Prêmio Nobel de Medicina é concedido ao geneticista que sequenciou genoma neandertal

A pesquisa de Svante Pääbo é vital para nossa compreensão de como os humanos passaram a dominar a Terra

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Svante Pääbo em Leipzig, Alemanha, 27 de abril de 2010. (Créditos: Frank Vinken/Max-Planck-Gesellschaft)

Traduzido por Julio Batista
Original de

O prêmio Nobel de fisiologia ou medicina de 2022 foi concedido a um geneticista sueco que traçou a evolução dos humanos modernos a partir do DNA de nossos parentes extintos.

Svante Pääbo, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha e um dos fundadores do campo da paleogenômica, deve receber o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (R$ 4,6 milhões) por seu trabalho pioneiro sobre a evolução dos hominídeos, parentes de humanos mais próximos a nós do que os chimpanzés, anunciou a Academia Real Sueca de Ciências em Estocolmo na segunda-feira (3 de outubro).

Ao superar os imensos obstáculos técnicos apresentados pela degradação do DNA ao longo de dezenas de milhares de anos, Pääbo sequenciou o genoma de um de nossos parentes extintos mais próximos, os neandertais (Homo neanderthalensis), e ajudou a fazer a descoberta espetacular de outro hominídeo anteriormente desconhecido, o denisovano. As perspectivas fornecidas por Pääbo revelaram que ambas as espécies coexistiram com os humanos – seu DNA se misturando com o nosso depois que os humanos modernos migraram da África há cerca de 70.000 anos.

“A humanidade sempre se intrigou com suas origens. De onde viemos? E como nos relacionamos com aqueles que vieram antes de nós? O que nos diferencia dos hominídeos extintos?” disse Anna Wedell, membro do comitê do Nobel de Fisiologia ou Medicina e da Real Academia Sueca de Ciências, durante o anúncio do comitê na segunda-feira. “Como nós, os neandertais tinham cérebros grandes. Eles viviam em grupos e usavam ferramentas, mas eles mudaram muito pouco durante centenas de milhares de anos, até que desapareceram.

Os ossos neandertais foram descobertos pela primeira vez em uma pedreira alemã no Vale do Neander em 1856, mas antes da invenção da análise genética, os cientistas que os estudavam limitavam-se a comparar suas aparências com ossos humanos. Mesmo com a descoberta do sequenciamento de DNA, o desafio de extrair material genético antigo para estudo permaneceu imenso – devido à degradação do material ao longo do tempo e contaminação por bactérias e até cientistas.

Pääbo desenvolveu um sofisticado conjunto de novas técnicas para contornar esses problemas, que incluíam a extração do DNA mitocondrial de ossos em salas limpas rigorosamente higienizadas antes de aplicar técnicas estatísticas para eliminar os contaminantes genéticos remanescentes. Depois de aplicar esses métodos a três ossos neandertais descobertos em toda a Europa, Pääbo sequenciou com sucesso todo o genoma neandertal em 2008.

Ele não apenas descobriu que humanos e neandertais eram geneticamente distintos, mas que as duas espécies compartilhavam um ancestral comum recente que viveu cerca de 800.000 anos atrás (embora a data desse último ancestral comum ainda seja debatida), e que os neandertais e o Homo sapiens também conviveram e tiveram filhos juntos. Nos humanos modernos de ascendência europeia ou asiática, até 2% do DNA se origina dos neandertais.

Em 2008, depois de examinar o genoma de um fragmento ósseo de 40.000 anos descoberto na caverna Denisova, na Sibéria, Pääbo e seus colegas pesquisadores descobriram um hominídeo inteiramente novo – os denisovanos. Descobriu-se que esta ramificação de nossos ancestrais se acasalou com humanos no leste da Eurásia, o que significa que populações na Melanésia, uma sub-região da Oceania que inclui Nova Guiné, Ilhas Salomão, Vanuatu, Nova Caledônia e Fiji, e partes do Sudeste Asiático podem transportar até 6% de DNA denisovano. Um dos genes herdados dos denisovanos ajuda os tibetanos modernos a sobreviver em ambientes de alta altitude e baixo oxigênio.

Wedell destacou que as descobertas de Pääbo não apenas ajudam a revelar de onde vieram os humanos, mas também como o Homo sapiens se tornou tão bem sucedido. Os neandertais tinham cérebros grandes, eram altamente sociais e usavam ferramentas complexas, mas seus padrões culturais mudaram muito pouco ao longo de centenas de milhares de anos até que foram extintos cerca de 40.000 anos atrás, de acordo com Wedell (no entanto, há algumas evidências de que os neandertais criaram obras de arte simbólicas, a Live Science relatou anteriormente).

“O Homo sapiens, por outro lado, desenvolveu rapidamente culturas complexas, arte figurativa e inovações avançadas”, disse Wedell. “Eles cruzaram águas abertas e se espalharam por todas as partes do nosso planeta. A base para esse desenvolvimento dramático deve estar nas mudanças genéticas que ocorreram depois que nos separamos dos neandertais e dos denisovanos.”

É graças às descobertas de Pääbo que essas principais diferenças genéticas e suas implicações sobre como o Homo sapiens passou a dominar o planeta aguardam mais descobertas.