Sensação de membro fantasma explicada

Experimento revela mudanças do funcionamento de áreas cerebrais sensitivas e motoras após a amputação de um membro, o que ajuda a entender o fenômeno da sensação fantasma.

0
176
Imagem: Yen Strandqvist / Chalmers University of Technology.

Por Catarina Chagas
Publicado na EurekAlert

Após a amputação de um membro, o cérebro humano sofre modificações na maneira como funciona e conecta suas áreas. Em estudo publicado hoje no periódico Scientific Reports, pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) identificaram que áreas cerebrais sensitivas e motoras passam a se comunicar de forma diferente após a amputação. Os resultados podem ajudar a compreender por que alguns pacientes possuem a síndrome do membro fantasma, em que relatam ter sensações ou dor no membro ausente.

O trabalho é mais um passo importante na compreensão da neuroplasticidade, uma capacidade que o cérebro tem de se modificar em resposta a diferentes situações. Essas modificações ocorrem a todo vapor nos estágios iniciais do desenvolvimento cerebral, mas também, com menor intensidade, ao longo de toda a vida. Entender os fatores que regem esse fenômeno é fundamental para esclarecer o que ocorre quando o cérebro é acometido por doenças, o que permite o desenvolvimento de tratamentos mais eficientes.

O cérebro de pessoas que sofreram amputação de um membro é um excelente modelo para estudar a neuroplasticidade, pois há evidências de que, quando se perde um braço ou uma perna, por exemplo, as áreas cerebrais relacionadas a sensibilidade e movimento do membro perdido sofrem modificações importantes. Em estudo prévio, pesquisadores do IDOR já haviam identificado que, após a amputação, o cérebro passa a reagir de forma exagerada quando o coto – parte do membro que permanece após a amputação – é estimulado. Além disso, o corpo caloso – estrutura que conecta áreas responsáveis pelo movimento e pela sensação tátil entre os dois hemisférios cerebrais – deixa de ser tão robusto como esperado.

Essa última descoberta motivou uma nova pergunta de pesquisa: se o corpo caloso não possui o grau adequado de estruturação, como se dá a “conversa” entre as diferentes áreas cerebrais que ele conecta? Liderada pela médica radiologista Fernanda Tovar-Moll, presidente do IDOR, a equipe retomou a análise de exames de ressonância magnética realizados em pacientes amputados no estudo anterior, em busca de respostas.

Na nova análise, os dados de neuroimagem por ressonância magnética foram usados para explorar o que os cientistas chamam de conectividade funcional, ou seja, o quanto áreas cerebrais distintas se comunicam entre si. Ao todo, foram avaliados exames de nove pacientes que sofreram amputação no membro inferior e que possuem a sensação – mas não dor – fantasma, além de nove indivíduos saudáveis. Dentro do equipamento de ressonância, os participantes receberam estimulações na região do pé remanescente e do coto (ou, no caso dos indivíduos saudáveis, na coxa), realizadas por uma escova.

A análise dos dados revelou que a suspeita dos pesquisadores estava correta, isto é, a comunicação de áreas sensoriais e motoras entre os hemisférios cerebrais estava prejudicada nos pacientes amputados, provavelmente como consequência de um corpo caloso menos eficiente. Por outro lado, áreas sensoriais e motoras de um mesmo hemisfério cerebral apresentaram maior conectividade funcional em quem sofreu amputação.

“As modificações da conectividade funcional já vinham sendo investigadas em amputados que sofriam dor, mas nossos achados mostram que há um desequilíbrio da organização funcional do cérebro mesmo naqueles que não possuem dor fantasma”, explica Ivanei Bramati, físico médico do IDOR e doutorando responsável pelo desenvolvimento da pesquisa.

Agora, os pesquisadores querem investigar qual a relação entre o fenômeno da sensação fantasma e as mudanças das redes neurais, e esclarecer por que alguns pacientes desenvolvem a síndrome do membro fantasma e outros, não. A compreensão das mudanças sofridas no mapa cerebral em resposta à perda de um membro permitirá que, no futuro, neurocientistas desenvolvam tecnologias e dispositivos capazes de reverter o quadro, melhorando, assim, a qualidade de vida dos pacientes.

CONTINUAR LENDO