. (Créditos: Velizar Simenovski)

O que torna essa descoberta notável: como relativamente poucos fósseis de gatos-de-cimitarra foram encontrados, os cientistas teorizaram que apenas uma população pequena desses felinos com grandes presas existia, de acordo com o CBC. Este úmero os fez reavaliar tal ideia.

O que os cientistas descobriram: Em 2011, um osso foi encontrado no pergelissolo em um local de mineração de Dominion Creek perto de Dawson City. Pertencia a um gato-de-cimitarra (Homotherium latidens) – não deve ser confundido com um dente-de-sabre (Smilodon). Os gatos-de-cimitarra têm caninos mais curtos em forma de adaga com bordas serrilhadas, ao contrário de seus parentes famosos, cujos dentes normalmente mediam assustadores sete centímetros de comprimento.

No entanto, como o osso estava tão bem preservado no pergelissolo gelado, pesquisadores da Universidade de Copenhague conseguiram sequenciar todo o seu genoma. Eles descobriram que os pais do espécime eram apenas parentes distantes, o que significa que a população era grande o suficiente para ser geneticamente diversa – mais do que as espécies modernas de felinos, como leões africanos e linces, de acordo com uma análise comparativa.

Neste diagrama, os pesquisadores combinam 18 genes com uma ligação hipotética a um comportamento, característica física ou adaptação específica. Cerca de mais uma dúzia de genes não mostrados foram analisados ​​e associados à função e imunidade das células. É a Figura 2 no estudo de 2020. (Créditos: Barnett et. al, Current Biology, 2020)

Como se sabe muito sobre a genética humana e animal moderna, os pesquisadores podem identificar certos detalhes físicos associados a genes específicos e, em seguida, analisar como a criatura antiga pode ter se comportado, disse o autor do estudo, Thomas Gilbert, genomicista evolutivo da Universidade de Copenhague, em uma entrevista.

“Sua composição genética sugere que os gatos-de-cimitarra são caçadores altamente habilidosos. Eles provavelmente tinham uma visão diurna muito boa e exibiam comportamentos sociais complexos”, disse Michael Westbury, genomicista evolutivo da Universidade de Copenhague, em um comunicado de 2020.

“Eles tinham adaptações genéticas para ossos fortes e sistemas cardiovascular e respiratório bem estruturados, o que significa que eram adequados para corridas de resistência”, continuou ele. “Com base nisso, achamos que eles caçavam em bando até que suas presas chegassem à exaustão com um estilo de caça baseado em resistência durante o dia.”

Como o osso não pode ser datado usando a datação convencional por radiocarbono, que só pode ser usada para deduzir a idade do objeto dentro de um determinado intervalo, estima-se que tenha mais de 47.500 anos. Provavelmente foi extinto cerca de 10.000 anos atrás, quando outros animais da Idade do Gelo, incluindo sua presa preferida, também se extinguiram. “Assim como o mamute-lanudo, rinoceronte-lanudo, grandes cavalos norte-americanos, todos estes foram extintos ao mesmo tempo”, disse Westbury à CBC.

“Esta era uma família de felinos extremamente bem-sucedida. Eles estavam presentes nos cinco continentes e vagaram pela Terra por milhões de anos antes de serem extintos”, disse Ross Barnett, da Universidade de Copenhague, em um comunicado de 2020. “O atual período geológico é a primeira vez em 40 milhões de anos que a Terra não tem predadores dente-de-sabre. Nós sentimos falta deles.”

Saurópodes gigantes viviam em condições polares na região mais fria do mundo, segundo cientistas

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Saurópode. (Reconstrução artística de Andrey Atuchin)

Traduzido por Julio Batista
Original de The Siberian Times

Evidências de dinossauros gigantes foram encontradas na localidade de Teete em Iacútia, a apenas 450 km ao sul do Círculo Polar Ártico.

A descoberta é a evidência mais ao norte dos saurópodes de pescoço longo, segundo um estudo de 2019. Foram encontradas evidências de dentes de adultos e bebês, vistos como prova de que esses enormes dinossauros não apenas visitaram este local – a 62 graus ao norte – mas viveram aqui.

Na época, esta era uma região polar.

Dentes de saurópodes adultos (acima) e dente de saurópodes infanto-juvenis (abaixo) encontrados na localidade de Teete. (Créditos: Alexander Averyanov et al.)

Anteriormente, havia teorias de que os gigantes – o dobro do tamanho do extinto mamute-lanudo – podem ter migrado para esta área da atual Iacútia em condições favoráveis, mas não residiam permanentemente em condições climáticas desfavoráveis.

Novas evidências mostraram que a localidade de Teete foi o local onde eles passaram por um grande período de tempo, pois é muito improvável que fêmeas grávidas ou dinossauros muito jovens pudessem tolerar migrações temporárias por longas distâncias.

Os dentes são datados do Cretáceo Inferior – cerca de 145 a 125 milhões de anos atrás.

Localidade de Teete em Iacútia marcada no mapa.

A descoberta sobre os herbívoros em Teete foi feita por uma equipe conjunta de cientistas russos e alemães, e é destacada no Lethaia (International Journal of Paleontology and Stratigraphy).

Essas descobertas levantam questões intrigantes para os cientistas sobre como esses dinossauros viviam em áreas polares próximas ao Círculo Polar Ártico.

Embora mais quente do que agora, com uma temperatura média anual de talvez 14°C, a área ainda teria uma longa noite polar, limitando o crescimento das plantas das quais os saurópodes dependiam.

Evidências de estegossauros também foram encontradas aqui, incluindo infanto-juvenis.

Dr. Pavel Skutschas lavando os depósitos ósseos. (Créditos: Dmitry Vitenko)

A necrópole do Cretáceo foi descoberta em 1960 pelo geólogo soviético Vladimir Filatov.

Mais tarde, uma coleção de répteis foi encontrada aqui, com pesquisas lideradas por Petr Kolosov, pesquisador-chefe do Instituto de Geologia de Diamantes e Metais Preciosos da Seção Siberiana da Academia Russa de Ciências.

Em 2017, uma equipe expedicionária liderada pelo professor associado da Universidade de São Petersburgo Pavel Skuchas lavou 500 kg de depósitos ósseos em Teete, resultando na descoberta de numerosos restos de pequenos vertebrados, incluindo peixes, salamandras, tartarugas, lagartos, como bem como os dentes de dinossauro e répteis animais e mamíferos.

Parte da escápula (acima) e um espinho (abaixo) de estegossauro encontrado na localidade de Teete por Petr Kolosov. (Créditos: SakhaMedia)

descoberta das tartarugas foi anunciada no início de 2019.

Na época, o paleobiólogo russo Dr. Pavel Skutschas, da Universidade Estadual de São Petersburgo, disse: “O fato da presença de tartarugas é muito interessante.

“Isso mostra que não havia frio naquela época nesta área, apesar de serem regiões polares. Estes são os achados mais ao norte de tartarugas não marinhas.”

Osso do crânio da tartaruga encontrada em Teete. Reconstrução 3D do crânio da tartaruga. (Créditos: Pavel Skutschas)

Dr. Petr Kolosov disse que o local de Teete era único.

“Existem centenas de localidades conhecidas com restos de dinossauros e outros grupos de vertebrados ao redor do mundo”, disse ele.

“Mas apenas alguns deles estão na região das latitudes polares da era mesozoica.

“Entre eles, apenas quatro localidades pertencem ao período Jurássico Superior-Cretáceo Inferior. Três estão no hemisfério sul e apenas uma no norte. Esta é Teete.”

Petr Kolosov (acima) e a visão geral da localidade de Teete em 2002. (Créditos: SakhaMedia, YSIA)

A equipe de pesquisa de saurópodes compreendeu:

A misteriosa cabeça humana de argila de 2.100 anos com um crânio de carneiro dentro

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A tecnologia de raios-X do período indicava que algo era incomum sobre os ossos que estavam dentro da cabeça de argila - mas não era possível revelar mais. Crédito: Vyacheslav Porosev.

Por Anna Prokhozheva
Publicado no The Siberian Times

A descoberta da magnífica escultura semelhante a um jovem no montículo funerário Shestakovsky nº 6 há muito tempo intrigou os arqueólogos russos.

Entre pessoas cremadas, essa máscara elegante de, talvez, um belo guerreiro imediatamente se destacou como uma descoberta notável quando foi desenterrada pela primeira vez em Cacássia em 1968 pelo professor Anatoly Martynov.

A tecnologia de raios-X do período indicava que algo era incomum sobre os ossos dentro da cabeça de argila – mas não podia revelar mais.

“Há ossos do crânio e um pequeno espaço oco, que, no entanto, não corresponde ao tamanho interno do crânio humano, mas é muito menor”, observou Martynov em 1971.

Mas ver melhor a cabeça de argila por dentro era algo considerado impossível, pois destruiria essa antiga relíquia.

“Foi sugerido que havia um crânio humano dentro. É claro que foi bastante surpreendente ver, em vez disso, um crânio de carneiro”. Crédito: Evgeny Babichev.

Quase quatro décadas depois, os cientistas se voltaram novamente ao mistério desse homem da cultura Tagar, conhecido por seus elaborados ritos funerários como, por exemplo, o uso de grandes criptas contendo cerca de 200 corpos que foram incendiados.

Como a cientista Dra. Elga Vadetskaya havia observado, as cabeças dos mortos eram cobertas de argila, moldando uma nova face no crânio e muitas vezes cobrindo a face de argila com gesso.

Assim, a expectativa era – ao implantar uma nova tecnologia na máscara mortuária do homem – que os ossos dentro, embora pequenos fragmentos, fossem humanos.

Mas eles não eram.

A pesquisa foi liderada pela professora Natalya Polosmak, do Instituto de Arqueologia e Etnografia, e pelo Dr Konstantin Kuper, do Instituto de Física Nuclear, ambos em Novosibirsk, e parte da Seção Siberiana da Academia Russa de Ciências.

O homem “poderia ter se perdido na taiga, se afogado ou desaparecido em terras estrangeiras”. Crédito: Mikhail Vlasenko.

“Eu estava trabalhando com Natalya Polosmak em outras pesquisas, e ela sugeriu verificar esta cabeça porque eles não conseguiam simplesmente olhar para dentro – e ficaram intrigados”, explicou Kuper. “Foi sugerido que havia um crânio humano dentro. É claro que foi bastante surpreendente ver, em vez disso, um crânio de carneiro”.

Mas por quê?

O que fez esses povos antigos encherem os restos humanos com restos de carneiro?

No estudo para a revista Science First Hand, a professora Polosmak oferece duas opções, mas também reconhece que “como este é o único caso até agora, quaisquer explicações sobre esse fenômeno certamente conterão, ao lado dos elementos de singularidade, elementos do acaso”.

O professor Anatoly Martynov desenterrou a cabeça em 1968 em Cacássia. Crédito: Universidade Estadual de Kemerovo.

Ela acredita que o povo Tagar “pode ​​ter enterrado dessa maneira extraordinária um homem cujo corpo não foi encontrado”.

Ela supõe que o homem “poderia ter se perdido na taiga, se afogado ou desaparecido em terras estrangeiras”.

Por esta razão ele foi “substituído por seu ‘ser duplo’ – o animal em que sua alma estava incorporada” e neste foi enviado para a vida após a morte junto com os restos de seus companheiros humanos.

“Esta deve ter sido a única maneira de garantir a vida após a morte de uma pessoa que não voltou para casa. Os arqueólogos conhecem vários desses sepultamentos, chamados de cenotáfios, que não têm restos humanos, mas podem conter um substituto simbólico. Como este último, um animal poderia ter sido usado”.

Cabeça de argila preparada para fluoroscopia no Instituto de Física Nuclear, SB RAS. Crédito: Vyacheslav Porosev.

Sua outra teoria para o “falso sepultamento” é que isso pode ter sido feito para dar ao homem “uma chance de ter um novo começo, uma nova vida em um novo status”.

“Em vez de um homem vivo cuja morte foi encenada por algum motivo, um animal – um carneiro se passando por humano – foi oferecido no lugar”.

Uma coisa é clara: para os antigos, o carneiro tinha um grande significado.

“O que o crânio do carneiro escondido sob as camadas de argila representando o rosto de um homem nos diz? Que é algo acidental? Ou foi o animal o principal herói da história antiga? A última hipótese parece justificada. Um carneiro está entre os animais mais adorados dos tempos antigos. Inicialmente, o deus egípcio Quenúbis era representado como um carneiro (mais tarde, como um homem com cabeça de carneiro)”.

Restos de 200 corpos mumificados encontrados em um dos montículos funerários da cultura Tagar em Belaya Gora. Crédito: A. Poselyanin.

Uma terceira versão foi proposta pela Dra. Vadetskaya em seu livro ‘The Ancient Yenisei Masks from Siberia’ (As Antigas Máscaras Ienissei da Sibéria, na tradução livre) depois de estudar elaborados ritos funerários de povos antigos durante este período de Tesinsk.

Seu trabalho foi baseado em pesquisas de outros arqueólogos, mas também teve contribuições fascinantes de especialistas forenses.

Ela acreditava que o rito funerário tinha duas etapas – a primeira delas era colocar o corpo morto em uma “caixa de pedra” que depois ficava em uma cova rasa ou sob uma pilha de pedras por vários anos.

O objetivo principal era a mumificação parcial – a pele e os tecidos se decompuseram, mas os tendões e a medula espinhal permaneceriam.

Em seguida, o esqueleto era levado intacto e amarrado por pequenos galhos.

Fotos tiradas da cabeça de argila em 1968. Vestígios das cordas e galhos, que foram usados ​​para prender a cabeça ao “boneco fúnebre” são visíveis na parte de trás da cabeça. Crédito: Anatoly Martynov.

O crânio foi trepanado e o resto do cérebro foi removido. Em seguida, o esqueleto foi transformado em uma espécie de ‘boneco’ – foi enrolado com ervas e embainhado com pedaços de couro e casca de bétula.

Então, de acordo com a Dra. Vadetskaya, eles reconstruíram ‘o rosto’ no crânio.

O orifício do nariz, a órbita dos olhos e a boca foram preenchidos com argila, então a argila foi colocada no crânio e o ‘rosto’ foi moldado, embora sem necessariamente muita semelhança facial com o falecido.

Muitas vezes esse rosto de argila era coberto com uma fina camada de gesso e pintado com ornamentos.

Ela suspeitava que essas múmias mascaradas voltaram para suas famílias enquanto aguardavam seu segundo funeral maior.

Isso pode ter acontecido há alguns anos: há evidências de que o gesso foi reparado e repintado.

Os rostos moldados nos crânios eram frequentemente cobertos com uma fina camada de gesso pintada com ornamentos. Créditos: Elga Vadetskaya / Museu Hermitage.

Ela escreveu: “Para algumas múmias, a espera foi muito longa. Elas se decompuseram, então apenas as cabeças foram deixadas para serem enterradas. Em alguns casos, nem a cabeça sobreviveu. Então eles tiveram que recriar toda a imagem do falecido”.

Ela acreditava que esse era o caso do misterioso crânio de carneiro.

Os restos de carneiro foram usados ​​para substituir o crânio humano real deste ‘boneco de múmia’ perdido ou destruído durante as décadas entre os dois ritos fúnebres.

De acordo com Vadetskaya, um grande poço foi cavado para esses ‘grandes’ funerais.

Dra. Elga Vadetsakaya.

Uma casa feita de troncos foi erguida e coberta com casca de bétula e tecidos.

Muitos desses restos humanos foram colocados no interior, e a casa feita de troncos onde os restos mortais estavam foi incendiada.

A casa feita de troncos foi parcialmente incendiada e muitas vezes o telhado desabou.

O sepultamento da cripta foi então coberto com turfa e terra e formou um monte.

Nesse caso em particular, havia relativamente poucos restos humanos – não mais de 15, mas em outros o número pode chegar às centenas.

Então – existem três teorias principais.

Talvez futuros cientistas tenham acesso a uma tecnologia mais elaborada para examinar essa máscara mortuária e desvendar mais segredos sobre essa descoberta extraordinária.