Crítica: Terapias Integrativas

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Minhas considerações sobre a matéria de capa da Galileu número 259 (aqui), de fevereiro/2013: “Dossiê: Medicina Integrativa – A Nova Alternativa”.

 

No começo da matéria, são abordadas algumas tendências adotadas por governos na tentativa de subsidiar as pesquisas com Medicina Alternativa, agora chamada de Complementar ou Integrativa. Só mais um nome bonito para o que se conhece como terapia holística (holismo, o corpo como um todo). A visão holística também faz parte da Saúde, na qual há integração entre os sistemas do organismo, aliada a uma certa humanização e diferenciação no atendimento destinado aos usuários.

Alegam que o governo norte-americano subsidia a pesquisa das terapias complementares com cerca de 120 milhões de dólares. Também alegam que o número de inserções sobre o tema na base de dados da Pubmed subiu em 33% no período de cinco anos. Dois outros argumentos utilizados são, ao se trazer para a realidade brasileira, que o SUS sustenta o uso e a prescrição das terapias, além de dizer que o Hospital Albert Einstein oferece uma pós-graduação voltada para o tema.

Veja o que a Organização Mundial de Saúde (2004) tem a dizer sobre as Terapias Alternativas, em seu guideline [em inglês]: aqui.

Comentarei no geral, com base na minha percepção enquanto acadêmico de uma graduação das Ciências da Saúde, a Enfermagem. No texto, são referidas dez terapias.

De início, já temos a acupuntura. Baseada no mapeamento dos meridianos e na introdução de finas agulhas em cada um deles, de acordo com o acometimento. É oriunda da Medicina tradicional chinesa e praticada como antigamente até hoje. Os meridianos são pontos específicos e localizados em várias partes do corpo, compondo um mapa com centenas de meridianos distintos. Já tive contato com a acupuntura ao fazer visita no setor de Dermatologia do hospital universitário da minha instituição, a UFES. Não acho algo tão vantajoso, mas conversei com pacientes que relataram melhora em seus males, inclusive com regressão de sinais físicos (redução de edema facial e melhora na coloração da pele). Uma enfermeira responsável pelo setor também realiza acupuntura, pois sofre de espondilite anquilosante, um tipo de inflamação das articulações sem causa definida.

estomago 1

Ao longo do texto, vi várias referências feitas ao efeito placebo e a suposta existência deste nas terapias mencionadas. Há até o depoimento de um epidemiologista, dizendo que a acupuntura age no centro de controle da dor, a nocicepção, liberando endorfinas. Ainda faltam evidências em alguns males, como enxaqueca crônica, alguns cânceres e doenças cardíacas agudas.

Link: Artigo da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (2011), a FEBRASGO, sobre o efeito placebo: “Qual o valor do placebo em pesquisas clínicas?

A segunda terapia me parece ser bastante promissora: a musicoterapia. Tive contato com um musicoterapeuta quando fiz visita a um ambulatório de Saúde Mental Infantil. Existe a graduação de Musicoterapia, ativa em várias faculdades do Brasil. A música, sendo uma manifestação ondulatória, interfere diretamente no nosso organismo. Ao menos é o que considero quando falo de ondas. Os pesquisadores alegam que a musicoterapia promove vasodilatação, elimina estresses e tensões, além de ser indicada para melhorar a memória, o humor e resolver transtornos/desordens de natureza psiquiátrica (nem todos, exclui transtornos que produzem excitação ou alucinação). Seu uso é contraindicado para portadores de epilepsia musicogênica, um tipo de quadro convulsivo induzido pela música. Assim como também existe a convulsão induzida por luminosidade, quadro clínico conhecido como epilepsia fotossensível.

Smiling Woman Listening to Headphones

Artigo do Instituto do Cérebro de Brasília (2008), conceituando a epilepsia: aqui.

Na sequência, a mal falada homeopatia. Como já é difundido no senso comum, a homeopatia se baseia em princípios como a sucussão, a “memória da água”, a diluição e o fracionamento a doses infinitesimais. Não consigo dar valor a uma terapia que alega a existência de propriedades da água ainda desconhecidas. Eu ainda não li nenhum artigo completamente conclusivo. Nada está declarado, seja pela Bioquímica, pela Química Orgânica, pela Farmacologia.

Ainda que muitos considerem uma terapia complementar, eu creio que a fitoterapia, a quarta da lista, seja mais do que isso. Como comentei anteriormente, dou crédito às plantas. A Farmácia contemporânea é baseada na fitoterapia, vigente da Pré-História aos indígenas, das tribos africanas até a Antiguidade Clássica. Ferver folhas, infundir e fazer chás, amassar, triturar, picar e mastigar plantas. Tudo depende da dose, que deve ser respeitada, além do preparo correto e dentro das normas sanitárias adequadas. A maioria dos fármacos, inclusive venenos, disponíveis nas prateleiras, foram descobertos através de princípios da Farmacognosia (o conhecimento sobre a origem e a matéria-prima dos fármacos é uma das Ciências Farmacêuticas, juntamente com a Farmacologia, a Farmacocinética, a Farmacodinâmica, a Farmacotécnica, dentre outras).

Link: Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (2009), pelo Ministério da Saúde.

Aromaterapia funciona? Eu não sei como, mas talvez como calmante. O uso de óleos e incensos como terapia me parece algo fútil.

E a hipnose? Bem, não acho que ela cura. Mas penso que sirva como método investigativo da mente. O próprio Freud incorporava a hipnose em suas sessões, alegando que conseguia invadir o subconsciente do indivíduo, descobrindo causas de traumas e de neuroses. Alegam que funciona como anestésico, eu não creio nisso.

A técnica de respiração, sétima da lista, é interessante. Eu mesmo já participei de sessões de terapia em grupo para tabagismo (faço parte de um ambulatório para dependência de tabaco aqui na Universidade). Atua como relaxante, como a maioria das terapias alternativas. Fazendo movimentos, é possível exercitar os músculos abdominais, o diafragma e até aumentar a capacidade de expansão dos pulmões.

Meditação, como vemos na tradição oriental, é uma técnica de relaxamento. Aqui é mencionada como uma nova aliada da Medicina, promovendo bem-estar e tranquilidade a quem a pratica. É uma forte ferramenta, sem dúvida. Empregá-la como catarse para as tensões cotidianas pode ser realmente efetivo. É uma ação direta sobre a mente e o corpo. Se o humor e o vigor mental melhoram, o corpo tende a responder positivamente, seja na imunidade ou no condicionamento físico. Apesar disso, não cura o câncer ou reverte transtornos psiquiátricos graves, até o momento.

Massagem e Quiropraxia, apesar de serem relaxantes, não resolvem lesões crônicas. Aliviam a tensão muscular, as dores localizadas e grande parte dos desconfortos físicos a curto prazo.

Ainda são citadas outras sete terapias, mas me atentarei apenas a três delas:

1. Reiki
Pra mim, é balela. “Canalizar a energia do cosmos” não me parece algo realmente efetivo. Ainda conseguem usar de argumentos da Física, dizendo que energia e matéria são a mesma coisa, que nós somos parte do cosmos, blá. Não dou muito crédito, a própria matéria aponta que não existem evidências sobre como e até que ponto funciona.

2. Ioga
Mais uma técnica de relaxamento, que também melhora o condicionamento físico. A flexibilidade é uma aliada perfeita para a redução de desconfortos localizados. Aqui, a Ioga é apontada mais como preventiva do que curativa. É dito que não é possível estabelecer caráter de placebo, porque “não há como ensinar uma ioga falsa”.

3. Tai Chi Chuan
É um misto de de arte marcial com coreografia. Não sei até que ponto vão os estudos clínicos referentes a relaxamento, mas parece funcionar. Até os idosos no Japão são adeptos, se espalha fácil também.

Por fim, posso ver que há uma ambivalência. Muita coisa ainda precisa ser testada e melhor avaliada, no intuito de se descobrir evidências conclusivas. Mas, em geral, algumas (poucas) terapias funcionam. Nos resta esperar que a verdadeira Ciência encontre respostas.

O argumento non sequitur da visita extraterrestre

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Créditos: Billy Eduard Albert Meier.

“Somos pequenos bípedes, mas com sonhos gigantes”, poeta Diane Ackerman.

Voyager 1A ficção científica é algo fabuloso. Embora muita coisa do nosso atual cotidiano tenha sido inspirada a partir desse gênero, e ainda continua surgindo, muitas das elucubrações e previsões continuam sendo hipotéticas e apenas desejos. Infelizmente uma dessas é a viagem interestelar. É comum ler /escutar a seguinte frase (certamente com variantes, mas vale aqui para o exercício de ceticismo):

“O homem já mandou máquinas a outros planetas, portanto acredito que extraterrestres puderam ter nos visitado no passado.”

Pretendo mostrar que este argumento é fraco, ou pelo menos é um exagero concluir visitas extraterrestres a partir dessa comparação.

Inicialmente é necessário recordar algumas definições quando estamos nos referindo a distâncias cósmicas. Uma delas é o ano-luz. Fácil: é uma medida de comprimento (e não tempo) de valor aproximadamente de 10 trilhões de quilômetros (um trilhão = 1 seguido de 12 zeros). Portanto, dado as distâncias cósmicas, é natural que se use essa escala. Porém, alguns objetos estão bem pertos da Terra, e podemos utilizar submúltiplos do ano-luz (apenas com regra de três). Exemplo de distâncias:

Terra-lua: 1,25 segundos luz

Terra-Sol: 8 minutos-luz

Por exemplo, se o sol se apagasse nesse exato momento, demoraríamos 8 minutos para perceber isso. Isso porque a luz tem uma velocidade no vácuo de aproximadamente 300 000 Km/s. Uma das consequências do trabalho de Einstein foi demonstrar que nada no Universo viaja mais rápido que a luz. Viajar nessa velocidade significa que para ir até a lua demoraríamos 1,25 segundos. Entretanto não dispomos dessa tecnologia, e é por isso que a viagem até ao nosso satélite natural será mais demorada tanto quanto mais lenta for a velocidade da nossa espaçonave.

O planeta mais distante que conseguimos mandar uma sonda com o objetivo de pousar na superfície foi em Marte (embora a sonda Huygens tenha atingido o solo da lua Titã, mais longe que Marte, isso só ocorreu uma vez e enviou sinais por 90 minutos). O planeta vermelho dista da Terra em torno de 225 milhões de Km, o equivalente de 12,5 minutos-luz (é um valor médio, pois essa distância é variável e depende da órbita elíptica dos planetas). Uma grande façanha, sem dúvidas. Entretanto ainda estamos no quintal cósmico. O planeta Marte faz parte de nosso sistema solar, este que ainda conhecemos deveras pouco.

Nesse exato momento temos outra razão para se orgulhar da tecnologia humana. Refiro-me a sonda Voyager, o objeto mais veloz lançado ao espaço, que partiu da Terra há 35 anos e percorreu desde então 18,5 bilhões de Km, com uma média de velocidade de 17 Km/s (~ 61 000 Km/h).

Espera-se que nos próximos anos a sonda alcance o limite de nosso sistema solar. Uma comparação útil para entender melhor a monstruosidade das distâncias envolvidas em (futuras) viagens estelares pode ser realizada através dos dados da sonda Voyager 1. Os 18,5 bilhões de Km percorridos pela sonda correspondem a aproximadamente 17 horas-luz. Na prática, isso seria o equivalente a executar mais de 1.450.000 voltas em torno do planeta Terra (quase um milhão e 500 mil voltas). Sim, é bastante; porém perfeitamente crível dado o tempo de 35 anos que a sonda já foi lançada.

Ainda assim, o limite do sistema solar é uma distância desprezível comparada às distâncias estelares. Isso porque a distância da estrela mais próxima da Terra (próxima centauri) está a 4,2 anos-luz. Mantendo a comparação acima, viajar para esta estrela (e portanto visitar os planetas deste sistema) seria o equivalente a mais de 3 bilhões de voltas ao redor do planeta Terra. E o tempo para essa façanha? Considerando a velocidade média da Voyager, demoraria 73 mil de anos para se alcançar a próxima centauri. Esse tempo é gigantesco na escala humana; e para efeito de comparação considere que o comportamento moderno da nossa espécie foi atingindo há cerca de 50 mil anos.

Outra maneira de visualizar isso é comparar a distância da qual a sonda já percorreu até hoje, ou seja, 17 horas-luz e descontar de 4,2 anos-luz. Apenas para completar um ano-luz já seria necessária uma distância extra a percorrer de 8749 horas-luz (ou 9,4 trilhões de Km – equivalente a 730 milhões de voltas ao redor da Terra).

Vale salientar que não é somente a velocidade um fator decisivo. Uma viagem dessas exigiria uma quantidade imensa de energia. Nesse sentido, cálculos sugerem que mesmo se fosse disponível um reator de fusão nuclear (tecnologia do qual ainda não dispomos), seria necessária uma quantidade de combustível ao equivalente de mil navios supertanques, e ainda o tempo de viagem poderia ser reduzido para no máximo 900 anos. Isso motiva mais uma pergunta: como levantar a partir do solo uma massa tão gigantesca como esta? Outro interessante cálculo estima que para uma espaçonave viajar até a estrela mais próxima mantendo 70% da velocidade da luz (certamente uma façanha extraordinária, lembrando que a Voyager mantém a média de 0,005% da velocidade da luz) seriam necessários uma quantidade de energia igual a 2,6×1016 Joules. Na prática, isso significa o equivalente de toda energia elétrica produzida no planeta durante 100 mil anos, e ainda assim a viagem tomaria 6 anos.

Ainda é possível questionar independente de cálculos. Uma civilização extraterrestre deve, obviamente, ser tecnologicamente capaz de enviar sondas ao nosso planeta. Isso pressupõe não somente o aparecimento de vida em outro planeta, mas também que essa vida eventualmente tenha conseguido ter uma evolução tecnológica capaz de investigar o Universo e criar máquinas inteligentes. E mais, apenas o eventual surgimento de uma civilização tecnológica não garante que ela seja capaz de vencer a dificuldade das viagens interestelares.  E mesmo que consiga, dado a vastidão do Universo, é outro desafio que o alvo da visita seja necessariamente o planeta Terra. Além disso, mesmo se todos esses requisitos fossem fáceis de ocorrer no Cosmos, ainda temos que supor o interesse de uma civilização por investigar o Universo. Quem sabe esse desejo não seja algo intrínseco a própria natureza humana; uma espécie de busca antropocêntrica para amenizar a solidão e silêncio cósmico.

O fato de nossa espécie humana ter interesse de investigar outros mundos e, apesar de ainda estarmos engatinhando, de fato temos visitado outros lugares no Universo não segue disso que o mesmo deva acontecer com uma civilização extraterrestre. E se ela existe (acredito que sim, e nesse sentido encontro a defesa disso através do princípio da mediocridade ou, na linguagem de Barcelos, no pluralismo), deverá vencer uma dificuldade técnica monstruosa para poder levar à cabo viagens desse tipo. Isso tudo elimina com certeza absoluta a visita de extraterrestres (no passado ou futuro)? Certamente não. Mas torna este evento muito improvável, sobretudo quando as alegações de visitas no passado carecem de evidências. Portanto, defender que extraterrestres já nos visitaram deve ir muito além de alegações ou opiniões populares com fraca justificação. A forte adesão pela vontade que algo tivesse acontecido não garante que de fato tenha ocorrido. E para avaliar isso devemos encaminhar nossa observação a um escrutínio que seja apoiado nas razões pelas quais deveríamos acreditar em algo.

O caso da as17-134-20384, ou “Era mesmo para a Terra estar desse tamanho?”

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"Eu sou uma foto muito polêmica" (as17-134-20384)

Vem da missão Apollo 17 uma das grandes “bombas” usadas a favor da tese de que o homem nunca foi à Lua e que tudo foi forjado aqui na Terra. Trata-se de uma foto que mostra o astronauta e cientista Harrison Schmitt ao lado da bandeira americana, e no céu lunar se vê o planeta Terra suavemente flutuando em meio ao mais puro (nem tanto) nada, esta foto é a tal as17-134-20384. O que chama a atenção na foto para praticamente todos os conspiracionistas e uns poucos curiosos é o tamanho da Terra, o argumento mais levantado por essa foto é geralmente “essa Terra tá do tamanho da Lua vista aqui de baixo, FAIL NASA!“.

Mas será mesmo que a Terra está do mesmo tamanho que a Lua estaria se estivesse na mesma foto? (Alerta de spoiler: não). Neste artigo friamente calculado vamos analisar a questão ponto a ponto e chegar a um veredito final.

1 – CAMPO DE VISÃO E AS CÂMERAS HASSELBLAD

Para começar a decifrar a questão do tamanho dos objetos nas fotos, precisamos entender uma questão primordial: o que diabos nós vemos de tudo que nos cerca? O mundo visível é uma grande esfera da qual nós somos o ponto central, todos os estímulos visuais chegam a nós vindos de toda parte, só que nós, meros macacos humanos, não conseguimos olhar para todas as direções ao mesmo tempo e a “fatia” do mundo que nós conseguimos gravar em determinado momento, chamamos de campo de visão. Um ser humano com a visão dentro da normalidade tem um campo de visão horizontal de quase 180º, câmeras com diferentes lentes também vão ter seus próprios valores de campo de visão (o mesmo vale para filmadoras, telescópios, transformers, etc.).

No caso aqui, as câmeras utilizadas pelas missões Apollo eram Hasselblad 500 EL/M modificadas, que utilizavam lentes de 80mm para fotos “comuns” (que não precisassem de grande aproximação ou registrar um grande ângulo) com um campo de visão horizontal e vertical de 38º, a imagem abaixo resume tudo que foi dito até agora:

Campo de visão Hasselblad

2 – COMPREENDENDO A FOTO

Sabendo do que sabemos até agora, podemos visualizar com o que estamos lidando aqui, preparamos uma imagem mostrando melhor o que significa um campo de visão de 38º em uma fotografia lunar.

as17-134-20384 explicada

Resumão até agora: as fotos tiradas pelos astronautas retratavam uma área visual com 38º de largura x 38º de altura. “Tá, professor, mas o que isso tem a ver com o tamanho da Terra?” Tem a ver que tudo que está dentro de uma área de tamanho conhecido pode ser medido, oras! E como isso vai influenciar na nossa análise da questão toda? O “bagulho” aqui é que a Terra tem um tamanho conhecido, e a distância Terra-Lua também é conhecida, e juntando isso com o que foi explicado, vamos usar um pouco de matemática pra descobrir se a Terra está do tamanho correto, com a ajuda de uma coisinha que vai ser explicada agora:

Diâmetro angular explicado

Esse tal de diâmetro angular (um termo muito usado em astronomia e geometria, aliás) é que vai nos ajudar a saber se a Terra está realmente do tamanho que deveria estar na foto. Já está ficando claro o que nós vamos fazer? Vamos calcular o diâmetro angular da Terra e ver se, dentro dos 38º de largura da as17-134-20384, ela ocupa realmente a quantidade de graus que deveria ocupar.

3 – E AGORA, JOSÉ? “AGORA COMEÇA A MATEMÁTICA”

“Matemática? Naaaããoo!!!”
“Siiiiim!!!”

Relaxemos, pessoal, não tem nada que não se veja no ensino médio. Primeiro nós temos que determinar a extensão da circunferência visual à distância em que a Terra se encontra a partir da Lua, usando a boa e velha fórmula…
"2 Pierres"Como explicamos antes, o mundo visual recebe estímulos de todas as direções, e no caso das missões Apollo não era diferente. Embora pareça estranho medir uma circunferência em que a Terra esteja ao redor da Lua, sabendo que na verdade a Lua é que gira à nossa volta, quando falamos em campo de visão é totalmente aceitável, já que qualquer ponto que registre informações visuais (o olho humano, uma câmera, etc.) é o ponto central do seu próprio campo visual. Voltando à matemática, o que acontece agora é que a proporção entre o diâmetro da Terra e a extensão da circunferência em que ela se encontra no céu lunar é igual à proporção entre o seu diâmetro angular e os 360º de uma volta completa pelo céu, e sabendo disso, para achar o diâmetro angular da Terra vista da Lua, vamos usar a sempre amiga regra de três simples:

Diâmetro angular da Terra
Duas coisas eu tenho de sobra nos últimos dias: tempo e saco. Então eu fiz também as contas para as distâncias máxima e mínima entre a Terra, e daí temos que o diâmetro angular da Terra, na Lua, pode variar entre 1,8º e aproximadamente, mas vamos ficar nos 1,89º.

4 – E ISSO CONFERE OU NÃO COM O QUE SE VÊ NA FOTO?

Felizmente, para vossas cabecinhas, a matemática agora fica mais simples. A foto original tem 3000 pixels de largura representando 38º, é uma questão de divisão simples pra concluir que cada 78,94 pixels equivalem a 1º, e é só multiplicar este valor pelos 1,89º para concluir que a Terra deve ter em média 141,1 pixels de uma ponta a outra na imagem original.

Diâmetro angular aplicado à foto

Então, acho que agora sim podemos dizer com certeza que é de fato a Terra na foto, ponto para as Apollo (yay!).

“Mas pra mim ainda parece o mesmo tamanho que a Lua aparece no céu aqui na Terra, isso tá muito furado” (Seu Teimoso)

Já premeditando que esta dúvida ainda pode persistir pra alguns, preparei uma simulaçãozinha de como a Lua ficaria na mesma foto. O diâmetro angular da Lua é bem conhecido e é 0,528º, usando a mesma matemática de antes, ela teria 41,6 pixels de extensão na mesma imagem original. Com um pouco de Photoshop e uma imagem da Lua, aplicamos a Lua no tamanho que teria e…

Conclusões Finais 02Não é preciso falar muita coisa…

5 – CONCLUSÕES

É a Terra sim, e ela está do tamanho correto na imagem (se fosse a Lua, estaria bem menor). Se ainda assim algum dos leitores ainda tiver alguma relutância, pode reproduzir todos os cálculos que foram feitos aqui e conferir as informações nas fontes no fim do artigo.

Fontes:

as17-134-20384http://spaceflight.nasa.gov/gallery/images/apollo/apollo17/hires/as17-134-20384.jpg
Hasselbladhttp://www.ehartwell.com/Apollo17/BlueMarblePhotography_Cameras.htm

Afinal, Carl Sagan era ateu?

Para acabar com citações falsas que circulam na Internet a respeito do posicionamento filosófico de Carl Sagan sobre a existência de Deus, há um comentário dele na obra “Conversations with Carl Sagan” (1981), onde ele admite ser agnóstico à existência de Deus:

“Um ateu é alguém que tem certeza de que Deus não existe, alguém que tem provas irrefutáveis contra a existência de Deus. Não conheço essa evidência convincente. Como Deus pode ser relegado a tempos e locais remotos e causas últimas, teríamos que saber muito mais sobre o universo do que agora para ter certeza de que Deus não existe. Para ter certeza da existência de Deus e ter a certeza da não existência de Deus parece-me ser os extremos confiantes em um assunto tão cheio de dúvida e incerteza quanto ao inspirar muita pouca confiança no mesmo.” – (Carl Sagan, em Wakin, Edward – Maio de 1981. “God and Carl Sagan: Is the Cosmos Big Enough for Both of Them?”).

Vida e Crenças Pessoais

Carl Sagan com Câncer

Sagan casou três vezes, em 1957 com a bióloga Lynn Margulis, mãe de Dorion Sagan e Jeremy Sagan, em 1968 com a artista Linda Salzman, mãe de Nick Sagan, e em 1981 com a autora Ann Druyan, mãe de Alexandra Rachel (Sasha) e Samuel Sagan Democritus Sagan. Seu casamento com Druyan continuou até sua morte em 1996.

Isaac Asimov descreveu Sagan como uma das duas únicas pessoas que ele já conheceu cujo intelecto superava o seu. O outro, segundo ele, foi o cientista da computação e especialista em inteligência artificial Marvin Minsky.

Sagan escrevia frequentemente sobre religião, e a relação entre religião e ciência, expressando seu ceticismo sobre a conceituação convencional de Deus como um ser sábio. Por exemplo: “Algumas pessoas acreditam que Deus é um enorme homem de pele clara com uma longa barba branca, sentado em um trono em algum lugar lá em cima no céu, ocupado na contagem da queda de cada pardal. Outros – como Baruch Spinoza e Albert Einstein – consideraram Deus como essencialmente a soma do total das leis da física que descrevem o Universo. Eu não conheço nenhuma evidência convincente para a existência de um patriarca antropomórfico controlando o destino da humanidade a partir de algum ponto celestial escondido, porém seria uma insanidade negar a existência das leis da física.”

Em um outro relato da sua visão sobre o conceito de Deus, enfaticamente Sagan escreve:

“A idéia de que Deus é um gigante barbudo de pele branca sentado no céu é ridícula. Mas se, com esse conceito, você se referir a um conjunto de leis físicas que regem o Universo, então claramente existe um Deus. Só que ele é emocionalmente frustrante: afinal, não faz muito sentido rezar para a lei da gravidade!”

No ateísmo, Sagan comentou em 1981:

“An atheist is someone who is certain that God does not exist, someone who has compelling evidence against the existence of God. I know of no such compelling evidence. Because God can be relegated to remote times and places and to ultimate causes, we would have to know a great deal more about the universe than we do now to be sure that no such God exists. To be certain of the existence of God and to be certain of the nonexistence of God seem to me to be the confident extremes in a subject so riddled with doubt and uncertainty as to inspire very little confidence indeed”. (Citação traduzida acima).

Sagan também comentou sobre o Cristianismo, afirmando que “Minha visão de longa data sobre o cristianismo é que ele representa um amálgama de duas partes aparentemente imiscíveis: a religião de Jesus e a religião de Paulo. Thomas Jefferson tentou extirpar as partes paulinas do Novo Testamento. Não sobrou muita coisa quando ele concluiu, mas era um documento inspirador.”

Em resposta a uma pergunta, em 1996, sobre suas crenças religiosas, Sagan respondeu: “Eu sou agnóstico”. Os pontos de vista de Sagan sobre a natureza do universo tem sido interpretados como algo comparável à compactuação de Einstein com o Deus de Espinosa. Sagan afirmava que a ideia de um criador do Universo era difícil de provar ou refutar, e que a única descoberta que poderia confrontar isto seria um universo infinitamente antigo. De acordo com sua última esposa, Ann Druyan, ele não era um crente:

“Quando meu marido morreu, porque ele era tão famoso e conhecido por não ser um crente, muitas pessoas vieram a mim – ainda acontece às vezes – me perguntar se Carl havia mudado no final e se convertido a uma crença na vida após a morte. Também me perguntam frequentemente se eu acho que vou vê-lo novamente. Carl enfrentou a morte com coragem inabalável e nunca procurou refúgio em ilusões. A tragédia foi que sabíamos que nunca iriamos nos ver outra vez. Eu não espero estar com Carl novamente.”

Referências: