Redução ao Abstruso* ou por que o “pós-modernismo” é cartesiano, reducionista e positivista (e por que isso não quer dizer nada)?

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René Descartes feat. Pitbull.

Por Danilo Dantas

Existe uma manobra “argumentativa” que há muito tempo me intriga e me irrita. Eu vou tentar dar um exemplo, depois vou tentar avaliar essa manobra e fazer uma brincadeira.

Suponha que eu esteja numa discussão sobre as bases da moralidade com alguém que se declare “Pós-modernista” (seja lá o que isso signifique). Suponha, então, que eu expresse a seguinte posição:

Minha Posição

  1. Existem fatos morais objetivos (independentes de nossas opiniões, teorias, cultura, sociedade, etc).
  2. É possível aplicar métodos rigorosos/exatos/quantitativos à moralidade.

Não importa se essa é mesmo “minha posição”. O importante é que, muito provavelmente, eu vá receber de meu amigo “Pós-modernista” uma resposta do seguinte tipo: “Mas essa posição é X”, em que os Xs mais populares são “cartesiana”, “reducionista” e “positivista”.

Minha primeira reação a esse tipo de resposta e sempre algo do tipo: “E…?”. Ou melhor: “obrigado por classificar minha posição. Mas, anyway, ela e verdadeira ou falsa?”.

Num segundo momento, eu fiz um esforço para tentar entender a estrutura desse “contra-argumento”.

Eu chamo essa manobra de “Redução ao Abstruso”. O “contra-argumento” consiste em um tipo de “redução”, como a mais conhecida “Redução ao Absurdo”. Mas, a Redução ao Abstruso não consiste em em mostrar que a posição concorrente implica uma contradição, ou mesmo uma proposição que sabemos ser falsa. Esse tipo abstruso de redução consiste em aplicar a uma posição um rótulo que, apesar de não o entendermos, temos uma misteriosa convicção de que ele se aplica a posições falsas, obviamente falsas. Feias, sujas e malvadas.

Para deixar claro, essa estratégia é falaciosa (falácia genética). A questão é: dizer que algo é cartesiano, reducionista ou positivista é irrelevante para seu valor de verdade. Então, crianças, não façam isso em casa!

Mas, por motivos meramente lúdicos, vamos supor por alguns minutos que a Redução ao Abstruso é uma manobra argumentativa válida. Suponha também que a posição pós-modernista em relação a moral seja a seguinte:

Posição Pós-modernista

  1. Fatos morais nada mais são que fatos sociais (ou culturais, ou qualquer coisa que o valha).
  2. Não é possível aplicar métodos rigorosos/exatos/quantitativos à moralidade.

Sob essas suposições, e “só de sacanagem”, vamos Reduzir ao Abstruso a posição pós-modernista. Vamos mostrar que a posição pós-modernista é cartesiana, reducionista e positivista.

Posição pós-modernista é cartesiana: Descartes não acredita que possamos alcançar na moralidade o mesmo tipo de certeza que alcançamos na matemática e física. Nos “Princípios da Filosofia” (IV, art. 205), ele afirma: “Eu vou aqui distinguir dois tipos de certeza. O primeiro é chamado “moral”, que é suficiente para conduzir a vida, mas, pelos olhos de Deus, o que é moralmente certo pode ser falso… Além disso, há algumas coisas sobre as quais podemos julgar como absolutamente certas… Desse tipo são as demonstrações matemáticas, o conhecimento que as coisas materiais existem, e o raciocínio claro em relação a estas”.

Posição pós-modernista é reducionista: Numa redução, demonstra-se que objetos ou conceitos de uma teoria são totalmente explicáveis em termos de objetos ou conceitos de outra teoria. Por exemplo, a noção termodinâmica de calor é redutível à noção de energia cinética media (noção da mecânica estatística). Mas não propõe-se também uma redução quando se afirma que “fatos morais nada mais são que fatos sociais”?

Posição pós-modernista é positivista: Eu realmente não sei do que as pessoas falam quando falam em “positivismo”. Eu vou assumir aqui que “positivismo” significa positivismo lógico. O positivista lógico mais interessado em moralidade era Schlick. Ele defendia que sentenças morais não são normativas, mas sim sentenças que descrevem a origem e a evolução dos princípios morais na sociedade humana.

A posição pós-modernista é Cartesiana, Reducionista e Positivista. Q.E.D.

A posição pós-modernista, então, foi Reduzida ao Abstruso. O que isso diz sobre seu valor de verdade? Exatamente nada!

*Redução ao absurdo é um tipo de argumento lógico no qual assume-se uma ou mais hipóteses e, a partir destas, deriva uma consequência absurda, e então conclui que a suposição original deve estar errada. Redução ao Abstruso, bem, that’s something else.

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