Uma assustadora extinção em massa aconteceu há 30 milhões de anos – e só notamos agora

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Fóssil de um extinto primata do Eoceno encontrado no Egito. Crédito: Matt Borths.

Por Mike McRae
Publicado na ScienceAlert

O fim do Eoceno, há cerca de 33 milhões de anos, marca uma época de grandes mudanças na Terra. Em uma lenta reversão do que vemos hoje, as temperaturas caíram e as geleiras avançaram em direção ao equador.

A perda da biodiversidade em todo o continente asiático foi profunda. Mas a biodiversidade da África, protegida pelo calor dos trópicos, parecia não ter sido afetada pelas mudanças colossais. Ou assim pensamos.

De acordo com um estudo publicado recentemente por uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos, simplesmente não estávamos olhando para o registro fóssil da maneira certa.

A pesquisa sugere que, longe de sobreviver a essa mudança fria, os mamíferos na Península Arábica e em todo o continente africano experimentaram declínios significativos, com quase dois terços de sua diversidade desaparecendo há 30 milhões de anos.

Exatamente o que precipitou cada perda não está claro, embora com as oscilações generalizadas de temperatura e intensa atividade vulcânica agitando a região, possibilidades não faltam.

O que quer que tenha causado a perda, os nichos ecológicos deixados em aberto pela extinção não ficaram vazios por muito tempo.

“Está muito claro que houve um grande evento de extinção e, em seguida, um período de recuperação”, disse o biólogo da Universidade Duke (EUA), Steven Heritage.

Muito do que sabemos sobre a mudança climática na transição do Eoceno para a época seguinte, o Oligoceno, vem de análises das mudanças nos isótopos de oxigênio em núcleos de sedimentos escavados no fundo do oceano.

Combiná-las com várias outras evidências sobre as oscilações dos níveis do mar e evidências do crescimento das geleiras nos dá uma imagem geral de como nosso planeta como um todo estava mudando.

No entanto, os sinais em níveis mais locais podem ser um pouco irregulares, dependendo mais da modelagem e de um exame cuidadoso dos fósseis que aparecem esporadicamente aqui e ali.

Registros feitos em terra firme podem fornecer um quadro misto, então não é surpreendente que tenha havido um debate sobre o impacto que o resfriamento global teve nas massas próximas ao equador.

Por um lado, há evidências de animais como os parentes ancestrais dos lêmures modernos desaparecendo do nordeste da África. No entanto, outros estudos sugerem que a África quase não experimentou nenhuma mudança ambiental, ou talvez nenhuma.

Os registros fósseis podem ser difíceis de interpretar, graças à tendência de serem uma colcha de retalhos. Nem todas as espécies deixam seus restos perfeitamente preservados em um local conveniente, mas com as ferramentas analíticas corretas, os pesquisadores ainda podem extrair um tesouro de informações de apenas um punhado de ossos.

A equipe coletou dados sobre fósseis que representam cinco grupos de mamíferos, incluindo carnívoros chamados hienodontes, dois grupos de roedores, anomalúridos semelhantes à esquilos e dois grupos de primatas – um deles ocupado por nossos próprios ancestrais.

A partir dessas amostras, os pesquisadores construíram uma árvore genealógica que representa o tempo de ocorrências e perdas conhecidas para cada uma. As ferramentas estatísticas poderiam então dar aos cientistas uma ideia melhor de quando as perdas foram substanciais o suficiente em determinadas áreas para serem vinculadas a eventos globais.

Ao olhar para as características dentro de grupos relacionados, os pesquisadores também puderam ver como as espécies se diversificaram para preencher os nichos deixados pelos animais extintos.

Pegue os dentes de um animal, por exemplo. Diferenças sutis em suas formas durante um longo período de tempo podem nos dizer como as espécies se adaptaram rapidamente a uma fonte de alimento recém-abundante.

“Vemos uma grande perda na diversidade dentária e, em seguida, um período de recuperação com novos formatos dentais e novas adaptações”, disse o autor principal Dorien de Vries, da Universidade de Salford, no Reino Unido.

A propósito, nossos próprios ancestrais primatas parecem estar entre os mais atingidos. A diversidade nos dentes antropoides há 30 milhões de anos caiu para praticamente nada. Era tão ruim que um único tipo de morfologia dentária permaneceu, restringindo os tipos de alimentos que seus descendentes podiam comer.

Efeitos de gargalo como esses são comuns em todo o registro evolutivo. Saber como as espécies respondem a eles pode ser vital, dada a pressão que estamos colocando em tantos ecossistemas ao redor do globo hoje.

De alguma forma, o formato dos dentes nos ajudou. Se não fosse assim, nossa espécie talvez nunca tivesse visto a luz do dia.

“Foi um verdadeiro botão de reinicialização”, disse de Vries.

Esta pesquisa foi publicada na Communications Biology.