Novo estudo expõe acupuntura como pseudociência

Créditos: Shkolazhizni / Shutterstock.

Por Lauren Friedman
Publicado na Business Insider

A acupuntura tem sido praticada há milhares de anos – mas isso não significa que ela realmente funciona.

Um novo estudo publicado online na revista Cancer sugere que qualquer alívio que a acupuntura traz pode ser o resultado de um efeito placebo.

Os pesquisadores acompanharam um grupo de 47 mulheres que estão sendo tratadas com inibidores de aromatase, um medicamento para o câncer da mama que pode causar efeitos da colaterais semelhantes a menopausa (afrontamentos, suores noturnos), bem como dor nas articulações e músculos. 23 das mulheres receberam oito semanas de acupuntura; o resto recebeu oito semanas da chamada “acupuntura simulada”, onde as agulhas são colocadas na pele em pontos aleatórios – e não em pontos da acupuntura tradicional. Entretanto, na verdade, as agulhas não são sequer inseridas na pele do paciente.

O resultado? Todos os pacientes relataram que os efeitos colaterais foram amenizados, especialmente a gravidade dos afrontamentos.

O Poder do Placebo

Não houve diferença significativa entre o grupo que recebeu a acupuntura tradicional e o grupo que recebeu “acupuntura simulada”. Então, por que a melhoria em ambos os casos?

“Você pode concluir, então, que isso é um efeito placebo”, diz o autor Ting Bao, da Universidade de Maryland, Baltimore, à HealthDay.

Os praticantes da medicina tradicional chinesa argumentam que a acupuntura é uma forma de reequilibrar a energia, ou “qi”, que flui através de caminhos específicos no corpo através da aplicação de agulhas.

A “acupuntura simulada” é notoriamente difícil de compreender. Ao contrário de uma pílula de açúcar dada no lugar de um medicamento real, é mais complicado convencer os pacientes de que eles estão, na verdade, sendo submetidos a um tipo de “terapia” sem fazer qualquer coisa que possa afetá-los fisicamente. Os autores do novo estudo alertam que a falsa acupuntura ainda pode produzir algum efeito físico desconhecido.

Enquanto alguns estudos mostram um “possível efeito positivo” quando a acupuntura é usada para tratar doenças como dores nas costas e cólicas menstruais, a maioria das pesquisas sobre a acupuntura são inconclusivas. Ainda assim, enquanto não há nenhuma evidência de que os fluxos de energia estão envolvidos, o efeito placebo não é a mesma coisa que afirmar que não existe nenhum efeito.

Referência

10 ideias científicas que cientistas gostariam que você parasse de usar de forma errada

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Créditos: Mimi and Eunice.

Muitas ideias deixaram o mundo da ciência e tomaram seu lugar na nossa linguagem cotidiana – e, infelizmente, elas são quase sempre utilizadas de forma incorreta. Pedimos a um grupo de cientistas para que nos contassem quais termos científicos eles acreditam que sejam os mais comumente mal compreendidos. Aqui estão 10 deles.

1. Prova

O Físico Sean Carroll disse que:

Eu diria que a “prova” é o conceito mais mal-entendido em toda a ciência. Ele tem uma definição técnica (uma demonstração lógica de que certas conclusões seguem a partir de certas suposições) que difere muito da forma como o termo costuma ser utilizado em conversas casuais, que está mais próxima de significar “fortes evidências a favor de alguma coisa”. Há uma incompatibilidade entre a forma como os cientistas falam e a forma como as pessoas escutam, pois esses tem uma definição mais forte em mente. Seguindo esta definição, a ciência nunca prova nada! Então quando somos perguntados “Qual é a sua prova de que evoluímos a partir de outras espécies?” ou “Você pode realmente provar que o aquecimento global é causado por ação antrópica?” nós tendemos a titubear ao invés de simplesmente responder “É claro que podemos provar”. O fato de que a ciência nunca prova nada, mas simplesmente cria teorias cada vez mais confiáveis sobre o mundo, mas que ainda assim estão sempre sujeitas a atualizações e melhorias, é um dos aspectos chave do porquê a ciência é tão bem sucedida.

2. Teoria

O Astrofísico Dave Goldberg tem uma teoria sobre a palavra “teoria”:

O publico geral ouve a palavra “teoria” como um sinônimo para “ideia” ou “suposição”. Sabemos que não é assim. Teorias científicas são sistemas inteiros de ideias testáveis que são potencialmente refutáveis tanto pelas evidências disponíveis quanto por experimentos que alguém possa realizar. As melhores teorias (nas quais eu incluo a relatividade restrita, a mecânica quântica e a evolução) resistiram a cem anos ou mais de desafios, tanto de pessoas que queriam se provar mais inteligentes que Einstein, quanto de pessoas que não gostam de desafios metafísicos contra sua visão de mundo. Por fim, teorias são maleáveis, mas não indefinidamente. Elas podem estar incompletas ou erradas em algum detalhe específico sem que elas inteiras desmoronem por causa disso. A evolução,por exemplo, sofreu várias adaptações ao longo dos anos, mas não tanto a ponto de que não se possa mais reconhecer que ainda se trata da mesma teoria. O problema com a frase “só uma teoria” é que ela sugere que uma teoria científica real é algo pequeno, o que não é verdade.

3. Incerteza e Estranheza Quânticas

Goldberg adiciona que há outra ideia que foi mal interpretada de forma ainda mais perniciosa do que a de “teoria”. Acontece quando pessoas se apropriam de conceitos da física para propósitos espirituais ou “New Age”.

Esta interpretação errada é uma exploração da mecânica quântica por uma certa estirpe de espiritualistas e autores de auto-ajuda, sintetizada pela abominação (o documentário) “ Quem Somos Nós?” (“What the Bleep Do We Know?”). A mecânica quântica, de forma bem conhecida, trabalha com medidas desde sua parte central. Um observador medindo posição, momento ou energia faz com que a “função de onda colapse” de forma não determinística. (Inclusive, uma das primeiras colunas que escrevi foi “Quão esperto você precisa ser para colapsar uma função de onda?”). Mas o fato de o universo não ser determinístico não significa que é você que o está controlando. É notável (e, francamente, alarmante) o grau com que a incerteza e a estranheza quânticas são inextricavelmente ligadas por certos grupos à ideia de alma, de humanos controlando o universo, ou alguma outra pseudociência. No fim das contas, nós somos feitos de partículas quânticas (prótons, nêutrons, elétrons) e somos parte do universo quântico. Isso é legal, claro, mas apenas no sentido de que toda a física é legal.

4. Aprendido vs Inato

A Bióloga Evolutiva Marlene Zuk diz que:

Um dos meus [enganos] favoritos é a ideia de o comportamento ser “aprendido vs inato” ou qualquer outra versão “estímulos-natureza” disso. A primeira pergunta que geralmente me fazem quando eu falo sobre o comportamento, é se ele é “genético” ou não, o que é uma interpretação errada, pois TODAS as características, o tempo todo, são o resultado de uma contribuição vinda dos genes e outra do ambiente. Apenas as diferenças entre as características, e não as características em si, podem ser genéticas ou aprendidas – como o caso de você ter dois gêmeos idênticos criados em ambientes diferentes que fazem algo diferente (como falar idiomas diferentes) – esta diferença é aprendida. Mas falar francês ou italiano ou qualquer outra língua não é algo apenas aprendido, pois, obviamente, uma pessoa precisa de um certo plano de fundo genético para simplesmente ser capaz de falar.

5. Natural

O Biólogo Sintético Terry Johnson está realmente cansado das pessoas não entenderem o significado desta palavra:

“Natural” é uma palavra que tem sido usada em muitos contextos, com tantos significados diferentes que se tornou quase impossível de analisar. Seu uso mais básico, para distinguir fenômenos que existem apenas por causa da humanidade de fenômenos que não precisam dela para existir, presume que os humanos são, de alguma forma, separados da natureza, que nossos trabalhos são não-naturais quando comparados com, digamos, o de castores ou abelhas.

Quando se trata de comida “natural”, o termo é ainda mais escorregadio. Ele tem significados diferentes em países diferentes, e nos EUA, a FDA (US Food and Drug Administration) desistiu de dar uma definição significativa à comida natural (em grande parte em favor de outro termo nebuloso, “orgânico”). No Canadá, eu poderia comprar milho como “natural”, desde que não tenham sido a ele adicionadas ou removidas várias coisas antes da venda, porém o milho é o resultado de milhares de anos de seleção pelos humanos, de uma planta que não existiria sem nossa intervenção.

6. Gene

Johnson tem uma preocupação ainda maior com a forma como a palavra “gene” é usada:

Levou dois dias para 25 cientistas chegarem a: “uma região localizável da sequência genômica, correspondente a uma unidade de herança, que é associada a regiões reguladoras, transcritas e/ou outras regiões de sequências funcionais”. Isso significa que um gene é uma pequeno pedaço de DNA para o qual podemos apontar e dizer, “isso faz alguma coisa ou regula a produção de alguma coisa”. A definição, dessa forma, é bem flexível; não faz muito tempo desde que pensávamos que a maior parte do nosso DNA não servia para nada. Nós a chamávamos de “junk DNA” (DNA lixo, em tradução livre), mas nós estamos descobrindo que muito daquele “lixo” tem propósitos que não eram imediatamente óbvios.

Tipicamente, a palavra “gene” é mal utilizada quando vem seguida da palavra “para”. Há dois problemas aí. Todos nós temos genes para hemoglobinas, mas nem todos nós temos anemia falciforme. Pessoas diferentes possuem versões diferentes do gene da hemoglobina, chamados alelos. Há alelos de hemoglobina que são associados a doenças de células falciformes e outros que não são. Então, um gene se refere a uma família de alelos, da qual apenas alguns poucos membros, se algum, estão associados a doenças. O gene não é mal, pode acreditar em mim, você não vai viver muito sem hemoglobina – ainda que uma determinada versão de hemoglobina que você tenha possa vir a se tornar problemática.

O que mais me preocupa é a popularização da ideia de que quando uma variação genética está relacionada a alguma coisa, isso é o “gene para” aquela coisa. Esta linguagem sugere que “este gene causa doenças do coração”, quando na realidade, o que costuma ocorrer é que “pessoas que possuem este alelo parecem sofrer uma incidência ligeiramente maior de doenças do coração, mas nós não sabemos o motivo, e talvez existam vantagens que compensem esta característica, mas que nós ainda não percebemos por não estarmos procurando por elas”.

7. Estatisticamente Significativo

O matemático Jordan Ellenberg quer ajustar nossos registros sobre esta ideia:

“Estatisticamente significativo” é uma daquelas frases que os cientistas adorariam ter a chance de voltar atrás e dar a ela outro nome. “Significativo” sugere importância, mas o teste de significância estatística, desenvolvido pelo estatístico inglês R.A. Fisher, não mede a importância ou o tamanho de um efeito, apenas se somos capazes de distingui-lo, usando nossas mais afiadas ferramentas estatísticas, de zero. “Estatisticamente perceptível” ou “Estatisticamente notável” seriam muito melhores.

8. Sobrevivência do Mais Apto

A Paleoecologista Jacquelyn Gill diz que as pessoas entendem errado alguns dos princípios básicos da teoria evolutiva:

No topo da minha lista estaria a “sobrevivência do mais apto”. Pra começar, estas não são realmente as palavras de Darwin, e segundo, as pessoas tem um conceito equivocado sobre o que “aptidão” significa. Da mesma forma, há uma grande confusão sobre a evolução em geral, incluindo a ideia persistente de que ela é progressiva e direcional (ou inclusive dirigida pelos organismos; as pessoas não compreendem a ideia de seleção natural), ou que todas as características precisam ser adaptativas (Seleção sexual existe! Mutações aleatórias também!).

Mais apto não significa mais forte nem mais inteligente. Significa apenas um organismo que está mais bem adaptado ao seu ambiente, o que pode significar qualquer coisa, de “menor” ou “mais escorregadio”, até “mais venenoso” ou “mais capaz de viver sem água por semanas”. Ainda, as criaturas nem sempre evoluem de uma maneira que podemos explicar como adaptações. Seu caminho evolutivo pode ter mais a ver com mutações aleatórias, ou características que outros membros daquela espécie acham atraentes.

9. Escalas de Tempo Geológicas

Gill, cujo trabalho é centrado em ambientes Pleistocenos, que existiram há mais de 15,000 anos, diz estar consternada pelo quão pouco as pessoas parecem entender sobre as escalas de tempo do planeta.

Uma questão com a qual eu frequentemente me deparo é a falta de entendimento público das escalas de tempo geológicas. Qualquer coisa pré-histórica é comprimida na mente das pessoas, que acham que há 20,000 anos existiam espécies drasticamente diferente das atuais (não), ou até dinossauros (não, não, não). Aquelas miniaturas de plástico de dinossauros que frequentemente incluem no mesmo pacote homens das cavernas e até mamutes não ajudam muito.

10. Orgânico

A Entomologista Gwen Pearson diz que há uma constelação de termos que “viajam juntos” com a palavra “orgânico”, como “sem produtos químicos” e “natural”. Ela está cansada de ver o quão profundamente as pessoas os interpretam errado.

Estou menos incomodada sobre a maneira como tais termos estão tecnicamente incorretos [uma vez que toda comida é orgânica, por conter carbono e etc…]. [Minha preocupação é] a maneira como eles são utilizados para dispensar ou minimizar as diferenças reais na comida e sua cadeia de produção.

Coisas podem ser naturais e “orgânicas”, mas ainda bastante perigosas

Coisas podem ser “sintéticas” e fabricadas, porém seguras, e às vezes escolhas melhores. Se você está usando insulina, há boas chances de que seja de uma bactéria GMO. E ela está salvando vidas.

Abuso da Física Quântica para fenômenos sobrenaturais no Rio Grande do Sul

Crédito da Imagem: Ultra Downloads.

Recentemente, uma notícia divulgada pela Globo “bombou” nas redes sociais, com o título, “Casa é demolida após exorcismo e fenômenos incomuns no Rio Grande do Sul”. A notícia em questão é sobre um caso que aconteceu no Rio Grande do Sul, em que uma família alegou ter presenciado fenômenos paranormais e sobrenaturais em sua casa.

Um simples caso que poderia ser facilmente explicado pela psicologia… poderia… mas não foi, pelo menos pela mídia… A mesma procurou explicação, mas, infelizmente, no lugar errado e talvez por falta de conclusões, eles procuraram pseudocientistas, e consequentemente, a matéria acabou indo ao ar novamente pelo site da Globo com o título, “Fenômenos sobrenaturais são reconhecidos pela física quântica”.

O problema é que eles não foram atrás de explicações científicas, mas de pseudocientíficas, usando a típica “Falácia de Apelo à Física Quântica”. O charlatão quântico entrevistado pela Globo, apelou para falácias e pseudoexplicações absurdas para sustentar seu ponto de vista espiritualista e, consequentemente, suas reivindicações paranormais.

Vamos focar em dois pontos: O primeiro em demonstrar a desinformação promovida pelo Moacir Araujo de Lima. A segunda é em dar uma explicação racional para o caso em questão (utilizando alguns conceitos da psicologia e a Navalha de Occam).

Antes de ler o texto (Fantasmas Quânticos, linkado abaixo) que desconstrói a pseudociência por trás da Mecânica Quântica, tenha em mente alguns pontos:

  1. A Mecânica Quântica não trata de espiritualidade, meditação e nem consciência.
  2. Não existem evidências da existência de fenômenos paranormais e sobrenaturais.
  3. Ninguém nunca ganhou o desafio paranormal de 1 milhão de dólares promovido por James Randi e sua fundação educacional.
  4. Espiritualidade é uma corrente filosófica subjetivista, por este motivo é importante ler o texto a seguir com atenção, pois ele se refere a definição no sentido espiritual ou transcendente da palavra, isto é, termo oposto às correntes materialistas e naturalistas. Note que não estamos usando a definição de Sagan no sentido de arte, inspiração ou contemplação da natureza.

Confira o texto completo escrito pelo Thiago M. Guimarães do blog Simetria de Gauge, com o título, “Fantasmas Quânticos”.

Mas que conclusão podemos tirar deste caso?

Antes de mais nada, devemos destacar alguns pontos:

  1. O ambiente não foi estudado por especialistas em ciência e em fraudes (truques).
  2. O médium exorcizou uma garota (nós já explicamos aqui os fatos sobre o exorcismo).
  3. O teólogo tentou “explicar” o caso.

A primeira hipótese que eu levantaria seria da garota que subiu no telhado, pode ser que ela mesmo esteja realizando algum tipo de fraude (seja lá qual for o motivo), e seus pais, consequentemente poderiam estar sendo induzidos psicologicamente por estas fraudes (autossugestão), isso explicaria os supostos vultos, espíritos e demais “fenômenos” observados.

Sobre as pedras no telhado, pode ser a própria garota ou outra pessoa, afinal ninguém entrou com mais de uma câmera para filmar o local no momento exato que isso supostamente acontece.

Outro ponto importante, são os buracos no telhado, e a casa era de madeira, é perfeitamente possível esconder objetos removendo algumas partes da mesma. A garota poderia estar escondendo pedras e atirando-as sob o telhado, exclusivamente de dentro pra fora e vice-versa.

Outro ponto forçado neste caso, é o testemunho do sargento, que é basicamente igual ao testemunho de uma pessoa qualquer.

É importante ressaltar que o local é isolado, e o “fenômeno” geralmente ocorre de noite, num local de pouca ou nenhuma luminosidade.

A pergunta é a seguinte, quem garante que os relatos coincidem com os fatos? Os relatos não são verificáveis, e não podemos nos deixar levar a acreditar nas pessoas por achar que estão falando a verdade, as pessoas geralmente distorcem o que veem e dificilmente descrevem seus relatos com exatidão.

Melhor que isso, só mandando um grupo de céticos, cientistas (de fato), e mágicos ilusionistas para o local.


Adendo: Eu e o pessoal do Simetria de Gauge estamos twittando para o pessoal do programa, se possível, nos ajude.

É ruim ser cético?

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O filósofo Massimo Pigliucci[1] escreve que, certa vez, foi convidado por um programa de rádio americano para falar sobre a questão da evolução biológica e do criacionismo como explicações para a evolução da vida no planeta, um assunto bastante discutido em certas partes dos Estados Unidos, especialmente na região centro-sul do país. O outro convidado era o também cético Michael Shermer. Pigliucci afirma que o locutor do programa do qual estavam participando ficou intrigado ao perceber que os dois convidados pareciam pessoas bastante amigáveis, que sorriam e eram cordiais, ou seja, eram pessoas muito felizes e amistosas para “serem céticos”.

A visão do radialista americano sobre o que é um cético é compartilhada por muita gente. No início de novembro de 2013, a revista UFO, no Brasil, publicou em sua página do Facebook um manifesto – posteriormente deletado – contra os “céticos” que não aceitam que as marcas surgidas em uma plantação no interior de Santa Catarina no começo daquele mês sejam obras de alienígenas. O comunicado diz:

Amigos, deixando de lado estas discussões com céticos tolos, que há anos se repetem em sua incredulidade e perdem grandes chances de abrirem suas mentes para aquilo que não conseguem entender, vamos prosseguir com a conversa de maneira construtiva. Até porque, em mais de três décadas dedicadas à Ufologia, encontrei todo tipo de cético pela frente, menos um: O CÉTICO INTELIGENTE! Esse não existe, porque, quando há inteligência, não pode haver ceticismo.

Todos os céticos que conheci, infelizmente, são de uma pobreza mental de dar dó. Ultrapassados, limitados, ignorantes (no sentido de não buscarem informações que desafiem o que conhecem), ranzinzas e chatos. Deixemos os caras de lado, mas não sem antes relembrarmos a eles: moçada, Ipuaçu fica em Santa Catarina, não em Katmandu. Para se chegar lá e ver as coisas pessoalmente, há estradas e o local não é inacessível. Pode-se ir até lá por inúmeras rodovias, ok? Então, help yourself, senhores céticos!

De acordo com o texto da revista, ceticismo e inteligência são características incompatíveis. Um cético é um sujeito de mente fechada[2] e que, por isso, não percebe quantas coisas está deixando de saber. A mente fechada é um sinal de pobreza intelectual, segue o comunicado da revista, e os céticos são também ignorantes por não buscarem informações diferentes daquelas com as quais estão familiarizados. E, obviamente, céticos são “ranzinzas e chatos”.

Uma das melhores definições a respeito do que significa ser um cético vem de Massimo Pigliucci[3] (aqui, o autor se refere ao uso contemporâneo do termo, e não ao ceticismo radical, uma posição filosófica que sustenta que não é possível ter conhecimento do mundo): “Ser cético significa nutrir reservas razoáveis a respeito de certas afirmações. Significa querer mais evidências antes de chegar a alguma conclusão. Mais importante, significa manter uma atitude de abertura para calibrar as crenças de alguém de acordo com as evidências disponíveis”.

Contrariamente às visões comuns sobre o ceticismo, ser cético não significa ser chato, e também não significa uma obsessão por tentar mostrar que qualquer afirmativa é falsa. Significa, simplesmente, ter padrões de exigências mais refinados para aceitar alguma ideia como provavelmente verdadeira. Assim, se alguém diz que a falta de marcas aparentes de ação humana é suficiente para que se acredite que um desenho em uma lavoura de trigo foi feito por alienígenas, então, de fato, esse sujeito não é um cético, pois sua conclusão parte de evidências bastante fracas, da aceitação de falácias filosóficas (como o apelo à ignorância) e, basicamente, de suposições fantasiosas que não recebem nenhum endosso da ciência (ex: aliens inteligentes nos visitam).

Question
Fonte da imagem: http://tidysurveys.com

A falta de ceticismo é um dos maiores males do mundo contemporâneo, afirma o jornalista americano Guy Harrison em Think: why we should question everything (Pense: por que nós deveríamos questionar tudo, publicado pela Prometheus Books nos Estados Unidos, e ainda sem edição brasileira). Tendemos a acreditar em tudo sem demandar boas razões para isso. Aceitamos tranquilamente o que um político diz somente porque ele pertence ao partido de nossa preferência. Tomamos um “complexo vitamínico” porque o anúncio que vimos na TV é bem feito, com pessoas bonitas, e a empresa afirma que irá devolver nosso dinheiro se o produto não funcionar. Acreditamos que alienígenas viajaram por distâncias inimagináveis, chegaram à Terra e aqui nos deixaram alguma mensagem (que nunca conseguimos decifrar) em plantações de trigo, e chegamos a essa conclusão basicamente porque “isso não pode ter sido feito por seres humanos.” A aceitação de ideias que provavelmente são falsas nos leva a perder dinheiro, a arriscar nossa saúde, ou simplesmente a perder tempo, procurando coisas que provavelmente nunca encontraremos, como aliens fazendo os círculos.

Harrison afirma que devemos ter uma “dose saudável de dúvida”, e usarmos a razão para discernir entre aquilo que é provavelmente real e aquilo que não é. Isso significa não assumir que conhecemos alguma coisa sem ter boas razões que a sustentem. Essa postura cética – quando aplicada às mais diversas situações que vivenciamos – pode mudar nosso mundo, em termos individuais e sociais, para melhor.


[1] PIGLIUCCI, M. Tales of the rational: skeptical essays about nature and science. Smyrna: Freethought Press, 2000, p. 253.

[2] Para saber mais sobre a ideia de mente aberta (open-mindedness), vale consultar o trabalho do filósofo inglês William Hare. Muitos de seus artigos estão disponíveis gratuitamente em http://www.williamhare.org/

[3] PIGLIUCCI, M. Nonsense on stilts: how to tell science from bunk. Chicago: The University of Chicago Press, 2010, p. 137.