Continentes da Terra antiga foram criados por impactos de meteoritos gigantes, descobrem cientistas

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Ilustração de um meteoro em direção à Terra. (Créditos: solarseven/iStock/Getty Images Plus)

Traduzido por Julio Batista
Original de Michelle Starr para o ScienceAlert

Até hoje, a Terra é o único planeta que conhecemos que tem continentes.

Exatamente como eles se formaram e evoluíram não é claro, mas sabemos – porque as bordas dos continentes a milhares de quilômetros de distância coincidem – que, há muito tempo, a massa terrestre da Terra estava concentrada em um grande supercontinente.

Já que não é assim que o planeta se parece hoje, algo deve ter desencadeado a ruptura desse supercontinente. Agora, temos novas evidências que sugerem que os impactos de meteoritos gigantes desempenharam um papel significativo.

A prova concreta consiste em cristais do mineral zircão, escavados de um cráton na Austrália Ocidental, um pedaço da crosta terrestre que permaneceu estável por mais de um bilhão de anos.

Conhecido como o Cráton de Pilbara, é o pedaço de crosta mais bem preservado do planeta… e os cristais de zircão dentro dele contêm evidências de impactos de meteoritos antigos antes da separação dos continentes.

“Estudar a composição dos isótopos de oxigênio nesses cristais de zircão revelou um processo ‘de cima para baixo’ começando com o derretimento de rochas próximas à superfície e progredindo mais fundo, consistente com o efeito geológico dos impactos de meteoritos gigantes”, explicou o geólogo Tim Johnson, da Universidade Curtin, na Austrália.

“Nossa pesquisa fornece a primeira evidência sólida de que os processos que finalmente formaram os continentes começaram com impactos de meteoritos gigantes, semelhantes aos responsáveis ​​pela extinção dos dinossauros, mas que ocorreram bilhões de anos antes.”

O trabalho foi realizado em 26 amostras rochosas contendo fragmentos de zircão, com idade entre 3,6 e 2,9 bilhões de anos.

A equipe de pesquisa analisou cuidadosamente isótopos de oxigênio; especificamente, as proporções de oxigênio-18 e oxigênio-16, que têm 10 e 8 nêutrons, respectivamente. Essas proporções são usadas na paleogeologia para determinar a temperatura de formação da rocha na qual os isótopos são encontrados.

Com base nessas proporções, a equipe conseguiu distinguir três etapas distintas e fundamentais na formação e evolução do Cráton de Pilbara.

A primeira etapa é a formação de uma grande proporção de zircões consistente com a fusão parcial da crosta. Esse derretimento parcial, mostram os pesquisadores, foi provavelmente o resultado do bombardeio de meteoritos, que aqueceu a crosta planetária no momento do impacto.

O aglomerado mais antigo desses zircões, segundo a interpretação da equipe, foi resultado de um único impacto gigante que levou à formação do cráton.

A segunda etapa foi um período de reformação e estabilização do núcleo crustal, seguido pela terceira etapa – um período de fusão e formação de granito. Esse núcleo estabilizado então, muito mais tarde, evoluiria para se tornar os continentes de hoje, assim como os crátons encontrados em outros continentes ao redor do mundo.

No entanto, muitos meteoritos atingiram a Terra em eras passadas, em números muito maiores do que o número de continentes. São apenas os maiores impactos que podem gerar calor suficiente para criar os crátons, que parecem ser duas vezes mais grossos que a litosfera circundante.

Essas descobertas são consistentes com os modelos propostos anteriormente para a formação de crátons em todo o mundo – mas constituem, segundo os pesquisadores, a evidência mais forte ainda para a teoria.

No entanto, é apenas um cráton, dos cerca de 35 conhecidos. Para tornar as evidências ainda mais fortes, a equipe precisará comparar seus resultados com mais amostras de outros crátons, para ver se seu modelo é consistente globalmente.

“Dados relacionados a outras áreas da antiga crosta continental na Terra parecem mostrar padrões semelhantes aos reconhecidos na Austrália Ocidental”, disse Johnson. “Gostaríamos de testar nossas descobertas nessas rochas antigas para ver se, como suspeitamos, nosso modelo é mais amplamente aplicável”.

A pesquisa foi publicada na Nature.

Gorilas inventaram uma vocalização única para chamar a atenção dos tratadores de zoológico

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(Créditos: Jupiterimages/Getty Images

Traduzido por Julio Batista
Original de Tessa Koumoundouros para o ScienceAlert

Em uma descoberta fascinante, os gorilas-ocidentais-das-terras-baixas (Gorilla gorilla gorilla) no zoológico de Atlanta, EUA, foram pegos convocando seus tratadores usando um estranho híbrido de tosse e espirro.

Apenas duas outras espécies demonstraram essa capacidade de criar novas vocalizações para atrair nossa atenção: chimpanzés e orangotangos em zoológicos. Agora, podemos adicionar gorilas a essa lista.

Abaixo, a gorila Sukari, de 24 anos, demonstra esse gorila equivalente a um ‘aham’ humano que os pesquisadores chamaram de ‘snough’ – algo como “tossiro”, em português.

Como muitos de nós sabemos, Koko destacou a inteligência dos gorilas nos anos 80 e 90 com sua incrível capacidade de se comunicar com humanos usando linguagem de sinais. Ela foi treinada e trabalhou diligentemente para isso, mas agora parece que os gorilas se encarregaram de estabelecer uma comunicação única conosco em seus próprios termos.

A antropóloga biológica da Universidade da Geórgia, EUA, Roberta Salmi, e seus colegas, realizaram um experimento para confirmar o propósito do ‘snough’, colocando oito gorilas do zoológico em três situações diferentes.

Na primeira, apenas o tratador estava presente; no segundo, apenas o alimento estava presente; e no final, o tratador estava segurando a comida. A comida e o tratador, quando presentes, estavam à vista, mas fora de alcance.

Os gorilas envolvidos usaram a vocalização ‘snough’ mais quando havia um humano presente com comida, indicando que a chamada vocal é provavelmente uma tentativa de chamar a atenção do tratador.

Curiosamente, a mesma chamada vocal também foi encontrada em outros zoológicos dos EUA. Cerca de 33 gorilas em 11 zoológicos diferentes nos EUA e no Canadá fizeram uma chamada semelhante, embora apenas seis gorilas em quatro instalações diferentes tenham sido confirmados usando o som até agora.

Salmi e sua equipe não têm certeza se diferentes grupos se deram conta independentemente de que esse som é eficaz, ou se ele se espalhou pelos primatas inteligentes (que são mais do que capazes de aprender uns com os outros) transmitindo seus conhecimentos uns aos outros.

A maioria dos componentes da linguagem emerge nos sistemas de comunicação de outros animais, como aprendizado vocal, sintaxe e semântica. Acreditava-se que os primatas não humanos não tinham o equipamento certo para vocalizar da maneira que fazemos, mas isso já se mostrou falso.

Compartilhamos músculos vocais semelhantes, bem como nossa história evolutiva compartilhada. O que quer que os impeça de uma mímica vocal avançada os colocaram na categoria de aprendizes ‘não-vocais’.

Os gorilas nunca foram pegos usando o ‘snough’ para se comunicarem. A novidade desta chamada se soma a um crescente corpo de evidências de que os primatas podem de fato produzir novos sons para novos contextos e, portanto, são aprendizes vocais.

“Evidências de aprendizado vocal e/ou inovação, embora escassas, estão se acumulando lentamente para primatas em cativeiro”, escreveu a equipe em seu paper.

“Os orangotangos podem aprender a produzir enunciados sonoros e assobios, os chimpanzés adotam novos chamados referenciais de alimentos por meio da convergência vocal sob integração social e primatas enculturados, como o gorila Koko e o chimpanzé Vicky, são capazes de produzir um número limitado de novos enunciados”.

Pesquisas anteriores também mostraram que os gorilas podem reconhecer e distinguir entre as vozes de diferentes humanos.

Exemplos de aprendizagem vocal complexa – a capacidade de produzir sons únicos – são raros no reino animal e confirmados apenas em algumas espécies de aves, morcegos, pinípedes, cetáceos e elefantes. Mas todos o fazem imitando.

A análise acústica mostrou que o snough do gorila é um som único, não uma mímica – embora esses primatas atrevidos sejam certamente capazes de nos imitar de outras maneiras.

“Esses resultados demonstram que os gorilas podem modificar suas chamadas para produzir um novo som e, além disso, confirmar que podem produzir suas chamadas e gestos intencionalmente para modificar o estado de atenção de seu tratador”, concluiu a equipe em seu paper.

Nós claramente subestimamos há muito tempo essas almas inteligentes.

Esta pesquisa foi publicada na PLOS One.

Novo isópode gigante das profundezas é descoberto no Golfo do México

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(Créditos: Dr Ming-Chih Huang, Journal of Natural History)

Traduzido por Julio Batista
Original de Carly Cassella para o ScienceAlert

No caso de uma catástrofe futura, costuma-se dizer que as baratas serão a última forma de vida que restará na Terra. Mas há outro artrópode mais misterioso vivendo nas profundezas que pode dar às baratas uma boa competição.

Um grupo de isópodes do tamanho de uma bola de futebol tem perambulado pelo fundo do mar como insetos gigantes por 200 ou 300 milhões de anos, mesmo durante o evento de extinção dos dinossauros.

Uma das maiores espécies vivas hoje, Bathynomus giganteus, pode ser encontrada em profundidades de mais de 2.500 metros. Foi capturada pela primeira vez no Golfo do México em 1879 e, como se vê, pode ser duas espécies associadas a uma.

Uma análise moderna de isópodes gigantes conhecidos que vivem no fundo do mar encontrou diferenças sutis, mas significativas, em seu DNA e morfologia (sua forma e estrutura).

Um espécime encontrado em 2017, por exemplo, tinha um corpo esbelto em comparação com outros espécimes de B. giganteus, apesar de ter sido designado inicialmente como essa espécie.

O curioso espécime foi encontrado na península de Iucatã entre 600 e 800 metros de profundidade, onde B. giganteus já havia sido encontrado antes. Mas havia algo diferente sobre este. Era um pouco mais curto em comprimento total, medindo 26 centímetros, e suas antenas eram relativamente longas.

Embora mais dados sejam necessários para confirmar a classificação taxonômica exata do espécime, os pesquisadores suspeitam que ele represente uma nova espécie separada de Bathynomus, e eles a chamaram de B. yucatanensis.

A nova espécie provavelmente passou despercebida até agora porque o número de espinhos em sua cauda coincide com o de B. giganteus – pensava-se que esse era um ponto-chave de distinção entre as espécies.

Os pesquisadores também dizem que outros espécimes do Mar da China Meridional foram erroneamente rotulados como B. kensleyi, quando, de fato, análises moleculares e morfológicas mostraram que na verdade são B. jamesi.

“É cada vez mais evidente que as espécies de Bathynomus podem ser extremamente semelhantes na aparência geral, e também que há uma longa história de identificação errônea de espécies do gênero”, escreveram os autores da análise.

Até hoje, cientistas catalogaram cerca de 20 espécies de criaturas vivas que pertencem ao gênero Bathynomus.

Embora esses animais aquáticos possam parecer semelhantes às baratas terrestres gigantes, eles também são parentes distantes de caranguejos, camarões e lagostas.

Em comparação com seus parentes, no entanto, não sabemos quase nada sobre isópodes gigantes. O que sabemos sugere que eles estão bem equipados para lidar com grandes eventos de extinção. Às vezes, eles podem ficar sem comida por anos.

Isso é provavelmente necessário nas profundezas, onde os nutrientes são raros e disputados ferozmente. Quando uma refeição fica disponível, vale a pena chegar primeiro à mesa.

Em 2019, quando os pesquisadores jogaram uma carcaça de jacaré no Golfo do México, levou apenas um dia para uma tropa de “insetos” gigantes Bathynomus, devorar a refeição. Alguns comeram tanto que começaram a tombar como se estivessem estupefatos.

Embora um jacaré possa parecer deslocado no oceano, é comum que suas carcaças cheguem ao Golfo do México por meio de rios ou tempestades.

As baleias mortas também são uma fonte de alimento conhecida para insetos gigantes isópodes famintos nas profundezas.

O que mais essas criaturas fazem enquanto esperam a próxima refeição cair é um mistério.

B. giganteus é de fato a espécie mais próxima de B. yucatanensis“, concluiu o novo paper.

“Isso indica que as duas espécies provavelmente tiveram um ancestral comum. Além disso, também pode haver outros Bathynomus spp. não descobertos no Atlântico ocidental tropical.”

Podemos estar notando esses “insetos” encouraçados gigantes agora, mas eles existem há muito mais tempo do que a curiosidade humana.

Há uma boa chance de que eles durem mais que nossa espécie. O histórico deles é certamente melhor.

O estudo foi publicado no Journal of Natural History.

Afinal, o cérebro humano pode não estar encolhendo

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(Créditos: Urs Flueeler/EyeEm/Getty Images) HUMANOS

Traduzido por Julio Batista
Original de Carly Cassella para o ScienceAlert

Os humanos têm muito orgulho de seus cérebros. Gostamos de pensar que somos uma espécie inteligente e, embora o tamanho não seja tudo, nossas caixolas são algumas das maiores que a natureza tem a oferecer.

A ideia de que nossos cérebros estão encolhendo não é algo que gostamos de considerar. Por mais de quatro décadas, os especialistas ignoraram a hipótese apresentada repetidas vezes por um grupo unido de paleontólogos.

Agora, a hipótese do encolhimento do cérebro está sendo testada mais uma vez, com uma equipe da Universidade de Nevada, Las Vegas (UNLV), EUA, dizendo que ela não resiste a uma análise profunda.

O debate realmente começou no ano passado quando um paper do paleoantropólogo Jeremy DeSilva e seus colegas, baseado em uma comparação de fósseis humanos com padrões evolutivos em colônias de formigas, popularizou a ideia de que o cérebro humano havia encolhido em volume em cerca de quatro bolas de pingue-pongue.

Além do mais, eles alegaram que isso aconteceu apenas 3.000 anos atrás.

Isso é realmente recente em comparação com outras teorias. Alguns cientistas disseram que os cérebros humanos começaram a encolher em algum momento após a última era glacial, que terminou há cerca de 11.700 anos.

O paper de DeSilva posicionou a perda no tamanho do cérebro exatamente na época em que surgiram as sociedades humanas complexas.

Como tal, foi sugerido um cérebro menor desenvolvido porque a informação agora pode ser armazenada por escrito ou distribuída entre outras pessoas em uma comunidade.

Nossos cérebros, em outras palavras, não ficaram mais burros; tornaram-se mais eficientes.

A teoria atraente ganhou atenção mundial, mas nem todos estavam convencidos. E a equipe da UNLV agora afirma ter desmontado toda a ideia.

“Reexaminamos o conjunto de dados de DeSilva et al. e descobrimos que o tamanho do cérebro humano não mudou em 30.000 anos, e provavelmente não em 300.000 anos”, disse o antropólogo da UNLV Brian Villmoare.

“Na verdade, com base neste conjunto de dados, não podemos identificar redução no tamanho do cérebro em humanos modernos em qualquer período de tempo desde as origens de nossa espécie”.

As descobertas são baseadas em uma nova análise de crânios fossilizados, elaborada por Villmoare e seus colegas, que difere do paper de DeSilva em vários aspectos importantes.

De todos os 987 crânios analisados ​​por DeSilva e colegas, apenas 23 realmente vêm do período de tempo crítico para sua hipótese de encolhimento do cérebro. O conjunto de dados no novo estudo é muito mais restrito para evitar distorcer os resultados. Ele se concentra apenas em humanos modernos dos últimos 300.000 anos.

Isso porque os pesquisadores da UNLV não estão convencidos de que todos os quase 10 milhões de anos da história humana primitiva sejam relevantes para um evento que supostamente ocorreu há 3.000 anos.

Mesmo nos últimos 300.000 anos, a maioria dos fósseis humanos incluídos na análise do UNLV foi datada nos últimos 10% da série temporal. Fósseis mais antigos são simplesmente mais difíceis de encontrar.

Para compensar essa comparação desequilibrada, os pesquisadores se concentraram em fósseis de crânio humano dos últimos 30.000 anos especificamente, o que criou uma distribuição mais normal.

Usando os mesmos métodos de DeSilva no conjunto de dados recém-aprimorado, os pesquisadores não encontraram nenhum ponto de mudança significativo no tamanho do crânio humano em ou próximo a 3.000 anos atrás.

“No geral, nossa conclusão é que, dado um conjunto de dados mais apropriado para a questão da pesquisa, o tamanho do cérebro humano tem se mantido notavelmente estável nos últimos 300 mil anos”, escreveram Villmoare e colegas.

“Assim, hipóteses de mudanças recentes não são apoiadas pelas evidências.”

DeSilva e colegas ainda não responderam às críticas recentes, mas há poucas dúvidas de que terão algo a dizer. Em 2021, os autores disseram esperar que outros testassem suas hipóteses.

Eles certamente conseguiram o que desejavam.

O novo estudo foi publicado na Frontiers in Ecology and Evolution.