Um antigo assassino está rapidamente se tornando resistente a antibióticos, alertam cientistas

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Salmonella Typhi. (Créditos: Microbewriter/Wikimedia Commons/CC BY SA 4.0)

Traduzido por Julio Batista
Original de Carly Cassella para o ScienceAlert

A febre tifoide pode ser rara em países desenvolvidos, mas essa antiga ameaça, que se acredita existir há milênios, ainda é um perigo em nosso mundo moderno.

De acordo com uma nova pesquisa, a bactéria que causa a febre tifoide está desenvolvendo uma extensa resistência aos medicamentos e substituindo rapidamente as cepas que não são resistentes.

Atualmente, os antibióticos são a única maneira de tratar eficazmente a febre tifoide, que é causada pela bactéria Salmonella enterica sorovar Typhi (S Typhi). No entanto, nas últimas três décadas, a resistência da bactéria aos antibióticos orais vem crescendo e se espalhando.

Ao sequenciar os genomas de 3.489 cepas S Typhi contraídas de 2014 a 2019 no Nepal, Bangladesh, Paquistão e Índia, os pesquisadores descobriram um aumento recente de Typhi extensivamente resistente a medicamentos (XDR).

O XDR Typhi não é apenas resistente a antibióticos de linha de frente, como ampicilina, cloranfenicol e trimetoprim/sulfametoxazol, mas também está se tornando resistente a antibióticos mais recentes, como fluoroquinolonas e cefalosporinas de terceira geração.

Pior ainda, essas cepas estão se espalhando globalmente em um ritmo rápido.

Embora a maioria dos casos de XDR Typhi tenha origem no sul da Ásia, os pesquisadores identificaram quase 200 casos de disseminação internacional desde 1990.

A maioria das cepas foi exportada para o Sudeste Asiático, bem como para o leste e sul da África, mas superbactérias tifoides também foram encontradas no Reino Unido, Estados Unidos e Canadá.

“A velocidade com que cepas altamente resistentes de S. Typhi surgiram e se espalharam nos últimos anos é um motivo real de preocupação e destaca a necessidade de expandir urgentemente as medidas de prevenção, principalmente nos países de maior risco”, disse o especialista em doenças infecciosas Jason Andrews da Universidade de Stanford.

Os cientistas vêm alertando sobre a febre tifoide resistente a medicamentos há anos, mas a nova pesquisa é a maior análise do genoma da bactéria até o momento.

Em 2016, a primeira cepa de febre tifoide XDR foi identificada no Paquistão. Em 2019, tornou-se o genótipo dominante no país.

Historicamente, a maioria das cepas de febre tifoide XDR foi combatida com antimicrobianos de terceira geração, como quinolonas, cefalosporinas e macrolídeos.

Mas no início dos anos 2000, as mutações que conferem resistência às quinolonas representavam mais de 85% de todos os casos em Bangladesh, Índia, Paquistão, Nepal e Cingapura. Ao mesmo tempo, a resistência às cefalosporinas também estava tomando conta.

Hoje, resta apenas um antibiótico oral: o macrolídeo, a azitromicina. E este medicamento pode não funcionar por muito mais tempo.

O novo estudo descobriu que mutações que conferem resistência à azitromicina também estão se espalhando, “ameaçando a eficácia de todos os antimicrobianos orais para o tratamento da febre tifoide”. Embora essas mutações ainda não tenham sido adotadas pela S Typhi XDR, se forem, estamos com sérios problemas.

Se não for tratada, até 20% dos casos de febre tifoide podem ser fatais e, hoje, há 11 milhões de casos de febre tifoide por ano.

Futuros surtos podem ser evitados até certo ponto com vacinas conjugadas contra a febre tifoide, mas se o acesso a essas vacinas não for expandido globalmente, o mundo poderá em breve ter outra crise de saúde em suas mãos.

“O recente surgimento de XDR e S Typhi resistente à azitromicina cria maior urgência para medidas de prevenção em rápida expansão, incluindo o uso de vacinas conjugadas contra febre tifoide em países endêmicos de febre tifoide”, escreveram os autores.

“Tais medidas são necessárias em países onde a prevalência de resistência antimicrobiana entre os isolados de S Typhi é atualmente alta, mas, dada a propensão à disseminação internacional, não deve ser restrita a essas configurações”.

O sul da Ásia pode ser o principal centro da febre tifoide, respondendo por 70% de todos os casos, mas se a COVID-19 nos ensinou alguma coisa, é que as variantes da doença em nosso mundo moderno e globalizado são facilmente disseminadas.

Para evitar que isso aconteça, especialistas em saúde argumentam que os países devem expandir o acesso às vacinas contra a febre tifoide e investir em novas pesquisas de antibióticos. Um estudo recente na Índia, por exemplo, estima que se as crianças forem vacinadas contra a febre tifoide em áreas urbanas, isso poderia prevenir até 36% dos casos e mortes de febre tifoide.

O Paquistão está atualmente liderando o caminho nesse sentido. É a primeira nação do mundo a oferecer imunização de rotina para a febre tifoide. No ano passado, milhões de crianças receberam a vacina, e especialistas em saúde argumentam que mais nações precisam seguir o exemplo.

A resistência aos antibióticos é uma das principais causas de morte no mundo, ceifando a vida de mais pessoas do que o HIV/AIDS ou a malária. Quando disponíveis, as vacinas são algumas das melhores ferramentas que temos para prevenir catástrofes futuras.

Não temos tempo a perder.

O estudo foi publicado no The Lancet Microbe.