Os físicos acabam de descobrir um novo tipo de supercondutor

0
Créditos: Michelmond / iStock / Getty Images.

Por David Nield
Publicado na ScienceAlert

Os cientistas há muito tempo teorizam que existem outros tipos de supercondutores esperando para serem descobertos, e agora eles viram que estavam certos: uma nova pesquisa identificou um supercondutor de “onda G” pela primeira vez, um grande avanço para a área da física.

Supercondutores são materiais que não oferecem resistência elétrica, de modo que a eletricidade pode passar por eles com eficiência próxima de 100%.

Isso é bastante interessante quando você pensa sobre o potencial de redes elétricas supereficientes que não perdem energia com o calor. Mas há um problema. Os materiais que são capazes de agir dessa maneira geralmente precisam ser resfriados a temperaturas ultrabaixas antes que a supercondutividade real comece a acontecer.

Até agora, porém, quase todos os supercondutores foram confirmados como ‘spin em estado singleto’, compostos de pares de elétrons Cooper que combinam um elétron em estado de ‘spin-up‘ com um elétron em estado de ‘spin-down‘, removendo a resistência elétrica do material ao longo do caminho.

Existem atualmente dois tipos de supercondutividade que se enquadram nessa descrição, a onda s e onda d.

Simplificando, os elétrons nos pares de Cooper de onda S apontam diretamente um para o outro, cancelando o momento angular um do outro – que mede a energia rotacional e o movimento.

Um alinhamento diferente nas ondas d cria um momento angular positivo ao longo de um eixo e negativo ao longo de um segundo eixo – concedendo a ele duas unidades de momento angular.

O recém-descoberto supercondutor de onda g tem um tipo totalmente separado de momento angular em comparação a onda s ou a onda d, e foi descoberto por meio de uma análise de espectroscopia de ultrassom ressonante superdetalhada do metal rutenato de estrôncio.

“Esse experimento realmente mostra a possibilidade desse novo tipo de supercondutor que nunca havíamos pensado antes”, diz o físico Brad Ramshaw, da Universidade Cornell. “Isso realmente abre um leque de possibilidades para o que um supercondutor pode ser e como ele pode se manifestar”.

“Se quisermos controlar os supercondutores e usá-los em tecnologia com o tipo de controle ajustado que temos com semicondutores, realmente teremos saber como eles funcionam e em que variedades tipos eles vêm”.

A equipe estava realmente procurando por outro tipo de supercondutor que só existe como uma hipótese por enquanto: o supercondutor de onda p. Os cientistas acham que isso poderia ser um ‘tripleto de spin’, onde elétrons pareados têm a mesma direção de spin, criando um momento retangular de 1 – em algum lugar entre a onda s e a mais exótica onda d.

Em vez de encontrar a supercondutividade da onda p, eles encontraram um tipo totalmente diferente de momento angular.

As análises de espectroscopia examinaram a simetria de um cristal de rutenato de estrôncio, construindo uma configuração nova e totalmente personalizada para resfriar o material até as temperaturas necessárias.

As constantes elásticas do material – a velocidade do som passando por ele, essencialmente – revelaram que o rutenato de estrôncio é um supercondutor de dois componentes, capaz de uma ligação complexa de elétrons que precisa de uma direção e também de um número para ser expressada. Isso significava que o material não poderia ser classificado como supercondutor de onda s, onda d ou onda p. Foi uma outra coisa.

“O ultrassom ressonante realmente permite que você veja de forma aprofundada e mesmo que não consiga identificar todos os detalhes microscópicos, você pode fazer afirmações gerais sobre quais estão descartados”, diz Ramshaw.

“Então, as únicas coisas com as quais os experimentos são consistentes são essas coisas muito, muito estranhas que ninguém nunca viu antes. Uma das quais é a onda G, que significa momento angular 4. Ninguém nunca pensou que haveria um supercondutor de onda g”.

A descoberta é um passo adiante em nossa compreensão dos supercondutores. Se pudermos expandir a tecnologia e fazê-la funcionar em temperaturas mais altas, os benefícios potenciais serão enormes: placas de circuito e redes elétricas que não perdem eletricidade para o calor conforme a energia é transferida.

Para a equipe de pesquisadores, no futuro eles estarão olhando para outros materiais que podem ser capazes de uma ardilosa supercondutividade da onda p. Eles também vão analisar mais o rutenato de estrôncio – é um metal fascinante em diversos aspectos.

“Este material é extremamente bem estudado em muitos contextos diferentes, não apenas por sua supercondutividade”, diz Ramshaw. “Nós entendemos que tipo de metal é, porquê é um metal, como se comporta quando você muda a temperatura e como se comporta quando você muda o campo magnético”.

“Portanto, você deve ser capaz de construir uma teoria de porquê ele se torna um supercondutor melhor aqui do que em qualquer outro lugar”.

A pesquisa foi publicada na Nature Physics.

A primeira imagem de um buraco negro agora é um filme

0
Os cientistas obtiveram a primeira imagem real de um buraco negro, usando as observações do Event Horizon Telescope, esse é o buraco negro do centro da galáxia M87. A imagem mostra um anel brilhante formado à medida que a luz se dobra na gravidade intensa em torno desse buraco negro que é 6,5 bilhões de vezes mais massivo que o Sol. Crédito: National Science Foundation.

Por Davide Castelvecchi
Publicado na Nature

A histórica primeira imagem de um buraco negro revelada no ano passado agora foi transformada em um filme. A curta sequência de quadros mostra como a aparência dos arredores do buraco negro muda ao longo dos anos, conforme sua gravidade agita o material ao seu redor em um turbilhão incessante.

As imagens mostram uma bolha de luz assimétrica girando em torno do buraco negro supermassivo no centro da galáxia M87. Para gerar essas imagens, a colaboração do Event Horizon Telescope (EHT; em português: Telescópio de Horizonte de Eventos) – que aproveita uma rede de observatórios ao redor do mundo – exumou dados antigos sobre o buraco negro e os combinou com um modelo matemático baseado na imagem divulgada em abril de 2019, para mostrar como o arredores evoluíram ao longo de oito anos. Embora dependa em parte de suposições, o resultado fornece aos astrônomos uma rica visão do comportamento dos buracos negros, cuja intensa gravidade suga a matéria e a luz ao seu redor.

Uma série de imagens construídas a partir de dados observacionais e modelos matemáticos mostram a evolução do buraco negro no centro da galáxia M87 de 2009 a 2017. Créditos: Event Horizon Telescope / Nature.

“Como o fluxo de matéria que cai em um buraco negro é turbulento, podemos ver que o anel oscila com o tempo”, disse o autor principal Maciek Wielgus, um radioastrônomo da Universidade Harvard em Cambridge, Massachusetts.

O trabalho, que apareceu no dia 23 de setembro no The Astrophysical Journal, oferece uma amostra do que a equipe pode ser capaz de fazer em um futuro próximo, à medida que suas técnicas forem aprimoradas. “Em alguns anos, pode realmente começar a se parecer com um filme”, diz Wielgus.

Anel oscilante

A imagem do buraco negro que a colaboração do EHT revelou no ano passado chegou às primeiras páginas dos jornais de todo o mundo. Ela mostra o M87*, o buraco negro supermassivo no centro da galáxia M87, a cerca de 17 megaparsecs (55 milhões de anos-luz) de distância. Os pesquisadores construíram a imagem combinando sinais de radiofrequência que coletaram de observatórios em toda a Terra durante duas noites em abril de 2017. Essa façanha foi comparada a determinar a forma de uma rosquinha na superfície da Lua da Terra.

Embora embaçada, a imagem correspondeu às previsões da teoria geral da relatividade de Albert Einstein sobre como deveria ser os arredores imediatos de um buraco negro. Em particular, forneceu aos pesquisadores a primeira evidência direta da sombra de um horizonte de eventos, a superfície do “ponto de não-retorno” que separa um buraco negro de seus arredores. Este disco mais escuro estava contra um anel de luz emitido pela matéria superaquecida fora do horizonte de eventos.

Surpreendentemente, um lado do anel parecia mais brilhante. Isso era esperado, devido a uma combinação de vários efeitos na dinâmica complexa em torno de um buraco negro. Em particular, a matéria que cai no espaço vazio deve espiralar em alta velocidade na parte de fora do equador do buraco negro, formando o que os astrofísicos chamam de disco de acreção. O aspecto assimétrico tem a ver em parte com o efeito Doppler: do lado do disco que gira em direção ao observador, o movimento da matéria potencializa a radiação, fazendo com que ele pareça mais brilhante; o oposto acontece no lado que recua na direção do observador.

Revisitando dados

Com base nesses resultados, Wielgus queria voltar e olhar os dados mais antigos dos telescópios EHT para ver se poderia reinterpretá-los, usando a imagem de 2017 como um guia. O EHT vinha observando o M87* desde 2009, inicialmente usando telescópios em apenas três locais. Conforme a equipe adicionou mais observatórios à rede EHT, a qualidade das observações melhorou. Em 2017, a colaboração envolveu oito observatórios que abrangeram o globo do Havaí e Chile à Europa, alcançando pela primeira vez o nível em que o EHT poderia produzir uma imagem real.

Os dados mais antigos consistiam em quatro grupos, coletados em 2009, 2011, 2012 e 2013, dois dos quais permaneceram inéditos. “Até certo ponto, eles foram esquecidos, porque todos estavam super animados com os dados de 2017”, diz Wielgus. Com um grupo de outros pesquisadores do EHT, ele reanalisou os dados e concluiu que eram consistentes com os resultados dos dados de 2017, incluindo a presença de um disco escuro e um anel claro. E embora, por si só, os lotes de dados de 2009-2013 não tivessem resolução suficiente para produzir imagens, a equipe foi capaz de gerar imagens sintéticas para cada um dos anos, combinando os dados limitados disponíveis com um modelo matemático do buraco negro construído a partir dos dados de 2017.

E os resultados revelaram conter mais informações do que Wielgus esperava. Como na imagem de 2017, eles revelaram que um lado do anel era mais brilhante do que o outro – mas o ponto brilhante mudou. Isso pode ter ocorrido porque diferentes regiões do disco de acreção tornaram-se mais brilhantes ou mais escuras, o que pode aumentar ou às vezes até anular o brilho do efeito Doppler.

Disco dinâmico

Isso não era inesperado, dizem os autores: embora o buraco negro M87* em si não mude de ano para ano, o ambiente ao seu redor muda. Em uma escala de várias semanas, campos magnéticos fortes passam a agitar o disco de acreção e produzir pontos mais quentes que orbitam o buraco negro. Em 2018, uma equipe separada relatou evidências de uma bolha de gás quente circulando Sagitário A*, o buraco negro central da Via Láctea, ao longo de cerca de 1 hora. Como o M87*, com 6,5 bilhões de vezes a massa do Sol, é mais de 1.000 vezes o tamanho de Sagitário A*, a dinâmica em torno de M87* leva mais tempo para se desenvolver.

A colaboração do EHT tenta observar M87* e Sagitário A* todos os anos, no final de março ou início de abril. É quando as condições meteorológicas são mais propensas a serem boas simultaneamente nos vários locais de sua rede. O projeto de 2020 teve que ser abandonada devido às restrições devido à pandemia da COVID-19, mas a equipe espera ter outra chance em 2021. Se tudo correr bem, mais observatórios – incluindo um na Groenlândia e um na França – se juntarão ao empenho.

A equipe também espera que o projeto do próximo ano inclua suas primeiras observações globais usando radiação de comprimento de onda mais curtp. Embora seja mais desafiador ver através da atmosfera da Terra, isso melhoraria a resolução das imagens do EHT. “Chegaríamos ainda mais perto dessa sombra do buraco negro e obteríamos imagens mais nítidas”, disse Sara Issaoun, membra do EHT, radioastrônoma da Universidade Radboud em Nijmegen, Holanda.

E se a Terra tivesse anéis?

0
Qual seria a aparência do céu se a Terra tivesse anéis como os de Saturno, na perspectiva da Guatemala. Crédito: Ron Miller.

Por Charles Q. Choi
Publicado na Live Science

Os anéis de Saturno dão um ar de majestade condizente com um planeta que recebe o nome do rei dos Titãs. Feito quase totalmente de poeira, rochas e pedaços de gelo e medindo milhares de quilômetros de largura, os anéis de Saturno são sua característica mais fascinante; eles encantaram os humanos desde que Galileu os descobriu com um telescópio em 1610.

Como seria se Terra também fosse ‘coroada’ com anéis? O ilustrador de ficção científica e espacial Ron Miller criou imagens extraordinárias de como o céu pareceria se a Terra possuísse anéis com as mesmas proporções para nosso planeta que as proporções dos de Saturno.

O lugar mais estável para os anéis é ao redor do equador de um planeta, então a aparência dos anéis varia de acordo com a latitude. Por exemplo, próximo ao equador em Quito, Equador, você veria os anéis a partir da borda interna, de modo que se parecessem com uma linha fina partindo em linha reta do horizonte.

Como seria o céu se a Terra tivesse anéis como os de Saturno, da perspectiva de Quito, Equador. Crédito: Ron Miller.

Em comparação, perto do Círculo Polar Ártico, os anéis se pareceriam com uma protuberância no horizonte.

Qual seria a aparência do céu se a Terra tivesse anéis como os de Saturno, da perspectiva do Círculo Polar Ártico. Crédito: Ron Miller.

Em latitudes mais temperadas, os anéis se pareceriam com um arco gigante, cruzando de uma extremidade do céu à outra.

Se você estivesse em Washington, DC, nos Estados Unidos, os anéis da Terra se pareceriam com um arco-íris de outro mundo. Crédito: Ron Miller.

Esses anéis cintilantes não ‘nasceriam’ e nem se punham como o Sol e sempre apareciam exatamente no mesmo lugar no céu. Esses marcos cósmicos seriam visíveis dia e noite.

Rocha brilhante

Os hipotéticos anéis da Terra difeririam em um aspecto fundamental dos de Saturno: eles não teriam gelo. A Terra fica muito mais perto do Sol que Saturno, então a radiação de nossa estrela faria com que qualquer gelo nos anéis da Terra derretessem.

Ainda assim, mesmo que os anéis da Terra fossem feitos de rocha, isso não significaria que eles pareceriam escuros. A rocha lunar é bastante cinzenta e a Lua reflete apenas cerca de 12% da luz que incide sobre ela. Mas a Lua cheia “parece muito brilhante porque há muita luz sobre ela e porque está muito perto de nós”, disse Caleb Scharf, diretor de astrobiologia da Universidade de Columbia em Nova York.

Quão brilhantes os anéis da Terra seriam? “Cerca de 1.300 watts de luz solar por metro quadrado atinge o topo da atmosfera da Terra”, disse Scharf ao Live Science. “Se os anéis refletissem 10% disso, estamos falando de cada metro quadrado refletindo tanta luz quanto a produzida por uma lâmpada de 130 watts”.

Qual seria a aparência do céu durante um equinócio se a Terra tivesse anéis. Crédito: Ron Miller.

Mais perto que a Lua

A que distância os anéis ficariam da Terra? Eles interfeririam com os aviões?

O mais próximo absoluto que os anéis poderiam chegar é em algum lugar acima da camada atmosférica conhecida como termosfera, que chega a atingir 1.000 km, de acordo com Corporação Universitária para Pesquisa Atmosférica, dos Estados Unidos. Portanto, não atrapalhariam aviões comerciais que normalmente voam até 11 km de altura. (Discutiremos satélites e viagens espaciais mais tarde.) Enquanto isso, o arrasto atmosférico derrubaria qualquer material sólido do anel que porventura descesse uma camada abaixo. Se isso acontecesse, o material rochoso queimaria como uma estrela cadente em uma faixa de fogo.

Quão longe os anéis podem se estender da Terra? Qualquer objeto orbitando dentro de uma certa distância da Terra, conhecido como seu Limite de Roche, se quebrará devido à força da gravidade da Terra. Uma vez quebrados, esses objetos estilhaçados se juntariam ao anel rochoso. Por exemplo, qualquer objeto do tamanho da Lua da Terra que caísse abaixo de cerca de 11.850 km da superfície da Terra se desintegraria, formando um anel ao redor do planeta.

Ao todo, os anéis externos da Terra provavelmente orbitariam ainda mais perto de nosso planeta do que a Lua da Terra.

Anel ou anéis? Lua ou luas?

A Terra ostentar ou não um anel ou muitos ia depender se a Terra também possuísse “luas pastoras”, pequenas luas que abrem as lacunas entre os anéis e ajudam a manter as partículas confinadas dentro de um anel, assim como um cão pastor impede que as ovelhas se dispersem uma das outras. Os anéis de Saturno possuem várias luas pastoras, como Prometeu. As luas pastoras nos anéis da Terra se pareceriam com pérolas brilhantes circulando ao redor das bordas dos anéis.

É improvável que a Terra possa ter anéis de longa duração se continuar a possuir uma Lua tão grande quanto tem agora, disse Scharf. As mesmas forças gravitacionais que a Lua exerce na Terra para causar as marés podem perturbar os anéis, fazendo com que se desintegrem, explicou ele.

Sombras cadentes

Dependendo da hora do dia, da estação e da latitude em que o observador está localizado, a sombra da Terra pode passar sobre os anéis. A sombra da Terra teria formato oval nos seus anéis, “e se moveria com o passar do tempo”, disse Scharf. (A sombra da Terra pareceria oval em vez de circular, pelo mesmo motivo que sua sombra parece esticada em comparação a você.)

Crédito: Ron Miller.

Durante os equinócios, o sol estaria no mesmo plano dos anéis. Nessas ocasiões, nas latitudes médias da Terra, a sombra do planeta pareceria se estender através dos anéis em sua maior extensão, deixando grandes porções dos anéis na escuridão. No equador, os anéis pareceriam dividir o Sol, lançando uma sombra dramática sobre metade do mundo.

Crédito: Ron Miller.

Da mesma forma, os próprios anéis projetariam sombras na Terra. Durante o verão no hemisfério norte e o inverno no hemisfério sul, os anéis projetariam suas sombras no hemisfério sul e vice-versa. Isso significaria que os invernos em ambos os hemisférios poderia ser mais frios e mais severos do que atualmente na Terra. No entanto, ao mesmo tempo, o brilho do anel pode aumentar a luz total que a Terra recebe, “portanto, os efeitos climáticos são difíceis de prever”, disse Scharf.

As mitologias que cercam os anéis

Como marcos celestiais que nunca mudam de posição no céu, os anéis quase certamente desempenhariam um papel fundamental nas mitologias. Em latitudes temperadas, pode-se imaginar que a aparência dos anéis como um arco simbolizaria uma ponte entre o céu e a Terra.

Visto que a aparência dos anéis muda com a latitude, o mesmo ocorre com as interpretações que as pessoas faria deles. Considerando como as guerras na Terra surgiram de visões opostas da doutrina religiosa, poderíamos perguntar o que aconteceria se os povos antigos começassem a vagar pelo planeta e vessem os anéis mudarem de aparência.

E os anéis poderiam muito bem atrair as pessoas a vagar pelo mundo. Dado que os anéis se pareceriam com arcos gigantes, os exploradores poderiam querer ver “onde os arcos tocam”, da mesma forma que uma pessoa buscava ver o que estava nas extremidades de um arco-íris.

Além disso, Scharf observou que em torno das bordas da sombra da Terra nos anéis, veríamos a luz que foi filtrada pela atmosfera da Terra. “Você poderia ver algumas cores bem doidas nas bordas da sombra, talvez uma borda de cor vermelho sangue”, disse ele. “Eu poderia imaginar todos os tipos de mitologias construídas em torno disso”.

Além disso, dependendo da latitude e da estação, o caminho do sol pode cruzar atrás dos anéis. As partículas que compõem os anéis provavelmente espalhariam a luz do Sol, fazendo-a parecer obscura ou velada. “É interessante pensar que significado espiritual uma civilização poderia atribuir ao sol que está atrás dos anéis”, disse Scharf.

Um guia para navegadores

Os anéis poderiam servir potencialmente como auxiliares de navegação extraordinários, sendo um ajudante em viagens, explorações, comércio, migrações e invasões.

Por exemplo, durante séculos, os marinheiros tiveram dificuldade em localizar sua posição exata na Terra em termos de latitude e longitude quando estavam no mar e fora de terra à vista. Os navegadores há muito tempo encontraram maneiras de encontrar sua latitude usando a astronomia – observando a altitude do Sol durante o dia ou a Estrela Polar ou o Cruzeiro do Sul à noite – mas encontrar uma maneira de calcular a longitude foi um grande avanço para a engenharia da medição do tempo.

Os anéis no céu poderiam ajudar os navegadores a estimar a longitude de várias maneiras. As luas pastoras podiam caminhar ao redor da Terra ao longo de órbitas previsíveis, como o movimento de um relógio. Os anéis de Saturno possuem raios misteriosos, provavelmente relacionados ao campo magnético de Saturno, e quaisquer raios nos anéis da Terra podem agir como marcadores de tempo em um mostrador de relógio. A forma como a sombra da Terra se move nos anéis também pode servir como um relógio cósmico gigante. “Você poderia realmente obter um tipo sofisticado de sistema de cronometragem com os anéis”, disse Scharf.

Os anéis e espaço

Dependendo da localização dos anéis, satélites e espaçonaves podem, em princípio, orbitar sob eles. Por exemplo, a Estação Espacial Internacional orbita cerca de 400 km acima da superfície da Terra, potencialmente abaixo dos anéis, enquanto os satélites geoestacionários orbitam cerca de 35.786 km acima da superfície da Terra, provavelmente bem acima dos anéis. No entanto, os anéis provavelmente espalhariam os sinais de rádio de satélites e espaçonaves em órbitas equatoriais, limitando sua utilidade.

Ainda assim, os anéis provavelmente interfeririam na astronomia, dificultando a visão do céu noturno pelo solo, disse Scharf. Isso pode, por sua vez, limitar o que os cientistas em um planeta anelado pudessem ter conhecimento sobre detalhes essenciais do cosmos, como a existência de outras galáxias ou a expansão do universo.

Os anéis de Marte e da Terra

Qual a probabilidade de mundos rochosos possuírem anéis? Estudos anteriores descobriram que o satélite natural de Marte, Fobos, pode ter existido em forma de anéis ao redor do Planeta Vermelho. À medida que Fobos se aproxima de Marte com o tempo, é provável que se despedace em um anel novamente, ao longo de milhões de anos.

É possível que a Terra já tenha possuído um anel. Nosso planeta nasceu há cerca de 4,5 bilhões de anos, e pesquisas anteriores sugerem que a Lua surgiu pouco tempo depois. A explicação predominante para a origem da Lua é que ela resultou da colisão de dois protoplanetas, ou ‘mundos embrionários’. Uma delas era a Terra recém-nascida e a outra era uma rocha do tamanho de Marte chamada Theia, em homenagem à mãe da Lua na mitologia grega. O impacto teria gerado um anel de destroços ao redor da Terra que eventualmente se fundiu na Lua.

Em suma, embora a visão de uma Terra com anéis possa parecer uma fantasia, pode ter sido uma vez – por um momento no tempo – verdade.

Texto chinês de 2.200 anos pode ser o atlas anatômico preservado mais antigo

0
Textos antigos escritos em seda e encontrados dentro das tumbas em Mawangdui, China, podem representar o atlas anatômico mais antigo existente. Créditos: The History Collection / Alamy Stock Photo.

Por Owen Jarus
Publicado na Live Science

Uma série de textos chineses de 2.200 anos, escritos em seda e encontrados enterrados em tumbas antigas, contém o atlas anatômico mais antigo existente, dizem os cientistas.

Os textos foram descobertos na década de 1970 dentro de tumbas no sítio arqueológico de Mawangdui, no centro-sul da China. Os túmulos pertenceram ao Marquês de Dai, sua esposa a Marquesa de Dai (a Lady Dai) e seu filho. Os textos são difíceis de entender e usam o termo “meridiano” para se referir a partes do corpo humano. Em um artigo publicado na revista The Anatomical Record, uma equipe de pesquisadores liderada por Vivien Shaw, professora de anatomia da Universidade de Bangor, no País de Gales, no Reino Unido, afirma que esses textos “são o atlas anatômico mais antigo do mundo”. Além disso, os textos “antecedem e informam os textos posteriores de acupuntura, que foram a base para a prática nos dois milênios seguintes”, escreveram os pesquisadores no estudo.

Os textos antigos foram descobertos na década de 1970 em uma fila de tumbas no sítio arqueológico de Mawangdui, na China. Ruinas das tumbas são vistas nesta foto. Crédito: Shutterstock.

Textos desafiadores

Os textos, que são escritos em caracteres chineses, são difíceis de entender. “As habilidades necessárias para interpretá-los são diversas, exigindo o pesquisador, em primeiro lugar, a leitura do chinês original e, em segundo lugar, a realização de investigações anatômicas que permitam uma revisão das estruturas a quais os textos se referem”, escreveram os pesquisadores no artigo.

Se os textos forem lidos com atenção, pode-se perceber que os “meridianos” referem-se a partes do corpo humano. Por exemplo, o texto diz (na tradução) que um meridiano começa “no centro da palma da mão, vai ao longo do antebraço entre os dois ossos seguindo rumo ao longo dos tendões, depois abaixo do tendão no bíceps, na axila e se conecta com o coração”. Os pesquisadores afirmam que essa descrição de um “meridiano”, na verdade, refere-se ao trajeto da artéria ulnar, o principal vaso sanguíneo do antebraço.

Outro exemplo do texto antigo descreve um “meridiano” no pé que “começa no dedão e corre ao longo da superfície medial da perna e da coxa. Conecta-se ao tornozelo, joelho e coxa. Viaja ao longo dos adutores da coxa, e cobre o abdômen”. Esse “meridiano”, na verdade, descreve o “caminho da veia safena magna”, o canal que leva o sangue das pernas de volta ao coração, escreveram os pesquisadores.

A equipe conclui que os textos “representam o atlas anatômico mais antigo, feito para fornecer uma descrição concisa do corpo humano para estudantes e praticantes de medicina na China antiga”.

Embora o corpo humano e os restos mortais dos ancestrais fossem considerados sagrados na China antiga, os restos mortais dos infratores nem sempre recebiam essa honra. Os pesquisadores acreditam que os antigos pesquisadores médicos chineses dissecaram os cadáveres de prisioneiros para ajudá-los a compreender a anatomia humana. Por exemplo, o Han Shu (Livro de Han), um livro que cobre a história da Dinastia Han, registra a dissecação do criminoso Wang Sun-Qing em 16 d.C., observaram os pesquisadores no estudo.

Até agora, pensava-se que o atlas anatômico mais antigo conhecido do corpo humano era da Grécia, feito por médicos gregos antigos como Herófilo (335-280 a.C.) e Erasístrato (304-250 a.C.), porém, a maioria de seus textos foram perdidos e são conhecidos apenas pelo que outros escritores antigos escreveram sobre eles. Como resultado, os textos chineses são os primeiros atlas anatômicos preservados, disseram os pesquisadores.

Vivienne Lo, palestrante sênior e coordenadora do Centro de Saúde e Humanidade da Colégio Universitário de Londres na China, que não é afiliada à pesquisa, disse que hesita em usar a palavra “atlas” para descrever esses textos e acha que “mapa” ou “gráfico” é um termo mais apropriado. Lo diz que o termo “atlas” era mais usado durante os séculos 17 e 18 e não parece apropriado para um texto de 2.200 anos. Lo também observou que algumas das descobertas discutidas no artigo – como o fato de que os prisioneiros foram dissecados para fornecer informações anatômicas – foram publicadas por outros pesquisadores antes.

TJ Hinrichs, professor de história da Universidade Cornell (EUA) que conduziu pesquisas sobre a medicina chinesa antiga, mas não é afiliado a essa pesquisa, também não acha que “atlas anatômico” é um termo apropriado para descrever esses textos. O Live Science procurou outros especialistas não afiliados à pesquisa, no entanto, a maioria não foi capaz de responder no momento da publicação.