Qual é o nosso papel no Universo?

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''Um pequeno passo para o homem. Um salto gigantesco para a humanidade.'' - Neil Armstrong

Nota: O texto a seguir é um dos 10 escolhidos que foram para a estratosfera ontem (dia/29/11/2014) em uma promoção organizada pelo projeto científico Estratos PAHP e a página de divulgação científica Mistérios do Espaço. Para mais dados da promoção, da escolha dos textos e de ambos os projetos, clique aqui, aqui, aquiaqui e aqui

Sem título
O Sol é uma das 200 bilhões de estrelas na Via Láctea que, por sua vez, é um mero ponto de luz em nosso endereço galáctico: o Grupo Local.

Nós, humanos, somos enormemente insignificantes. Somos uma espécie das 10 milhões existentes, em um planeta pequeno que orbita uma estrela das 70 sextilhões existentes no Universo observável. Moramos nos subúrbios de uma galáxia das 80 bilhões espalhadas pelo Cosmos inteiro. Mas, entre 80 bilhões de galáxias, 70 sextilhões de estrelas e 10 milhões de espécies, nós possuímos códigos genéticos e impressões digitais próprios. Nós podemos criar arte, escrever músicas, estudar ciência, questionar acerca de tudo e conviver com pessoas que nos amam. Nós, humanos, também somos enormemente significantes.

Durante os nossos 200 mil anos de existência, colocamos, em certos momentos, nossa sobrevivência em alguma dúvida, acumulando perigosas bagagens evolucionárias; gosto por rituais; apelo à violência; submissão a líderes; hostilidade a forasteiros; e um sedento poder pelo ódio e soberania. Adquirimos também compaixão pelos outros; amor por nossas crianças; um desejo imenso de aprender; e uma elevada e apaixonada inteligência. Tudo o que, naturalmente, é fundamental para nossa contínua sobrevivência e prosperidade.

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”Quando se destrói um velho preconceito, sente-se a necessidade duma nova virtude.” – Madame de Staël

Caminhamos pela Lua. Exploramos todo o nosso Sistema Solar. De Mercúrio a Netuno. Sobrevivemos a erupções vulcânicas e a última Era Glacial. Eliminamos quase totalmente a escravidão, que nos carrega (va) por séculos. Escapamos da Guerra Fria, o conflito armado onde estivemos mais perto da extinção total da espécie.

Já fomos 10 mil e hoje somos 7 bilhões. É difícil prever o futuro. Está ao nosso alcance destruir nossa civilização e, talvez, a nossa espécie também. Se nos rendermos à superstição, à ganância e à estupidez, este, certamente será o nosso destino. Mas também somos capazes de usar a nossa compaixão, inteligência, riqueza e tecnologia, para criar uma vida de significado e abundância para cada habitante deste planeta. Assim, aumentaremos grandiosamente nosso conhecimento acerca de tudo e cumpriremos, inteira e finalmente, nosso papel no Universo.

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”Você é o Universo, expressando-se como humano por um pequeno tempo.”

Referências de alguns dados usados:

  1. How Many Species Are There on Earth and in the Ocean?: http://goo.gl/jnNfnU
  2. Astronomers count the stars: http://goo.gl/K64FZ2
  3. How many galaxies in the Universe?: http://goo.gl/jKwh2K
  4. Human Evolution by The Smithsonian Institution’s Human Origins Program: http://goo.gl/1L73SU
  5. Late Pleistocene human population bottlenecks, volcanic winter, and differentiation of modern humans: http://goo.gl/ls51Fp
  6. 7 Billion Now Share The World: http://goo.gl/GvAMle

Referências que inspiraram o texto:

Carl Sagan – Quem fala pela Terra?: http://goo.gl/hMH71f
A vida, o Universo e tudo mais: http://goo.gl/OUAszn

Vacina contra Ebola passa no primeiro teste em humanos

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crédito da imagem: http://www.huffingtonpost.com/2014/09/30/ebola-us-cdc_n_5909394.html

O primeiro teste da vacina contra o Ebola foi bem sucedido, mas levará alguns meses (melhor cenário) para que ela possa ser usada para conter o surto da doença no Oeste da África.

A origem da vacina remete à mais de uma década. O vírus de um chimpanzé congelado foi modificado para poder carregar o material genético do Ebola que confere proteção contra uma cepa Zaire. Esse procedimento se mostrou efetivo em macacos mas os resultados foram diminuindo com o tempo.

O progresso da vacina foi atrasado não por questões técnicas mas sim econômicas. Surtos anteriores foram controlados apenas rastreando os doentes e colocando-os em quarentena. Como as pessoas mais afetadas também eram as que tinham menos condições de pagar, os fundos para a produção da vacina era limitada.

Entretanto, o surto recente de março de 2014 mudou o cronograma e agora, novos testes estão agendados para o ano que vem. “O surto do ebola que aflorou no Oeste da África intensificou os esforços para desenvolver vacinas seguras e efetivas”, disse Dr. Anthony Fauci do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. O instituto está produzindo uma vacina em colaboração com o GlaxoSmithKline (Companhia Farmacêutica Britânica).

A Fase I contou com 20 voluntários que injetaram a vacina em Setembro de 2014. Dois deles sofreram febres leves mas nenhum ficou seriamente doente. Em quatro semanas, todos estavam produzindo anticorpos contra o Ebola. Metade do grupo recebeu uma dose 10x maior que do resto do grupo, o que resultou em uma maior concentração de anticorpos.

Além dos anticorpos, os pesquisadores estavam ansiosos para ver células imunitárias T CD8. “De estudos anteriores com primatas não humanos nós sabemos que células T CD8 possuem um papel crucial na proteção do sistema dos animais” disse a Dr. Julie Ledgerwood. A vacina não está produzindo células CD8 em quantidade confiável, mas 7 dos pacientes que administraram altas doses da vacina e 2 dos que tomaram doses baixas começaram a produzir essas células, relata Ledgerwood no The New England Journal of Medicine.

Essa bateria de testes foram designadas para proteger tanto contra a cepa Zaire que está afetando o Oeste da África quanto contra o Ebola do Sudão. Alguns pacientes produziram anticorpos apenas contra uma cepa ou outra, mas a maioria deles apresentaram resultados contra ambas. Duas outras vacinas (uma contra a cepa Zaire sozinha) estão na Fase I dos testes em humanos.

Duas semanas atrás, Fauci deu esperanças de que os “ensaios de campo” para ajudar pessoas com alto risco de contágio vão começar em Janeiro de 2015. Os esforços para reduzir a velocidade de propagação do surto têm sido mais bem sucedidos do que os previstos em Setembro de 2014 pelo Centro de Controle de Doenças, que estimou que o pior cenário para Janeiro de 2015 era 1.4 milhões de infectados. Ainda assim, as taxas de infecção ainda estão crescendo em Serra Leoa e apenas uma vacina é plausível para parar o número de mortes.

Para saber mais acesse:

http://www.huffingtonpost.com/2014/09/30/ebola-us-cdc_n_5909394.html

http://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/ebola

Os enigmas da cura espiritual: uma crítica ao médium Waldemar Coelho

Na segunda-feira, dia 22 de setembro de 2014, nós do Universo Racionalista gravamos uma matéria à convite da Rede Bandeirantes de Televisão com o médium Waldemar Coelho, que é popularmente conhecido por realizar cirurgias espirituais em seu centro espírita na cidade de Leme, interior de São Paulo.

A ideia dos produtores era fazer uma matéria apresentando os dois lados da moeda: uma com a explicação espírita e outra com a explicação científica. Para isso, foi necessária a convocação de dois céticos, Wellton e eu, envolvidos na análise de pseudociência e uma atriz, chamada Graça Carneiro da Cunha, para testar e, quem sabe, desmascarar o médium.

Pretendo expor aqui a minha conclusão completa do caso, uma vez que na edição das matérias quase sempre algumas partes são removidas e, às vezes, tal procedimento pode tirar algumas frases do contexto. Mas, antes de começarmos, quero esclarecer que este texto se dividirá em cinco partes, sendo um ataque à pessoa, ao ambiente, à atriz, ao método espiritual e, por um fim, uma conclusão.

Introdução da reportagem

Waldemar Coelho, a pessoa

A cara e o jeito carismático de falar do senhor Waldemar Coelho faz qualquer pessoa gostar e se sentir confortável ao conversar com ele. Não senti ódio em suas palavras, mas ele também não sabia que estávamos lá para contestá-lo, pois a informação que eles tinham era de que nós fazíamos parte da equipe de suporte da TV Band.

Waldemar Coelho - O MédiumA informação que recebi foi que ele, de fato, se sentiria incomodado com pessoas céticas no local, por isso tentamos ser cautelosos, mas confesso que isso foi bem difícil, principalmente na hora de assistir in loco a “cirurgia espiritual”.

O Wellton levantou alguns questionamentos essenciais na hora da entrevista direta com o médium, o que fez com que ele recuasse em algumas respostas, como no caso do raios-X e no caso do corte cirúrgico. Em poucas palavras, o médium afirmou possuir um método de interação com a parte “paraespírita” do corpo, que, segundo ele, seria “a ligação da matéria com o espírito” (explicarei mais abaixo).

O ambiente

O centro espírita fica em Leme, interior de São Paulo, perto de São Carlos. Dentro do centro, há diversos quartos para hospedar turistas, com lugares apropriados para crianças, jovens e idosos.

Os responsáveis pelo centro, disseram-nos que as pessoas que têm condições financeiras pagam R$150,00 para se hospedar e quem não tem condições financeiras não paga absolutamente nada. Além disso, as pessoas que se hospedam nesses quartos realizam três sessões “espirituais” com o médium, incluindo a cirurgia espiritual.

No centro espírita, há algo como uma Igreja. Porém, penso que os espíritas chamariam aquilo de “templo” para não soar como religião, porque muitos praticantes dessa seita não gostam de traçar qualquer relação do espiritismo como uma religião, mas como uma ciência e uma filosofia. (Embora, como mostrado em diversos artigos, o espiritismo é melhor definido como uma religião pseudocientífica.)

Nesse templo, encontram-se fotografias de várias celebridades internacionais e uma imagem de Jesus logo ao centro do pequeno “altar”. Haviam também uma fotografia do Chico Xavier, uma imagem pintada do “espírito” que supostamente entra no médium (Ramatís) e uma revista aberta logo na entrada do templo, dizendo que o espiritismo está presente em “eventos científicos”.

Tinha um bazar com várias camisetas de esportistas nacionais e internacionais, inclusive de um jogador de basquete da seleção brasileira autografada. Nesse bazar, eles vendem esses produtos para que possam manter o centro em atividade.

A atriz espírita

A produção do programa contratou às pressas uma atriz para testar autenticidade dos poderes do médium. O nome dela é Graça, mas eu não senti nenhuma graça no final. Ela me contou que estava se sentindo desconfortável em fazer esse papel de atriz porque ela acredita fielmente no espiritismo. (O leitor pode não acreditar nessa afirmação, mas linkei o Facebook dela para você entrar em contato a qualquer momento).

GraçaNo caminho até o local, a atriz estava ensaiando no carro sobre o que dizer para o médium. Por fim, chegamos à conclusão que ela deveria mentir que estava com um câncer no cérebro.

Explicando melhor o caso, ela manteve seu nome original, algumas histórias pessoais, principalmente envolvendo seu trabalho como secretária da USP, mas não seu trabalho como atriz por motivos óbvios. Ela acrescentou que estava sentindo dores fortíssimas na cabeça, que estavam atrapalhando todas suas tarefas diárias. Para dar mais consistência a narrativa, ela explicou que havia procurado ajuda médica e que, através de uma ressonância magnética, os médicos haviam detectado um tumor de 2 cm no cérebro. Por fim, a atriz incluiu a ideia de que sua filha havia contatado o programa através de uma carta, pedindo ajuda para que a produção pudesse levá-la ao médium Waldemir Coelho por causa da recomendação de conhecidos.

O método espiritual

O espetáculo começa com uma música bem lenta e não muito baixa que transmite calma e tranquilidade. Eu diria que é o ambiente ideal para se meditar (meditar ao estilo budista). A música soa como um estímulo para um tipo de transe psicológico. O ambiente criado estabelece um tipo de êxtase interior, é como uma droga alucinógena que faz com que uma pessoa se sinta no pico da uma montanha ao ar livre enquanto medita. A luz do templo fica bem baixa, tornando o ambiente um pouco escuro.

Após a música começar, o ritual espírita começa com uma oração semelhante ao tradicional Pai Nosso católico, mas com algumas letras trocadas, por exemplo, ao invés de “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido”, é “perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”.

Em seguida, o médium caminha até o centro do templo, abaixa a cabeça e “tcharam”! O espírito entra em seu corpo, mudando sua postura, deixando em uma posição fecal ou algo análogo ao O Corcunda de Notre Dame. Então, ele começa a falar um português com um sotaque forçadamente americanizado. No entanto, sua voz não muda absolutamente nada, continua a mesma coisa.

Wellton EnishiAs cirurgias começam numa salinha escura com a porta fechada, mas do lado do templo. Logo que percebi isso, avisei ao Wellton que isso dificultaria qualquer análise precisa de um suposto truque de ilusionismo.

Antes de explicar o suposto procedimento cirúrgico, devo destacar algumas coisas que me chamaram a atenção: (1) a equipe toda não podia entrar no local, mas havia espaço para todos; (2) quando comecei a mexer no celular, enquanto estávamos no templo, a esposa do médium saiu repentinamente da sala e avisou um ajudante que estava perto da porta da cirurgia que devíamos deixar os celulares desligados. Confesso que não havia entendido o motivo, mas depois pressupôs que haviam câmeras no local e que, dentro da sala, a mulher observava nossos movimentos – e, possivelmente, acertei, pois tinha até um computador na sala. Mas também pensei em algumas possibilidades, como a de que talvez os celulares pudessem estar causando algum tipo de interferência em seus possíveis equipamentos, que pudessem servir para sustentar a fraude do procedimento cirúrgico.

Em seguida, dois pacientes, além da nossa atriz, toparam em deixar a equipe filmar o procedimento cirúrgico. Porém, como a equipe toda não podia entrar no local, o Wellton acabou sendo o primeiro da fila.

Quando começou o procedimento cirúrgico, pensei que assistiria a um show de truques de alto nível e que talvez até eu poderia acabar caindo no truque por alguma falha de observação. O que aprendi como cético é que nem sempre o truque sai da mão daquele que quer te enganar – às vezes, sai do próprio assistente e, por isso, observei cautelosamente todos os movimentos, incluindo o das assistentes que passavam os algodões e demais objetos.

Mas o showzinho espiritual foi pior do que imaginei. Antes de entrar na sala, eles pedem para que todos tirem os sapatos, mas não sei o motivo, pois eles não me disseram. Quando começa a operação, o médium usa um tipo de bisturi dourado que não corta nada. Ele passa sobre a pele da pessoa, no local do problema. Então, a assistente entrega um algodão molhado de álcool para o médium. Em seguida, ele coloca o algodão no local do problema e pressiona com o seu falso bisturi dourado, como se estivesse puxando alguma coisa de dentro da pessoa, e depois joga o algodão no chão. No momento do procedimento, pensei que o bisturi, o algodão ou talvez uma possível bolsa de sangue em sua mão tivesse algum compartilhamento falso que permitisse injetar sangue ou pedaços de órgãos de animais para depois afirmar que removeu um tumor ou coisa semelhante. Mas, por incrível que pareça, acabei pisando num pedaço de um algodão que ele jogou no chão e, de fato, não tinha absolutamente nada no algodão. Aliás, tinha apenas o álcool e mais nada. (James Randi consegue reproduzir esses truques de uma maneira muito mais sofisticada.) Depois ele passa um tipo de iodo ou mercúrio – aquele remédio meio laranjinha – no local da “operação” e, em seguida, coloca um curativo sobre a pele, sendo que ele nem cortou e nem sangue saiu. Chega a ser hilário, como uma criança brincando de médico, para não dizer outra coisa. E, sem mais encenações teatrais, acaba: a operação está concluída.

E a atriz?

Ela contou a sua história inventada para o médium com o espírito supostamente incorporado e, pasme, ele nem percebeu que ela estava mentindo nem que a atriz não tinha nenhum câncer no cérebro. Assim, ele aceitou fazer o procedimento cirúrgico para remover o câncer, que nunca existiu.

Mas para variar, de acordo com a própria atriz, o médium disse algumas coisas pessoais para ela depois da cirurgia, por exemplo, “eu sei que você tem problemas familiares, mas isso vai passar”. Em seguida, ela caiu em lágrimas e afirmou que ele acertou em cheio ao decifrar os problemas de sua vida e, infelizmente, acabou dando credibilidade total aos “acertos” vagos e subjetivos do médium, ignorando o erro mais drástico, que prova totalmente que seus métodos são fraudulentos.

O médium claramente afirmou algo totalmente subjetivo que pode ser aplicado à vida de qualquer pessoa do mundo. Como sempre, esses charlatães nunca fazem uma previsão exata ou descrevem um acontecimento preciso sobre sua vida pessoal. Eles sempre utilizam essas artimanhas para minimizar quaisquer chances de erro, algo que os astrólogos normalmente fazem. Há também a possibilidade de que ela tenha falado algo sobre sua vida pessoal antes da cirurgia, algo que o médium pudesse utilizar posteriormente com ela após o procedimento. As pessoas nem sempre percebem que acabam se expondo demais, dizendo coisas pontuais sobre sua vida, e depois mal se lembram dos erros ou do que disseram. Inclusive, esse é um fenômeno psicológico comum, descrito pelo astrônomo e divulgador científico Carl Sagan em sua obra “O Mundo Assombrado Pelos Demônios” e pelo historiador e psicólogo Michael Shermer em seu livro “Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas”, em que as pessoas costumam lembrar mais dos acertos do que dos erros.

Conclusão

Visivelmente, os métodos não passam de fraude, porque a atriz acabou demonstrando que não existe qualquer fundamento de verdade nos métodos do médium, pois ele não foi capaz de perceber que a atriz contratada estava mentindo.

Suas explicações depois das cirurgias possuem falhas argumentativas e contradições monstruosas. Primeiramente, ele diz que “some” quando incorpora o espírito e que todas as lembranças são esquecidas. Mas ele se esquece de que tem um cérebro: é o cérebro que guarda toda a informação, não o “espírito”. Logo, ele deveria se “lembrar” do ocorrido, estar ciente de todos os acontecimentos ali presentes. Porém, caso fosse o espírito, ele não seria uma “entidade” explicitamente espiritual, mas material ao conseguir interagir com o mundo natural e ter a plena capacidade de remover células cancerígenas do corpo humano, sendo essas mesmas doenças de cunho natural, não de “paraespiritual” ou “espiritual”.

Outra contradição é encontrada em sua afirmação de que seu método trata apenas de doenças que a medicina tradicional não consegue curar, pois essas doenças, de acordo com o médium, transcenderiam os “limitados” métodos materialistas. Mas ele se esquece de que a maioria dos pacientes que ele atendeu tinham doenças materiais, como um senhor com hepatite e outro com problema no ombro, entre outras doenças conhecidas no campo da medicina tradicional e que possuem tratamentos mais eficazes.

Ele cometeu uma outra contradição importante que não pode ser ignorada: ele disse que as marcas das cirurgias espirituais aparecem nos raios-X. Mas quando o Wellton perguntou como isso ocorria, já que o procedimento transcenderia o método natural, ele não soube responder. Ele disse um enfático: “não sei dizer”.

Outro ponto importante é que ele mesmo afirmou não lembrar de nada do que acontece após o “espírito” entrar em seu corpo. Porém, na entrevista, ele mostrava ter todas as respostas para todos os questionamentos. Em outras palavras, supondo que tudo que ele disse inicialmente fosse verdade, ele mesmo não poderia ter tal conhecimento de causa, porque seria necessário o espírito entrar em seu corpo para explicar todo o processo cirúrgico.

É interessante notar também que quase todas as doenças que ele se propõe a tratar seriam difíceis, mas não impossíveis de serem analisadas à luz da ciência, uma vez que alguns problemas necessitariam de vários dias de repouso e, consequentemente, de análises rigorosas, isolando certas variáveis, em testes clínicos. (Controle, randomização e cegagem seriam indispensáveis.) Sabemos, por exemplo, que muitas doenças podem desaparecer com o tempo, ou mesmo que o quadro clínico do paciente pode melhorar após o pico dos sintomas.

Tanto o ambiente quanto o médium de certa forma colaboram para que alguns pacientes, principalmente com dores em determinadas regiões do corpo, estejam susceptíveis ao efeito placebo, proporcionando um alívio imediato. Isso, porém, não se deve aos méritos do médium, mas a crença da pessoa de que ela está sendo tratada. Portanto, é um processo psicológico desencadeado pelo próprio cérebro.

O médium diz que seus métodos são eficazes e que os pacientes se mostram contentes com isso, mas ele não apresenta nenhuma correlação entre seu método e a recuperação clínica de seus pacientes. Ele destaca que alguns pacientes ainda seguem com seus tratamentos na medicina tradicional, então fica difícil credenciá-lo pelo sucesso. Penso que seria interessante a existência de um banco de dados, registrando todos os pacientes que não conseguiram se recuperar de seus problemas mais graves e que, posteriormente, vieram a falecer pela falha de seus métodos nada convencionais.

No final da reportagem, deixei claro que os métodos do Waldemar Coelho são simples fraudes e que podem ser explicados das formas mais simples possíveis, utilizando até mesmo a Navalha de Occam, que basicamente quando uma ideia possui um grande número de hipóteses, geralmente a explicação mais simples é a certa, e expliquei também a contradição em relação ao conceito físico e espiritual. O Wellton explicou a parte psicológica do problema, esclarecendo que o ambiente fortalece aquele forte desejo psicológico de cura e fomenta a fé das pessoas no sobrenatural. Outro ponto a se destacar é o de que a atriz praticamente se esqueceu do drástico erro cometido pelo médium, que prova a fraude, e apenas se recordou das frases emocionais e subjetivas ditas pelo médium e, por isso, creditou o serviço do médium como algo positivo (lembrando que a atriz contratada possui fortes vínculos emocionais com o espiritismo, como apontei no início).

Tenho muito mais coisas para falar sobre o caso (como o olho do médium, enquanto parte do mundo natural, é capaz de enxergar dentro do corpo para remover as supostas doenças e mais algumas coisas sobre os processamentos cognitivos do médium, o quadro de melhora dos pacientes e a incapacidade do médium em realizar operações mais fáceis e que podem ser verificadas facilmente como a remoção de uma simples cárie), mas acho que já expliquei até demais. É uma pena que esse cara ainda continue promovendo esses métodos antiéticos, imorais e pseudocientíficos como se fossem verdade, enganando diversas pessoas inocentes, desesperadas e desprovidas de qualquer conhecimento científico e senso crítico, pessoas que foram dominadas completamente pelo seu lado emocional em busca de tratamentos para os seus problemas.

No final da entrevista, a repórter me fez uma pergunta:

– Para você, quem é o médium Waldemar Coelho?

Eu disse:

– Um charlatão!

Dessa forma, a reportagem chega ao fim…

E ratifico minha afirmação expondo as seguintes leis:

CP – Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940.
Art. 283 – Inculcar ou anunciar cura por meio secreto ou infalível:
Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.
Curandeirismo.

CP – Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940.
Art. 284 – Exercer o curandeirismo:
I – prescrevendo, ministrando ou aplicando, habitualmente, qualquer substância;
II – usando gestos, palavras ou qualquer outro meio;
III – fazendo diagnósticos:
Pena – detenção, de seis meses a dois anos.
Parágrafo único – Se o crime é praticado mediante remuneração, o agente fica também sujeito à multa.
Forma qualificada.

Alexander comprova o espiritismo novamente

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Alexander Moreira Almeida está de volta na mídia com mais um estudo científico que supostamente comprova a veracidade das cartas psicografadas por Chico Xavier. Pelo menos a matéria foi pequena, apenas um vídeo de 1min30s onde Alexandre resume os seus achados. Mas, como veremos a seguir, só o fato de que O Globo decidiu dar atenção a essa suposta “pesquisa” já é razão suficiente para questionar a qualidade do jornalismo dessa empresa.

Vamos ao estudo em questão. Para começar o paper foi publicado em um periódico de baixo fator de impacto (0.935) sobre práticas curativas, incluindo a medicina alternativa. Só esse fato já deveria ser suficiente para levantar a sobrancelha de um jornalista científico sério; um estudo que comprova algo com o potencial de mudar toda nossa concepção científica mereceria no mínimo publicação na Nature Neuroscience (fator de impacto 14.976) ou na Science (fator de impacto 31.48). Quanto mais baixo o fator de impacto de um periódico, menos rigorosos tendem a ser os processos de seleção e revisão dos artigos submetidos para publicação.

Alexander Moreira Almeida (esquerda) e seu grande amor Chico Xavier (direita).
Alexander Moreira Almeida (esquerda) e seu grande amor Chico Xavier.

Mas voltemos ao estudo. Os pesquisadores analisaram apenas um conjunto de cartas psicografadas por Chico Xavier, alegadamente pelo espírito de Jair Presente, morto afogado aos 24 anos enquanto nadava em uma represa com os amigos. Dado que os próprios autores estimam que Xavier tenha psicografado mais de 10.000 cartas desse tipo, escolher apenas 13 e de um “espírito” só não é uma amostra significativa e cheira a “cherry picking” de dados. Se a intenção era verificar a veracidade da mediunidade de Xavier, como descrito nos objetivos do paper, uma amostra muito maior (e aleatória) das suas cartas deveria ter sido escolhida. Caso contrário há sempre a possibilidade de que Xavier tenha acertado esse caso por fraude ou apenas por sorte. Um problema ainda maior é que o evento analisado, a morte de Jair Presente e a psicografia das cartas para seus pais, aconteceu em 1974. Como avaliar a veracidade de um evento como esse que aconteceu há 40 anos atrás?

Os pesquisadores fizeram o seguinte: analisaram as informações contidas nas cartas de acordo com a possibilidade de “vazamento” e o quanto a informação “bate”. Vazamento refere-se a probabilidade que a informação tenha vazado para o médium de alguma maneira terrena (alguém contou, o médium leu sobre o caso no jornal, etc) e bater refere-se ao quanto a informação da carta bate com a realidade. Exemplos de informações retiradas das cartas são frases como “meu avô Basso” (avô de Jair Presente) e “eu vejo você indo ao meu quarto buscar lembranças como se eu fosse chegar a qualquer instante” (evento pós-morte). A primeira dessas informações foi classificada como 1 para vazamento (de uma escala que vai de 0–muito pouco provável que tenha vazado a 4–definitivamente vazou) e como 2 para bate (de uma escala que vai de 0–não bate a 2–bate clara e precisamente). A segunda informação também recebeu a mesma pontuação. Foram analisadas 99 informações como essas, algumas ainda mais vagas como “eles me chamaram” e “eles me abraçaram”. Com que base os pesquisadores atribuíram as classificações? Entrevistando os parentes de Jair Parente. Mesmo tirando o fato que as informações das cartas são claramente vagas, particularmente a segunda (qual mãe não vai no quarto do filho recém falecido para lembrar dele?) e que essa classificação em vazamento e bate é completamente subjetiva, uma entrevista com parentes sobre um evento que aconteceu há 40 anos atrás não tem a menor chance de chegar aos fatos. A memória humana é extremamente dinâmica e maleável, mesmo em curtos espaços de tempo. Os parentes de Jair Presente podem ter esquecido da conversa que tiveram com Xavier na fila de espera do centro espírita. Ou Xavier pode mesmo ter tido acesso as informações pelo jornal, por conhecidos e até por cartas enviadas diretamente a ele por outros parentes de Jair. De fato, não acho que exista metodologia alguma que consiga responder se Xavier fraudou ou não um caso como esse 40 anos atrás. Há simplesmente muitas variáveis em jogo as quais não temos mais acesso. A metodologia que os autores usaram definitivamente não responde a essa questão.

Os autores concluem:

“Os resultados da nossa investigação sugerem que as cartas de Xavier transmitiram informações precisas e exatas, e que explicações normais para elas (por exemplo fraude, sorte, vazamento de informações e leitura fria) são apenas remotamente plausíveis.”

E adicionam um toque de filosofia da mente:

“Esse estudo parece oferecer suporte empírico para teorias não-reducionistas da mente humana.”

Essas conclusões, apesar de claramente não serem apoiadas pela evidência, estão perfeitamente em linha com o que Alexander vem tentando propagar: a veracidade da doutrina religiosa do espiritismo. Venho seguindo seu rastro faz algum tempo (meu primeiro contato e o último) e não é por amor. O caso dele serve para expor dois grandes problemas relacionados com a ciência brasileira. Um deles é o claro despreparo da mídia em lidar com questões científicas. Dar espaço na mídia para o que ele faz chamando de ciência é no mínimo irresponsável. O outro problema diz respeito as universidades públicas e as agências de financiamento de pesquisa. Alexander é professor em uma universidade federal (UFJF) e como tal usufrui de um cargo vitalício. Mesmo com publicações medíocres e irrelevantes como essa, seu cargo está praticamente garantido pelo resto da sua vida. E o pior é que ainda assim ele consegue financiamento; esse estudo por exemplo foi financiado pela FAPESP. Um sistema desses, que emprega e financia pesquisadores como esse, tem credibilidade para gerir a ciência brasileira?


Curiosidade do dia: se o paper estiver certo Chico Xavier era também homeopata!

“Algumas centenas de pessoas atendiam as reuniões públicas mediúnicas de Xavier. […] Após as 6 pm, Xavier ia para um pequeno quarto nos fundos do centro espírita com dois assistentes. Ele ficava lá até aproximadamente meia-noite prescrevendo medicamentos homeopáticos junto com conselhos espirituais…”