Há uma forte relação entre a astrologia e o racismo

Benjamin Radford
Publicado na Center for Inquiry

Há muitas objeções científicas e céticas à astrologia, incluindo o fato de que as constelações mudaram desde que a astrologia foi concebida, que muitos testes do mundo real falharam em encontrar padrões estatisticamente significativos na vida das pessoas nascidas sob certos signos do zodíaco e que existem múltiplas – e de fato contraditórias – versões da astrologia em que os adeptos acreditam fervorosamente. Para obter mais informações, consulte o podcast Skeptoid, o Dicionário do Cético e, claro, muitos artigos do Universo Racionalista.

Contudo, o que pode ser ainda mais perturbador é a grande semelhança entre a astrologia e o racismo. A premissa básica da astrologia é que as pessoas que nasceram em determinados momentos e lugares compartilham características de personalidade específicas e distintas. Dizem que librianos como eu, por exemplo, são diplomáticos, refinados, idealistas e sociáveis; os cancerianos são emocionais, sensíveis e domésticos; aqueles nascidos sob o signo de Touro são teimosos, analíticos e metódicos, e assim por diante. Centenas de milhões de pessoas leem seus horóscopos diariamente, ou pelo menos sabem algo sobre seus signos solares.

A astrologia e o racismo compartilham muitas das mesmas ideias. Por um lado, em ambos os casos, uma pessoa está sendo julgada por fatores além de seu controle. Assim como uma pessoa não tem controle sobre sua raça ou cor da pele, ela também não tem controle sobre quando e onde nasceu. Tanto a astrologia quanto os estereótipos raciais são baseados em uma estrutura de crença que basicamente diz: “Mesmo sem conhecê-lo, eu acredito em algo a seu respeito: eu posso esperar esse tipo de comportamento ou característica (teimosia, preguiça, arrogância, etc.) de membros desse grupo específico de pessoas (judeus, negros, arianos, piscianos, etc.)”.

Quando um astrólogo descobre o signo astrológico de uma pessoa, ele ou ela traz para essa experiência uma lista preexistente de suposições (preconceitos) sobre o comportamento, a personalidade e o caráter dessa pessoa. Em ambos os casos, os preconceitos farão com que as pessoas procurem e confirmem suas expectativas. Os racistas procurarão exemplos de características e comportamentos nos grupos que não gostam, enquanto os astrólogos buscarão os traços de personalidade que acreditam estar presentes em um indivíduo. Como as pessoas têm personalidades complexas (todos somos preguiçosos algumas vezes, etc.), tanto os racistas quanto os astrólogos encontrarão evidências que confirmam suas crenças.

Como Carl Sagan escreveu: “É como o racismo ou o sexismo: você tem doze pequenas classificações e, assim que coloca alguém como membro desse grupo em particular… você conhece suas características. Isso poupa o esforço de conhecê-lo individualmente”. Outros, é claro, notaram a mesma coisa, incluindo o blog The Friendly Atheist.

A astrologia tem sido utilizada há muito tempo para discriminar as pessoas. De acordo com uma lista de empregos em Wuhan, na China, uma empresa de treinamento de idiomas procurou candidatos qualificados, além de não serem escorpianos ou virginianos. O Toronto Sun informou que Xia, uma porta-voz da empresa, disse que, em sua experiência, escorpianos e virginianos são frequentemente “mal-humorados e críticos”. Xia disse: “Eu contratei pessoas com esses dois signos antes e eles gostavam de brigar com os colegas ou não podiam fazer o trabalho por muito tempo”. Ela preferia potenciais candidatos que eram capricornianos, librianos e piscianos. Para alguns, pode parecer uma piada de mau gosto, mas não é engraçado para os candidatos qualificados desesperados por um emprego que se afastam da seleção por causa da credulidade da empresa com a astrologia. Em 2009, uma companhia de seguros austríaca anunciou: “Estamos à procura de pessoas com mais de 20 anos para empregos de meio período em vendas e administração com os seguintes signos: Capricórnio, Touro, Aquário, Áries e Leão”.

De fato, os astrólogos não são necessariamente racistas. Contudo, os sistemas de crenças subjacentes a ambos os pontos de vista são idênticos: pré-julgamentos em indivíduos com base em crenças gerais sobre um grupo. Se não assumimos que afro-americanos são preguiçosos, árabes são terroristas ou asiáticos são gênios escolares, por que assumiríamos que cancerianos são emocionais, arianos são líderes natos ou geminianos são otimistas não conformistas? As pessoas devem ser julgadas como únicas, individuais, não com base em que grupo arbitrário pertencem. Parafraseando Martin Luther King Jr., uma pessoa deve ser julgada não pela cor de sua pele – nem pela data e hora de seu nascimento – mas pelo conteúdo de seu caráter.

Engenheiro desenvolve método para separar doenças do sangue com ímãs

Créditos: NeedPix / Victor Tangermann.

Por Kristin Houser
Publicado na Futurism

Um engenheiro britânico encontrou um método de filtrar células indesejadas do sangue utilizando ímãs – e esta ferramenta poderia ser utilizada em testes clínicos a partir do próximo ano.

Graças à pesquisa existente, o bioquímico George Frodsham soube que era possível forçar nanopartículas à se juntarem à células específicas do corpo. Porém, enquanto outros pesquisadores utilizavam essa técnica para tornar estas células visíveis em imagens, Frodsham se questionou se poderia utilizar o método para remover células indesejadas do sangue.

“Quando alguém tem um tumor você o remove”, contou ele ao The Telegraph. “Câncer de sangue é um tumor no sangue, então por que não fazer o mesmo?”

Então, segundo esse raciocínio, ele criou o MediSieve, um tratamento tecnológico que funciona de modo similar à diálise: remove o sangue do paciente e o mistura à nanopartículas magnéticas criadas para se unirem à partículas de uma doença específica. Então, é utilizado um ímã para remover as partículas magnéticas com as células adoecidas antes de permitir que o sangue filtrado volte para o paciente.

A ideia é que médicos passem o sangue de uma pessoa pela máquina várias vezes até que os níveis da doença no sangue estejam baixos o suficiente para que ela seja combatida por medicamentos ou até então pelo próprio sistema imune do paciente.

A equipe de Frodsham está atualmente esperando pela aprovação da Agência Reguladora de produtos médicos do Reino Unido para testar o sistema em pacientes infectados com o parasita da malária, que é naturalmente magnético graças ao seu consumo de dejetos com ferro na composição.

O teste humano poderá acontecer em 2020, e se tudo correr bem, um segundo teste será conduzido com a bactéria causadora de sepse, em 2021.

“Em teoria, este método pode funcionar com quase tudo”, Frodsham disse ao The Telegraph. “Venenos, patógenos, vírus, bactérias; tudo que pudermos ligar às partículas magnéticas, poderemos remover. Então é uma ferramenta  potencial muito poderosa”.

O problema mente-cérebro: procurando o fantasma na máquina

Créditos: Adimas / Adobe.

Por Jamie Hale
Publicado na Center for Inquiry

Você provavelmente já ouviu as frases “mente sobre matéria”, “está tudo em sua cabeça” ou “mente e corpo”. Essas frases implicam na separação entre mente e corpo/cérebro. Essas concepções de mente misteriosa como sendo algo diferente da natureza física ou material têm existido ao longo do tempo.

Alguns cientistas do cérebro sugeriram que a maioria das pessoas é naturalmente dualista; elas acreditam que a mente é imaterial, não-física e não tem um local específico (não envolve propriedades espaciais), enquanto o corpo/cérebro é uma estrutura física. No entanto, a maioria dos dualistas concorda que há interação, pelo menos em algum nível, entre a mente não-física (alma racional, mental) e o corpo físico. Esses tipos de interações levantam uma pergunta intrigante: como essas interações ocorrem em um universo físico, mecanicista e materialista?

Platão, que não considerava a necessidade de evidências empíricas, acreditava que a única razão pela qual podemos pensar em nós mesmos e em nosso corpo mortal é que temos uma alma imaterial e imortal (Kandel 2006). Aristóteles afirmou que uma psique não-material era responsável por todo pensamento, emoção e motivação humana. Na visão de Aristóteles, a psique trabalhou através do coração para produzir ação (Kolb e Whishaw 2009). A mente é um termo anglo-saxão que representa memória; quando a psique foi traduzida para o inglês, tornou-se mente. Posteriormente, no século XIII, quando São Tomás de Aquino incorporou a alma ao pensamento cristão, ele e outros pensadores religiosos acreditavam que a alma é divina.

Os pensamentos modernos sobre a separação da mente e do corpo são fortemente influenciados por René Descartes. Descartes era um anatomista, matemático e filósofo francês. Quase todo livro didático, texto popular ou discussão em sala de aula a respeito da natureza distinta da mente e do corpo envolve a menção de Descartes. No século XVII, Descartes promoveu a ideia de que os seres humanos têm uma natureza dupla: eles têm um corpo composto de substância material e uma mente que se origina da natureza espiritual da alma. Gilbert Ryle, filósofo da ciência, em sua crítica ao dualismo cartesiano, referiu-se à alma como “o fantasma na máquina”.

Descartes acreditava que os animais eram diferentes dos humanos. “Os animais nada mais eram do que máquinas intrinsecamente trabalhadas compostas de partículas passivas” (Zimmer 2004, 36). Os seres humanos eram diferentes dos animais, pois continham uma substância independente da matéria ou das propriedades físicas. A mente/alma racional não era influenciada por leis mecânicas. A mente era capaz de coisas que nenhuma máquina era capaz: consciência, memória detalhada, dúvida e compreensão complexa. Descartes acreditava que a alma se comunicava com o corpo e que a comunicação ocorria através da glândula pineal. Ele identificou a glândula pineal como o assento da alma (Kolb e Whishaw 2009; Shorto 2008). Ele escolheu essa glândula como o lugar onde a alma reside, seguindo a lógica de que a glândula pineal é a única estrutura no cérebro que não compreende duas metades bilateralmente simétricas.

Hoje sabemos que a glândula pineal está envolvida com biorritmos e, na verdade, não é um local de armazenamento da alma. Quando as pessoas sofrem danos na glândula pineal, elas não perdem a mente; na verdade, alterações comportamentais ou cognitivas não ocorrem. Os dualistas devem abordar a questão intrigante: se a mente e o corpo são completamente distintos, como é que uma estrutura física, como a glândula pineal, transmite energia mental imaterial? Descartes nunca foi capaz de resolver esse problema. Ele até insinuou que esse problema poderia ser muito difícil para a mente humana contemplar, observando que “não me parece que a mente humana seja capaz de formar uma concepção muito diferente da distinção entre a alma e o corpo e sua união; para fazer isso, é necessário concebê-las como uma coisa única e, ao mesmo tempo, concebê-las como duas coisas; e isso é um absurdo” (citado em Shorto 2008, 177). Descartes desistiu da abordagem dualista da mente e do corpo?

A mente biológica

Há mais de 2000 anos, Hipócrates argumentou que todos os processos mentais emanam do cérebro. Em meados do século XIX, a visão do materialismo estava sendo formada. O materialismo afirma que o comportamento pode ser explicado em função do cérebro, sem necessidade de mente imaterial; o cérebro é essencial para a mente. Uma série de casos clínicos relatados no final do século XIX mostrou que lesões cerebrais no lobo frontal inferior, no hemisfério esquerdo, foram associadas a distúrbios da fala. Paul Broca e Carl Wernicke encontraram áreas de fala no cérebro. Quando essas áreas foram danificadas, os distúrbios de linguagem ocorreram (Kolb e Whishaw 2009). Wernicke forneceu o primeiro modelo mostrando como a linguagem é representada no hemisfério esquerdo do cérebro. Outra forte linha de evidência indicando o papel do cérebro no processamento mental é a pesquisa que mostra os fundamentos biológicos da memória. Na última parte do século XX, o neurocirurgião William B. Scoville removeu as partes do meio dos lobos temporais de um paciente referido como H. M. A remoção foi realizada como um tratamento de epilepsia grave. O tratamento interrompeu a epilepsia, mas resultou em grave perda de memória. Eric Kandel ganhou o Prêmio Nobel por sua pesquisa em biologia da memória.

Um dos pacientes neurológicos mais famosos da história é Phineas Cage. Durante uma explosão, uma longa barra de ferro foi lançada em sua cabeça. A barra entrou na bochecha esquerda, passou pela órbita ocular através de partes do lobo frontal e pela parte superior do crânio. Após o acidente, sua memória era a mesma, mas sua personalidade e habilidades sociais mudaram drasticamente. As pessoas que o conheciam disseram que ele não era mais a mesma pessoa. Estudos de caso envolvendo lesões cerebrais semelhantes mostram que a personalidade das pessoas mudou e elas perderam a capacidade de agir de maneira socialmente aceitável.

O neurocientista Michael Gazzaniga apresenta perguntas interessantes ao dualista mente-corpo: como você explica alterações de personalidade, alterações na produção de linguagem, alterações na recuperação da memória, alterações na consciência ou quaisquer outras alterações resultantes de danos cerebrais (Gazzaniga 2009)? Como uma extensão da linha de questionamento de Gazzaniga, considere o seguinte: a demência (declínio cognitivo) é o resultado de alterações cerebrais, a plasticidade cerebral existe (as experiências alteram a anatomia do cérebro), o fortalecimento da memória indica mudanças na estrutura cerebral e as substâncias que alteram a mente (álcool, heroína, cocaína, LSD, etc.) induzem alterações na química do cérebro.

A maioria dos cientistas do cérebro concorda que a mente está enraizada na neurobiologia. Essa visão rejeita a posição do dualismo mente/corpo (Satel e Lilienfeld 2013). Uma avaliação abrangente da mente e de suas propriedades emergentes envolve um nível de análise baseado no cérebro, mas também medidas comportamentais e cognitivas. (As propriedades emergentes são funções de ordem superior derivadas de interações complexas entre propriedades de ordem inferior; portanto, elas não podem ser reduzidas a meras propriedades de ordem inferior. A mente não é totalmente redutível ao nível dos elementos neurais/cerebrais.)

Um estudo abrangente da mente requer neurociência e psicologia. A mente reflete sinais eletro-químicos que emanam do cérebro. A mente é um produto de sistemas biológicos; é moldada por interações que envolvem o cérebro, o próprio corpo e o meio ambiente. Como observa Eric Kandel, ganhador do Nobel:

“Mente e cérebro são inseparáveis. O cérebro é um órgão biológico complexo de grande capacidade computacional que constrói nossas experiências sensoriais, regula nossos pensamentos e emoções e controla nossas ações. O cérebro é responsável não apenas por comportamentos motores relativamente simples, como correr e comer, mas também por atos complexos que consideramos essencialmente humanos, como pensar, falar e criar obras de arte. Observada dessa perspectiva, a mente é um conjunto de operações realizadas pelo cérebro, assim como caminhar é um conjunto de operações realizadas pelas pernas, exceto dramaticamente mais complexas”.

Referências

  • Gazzaniga, M. 2009. Human: The Science Behind What Makes Us Unique. New York, NY: Harper Collins Publishers.
  • Kandel, E. 2006. In Search of Memory: The Emergence of a New Science of Mind. New York, NY: W.W. Norton & Company.
  • Kolb. B., and I. Whishaw. 2009. Fundamentals of Human Neuropsychology, 6th Edition. New York, NY: Worth Publishers.
  • Satel, S., and S. Lilienfeld. 2013. Brainwashed: The Seductive Appeal of Mindless Neuroscience. New York, NY: Basic.
  • Shorto, R. 2008. Descartes’ Bones: A Skeletal History of the Conflict between Faith and Reason. New York, NY: Vintage Books.
  • Zimmer, C. 2004. Soul Made Flesh: The Discovery of the Brain and How It Changed the World. New York, NY: Free Press.

Novo protocolo de classificação de dados quânticos nos aproxima de futura internet quântica

Publicado na Phys

As tecnologias de comunicação e computação baseadas em mecânica quântica prometem aplicações sem precedentes, como comunicações incondicionalmente seguras, sensores ultraprecisos e computadores quânticos capazes de resolver problemas específicos com um nível de eficiência impossível de alcançar pelos computadores clássicos. Nos últimos tempos, os computadores quânticos também têm sido vistos como nós em uma rede de dispositivos quânticos, onde as conexões são estabelecidas através de canais quânticos e os dados são sistemas quânticos que fluem através da rede, estabelecendo assim as bases para uma futura “internet quântica”.

Com o projeto dessas redes de informação quântica, surgem novos desafios teóricos, dado que é necessário estabelecer protocolos automatizados de tratamento de informações otimizados para trabalhar com dados quânticos, da mesma forma que as redes de comunicação atuais gerenciam automaticamente as informações.

Os pesquisadores da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) tiveram que lidar com um desses desafios pela primeira vez: o problema com a triagem de dados de uma rede de sistemas quânticos de acordo com o estado em que foram preparados. Os pesquisadores desenvolveram um procedimento ideal que pode identificar clusters de sistemas quânticos preparados de forma idêntica.

O protocolo desenvolvido pelos pesquisadores da UAB mostra uma conexão natural a um caso de uso arquetípico do aprendizado de máquina clássico: agrupamento de amostras de dados de acordo com o compartilhamento de uma distribuição de probabilidade subjacente comum. O problema é semelhante ao modo como um computador clássico discerne a origem de diferentes sons capturados simultaneamente por um microfone colocado na rua. O computador pode reconhecer padrões e discernir uma conversa, tráfego e um músico de rua. No entanto, ao contrário das ondas sonoras, identificar padrões em dados quânticos é muito mais desafiador, pois uma mera observação fornece apenas informações parciais e degrada irremediavelmente os dados no processo.

Os físicos da UAB também foram capazes de comparar os desempenhos dos protocolos clássico e quântico. De acordo com os pesquisadores, o novo protocolo supera de longe as estratégias clássicas, particularmente para grandes dados dimensionais.

Essa proposta representa um novo passo em direção às redes de informação quântica, dado que estabelece uma sólida estrutura teórica sobre o que é fisicamente possível no campo da classificação e distribuição automatizadas de informação quântica. A pesquisa foi publicada na revista Physical Review X e é de autoria de pesquisadores da Unidade de Fenômenos Quânticos e Informações do Departamento de Física da UAB, Gael Sentís, Àlex Monràs, Ramon Muñoz-Tàpia, Jon Calsamiglia e Emilio Bagan.