Alienígenas na Universidade – Perspectivas Acadêmicas Sobre a Busca Pela Vida Fora da Terra

Perspectivas acadêmicas sobre a busca pela vida fora da Terra, discos voadores, e cultura contemporânea.

Data: 23 de maio de 2013
Horário: das 09h às 17h
Local: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Sala 21, Bloco B.
Endereço: Avenida Profº  Mello Moraes, 1721, Cidade Universitária.

Confira a Programação do Evento:

Aliengenas_na_Academia

Não é necessária inscrição. Será fornecido certificado.

Mais Informações: Instituto de Psicologia – USP.

Anticiência – Do Século XV aos Pós-Modernos

9

Saudações racionalistas! O texto que se segue mostra um ótimo trabalho do Professor Dr. Fernando de Mello Gomide, ex-docente do ITA de São José dos Campos (SP) e pesquisador do Instituto de Ciências Exatas e Naturais da Universidade Católica de Petrópolis (RJ). Que faz um resumo das diversas correntes filosóficas e de filósofos que, como um todo, fazem parte do que é muito conhecido no meio acadêmico (tanto nacional como internacional) como “movimento anticiência”. Deixarei claro que este movimento não se trata, obviamente, de um grupo – ou grupos – de ação deliberada e que visa tolher a ciência de todas as formas possíveis.

Este trabalho simplesmente abordará ao longo do tempo, como este movimento foi nascendo no próprio seio da história e filosofia da ciência. Apesar de começar da Antiguidade de Aristóteles – e atribuir ao pensador grego, uma responsabilidade pelo desembocar de tal movimento -, o trabalho foca-se no contexto do século XV aos filósofos da segunda metade do século passado que passaram a falar em uma “pós-modernidade”. Chegando aos nomes de filósofos – ou sedizentes filósofos, como no caso de Olavo de Carvalho – que são muito conhecidos na atualidade.

Visaremos com o presente trabalho do autor, tentar esclarecer a parte anticientífica (ou radicalmente cética) que encontra-se em evidência tanto na história como na filosofia da ciência. De modo a fazer com que aqueles que reconhecem o valor dessas disciplinas, tentem exercer um construtivo ceticismo nesses ramos e busquem o que neles há de exato. Rumando cada vez mais à mentalidade e afinidade – como um todo – para com a ciência, sua história e sua filosofia.

Boa leitura a todos!


Comunicação apresentada no Colóquio sobre Pós-Modernidade e Anticiência realizado em Set/97 na UCP.

Universidade Católica de Petrópolis
Instituto de Ciências Exatas e Naturais
Janeiro 2001

Fernando de Mello Gomide

RESUMO

A Física e a Astronomia de Aristóteles foram destronadas nos séculos XIII e XIV, devido especialmente à escola franciscana. Entretanto do século XV ao XVII, foram reinstaladas na escolástica, com a responsabilidade principal do Papa Nicolau V e dos dominicanos. A poderosa influência de Aristóteles daí decorrente, exercida sobre filósofos católicos e não-católicos, determinou uma generalizada hostilidade face à ciência nas várias escolas do pensamento filosófico ao longo dos séculos até nossos dias.

ABSTRACT

Aristotle’s physics and astronomy which were dethroned during the XIIIth and XIVth centuries, specially by the Franciscan School, were nevertheless reinstalled in scholasticism from the XVth to the XVIIth centuries. The chief responsability for that falls on Pope Nicholas V and the Dominicans. The powerful influence of Aristotle thereof was exerted on Catholic and non-Catholic philosophers alike, and that has determined an overall hostility towards science among the various schools of philosophical thought along subsequent centuries till our days.


Certos filósofos escolásticos assim como filósofos não-católicos, pontificam parvoices empiristas, indutivistas e positivistas a propósito do conhecimento científico e mostram, como ADORNO, HORKHEIMER e HABERMAS, um inconfundível ódio à Ciência. Em meu livro “Filósofos, Cientistas e Anticiência”, (1) cito declarações absurdas desses filósofos. Também transcrevo trechos de certo prelado brasileiro em que afirma que nós físicos deixamos a “realidade totalmente depenada e oca”. Isto lembra o filósofo católico alemão não-escolástico FRITZ JOACHIN VON RINTELEN, que afirmava na década de 50, que físicos têm “intelecto inferior” e suas realizações científicas são positivismo e favorecem o ateísmo. Observemos que eles agravam sua ignorância sobre Ciência com uma atitude antiética, já que exibem desprezo e insultos. Bem, dois católicos com um nível ético não muito diferente daquele dos marxistas ADORNO e HORKHEIMER, que vociferam doestos contra os pesquisadores científicos. (1)

Um exemplo superlativo de ignorância em matérias científicas e pretensão, aparece mais recentemente no brasileiro não-católico OLAVO DE CARVALHO adepto de ARISTÓTELES e do esotérico RENÉ GUÉNON. Em sua ignorância de história das ciências sentencia que o CARDEAL NICOLAU DE CUSA foi o iniciador da Física Matemática. (2) Ele raciocina com a incompleta lógica finitista aristotélica, visando a refutar as teorias de GEORG CANTOR sobre os conjuntos e os números transfinitos. (2) Lembremo-nos que CANTOR, judeu católico, foi um dos mais geniais matemáticos de todos os tempos. Conheço essas teorias de CANTOR e posso atestar que as críticas de OLAVO DE CARVALHO são próprias de quem está agrilhoado a ARISTÓTELES e à gnose de RENÉ GUÉNON. No mais perfeito estilo dos pós-modernos multiplica suas ofensas aos cientistas, especialmente físicos, astrofísicos e astrônomos, porque estes matematizam a realidade, matematização esta que o autor tem em horror. Dou apenas alguns exemplos. Estes:

“A ‘exatidão matemática’ da visão científica da natureza desemboca assim, no oceano ilimitado da pura fantasia, ao mesmo tempo que, com arrogância patológica, legisla sobre a realidade ou irrealidade dos demais conhecimentos, ora negando o senso comum, ora invalidando as percepções intuitivas…” “A Ciência fecha-se num solipsimo incomunicável…” “A cosmovisão científica, em sua renúncia a nos  dar qualquer conhecimento do mundo real da experiência… (2)

“Uma certa perda do senso da realidade parece uma doença profissional crônica dos cientistas; sobretudo dos físicos, astrofísicos, astrônomos, matemáticos, etc, acostumados a viver num universo de concepções admitidamente fictícias, coeridas somente pelo convencionalismo de uma regra de jogo”. (2)

Notemos como esta última sentença consubstancia a falsa concepção positivista de Ciência, desposada por MARITAIN, VON RINTELEN e tantos filósofos católicos escolásticos e não-escolásticos. O vitriólogo requisitório do autor contra a Ciência está lavrado no mais puro estilo dos pós-modernos.

Os pós-modernos, que arregimentam especialmente sociólogos e filósofos de má cepa como VON RINTELEN, HABERMAS, ADORNO, KARL-OTTO APEL, etc, possuem uma visão da Ciência que se resume em radical positivismo. O excelente filósofo das Ciências argentino MARIO BUNGE,  da Universidade McGill no Canadá, fala de modo especial sobre a “Construção Social da Ciência” pelos sociólogos do pós-modernismo e diz deles:

“… they are dogmatic like their philosophical mentors”. (3)
“… their hatred of reason and science – which  they conveniently dub ‘positivism’”. (3)

A Academia de Ciências de Nova York, refletindo a preocupação da comunidade científica face ao efeito peçonhento do movimento Anticiência, realizou um simpósio sobre o tema em 1996. Esse simpósio foi participado por um número não pequeno de cientistas e filósofos da Ciência, tendo MARIO BUNGE apresentado uma comunicação em que trata da Anticiência cultivada nos meios sociológicos da pós-modernidade, assim como das pseudociências, vg, astrologia, parapsicologia, psicanálise, ufologia, etc. (4)

Em seu trabalho ele ressalta o fato novo a partir de 1960, pelo qual a Anticiência e a fuga da razão com o cultivo do irracionalismo do subjetivismo, tivera seu desenvolvimento a partir dos departamentos de humanidade das universidades. Quer dizer: dentro da cidadela da razão e do espírito de pesquisa, existem a partir dos anos 60, setores que se opõem vigorosamente ao estatuto epistemológico fundamental da seriedade da razão humana em sua procura da verdade. Atrás da bacanal sociológica pós-moderna está a influência de certos pensadores em evidência na Filosofia do século XX. MARIO BUNGE destaca o criador da fenomenologia EDMUND HUSSERL e seu discípulo o nazista MARTIN HEIDEGGER. BUNGE aponta várias passagens em que estes filósofos agridem a racionalidade científica. A título de ilustração vou citar umas sentenças de HUSSERL num de seus manuscritos traduzido em 1956 por PAOLO VALORI da Pontifícia Universidade Lateranense. Diz o inventor da fenomenologia:

“… a evidência técnica que se encontra no exercício artificial da teorização ‘científica’, apoiada sobre aquisições e idealização de estruturas do mundo da vida…”

“… e a Ciência resta assim suspense num espaço vazio sobre o mundo da vida, como simples ingenuidades sensíveis…”

“A Ciência e o mundo sensível… devem ser tratados universalmente como duvidosos, como se enfim, eles não tivessem valor de verdade”. (5)

MARIO BUNGE se refere a várias passagens do “Cartesianische Meditationen” em que HUSSERL ataca a Ciência. Creio que com muita razão, BUNGE caracteriza as intelecções de HUSSERL como “opacidade” e que estão em extrema oposição à objetividade das Ciências. Ele considera as “fantasias delirantes” de HUSSERL como exemplo da “decadência da Filosofia alemã”.

Com respeito a HEIDEGGER, MARIO BUNGE, com razão, se mostra mais veemente. Ele diz que HEIDEGGER, não contente em “writing nonsense and torturing the German language heaped scorn on ‘mere science’”. Acredito que BUNGE tem razão quando equaciona a Anticiência em Heidegger com sua ideologia nazista, da qual ele não se arrependeu. Eis o que diz a propósito:

“Heidegger was a Nazi ideologist and militant, and remained unrepentant until the end. (No mere coincidence here: the training of obedient soldiers ready to die for an insane criminal cause starts by discouraging clear critical thinking). In short, existentialism is no ordinary garbage: it is unrecyclable rubbish”. (4)

BUNGE quando fala do nacional-socialismo impenitente de HEIDEGGER, aponta sua obra “Introdução à Metafísica”, curso de 1935 publicado pela primeira vez em 1953, portanto, oito anos depois do fim da 2ª Guerra Mundial. Pois bem: neste livro HEIDEGGER elogia o nazismo, após a operação fraudulenta para inocentar o filósofo alemão. Nessa empulhação, o historiador HUGO OTT da Universidade de Freiburg, em 1991, de posse da nova documentação reveladora, mostra como a intelectualidade francesa em especial, e outros europeus, se mobilizaram para decretar que  o “grande filósofo” não fora efetivamente nacional-socialista. (6)

Até católicos como MARITAIN e o arcebispo GRÖBER contribuíram para desinfectar HEIDEGGER da grave acusação de nazista. Nessa triste e indigna operação está presente a ex-aluna e ex-amante do filósofo, HANNA ARENDT, que obviamente desonrou sua condição de judia. Como é hoje bem sabido, HEIDEGGER quando reitor da Universidade de Freiburg, realizou uma legislação nacional-socialista para as universidades do Terceiro Reich. (6), (7)

Com essa legislação o corpo docente era passado por um rigoroso patrulhamento ideológico. Uma consequência bem conhecida: EDMUND HUSSERL, mestre de HEIDEGGER e seu  benfeitor, expulso da Universidade de Freiburg devido a sua condição de judeu. O reitor nacional-socialista, ex-católico, tinha um indisfarçado ódio pelo Cristianismo aliado a seu anti-semitismo ideológico: ele impedia que católicos e judeus iniciassem carreira acadêmica. (6)

Como um autêntico néscio da Anticiência, MARTIN HEIDEGGER identifica Ciência com positivismo, e, sibilinamente agride a Ciência:

“O espírito assim falsificado em intelecto… ou mais geralmente à sistematização e à explicação racional de tudo que se encontra pró-jacente, estabelecido, posto (como no positivismo)… (8)

E, evidenciando sua total ignorância da dinâmica na Física Clássica e na Física Quântica, eructa estas tolices:

“Logo que se estabeleceu o reino do pensamento concebido segundo o racionalismo matemático moderno, não se conhece outra forma de devenir que aquela concebida como mudança de lugar”. “… o movimento, não é concebido como a partir da velocidade: v = e/t”.  “A partir daí, podemos medir o que significa a oposição do pensamento ao ser”. (8)

Lembremo-nos que no século XIV na Universidade de Oxford, já se tinha formulado o conceito de aceleração, mais importante na Física do que o de velocidade. As idéias de HEIDEGGER sobre Física são mais antigas de seiscentos anos. Para ele não há pensamento na Física. Sua repulsa pela racionalidade na Ciência (“o espírito falsificado em intelecto”) tem muita afinidade com a dialética hegeliana. É o que se depreende de um artigo seu de 1958 em que endossa a violentação do princípio de não-contradição inerente à dialética do Dr. Frankenstein filosófico, GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL. Nesse artigo diz HEIDEGGER:

“… ele (Hegel) colocou em evidência de maneira irrefutável que nosso pensamento habitual não obedece de modo algum às lei do pensamento, quando, precisamente ele se  pretende exato, mas bem ao contrário, as contradiz constantemente. Mas isso não aparece que como uma consequência do estado de fato pelo qual tudo que é tem por  fundamento a contradição”. (9)

O matemático NORMAN LEVITT e o biólogo PAUL GROSS fazem uma análise detalhada dos pós-modernos nas universidades americanas, exibindo a ignorância colossal destes sobre Ciência, assim como seus ataques à racionalidade científica. (10)

Esses dois cientistas, como MARIO BUNGE, expressam sua preocupação pelo efeito deletério que esse movimento interno às universidades, pode ter no ambiente cultural e político das nações. Eles mostram que os sociólogos e filósofos do pós-modernismo nos Estados Unidos, são discípulos de um pequeno grupo de filósofos europeus, na maioria franceses. São eles DERRIDA, LYOTARD, BAUDRILLARD e FOUCAULT. Claro, todos eles dentro da sombra projetada por NIETZSCHE e HEIDEGGER. Pois nesses filósofos decadentes domina o irracionalismo, o relativismo gnosiológico, o universal ceticismo, o niilismo e arrogância no julgar assuntos que ignoram, como o conhecimento científico. No tipo de Filosofia pirrônica em que esses franceses nadam, obviamente a consciência de valores se encontra afogada. Exemplo: MICHEL FOUCAULT. Este era homossexual assumido (morreu de AIDS) e exaltava a amizade homofílica. (11)

Não preciso dizer que essas sumidades da pandegolândia filosófica francesa são alvo do turíbulo de incenso de certa intelectualidade tupiniquim. Exemplo: quando um desses filósofos se suicidou (Gilles Deleuze), alguém daqui declarou à imprensa diária que aquele ato de lamentável desespero fora em vez, morte de autenticidade filosófica. O fanatismo aí consignado é derivativo típico da recusa da seriedade no pensar.

Aqueles como BUNGE, GROSS, LEVITT e outros, quando analisam os escritos dos pós-modernos ficam mal impressionados com o discurso opaco e caótico desses “pensadores”. Vou dar dois exemplos tirados de PAUL VIRILIO e GILLES DELEUZE membros daquela pandegolândia filosófica. Trasncrevo esta frase de DELEUZE:

“Devir não é atingir uma forma (identificação, imitação, Mímesis), mas encontrar a zona de vizinhança, de indiscernibilidade ou de indiferenciação tal que já não seja possível distinguir-se de UMA mulher, de UM animal ou de UMA molécula: não imprecisos nem gerais, mas imprevistos, não-preexistentes, tanto menos determinados numa forma quanto se singularizam numa população”. (12)

De PAUL VIRILIO:

“Já que o movimento cria o acontecimento, o real é cinedramático e o complexo informacional jamais teria alcançado a força que tem agora se não tivesse sido no início uma arte do motor capaz de ritmar sua perpétua modificação das aparências”. (13)

É claro que, para pessoas desse jaez,  a linguagem lógico-crítica e lógico-causal da Ciência não pode agradar. E, como são arrogantes, passam a atacar as Ciências e os cientistas.

A atualidade e a gravidade do movimento Anticiência levou a Universidade Católica de Petrópolis, programar um colóquio entitulado: Pós-Modernidade, Anticiência e Anti-Humanismo. Este colóquio foi realizado em Setembro de 1997 e teve a participação de físicos, filósofos, matemáticos e psicólogos. Minha comunicação ao colóquio tratou da origem histórica dessa desordem no pensamento ocidental. Eis em linhas gerais a tese que defendo sobre o tema considerado:

ARISTÓTELES ingressou na cristandade por volta dos séculos XI e XII via Filosofia islâmica. Até então os pensadores da Igreja ignoraram o estagirita e desenvolveram cogitações filosóficas tributárias da Filosofia de PLATÃO, muito superior à do primeiro. Não obstante os estragos peripatéticos terem tido um início nos séculos XII e XIII, a partir especialmente de 1277, a Filosofia de ARISTÓTELES passou a ser muito contestada. Sua Física e sua Astronomia foram destronadas do século XIII ao século XIV. Os historiadores das Ciências e cientistas historiadores, como por exemplo PIERRE DUHEM, ALISTAIR CROMBIE, COLIN RONAN, MARSHALL CLAGETT, EDMUND WHITACKER, testemunham o fato de que a revolução científica do século XVII, fora preparada nos séculos XIII e XIV, via precursores do século XV como LEONARDO DA VINCI e o CARDEAL NICOLAU DE CUSA. O colapso da Ciência aristotélica na Idade Média teve muito a ver com o agostinismo da ordem franciscana, que valorava o princípio epistemológico antiaristotélico da matematização da realidade, assim como não seguia a gnosiologia peripatética do empirismo sensualista e indutivista.

O grande psiquiatra judeu austríaco VICTOR FRANKL (+1997) em sua pesquisa histórica sobre a origem da Física Matemática Moderna, destaca de modo especial o papel da Filosofia platônico-agostiniana na ordem franciscana, cujos membros foram os principais responsáveis pelo colapso da Física e da Astronomia aristotélicas na Idade Média. (14)

Quero citar nomes de destaque de investigadores medievais, que torpedearam a Ciência do estagirita dos quais vários são franciscanos. Lembro que importantes nomes dessa lista, não obstante terem sido seculares, participaram da chamada Escola Terminista criada pelos franciscanos. São eles: ROBERT GROSSETESTE, ROGER BACON, STO. ALBERTO MAGNO, DUNS SCOT, JEAN BURIDAN, NICHOLAS ORESME, WITELO, ALBERTO DE SAXÔNIA, JORDANO DE NÊMORA, MARSILIO  DE INGHEN, DIETRICH DE FREIBERG, BERNARD DE VERDUN, RICHARD OF MIDDLETOWN, RICHARD SWINESHEAD, WILLIAN HEYTESBURY, JOHN DUMBLETUN. Com exceção de WITELO, da Universidade de Cracóvia, os outros pertenceram às Universidades de Paris e Oxford, as principais universidades nesse movimento de criação de novas idéias epistemológicas na Física e na Astronomia.

Mas com a decadência social, política e intelectual que se desencadeou do século XIV ao XV, esse brilhante movimento filosófico e científico sofreu um sério recuo como nos mostra PIERRE DUHEM. (15)

Esse retrocesso foi especialmente incoado por uma vigorosa ação do PAPA NICOLAU V (séc. XV) no sentido de impor à cristandade as avoengas idéias de ARISTÓTELES. A Universidade de Paris, principal responsável nos séculos XIII e XIV, pela queda da Física e Astronomia do estagirita, foi, por um decreto Papal, obrigada a seguir um currículo rigorosamente aristotélico. Em 1542 foi sancionada a bula, e, o CARDEAL D’ESTOUTEVILLE enviado de NICOLAU V, tornou-se o responsável pela efetivação da mesma. Uma nova escolástica retrógrada tem origem no século XV, em que ARISTÓTELES se torna um ídolo venerável. Diz DUHEM:

“… une autre école menait une réaction contre la physique des Buridan des Oresme et de leurs successeurs; elle prétendait reprendre, sur tous les points, la doctrine désormais condamné d’Aristote et de ses commentateurs grecs et arabes; et cette école rétrograde se mettait sous le patronage de Saint Thomas d’Aquin; en sorte qu’on voyait, dès ce moment, la routine têtue, le sot attachement aux erreurs condamnés du passé, profaner, par leur audace à s’en autoriser, le nom du Docteur Communis…” (15)

Eis a “Filosofia Aristotélica-Tomista” criada na Renascença e que infesta a Igreja até o século XX.

Um exemplo dos seguidores dessa escola pseudo-tomista, o dominicano JEAN VERSORIS, indivíduo medíocre, produziu muitos textos filosóficos baseados naquele currículo imposto por NICOLAU V e que foram muito difundidos, especialmente na Alemanha. (15)

Do século XV ao XVII, dominicanos principalmente, aristotelizaram pesadamente a Filosofia de STO. TOMÁS. Cito os nomes de CAPREOLUS (séc. XV), TOMÁS DE VIO (Cardeal Cajetano) (séc. XVI) e JOÃO DE STO. TOMÁS (séc. XVI-XVII), como personagens salientes na fabricação da Filosofia “aristotélico-tomista”, ou seja: pseudo-tomismo.

O tomista contemporâneo Pe. CORNELIO FABRO, como profeta pregando no deserto, tem veementemente denunciado essa aristotelização de STO. TOMÁS pelos renascentistas. (16)

Assim pois, as universidades da Renascença passaram a ser dominadas pela múmia de ARISTÓTELES (17) e contemplamos aí a perseguição aos cientistas que desacreditavam o estagirita, como COPÉRNICO, TYCHO BRAHE, GALILEU, AMBROISE PARÉ, WILLIAM HARVEY. (18)

Noto que essa escolástica aristotelizada dominava também as universidades protestantes. O fenômeno Anticiência estava pois desencadeado em toda a comunidade filosófica. Obnubilados pelo farol da Ciência Aristotélica, a Filosofia no meio católico assim como no ambiente universitário protestante, só podia julgar a Ciência, sobretudo a Física e a Astronomia, com as categorias do empirismo indutivista e do positivismo. Aberto pois o caminho para os julgamentos néscios sobre o conhecimento científico. O “affair” GALILEU é exemplo paradigmático, onde a “hipótese” ficção matemática da escolástica aristotelizada, dominou as lucubrações daqueles ignorantes peripatéticos do Sto. Ofício.

O jesuíta belga JOSEPH MARÉCHAL, assim como o jesuíta britânico FREDERICK COPLESTON nos informam que a escolástica renascentista, principalmente a Filosofia aristotélica do jesuíta espanhol FRANCISCO SUAREZ (séc. XVI), tiveram profunda penetração nas universidades protestantes. (19), (20)

Representantes típicos disso são THOMAS HOBBES, JOHN LOCKE e FRANCIS BACON. Estes empiristas criticam a escolástica aristotélica que encontraram nas universidades britânicas não-católicas, mas fazem epistemologia conforme os padrões de ARISTÓTELES: empirismo sensualista, indutivismo, antimatematismo, e, of course, negam toda aprioridade dos primeiros princípios. (21), (22)

FRANCIS BACON (23), em sua arrogante auto-suficiência, nega que no passado se tenha de fato realizado pesquisa científica, pois seu método “novo”, seria aquele que iria tornar efetivas as descobertas científicas. Acontece que ele repete o cediço método indutivo do estagirita, e, ainda nos passos de ARISTÓTELES, afirma que a matemática contamina e corrompe a Física, denigre os astrônomos e rejeita o heliocentrismo como “hipótese arbitrária”, além de utilizar uma linguagem própria ao alquimista do que a do pesquisador científico. (23)

Os historiadores FRANCES YATES  e CHARLES WEBSTER mostram que o LORD CHANCELLOR  estava dentro da tradição hermética e alquímica da Renascença. (24), (25)

Mas à hostilidade dos filósofos face à Ciência, devemos ainda  incluir aquela dos humanistas, que, eivados de mitologia e esoterismo, fruto do culto ao paganismo antigo na Renascença, insultavam físicos e matemáticos. Menciono os nomes  de ERASMO DE ROTERDAM (26) e MICHEL DE MONTAIGNE. (27)

O requisitório de ERASMO (séc. XV-XVI) contra a Ciência é praticamente o mesmo exibido por JEAN ROUSSEAU no século XVIII, (28) incluindo ainda crítica a KEPLER e NEWTON.

A Anticiência no meio filosófico se projeta como vimos nos exemplos acima, no domínio dos literatos. O século XVIII recebeu a mentalidade indutivista da escolástica, especialmente popularizada por HOBBES, LOCKE e BACON, o que levou ao que parece, DAVID HUME (séc. XVIII) estabelecer um casamento antinatural de BACON com NEWTON. (29)

A noção falsa de Ciência veiculada pelos escolásticos e os ridículos “philosophes” da Enciclopédia, parece-me, pelos dados históricos disponíveis, ter favorecido a atitude Anticiência, que sistematicamente transmite a noção indutivista e positivista do conhecimento científico. Isto, como vimos antes, é bem focalizado por MARIO BUNGE.

Não querendo me alongar no assunto, apenas cito do século XVIII os nomes de BERKELEY, GOETHE, DIDEROT, BERNARDIN DE ST. PIERRE e SCHOPENHAUER como corifeus da Anticiência. No século XIX podemos mencionar HEGEL, SCHELLING, AUGUST COMTE, EDGAR ALLAN POE, NIETZSCHE, que vomitam destampatórios contra físicos e astrônomos, não tão violentos quanto os do brasileiro OLAVO DE CARVALHO que citei antes.

O jugo de ARISTÓTELES sobre os filósofos ao longo da história, (30) implodindo na Renascença para um buraco negro de pensamento medíocre e retrógrado, tem a ver com a origem aviltante da chamada “filosofia moderna” (do séc. XVII ao XX), charco de delírios empiristas e idealistas, base da hostilidade à racionalidade científica.


Bibliografia:

(1) F.M. Gomide. Filósofos, Cientistas e Anticiência. Ed. Albert Einstein, Curitiba, 1996.
(2) Olavo de Carvalho. O Jardim das Aflições. Diadorim Editora Ltda, 1995, pp. 174, 192, 183, 190.
(3) Mario Bunge. Counter-Enlightenment in Contemporary Social Studies. Challenges to the Enlightenment, Prometheus Books, N.
York, 1994.
(4) Mario Bunge. In Praise of Intolerance to Charlatanism in Academia. Annals N. York. Ac. Sci., Vol. 775, p. 96, 1996.
(5) Paolo Valori. Inèdits Husserliens… La Philosophie de L’Histoire de la Philosophie. Univ. di Roma, Lib. Philos. Vrin., Paris, 1956.
(4) Mario Bunge. In Praise of Intolerance to Charlatanism in Academia. Annals N. York. Ac. Sci., Vol. 775, p. 96, 1996.
(6) Hugo Ott. Martin Heidegger. A Political Life. Harper-Collins Pbs. Ltd., London, 1996.
(7) Elzbieta Ettinger. Hanna Arendth-Martin Heidegger. J. Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1996.
(6) Hugo Ott. Martin Heidegger. A Political Life. Harper-Collins Pbs. Ltd., London, 1996.
(8) M. Heidegger. Introduction à la Métaphysique. Presses Universitaires de France, Paris, 1958.
(9) M. Heidegger. Principes de la Pensée. Arguments, N. 20, 1960.
(10) P.R. Gross, N. Levitt. Higher Superstition. The Academic Left and its Quarrels with Science. The Johns Hopkins Univ. Press.,
Baltimore, 1994.
(11) Francisco Guerrero Ortega. El Ultimo Proyecto de Foucalt; Una Rehabilitación de la Amistad. Veritas (PUCRS), Vol. 42, p. 105,
1997.
(12) Idéias e Livros. Jornal do Brasil, 27/04/1996.
(13) Idéias e Livros. Jornal do Brasil, 04/05/1996.
(14) Victor Frankl. El Augustinismo Franciscano del Siglo XIII como Raiz de la Fisica Matematica Moderna. Bolivar, N. 16, Bogotá.
(15) Pierre Duhem. Le Système du Monde. Histoire des Idées Cosmologiques de Platon à Copernic. T. X. Hermann, Paris, 1958, pp. 7-
131.
(15) Pierre Duhem. Le Système du Monde. Histoire des Idées Cosmologiques de Platon à Copernic. T. X. Hermann, Paris, 1958, pp. 7-
131.
(16) Cornelio Fabro, C.P.S. Participation et Causalité selon S. Thomas d’Aquin. Pub. Univ. de Louvain, 1961.
(17) E.J. Dijksterhuis. The Mechanization of the World Picture. Oxford, 1964.
(18) F.M. Gomide. Diálogo entre Filosofia e Ciência. Presença Edições, Rio de Janeiro, 1990.
(19) J. Maréchal, S.J. Précis d’Histoire de la Philosophie. T.1, Desclée, Paris, 1951.
(20) F. Copleston, S.J. A History of Philosophy. Vol. III, Image Books, N. York, 1985.
(21) Thomas Hobbes. Leviatã. 1ª Parte, Caps. I, II, III, V.
(22) John Locke. Ensaio Acerca do Entendimento Humano. L. I, Caps. I, II, III; L. II, Caps. I, II, III, IV, V, XIII.
(23) F. Bacon. Novum Organon. L. I, af. XCVI, af. LX; L. II, af. III, af. IV, af. XXXVI, af. XLVI, af. LXVIII.
(24) Frances Yates. The Rosicrucian Enlightenment. Barnes and Noble Books, N. York, 1996.
(25) Charles Webster. From Paracelsus to Newton. Barnes and Noble Books, N. York, 1996.
(26) Erasmo de Roterdan. Elogio da Loucura.
(27) M. de Montaigne. Ensaios, L. II, Cap. XII.
(28) J². Rousseau. Discurso sobre as Ciências e as Artes. 1ª Parte, 2ª Parte.
(29) D. Hume. Investigação sobre o Entendimento Humano. S. IV, Parte I.
(30) F.M. Gomide. Exemplos do Jugo de Aristóteles na Filosofia e na Ciência. Reflexão (PUCCAMP), N. 64-65, pp. 154-185, 1996.

Edição e Introdução ao Trabalho: Glauber Frota

Fonte: http://www.ihp.org.br/lib_ihp/docs/fmg19970900.htm

Pós-modernidade despida

2

Uma revisão do Imposturas Intelectuais (intitulado Fashionable Nonsense nos EUA) por Alan Sokal e Jean Bricmont (1998) 274 pp, £ 9,99. Esta avaliação foi originalmente publicada na revista Nature 09 de julho de 1998.

Por Richard Dawkins


Suponha que você é um impostor intelectual. Sem nada para dizer. Mas com fortes ambições para ter sucesso na vida acadêmica, recolher um círculo de discípulos reverentes e ter estudantes de todo o mundo ungindo suas páginas com um respeitoso marcador amarelo. Que tipo de estilo literário você cultiva? Não é um lúcido, certamente. Para maior clareza, exporia sua falta de conteúdo. As chances são de que você iria produzir algo como o seguinte:

Podemos ver claramente que não há correspondência biunívoca entre ligações lineares, significado ou arqui-escrita, dependendo do autor, e desta catálise multirreferencial maquínica multi-dimensional. A simetria de escala, a transversalidade, o caráter pático não-discursivo de sua expansão: todas estas dimensões nos removem da lógica do terceiro excluído e nos reforçam em nossa destituição do binarismo ontológico que criticamos anteriormente.

Essa é uma citação do psicanalista Félix Guattari, um dos muitos “intelectuais” da moda francesa revelada por Alan Sokal e Jean Bricmont em seu esplêndido livro Imposturas Intelectuais, previamente publicado em francês e agora lançado em uma edição em inglês totalmente reescrito e revisado. Guattari continua indefinidamente nessa linha e oferece, na opinião de Sokal e Bricmont, “o mais brilhante mélange do jargão científico, pseudo-científico e filosófico que já encontramos”. Colaborador próximo de Guattari, o falecido Gilles Deleuze, tinha um talento semelhante para a escrita:

Em primeiro lugar, as singularidades-eventos correspondendo à série heterogênea, que são organizadas em um sistema que não é estável, nem instável, mas sim “metastável”, dotado com uma potencial energia, em que as diferenças entre as séries são distribuídas… Em segundo lugar, as singularidades possuem um processo de auto-unificação, sempre móvel e deslocadas na medida em que um elemento paradoxal atravessa a série e os faz ressoar, envolvendo os pontos correspondentes singulares em um único ponto aleatório e todas as emissões, todos os dados se lançam, num único molde.

Isso chama a atenção para a caracterização anterior de Peter Medawar, de um certo tipo de estilo intelectual francês (note-se de passagem, o contraste oferecido pela própria prosa elegante e clara de Medawar):

“O estilo tornou-se um objeto de primeira importância, e o que um estilo é! Para mim, há um empinado, de qualidade de alto nível, cheio de auto-importância; elevado de fato, mas na forma de balé, e parando de vez em quando em atitudes estudadas, como se espera de uma explosão de aplausos. Isso teve uma influência deplorável sobre a qualidade do pensamento moderno…

Voltando a atacar os mesmos alvos de outro ângulo, Medawar diz:

Eu poderia citar a evidência do início de uma campanha de boatos contra as virtudes da clareza. Um escritor do estruturalismo no Times Literary Suplement sugeriu que os pensamentos que são confusos e tortuosos por causa de sua profundidade, são mais apropriadamente expressos em prosa que são deliberadamente obscuros. Que ideia absurdamente boba! Lembro-me de um diretor ar-raid na Oxford dos tempos de guerra que, ao luar parecia derrotar o espírito do apagão, exortou-nos a usar óculos escuros. Ele, no entanto, estava sendo engraçado de propósito.

Isso é da palestra de Medawar, de 1968,  sobre “Science and Literature”, reimpresso na Pluto’s Republic (Oxford University Press, 1982). Desde a época de Medawar, a campanha sussurrante elevou sua voz. Deleuze e Guattari escreveram e colaboraram em livros descritos pelo célebre Michel Foucault como “entre os maiores do maior… Algum dia, talvez, o século será deleuziano“. Sokal e Bricmont, no entanto, pensam o contrário: “Esses textos contêm um punhado de frases ininteligíveis – às vezes banais, às vezes erradas – e temos comentado em algumas delas nas notas de rodapé. Para o resto, deixamos ao leitor julgar…

Mas é difícil para o leitor. Sem dúvida, existem pensamentos tão profundos que a maioria de nós não vai entender a língua em que são expressos. E sem dúvida também é a linguagem concebida para ser ininteligível, a fim de esconder uma ausência de pensamento honesto. Mas quem somos nós para dizer a diferença? E se ela realmente tem um olho especialista para detectar se o imperador não tem roupas? Em particular, como vamos saber se a modista “filosofia” francesa, cujos discípulos e expoentes têm tomado grande parte da vida acadêmica americana, é realmente profunda ou é retórica vazia de saltimbancos e charlatões?

Sokal e Bricmont são professores de Física na, respectivamente, Universidade de Nova York e na Universidade de Louvain, na Bélgica. Eles têm limitado a sua crítica aos livros que se aventuraram para invocar conceitos da física e matemática. Aqui eles sabem o que estão falando, e seu veredicto é inequívoco. Em Jacques Lacan, por exemplo, cujo nome é reverenciado por muitos departamentos de ciências humanas em todo o EUA e universidades britânicas, sem dúvida em parte porque ele simula uma compreensão profunda da matemática:

“…Embora Lacan use bastante algumas palavras-chave da teoria matemática de compactação, ele as mistura de forma arbitrária e sem o menor respeito pelo seu significado. Sua ‘definição’ de compactação não é apenas falsa: é sem nexo.

Eles vão citar a seguinte notável peça de raciocínio por Lacan:

Assim, por meio do cálculo onde a significação está de acordo com o método algébrico usado aqui, a saber:”

Você não precisa ser um matemático para ver que isso é ridículo. Ele lembra o personagem Aldous Huxley que provou a existência de Deus através da divisão de zero em um número, derivando assim ao infinito. Numa outra parte do raciocínio que é inteiramente típico do gênero, Lacan vai concluir que o órgão erétil:

…É equivalente ao da significação produzida acima, do gozo que restabelece pelo seu coeficiente de instrução para a função de falta de significante (-1).”

Não precisamos da perícia matemática de Sokal e Bricmont para assegurar-nos de que o autor deste material é uma farsa. Talvez ele seja genuíno quando ele fala de assuntos não-científicos? Mas um filósofo que é pego igualando o órgão erétil pela raiz quadrada de menos um tem, para o meu dinheiro, queimado suas credenciais quando se trata de coisas que eu não sei nada sobre.

A “filósofa” feminista Luce Irigaray é outra que recebe o tratamento de um capítulo inteiro de Sokal e Bricmont. Em uma passagem que lembra uma descrição feminista notória dos Principia de Newton (um “manual de estupro“), Irigaray argumenta que E=mc² é uma “equação sexista“. Por quê? Porque “privilegia a velocidade da luz em relação a outras velocidades que são vitalmente necessárias para nós” (minha ênfase do que eu estou vindo rapidamente a aprender é uma “em” palavra). Da mesma forma típica desta escola de pensamento, é a tese de Irigaray em mecânica dos fluidos. Fluidos (o termo), você vê, tem sido injustamente negligenciado. “Física masculina” privilégios rígidos, coisas sólidas. Sua expositora americana Katherine Hayles cometeu o erro de voltar a expressar os pensamentos de Irigaray em linguagem (comparativamente) clara. Pela primeira vez, temos um olhar razoavelmente panorâmico para o imperador e, sim, ele não tem nenhuma roupa:

O privilégio do sólido sobre a mecânica dos fluidos, e de fato, a incapacidade da ciência para lidar com o fluxo turbulento em tudo, ela atribui à associação de fluidez com feminilidade. Enquanto os homens têm órgãos sexuais que se projetam e se tornam rígidos, as mulheres têm aberturas que vazam sangue menstrual e fluidos vaginais…  A partir desta perspectiva não é de admirar que a ciência não tem sido capaz de chegar a um modelo de sucesso para a turbulência. O problema do fluxo turbulento não pode ser resolvido porque as concepções de fluidos (e das mulheres) foram formuladas de modo a deixar necessariamente restos desarticulados.

Você não precisa ser um físico para sentir o absurdo desse tipo insensato de argumento (o tom tornou-se muito familiar), mas que ajuda a ter Sokal e Bricmont na mão para nos contar a verdadeira razão pela qual o fluxo turbulento é um problema difícil: as equações de Navier-Stokes são difíceis de resolver.

De maneira similar, Sokal e Bricmont expõem a confusão de Bruno Latour da relatividade com o relativismo, a “ciência pós-moderna” de Jean-François Lyotard, e os abusos generalizados e previsíveis do Teorema de Gödel, a teoria quântica e a teoria do caos. O renomado Jean Baudrillard é apenas uma das muitas pessoas a encontrar na teoria do caos, uma ferramenta útil para engananar os leitores. Mais uma vez, Sokal e Bricmont nos ajudam através da análise dos truques que estão sendo jogados. A frase seguinte, “embora construído a partir de terminologia científica, não tem sentido a partir de um ponto de vista científico“:

“Talvez a história em si tem de ser considerada como uma formação caótica, em que a aceleração põe fim à linearidade e a turbulência criada pela aceleração desvia em definitivo a história de seu fim, tal como tais efeitos das distâncias da turbulência a partir das suas causas.”

Eu não vou citar mais, pois, como Sokal e Bricmont dizem, o texto de Baudrillard “continua num gradual crescendo do absurdo“. Eles mais uma vez chamam a atenção para “a alta densidade de terminologia científica e pseudocientífica – inserida em sentenças que são, tanto quanto nós podemos decifrar, desprovidas de sentido“. Seu resumo de Baudrillard poderia representar qualquer um dos autores criticados aqui e festejados por toda a América:

Em resumo, encontra-se nos trabalhos de Baudrillard, uma profusão de termos científicos, usados com total desrespeito pelo seu significado e, sobretudo, num contexto em que eles são manifestamente irrelevantes. Sejam ou não, interpreta-se como metáforas, é difícil ver qual o papel que poderiam desempenhar, exceto para dar uma aparência de profundidade às observações banais sobre a sociologia ou a história. Além disso, a terminologia científica é misturada com um vocabulário não-científico que é empregado com igualdade de desleixo. Quando tudo estiver dito e feito, a gente se pergunta o que restaria do pensamento de Baudrillard se o verniz verbal que o cobre, fosse arrancado.

Mas os pós-modernistas não afirmam apenas estar “jogando jogos”? Não é o ponto de sua filosofia de que tudo vale, não há verdade absoluta, qualquer coisa escrita tem o mesmo estatuto que qualquer outra coisa, e nenhum ponto de vista é privilegiado? Dadas as suas próprias normas de verdade relativa, não é bastante injusto levá-las a tarefa de brincar com jogos de palavras, e jogar piadinhas sobre os leitores? Talvez, mas então, deixa-se a perguntar por que seus escritos são tão espantosamente chatos. Os jogos não deveriam ser pelo menos divertidos? E não solenes, hipócritas e pretensiosos? Mais reveladamente, se eles estão apenas brincando, porque é que eles reagem com tais gritos de desespero quando alguém joga uma piada às suas custas?

A gênese do Imposturas Intelectuais foi uma brilhante farsa perpetrada por Sokal, e o estrondoso sucesso de seu golpe não foi recebido com risos de alegria que se poderiam esperar depois de uma tal façanha desconstrutiva de jogar o jogo. Aparentemente, quando você se tornou o establishment, ele deixa de ser engraçado quando alguém fura a estabelecida bolsa de vento.

Como já é bastante conhecido, em 1996 Sokal apresentou para a revista americana Social Text um artigo chamado “Transgressing the boundaries: towards a transformative hermeneutics of quantum gravity“. Do início ao fim, o periódico foi um absurdo. Era uma paródia cuidadosamente elaborada de meta-disparates pós-modernos. Sokal foi inspirado a fazer isso pela obra de Paul Gross e Norman Levitt: Higher Superstition: The Academic Left and It’s Quarrels with Science (Johns Hopkins University Press, 1994), um livro importante que merece ser bem conhecido tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos. Dificilmente capaz de acreditar no que ele leu neste livro, Sokal acompanhou as referências à literatura pós-moderna, e descobriu que Gross e Levitt não exageraram. Ele resolveu fazer algo sobre isso. Nas palavras do jornalista Gary Kamiya:

Qualquer pessoa que tenha passado muito tempo vadeando através do piedoso, obscurantista, cheio de jargões, agora não pode passar-se por pensamento “avançado” na área das humanidades; sabia que estava prestes a acontecer mais cedo ou mais tarde: alguns espertos acadêmicos, armados com palavras-chave nem tão secretas (“hermenêutica”, “transgressor”, “lacaniana”, “hegemonia”, para citar apenas algumas) iriam escrever um artigo completamente falso, submetê-lo a uma revista au courant, e foi aceito…  A peça de Sokal usa todos os termos certos. Ele cita as melhores pessoas. Ele golpeia pecadores (homens brancos, o “mundo real”), aplaude o virtuoso (mulheres, loucura metafísica geral)… E é completo, e não besteira adulterada – um fato que de alguma forma escapou à atenção dos editores de alta potência da Social Text, que devem agora estar vivenciando essa sensação incômoda que afligiu os troianos pela manhã depois de terem puxado o bom e grande cavalo de presente em sua cidade.”

O artigo de Sokal deve ter sido um presente para os editores, porque este foi de um físico dizendo todas as coisas certas sobre o que eles queriam ouvir, atacando a “hegemonia pós-iluminista” e tais noções chatas como a existência do mundo real. Eles não sabiam que Sokal também tinha abarrotado seu periódico com flagrantes disparates científicos, de um tipo que seriam imediatamente detectados por qualquer árbitro com uma licenciatura em física. O periódico não foi enviado a nenhum árbitro. Os editores, Andrew Ross e outros, estavam satisfeitos que sua ideologia foi conformada com a deles próprios, e ficaram talvez lisonjeados com referências a suas próprias obras. Esta ignominiosa peça de edição justamente lhes valeu o Nobel de literatura Ig 1996.

Apesar do ovo em seus rostos, e apesar de suas pretensões feministas, esses editores são os machos dominantes no establishment acadêmico. Ross tem a grosseira, catedrática confiança para dizer coisas como: “Eu sou feliz por me livrar de departamentos de inglês, eu odeio literatura por um lado, e os departamentos de inglês tendem a estar cheios de pessoas que gostam de literatura.“; E a complacência risível para começar um livro sobre “estudos científicos”, com estas palavras: “Este livro é dedicado a todos os professores de ciências que eu nunca tive. Só poderia ter sido escrito sem eles.“.

Ele e seus companheiros de “estudos culturais” e “barões dos estudos científicos” não são excêntricos inofensivos em faculdades estaduais de terceira categoria. Muitos deles possuem cátedras titulares em algumas das melhores universidades dos Estados Unidos. Homens desse tipo sentam-se em comitês de nomeação, exercendo poder sobre jovens acadêmicos que poderiam secretamente aspirar a uma carreira acadêmica honesta em estudos literários ou, digamos, antropologia. Sei – porque muitos deles já me disseram – que há estudiosos sinceros por aí que falariam se eles ousassem, mas que se sentiriam intimidados em silêncio. Para eles, Sokal aparecerá como um herói, e ninguém com um senso de humor ou senso de justiça vai discordar. Ele ajuda, a propósito, embora seja estritamente irrelevante, com que suas próprias credenciais de esquerda sejam impecáveis.

Em um detalhado post-mortem de seu famoso hoax, submetido à Social Text, mas previsivelmente rejeitado por eles e publicado em outro lugar, Sokal nota que, além de inúmeras meias-verdades, falsidades e non sequitur, o seu artigo original continha algumas “frases sintaticamente corretas que não têm significado algum“. Ele lamenta que não havia mais destas: “Eu tentei bastante produzi-las, mas eu achei que, para manter raras rajadas de inspiração, eu só não tinha o dom“. Se ele estivesse escrevendo sua paródia hoje, ele certamente seria ajudado por uma virtuosa obra de programação de computador por Andrew Bułhak de Melbourne, Austrália: o Postmodernist Generator (que hoje, infelizmente encontra-se disponível apenas intranet, mas há similares como o “gerador de lero-lero“, grifo nosso) vai gerar espontaneamente para você, utilizando os princípios gramaticais sem defeitos, um novo discurso batido e pós-moderno, nunca antes visto.

Acabei de estar lá, e ele produziu para mim, um artigo de 6.000 palavras chamado “Teoria Capitalista e o Paradigma Subtextual de Contexto” por “David I. L. Werther e Rudolf du Garbandier do Departamento de Inglês da Universidade de Cambridge” (justiça poética lá, pois foi Cambridge que achou por bem, dar a Jacques Derrida um título honorário). Eis uma passagem típica deste impressionante trabalho erudito:

Se examinarmos a teoria capitalista, nos confrontamos com uma escolha: ou rejeitar o materialismo neotextual ou concluir que a sociedade tem valor objetivo. Se tem o dessituonacionismo dialético, temos de escolher entre o discurso habermasiano e o paradigma subtextual do contexto. Pode-se dizer que o assunto é contextualizado em um nacionalismo textual que inclui a verdade como uma realidade. Em certo sentido, a premissa do paradigma subtextual do contexto afirma que a realidade vem do inconsciente coletivo.

Visite o Postmodernist Generator. É uma fonte infinita de disparates literalmente gerados ao aleatório, sem sentido, e sintaticamente corretos, distinguíveis da coisa real apenas em ser mais divertidos de ler. Você poderia gerar milhares de documentos por dia, cada um único e pronto para publicação, com notas numeradas. Os manuscritos devem ser submetidos ao “Editorial Coletivo” da Social Text, em espaço duplo e em triplicado. Como na tarefa mais difícil de recuperar departamentos literários americanos para acadêmicos genuínos, Sokal e Bricmont uniram-se a Gross e Levitt, dando uma vantagem amigável e simpática do mundo da ciência. Devemos esperar que ela será seguida.

Richard Dawkins, “Postmodernism Disrobed,” 1998; Nature, 394, pp. 141-143.)

Traduzido e editado por: Glauber Frota

Fonte: http://www.stephenjaygould.org/ctrl/archive/philosophy/dawkins_impost.html

Mundos de água, a esperança de encontrar vida extraterrestre

Publicado na New Scientist

Na estrela Kepler 62, se encontra um sistema planetário duplo com o tamanho aproximado ao da Terra. Ambos estão em órbita na zona habitável da estrela, (região onde as temperaturas não são nem muito quente e nem muito frias). Veja o gráfico aqui.

Conhecido como Kepler 62e e Kepler 62F, esses planetas tem grandes potenciais de se desenvolver vida (ainda visto fora do nosso sistema solar).  Mas isso não significa que eles iriam suportar a vida como tal a conhecemos.

Por um lado, a estrela é menos e mais fria que o nosso sol, então pelo menos um dos planetas precisaria de uma atmosfera potencialmente tóxica para mantê-lo aquecido. Por outro lado, alguns modelos sugerem que os planetas estão cobertos de água, dando a entender que, se existem extraterrestres, eles podem ter evoluído quase inteiramente em ambientes marinhos.

Confirmando qualquer uma dessa ideias, seria necessário dar uma olhada mais detalhada nos planetas, mas o sistema é de 1200 anos-luz de distância. Isso é muito longe para nós, principalmente para dar uma olhada em suas atmosferas ou obter uma imagem clara de sua composição, com a tecnologia atual. Ainda assim, a descoberta nos leva mais perto de ver um verdadeiro gêmeo da Terra, e dá pistas sobre o que podemos encontrar em sistemas planetários mais perto de casa com novos telescópios online.

Os dois planetas foram descobertos por uma equipe de trabalho com o telescópio espacial Kepler, da NASA, que usa a luz das estrelas para deduzir a presença de planetas (quando os planetas passam na frente das estrelas). A equipe realmente viu cinco planetas –b, c , d, e , f – em torno de Kepler 62, Mas somente E e F estão localizados na zona habitável da estrelas.

Ambos tem cerca de 1,5 vezes o tamanho da Terra, o que significa que eles são provavelmente rochosos.  Dois diâmetros da Terra é o limite abaixo do qual planetas devem ser sólidas, diz Lisa Kaltenegger da Universidade de Harvard. Maior do que os planetas podem ser mini-Netunos – pequeno mundos gasosos, sem superfícies sólidas definidias.

Claro, alguns astrônomos pensam que Kepler 62e e Kepler 62F não têm superfícies sólidas. Modelos teóricos sugerem que ambas as bolas de rocha são cobertos por oceanos líquidos. “Se você pegar a Terra, manter a fração de água da mesma e apenas torná-la maior, você tem água suficiente para cobrir toda a superfície, pois o volume é quatro vezes maior, mas a superfície não fica quatro vezes maior”, diz Kaltenegger .

Kepler 62e é mais perto da estrela do que Kepler 62F, e os modelos sugerem que ele pode ser quente e abafado. Kepler 62F, entretanto, pode precisar de uma atmosfera rica em gases de efeito estufa poderosos, como o dióxido de carbono, para ficar quente o suficiente para manter  os oceanos em estado líquido.

Se ambos os planetas suportam mares “alienígenas”, eles podem estar repletos de vida, assim como os nossos oceanos são, acrescenta William Borucki, principal pesquisador da missão Kepler da NASA e líder da equipe que encontrou planetas do Kepler 62. Os mundos também são enormes o suficiente para que eles possam segurar atmosferas grossas, então a vida do mar poderia, talvez, já ter se expandido para o ar.

“Nós sabemos que, pelo menos em nosso oceano, temos peixes voadores. Eles voam para fugir de predadores”, disse Borucki. “Para nós, talvez já possa ter evoluído aves neste planeta oceânico.”

Se estas formas de vida marinha iriam desenvolver a inteligência igual a nossa (civilização), é uma outra questão, no entanto, eles não teriam acesso fácil aos metais, eletricidade ou fogo.

Kaltenegger diz que também é possível que os planetas de Kepler 62 planetas tenham oceanos e continentes, como a Terra. Isso levanta algumas possibilidades fascinantes – incluindo a ideia de que os alienígenas dos dois planetas já poderiam ter se comunicado, ou até mesmo já terem se conhecido. “Imagine olhar através de um telescópio para ver um outro mundo com vida apenas a alguns milhões de quilômetros a partir de seu próprio país, ou ter a capacidade de viajar entre eles em uma base regular”, diz o astrônomo Dimitar Sasselov, também de Harvard. “Eu não posso pensar que uma motivação mais forte se torne uma sociedade spacefaring (ser capaz e ativa na arte das viagens espaciais ou de transporte espacial)”.

Se ambos os mundos hospedarem vida inteligente, talvez eles possam ser capazes de espionar a conversa entre Kepler 62e e 62F, diz Jon Jenkins, que está na equipe de Kepler e com o Instituto SETI em Mountain View, Califórnia. Se eles estão usando sinais de rádio quase tão potentes como as transmissões de comunicações na Terra, os telescópios daqui poderiam buscá-las. Pode até ser mais fácil de detectar um sinal entre estes planetas que transmitem a partir de um único planeta, acrescenta astrônomo sênior do Instituto SETI, Seth Shostak.

Balas Colidindo

“Se você esperar que eles fiquem alinhados em relação a nós, você poderá ser capaz de ouvi-los quando estivermos no caminho do feixe”, diz Seth Shostak. “Algumas pessoas dizem que ouvir um sinal de outro mundo é como a possibilidade de duas balas se chocarem entre si. Mais isso é muito mais fácil de fazer se você sabe que as balas serão disparadas em sua direção.”

A equipe de Kepler também anunciou na semana passada, outro planeta potencialmente favorável a vida, que orbita uma estrela semelhante ao nosso. Kepler 69c tem cerca de 1,7 vezes o tamanho da Terra, com grande possibilidade de ser rochoso, diz o membro da equipe de Kepler, Thomas Barclay da Bay Area Environmental Research Institute em Sonoma, Califórnia.

Kepler 69c orbita sua estrela em aproximadamente a mesma distância que Vênus orbita o sol. O planeta também poderia ser um “mundo de água ou poderia ser uma super-Vênus”, com uma atmosfera densa e tóxica que mantém a superfície muito quente para os oceanos líquidos. Infelizmente, o sistema de Kepler 69 é de 2700 anos-luz de distância – mais uma vez muito distante para os astrônomos determinarem a composição de sua atmosfera.

Enquanto eles permanecem enigmáticos, Kepler 62 e 69 estão nos dando uma amostra do que podemos esperar para encontrar exoplanetas com pesquisas futuras, como a NASA’s Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), com lançamento previsto para 2017. O Kepler tem olhado para o espaço profundo em uma região do céu, mas o TESS vai usará uma série de câmeras de campo amplo para digitalizar aproximadamente 2 milhões das estrelas mais próximas à nossa, à procura de exoplanetas do tamanho da Terra em zonas habitáveis.

Os novos mundos de Kepler também ajudam a responder à pergunta da missão a ser estabelecida: quantas estrelas tem planetas potencialmente habitáveis?

“Encontrar estes três planetas – mesmo se você ignorar os outros que Kepler encontrou – mostra que você é, pelo menos um em mil”, diz Seth Shostak. “Isso significa que há cerca de 1 bilhão de mundos habitáveis na Via Láctea sozinha. Parece um monte de imóveis para mim.”

Este artigo apareceu na imprensa sob o título: “Water World’s Swell Hopes of Finding Life.”