A capacidade cognitiva varia, mas o preconceito é universal

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Quando o assunto é preconceito, não importa se você é inteligente ou não, conservador ou liberal, cada grupo tem seus próprios preconceitos específicos. Em um estudo recente, os psicólogos mostraram que a baixa capacidade cognitiva (ou seja, inteligência, capacidade verbal) não foi um preditor consistente de preconceito. A capacidade cognitiva, seja alta ou baixa, só prevê preconceito em relação a grupos específicos. Os resultados foram publicados na revista Social Psychological and Personality Science.

“Pouquíssimas pessoas são imunes a expressar preconceito, especialmente preconceito em relação às pessoas que discordam”, diz o principal autor do estudo Mark Brandt (Universidade Tilburg, Holanda).

Brandt e Jarrett Crawford (The College of New Jersey) analisaram dados de 5914 pessoas nos EUA que incluem uma medida de capacidade verbal e preconceito em relação a 24 grupos diferentes.

Analisando os resultados, os pesquisadores descobriram que pessoas com níveis cognitivos relativamente altos e baixos mostram níveis aproximadamente iguais de viés intergrupos para diferentes conjuntos de grupos. Pessoas com baixa capacidade cognitiva tendem a expressar preconceito em relação a grupos percebidos como liberais e não convencionais (por exemplo, ateus, gays e lésbicas), bem como grupos de pessoas percebidas como tendo baixa escolha em relação à participação em grupos (por exemplo, minorias étnicas). Pessoas com alta capacidade cognitiva mostraram o padrão inverso. Eles tendem a expressar preconceito em relação a grupos percebidos como conservadores e convencionais (por exemplo, cristãos, militares, grandes empresas).

“Há uma variedade de sistemas de crenças e traços de personalidade que as pessoas geralmente acreditam que as protegem de expressar preconceito”, diz Brandt. “Em nosso trabalho anterior, descobrimos que pessoas com níveis altos e baixos nos traços de personalidades de abertura à novas experiências mostram vínculos muito consistentes entre ver um grupo como ‘diferente de nós’ e expressar preconceito em relação a esse grupo. O mesmo parece ser verdade para a capacidade cognitiva”.

“Considerando que trabalhos anteriores de outros pesquisadores descobriram que pessoas com baixa capacidade cognitiva expressam mais preconceito, descobrimos que isso é limitado a apenas alguns grupos-alvo”, diz Brandt. “Para outros grupos-alvo, a relação estava na direção oposta. Para esses grupos, pessoas com altos níveis de capacidade cognitiva expressavam mais preconceito. Portanto, a capacidade cognitiva também não parece tornar as pessoas imunes a expressar preconceito”.

Os autores gostariam de ver suas descobertas sendo replicadas em novas amostras, com novos grupos-alvo e medidas adicionais de capacidade cognitiva.

“Usamos uma medida da capacidade verbal, que é essencialmente um teste de vocabulário”, diz Brandt. “Embora essa medida correlacione muito bem com outras medidas de capacidade cognitiva, não é uma medida perfeita e nem completa”.

Evidências de que o tabagismo aumenta o risco de depressão e esquizofrenia

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Um novo estudo publicado na Psychological Medicine e liderado por pesquisadores da Universidade de Bristol descobriu que o tabagismo pode aumentar o risco de desenvolver depressão e esquizofrenia.

É sabido que o tabagismo é muito mais comum entre as pessoas com doença mental – especialmente, depressão e esquizofrenia. No entanto, a maioria dos estudos que analisaram essa associação não conseguiu identificar se essa é uma relação de causa e efeito e, em caso afirmativo, em que direção. As doenças mentais aumentam a probabilidade de fumar ou o próprio tabagismo é um fator de risco para doenças mentais?

Pesquisadores do Grupo de Pesquisa de Tabaco e Álcool (TARG) da Universidade de Bristol com o apoio da Unidade de Epidemiologia Integrativa (IEU) do MRC de Bristol e do NIHR Bristol Biomedical Research Centre (BRC), utilizaram dados do Biobank do Reino Unido de 462.690 pessoas de ascendência europeia, compreendendo 8% fumantes e 22% ex-fumantes.

A equipe aplicou uma abordagem analítica chamada randomização mendeliana, que utiliza variantes genéticas associadas a uma exposição (por exemplo, tabagismo) para apoiar conclusões mais fortes sobre relações de causa e efeito. Eles encontraram evidências de que o tabagismo aumentou o risco de depressão e esquizofrenia, mas também que a depressão e a esquizofrenia aumentam a probabilidade de fumar (embora a evidência tenha sido mais fraca nessa direção para a esquizofrenia).

O estudo adiciona a um corpo crescente de trabalhos a sugestão de que o tabagismo pode ter efeitos adversos na saúde mental. O mesmo grupo publicou um estudo semelhante no British Journal of Psychiatry no início deste ano, em colaboração com a Universidade de Amsterdã, mostrando evidências de que o tabagismo aumenta o risco de transtorno bipolar.

A força-tarefa de saúde mental do governo do Reino Unido fez a recomendação em sua revisão de 2016 de que os hospitais psiquiátricos deveriam estar livres do fumo até 2018. Essa nova evidência acrescenta mais peso para apoiar a implementação de políticas antifumo. Não só há evidências de que o tabagismo pode ser prejudicial à saúde mental, mas grande parte do excesso de mortalidade associada à doença mental é devido ao tabagismo.

Robyn Wootton, pesquisadora associada sênior da Escola de Psicologia Experimental e principal autora do estudo, disse: “Indivíduos com doenças mentais são frequentemente negligenciados em nossos esforços para reduzir a prevalência do tabagismo, elevando os níveis de desigualdades na saúde. Nosso trabalho mostra que devemos envidar todos os esforços para evitar a iniciação ao tabagismo e incentivar a cessação do tabagismo devido às consequências para a saúde mental e a saúde física”.

Marcus Munafò, professor de psicologia biológica da Escola de Ciências Psicológicas de Bristol e autor sênior do estudo, acrescentou: “A crescente disponibilidade de dados genéticos em grandes estudos, juntamente com a identificação de variantes genéticas associadas a uma série de comportamentos e resultados de saúde, está transformando nossa capacidade de utilizar técnicas como a randomização mendeliana para entender as vias causais. O que isso mostra é que os estudos genéticos podem nos dizer tanto sobre influências ambientais – nesse caso, os efeitos do tabagismo na saúde mental – como sobre a biologia subjacente”.

Como identificar um psicopata

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Milhões de pessoas foram ao cinema assistir Coringa, a história de origem do notório inimigo de Batman. Muitos comentaram que o filme é um retrato de um psicopata dos livros. Contudo, talvez, a questão maior seja: quantos na plateia têm características semelhantes? Na verdade, é possível que você seja um psicopata?

Para responder a pergunta, precisamos examinar os critérios diagnósticos de psicopatia apresentados no Psychopathy Checklist-Revised (PCL-R), que foi desenvolvido por Robert Hare na década de 1970.

Por causa desse trabalho, os especialistas podem usar o PCL-R para avaliar se um indivíduo está exibindo qualquer um dos critérios de psicopatia. Estimativas sugerem que cerca de 1% da população se qualifica no critério – embora o percentual seja muito maior entre a população carcerária (25%) e os executivos (21%).

O psicopata absoluto ou protótipo alcançaria uma pontuação máxima de 40 na lista de verificação de 20 itens de Hare, enquanto que uma pontuação de zero indicaria alguém sem tendências psicopáticas. Aqueles com uma pontuação igual ou superior a 30 devem se qualificar para avaliações e indicações mais aprofundadas de psicopatia, enquanto muitos criminosos têm pontuação entre 22 e 30. Consequentemente, a psicopatia é, talvez, melhor vista como um espectro, com todos nós exibindo algumas características em algum momento de nossas vidas.

Em última análise, não podemos supor que a criação – uma educação difícil, por exemplo – vai nos tornar psicopatas. O debate entre natureza versus criação tem sido discutido há muito tempo em relação à psicopatia e ainda não há uma resposta clara. Contudo, foi sugerido recentemente que, embora uma predisposição genética seja essencial para que uma pessoa exiba traços de psicopatia, alguns fatores ambientais, como trauma, abuso e rejeição por entes queridos, podem determinar o curso da doença.

Também não devemos supor que uma pessoa que corresponda a alguns critérios do PCL-R seja um psicopata. Também devemos ter em mente que nem todos os psicopatas são criminosos. Muitos são profissionais bem sucedidos, portanto, uma alta pontuação no PCL-R não nos torna necessariamente perigosos ou assassinos. Patrick Bateman, o anti-herói salpicado de sangue do infame romance americano de 1991 de Brett Easton Ellis, American Pycho, certamente é um psicopata – mas nem todos os psicopatas são Patrick Bateman.

No entanto, os psicopatas são relativamente comuns – então, como podemos identificar um? Afinal, se uma pessoa é psicopata, ela raramente aceita ou anuncia o fato.

O teste de psicopatia

A primeira característica de um psicopata, de acordo com o PCL-R, é a amistosidade e o charme superficial. De fato, essa pode ser uma característica aparentemente positiva. Entretanto, essa não é uma característica motivada por um interesse ou empatia genuínos pelos outros, mas permite que os psicopatas encantem e manipulem aqueles em sua volta, desde colegas de trabalho a parceiros românticos. A manipulação – pelo qual outros são levados a questionar suas próprias ações e crenças – pode ser uma estratégia favorável.

Outra característica fundamental é um grandioso senso de autoestima. Obviamente, esse profundo senso de confiança ou autoconfiança pode explicar por que tantos psicopatas parecem prosperar no mundo cruel dos negócios. Infelizmente para seus colegas e “amigos”, no entanto, os psicopatas também tendem a parecer melhores, a menosprezar as pessoas ao seu redor e a mentir patologicamente. Fique de olho nos narcisistas.

Outros critérios na lista de verificação do PCL-R incluem falta de remorso ou culpa, insensibilidade, estilo de vida parasitário e comportamento sexual promíscuo. Os psicopatas, em suma, tendem a assumir riscos e podem ser menos propensos a mostrar, ou sentir, medo.

Contudo, eles não são sempre operadores legais. Uma característica óbvia e comum é o controle comportamental indigente, que talvez esteja relacionado a psicopatas mais propensos a ter um histórico de delinquência juvenil. Os psicopatas tendem a ter bons olhos para ver e imitar como os outros se comportam, mas eles também podem ter explosões de raiva.

Com base na exposição acima, o meu pensamento é que o Coringa – ou, pelo menos, Arthur Fleck, o homem por trás da maquiagem – é apenas um psicopata limítrofe, com outros problemas de saúde mental que justificam uma investigação mais aprofundada. Há, certamente, mais psicopatas da vida real que pontuariam mais alto no teste de Hare.

A questão-chave é, com base no que foi explicado, se você pode ser um deles e como pretende utilizar essas características e habilidades.

Pensamento analítico pode diminuir crença religiosa

A escultura "O Pensador", de Auguste Rodin.

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Um estudo da Universidade da Colúmbia Britânica constata que o pensamento analítico pode diminuir a crença religiosa, mesmo em crentes devotos.

O estudo, publicado na revista Science, descobre que o pensamento analítico aumenta a descrença entre crentes e céticos, lançando uma luz importante sobre a psicologia da crença religiosa.

“Nosso objetivo era explorar a questão fundamental do porquê as pessoas acreditam em Deus em diferentes graus”, diz o autor do estudo Will Gervais, estudante de doutorado no Departamento de Psicologia da UBC. “Uma combinação de fatores complexos influencia nas questões de espiritualidade pessoal, e essas novas descobertas sugerem que o sistema cognitivo relacionado ao pensamento analítico é um fator que pode influenciar a descrença”.

Os pesquisadores elaboraram tarefas para solução de problemas e testes experimentais sutis para produzir com sucesso o pensamento “analítico”. Os pesquisadores, que avaliaram os níveis de crença dos participantes utilizando uma variedade de medidas autorreferidas, descobriram que a crença religiosa diminuiu quando os participantes se envolveram em tarefas analíticas em comparação com os participantes que se ocuparam de tarefas que não envolveram pensamento analítico.

Os resultados, diz Gervais, são baseados em um modelo de psicologia humana de longa data de dois sistemas cognitivos distintos, mas relacionados, para processar informações: um sistema “intuitivo”, que depende de atalhos mentais para gerar respostas rápidas e eficientes, e um sistema mais “analítico”, que produz respostas mais deliberadas e fundamentadas.

“Nosso estudo baseia-se em pesquisas anteriores que ligam crenças religiosas ao pensamento ‘intuitivo'”, diz a coautora do estudo Ara Norenzayan, professora associada do Departamento de Psicologia da UBC. “Nossos resultados sugerem que a ativação do sistema cognitivo ‘analítico’ no cérebro pode minar o apoio ‘intuitivo’ à crença religiosa, pelo menos temporariamente”.

O estudo envolveu mais de 650 participantes nos EUA e no Canadá. Gervais diz que estudos futuros explorarão se o aumento da descrença religiosa é temporário ou duradouro e como os resultados se aplicam às culturas não ocidentais.

Números recentes sugerem que a maioria da população mundial acredita em um Deus, embora os ateus e os agnósticos cheguem a centenas de milhões, diz Norenzayan, codiretor do Centro de Evolução Humana, Cognição e Cultura da UBC. As convicções religiosas são moldadas por fatores psicológicos e culturais e variam ao longo do tempo e das situações, diz ele.