Responsabilidade contra Niilismo

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Por Bertrand Guillaume
Publicado no Institute for Cross-Disciplinary Engagement de Dartmouth College

Um chamado para uma nova ética

No contexto da era nuclear e de crescentes preocupações ecológicas, o filósofo alemão Hans Jonas foi um dos primeiros a medir os desafios éticos propostos pelas novas características da tecnologia moderna.

Primeiro, ameaças ambientais globais vem com uma “visão integrada” do mundo humano globalizado e da Terra viva, o que sugere uma nova esfera de verdadeira significância ética. Segundo, eles sugerem consequências a longo prazo, e transmitem responsabilidades assimétricas para gerações futuras. Jonas percebeu que nós possuímos uma nova imperativa moral de comensurar com o nosso poder; um poder que agora afeta pessoas em todo o globo, gerações humanas futuras, bem como boa parte da biosfera.

Uma história de dois relógios

Após a Segunda Guerra Mundial, o Bulletin of Atomic Scientists criou o “Relógio do Fim do Mundo” como uma metáfora para o perigo e um chamado para a responsabilidade. Utilizando-se das imagens do apocalipse e da contagem regressiva, o Relógio transmite ameaças existenciais antropogênicas à própria humanidade e ao planeta. Todo ano, é decidido onde o ponteiro dos minutos do relógio deve ficar: quanto mais perto da meia-noite, mais perto o mundo está da destruição. Ele cobriu perturbações possivelmente catastróficas das mudanças climáticas desde 2007, e atualmente aponta dois minutos para a meia-noite.

Um segundo relógio é o físico “Relógio dos 10.000 anos”, um projeto liderado pela Long Now Foundation para nutrir o pensamento à longo prazo e responsabilidade. É um aparato monumental que ainda não foi construído, e que se tornará um ícone para o pensamento a longo prazo. Ele foi criado para avançar apenas uma vez por ano, e funcionar por dez milênios. Assim, ele irá medir o futuro da civilização igual ao seu passado, assumindo que a jornada não seja encerrada. “Se um relógio pode funcionar por dez mil anos” pergunta a Long Now Foundation, “não deveríamos nos certificar que a civilização também o faça?”

Desafiando o significado de ação humana

E ainda assim, a temperatura média global pode subir até 5°C até 2100; o aumento do nível do mar pode ser de cerca de um metro para cada um dos próximos séculos, para até seis ou sete metros; algumas perturbações da circulação termoalina podem ser acionadas; grandes reservas de hidratos de metano podem ser gradualmente liberadas, e outros cenários de “mudanças climáticas desembestadas” existem, com alguns cientistas avisando que a Terra pode vir a parecer com Vênus se o aquecimento continuar.

E aqui se encontram as dimensões metafísicas das mudanças climáticas globais: os riscos são tão altos e tão potencialmente críticos à longo prazo que eles engajam a nossa responsabilidade rumo ao futuro em um novo nível, criando uma “vertigem de Karma” para a nossa civilização que, nas palavras de Steward Brand, geram a imposição de “responsabilidade esmagadora, paralisadora de se contemplar”.

Como o astrônomo Carl Sagan famosamente escreveu sobre a icônica foto do “pálido ponto azul”: “cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas… em um grão de pó suspenso num raio de sol”.

Até onde sabemos, o mesmo vale para a vida em geral. E ainda assim, “em última análise, a visão que conta é a da Terra, de dentro da vida”, como expresso por Jonathan Schell no contexto da ameaça nuclear.

É a visão não apenas de uma foto estática do planeta, mas da evolução dinâmica da vida dentro dele. Dessa perspectiva, ele não é apenas “o único mundo conhecido a abrigar a vida”, como dito por Sagan, mas também levou uma longa jornada para chegar lá – do Big Bang, passando pela formação das estrelas, a formação da Terra, a evolução da vida, a emergência de primatas, a aparição da humanidade e, eventualmente, a ascensão de civilizações.

Mesmo que o nosso conhecimento sobre a vida em condições extremas tenha feito grande progresso, alguns argumentam que poucos planetas em outros sistemas solares iriam oferecer a estabilidade a longo prazo necessária para a evolução contínua da vida, que a emergência da vida complexa requer. Portanto, ainda que “o futuro não precise de nós”, como o cientista computacional Bill Joyce afirmou uma vez, pode ser que – na posição de única forma de vida inteligente conhecida na galáxia – nosso destino seja ao contrário de uma “significância cósmica”, citando o cosmólogo inglês Martin Rees.

Significância e propósito

No fim das contas, não importa que nossa morada não seja o centro do sistema solar, e que nosso sistema solar não seja o centro do Universo. Da mesma forma, não importa que a humanidade divida uma ancestralidade comum com os macacos, ou mesmo com alguns organismos unicelulares primitivos. Não importa se fomos o resultado de algum grande esquema cósmico, de algum misterioso impulso da matéria, ou a mera consequência acidental de um complexo e caótico conjunto de causas e efeitos, a pura mistura de oportunidade e necessidade. De qualquer forma, nós somos um milagre. A Terra viva é um milagre, e nós – tanto como indivíduos quanto como espécies – somos únicos também, porque a mesma habilidade que nos fornece enormes poderes também nos fornece a capacidade para a mudança, através da habilidade de moldar e cuidar do futuro.

A responsabilidade que nós temos de preservar nosso planeta natal e a continuidade da biosfera e, nela, uma certa ideia de humanidade, é primordial. A ética e metafísica das mudanças do ambiente global sugerem que perspectivas extremas podem sim estabelecer provas definitivas da morte do significado, mas elas também podem desencadear um tipo de ressurgimento simbólico necessário no mundo. O que também pode ser um simples teste evolutivo poderia, portanto, salvaguardar uma leve ideia de significado em face do niilismo, e fornecer e provar uma genuína significância para nossas evidências enquanto indivíduos, enquanto pessoas, e enquanto humanidade. Independente de ter havido ou não um propósito no Universo, nós temos um agora, que é cuidar da vida, e cuidar do futuro. Basicamente, isso daria propósito à poeira estelar.

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