Uma aurora que iluminou o céu acima do Titanic pode explicar porque ele afundou

"As Luzes do Norte estavam muito fortes naquela noite", lembrou uma testemunha.

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O RMS Titanic partiu de Southampton em 10 de abril de 1912, quatro dias antes do desastre que ceifou mais de 1.500 vidas.

Por Mindy Weisberger
Publicado na Live Science

Auroras brilhantes tremeluziram nos céus do norte do Oceano Atlântico em 15 de abril de 1912 – a noite em que o RMS Titanic afundou. Agora, uma nova pesquisa sugere que a tempestade geomagnética por trás da aurora boreal pode ter interrompido os sistemas de navegação e comunicação do navio e dificultado os esforços de resgate, resultando no desastre que matou mais de 1.500 passageiros.

Testemunhas descreveram o brilho da aurora na região enquanto o Titanic afundava, com um observador que testemunhou dizendo que “as Luzes do Norte estavam muito fortes naquela noite”, relatou Mila Zinkova, uma pesquisadora meteorológica independente e fotógrafa, em um novo estudo, publicado online em 4 de agosto na revista Weather.

As auroras se formam a partir de tempestades solares, quando o sol lança fluxos de gás eletrificado em alta velocidade em direção à Terra. Conforme as partículas eletrificadas e a energia colidem com a atmosfera da Terra, algumas viajam pelas linhas do campo magnético para interagir com os gases atmosféricos, formas luzes verdes, vermelhas, roxas e azuis, segundo a NASA. Essas partículas eletrificadas também podem interferir nos sinais elétricos e magnéticos, causando picos e oscilações, de acordo com a NASA.

Uma tempestade solar (também chamada de tempestade geomagnética) poderosa o suficiente para produzir uma aurora também pode ter afetado bússolas e sistemas de comunicação sem fio no Titanic, e em navios próximos que tentavam ajudar no acidente. Mesmo uma pequena perturbação pode ter sido suficiente para condenar toda a embarcação, disse Zinkova no estudo.

E as Luzes do Norte eram muito visíveis quando o Titanic afundou. James Bisset, segundo oficial do RMS Carpathia (o navio que resgataria os sobreviventes do Titanic) escreveu em seu diário de bordo na noite de 14 de abril de 1912: “Não havia lua, mas a Aurora Boreal brilhava como raios de lua surgindo do horizonte norte”. Em uma anotação feita cinco horas depois, Bisset observou que ainda podia ver “raios esverdeados” da aurora quando o Carpathia se aproximava dos botes salva-vidas do Titanic, relatou Zinkova.

Os sobreviventes também descreveram ter avistado as Luzes do Norte em seus botes salva-vidas por volta das 3 da manhã, horário local. O brilho “formou um arco em forma de leque no céu do norte, com tênues serpentinas alcançando a estrela polar”, escreveu o sobrevivente do Titanic, Lawrence Beesley.

Ao mesmo tempo em que as partículas eletrificados da tempestade solar estavam gerando um belo show de luzes, elas também poderiam estar mudando a direção da bússola do Titanic. Um desvio de apenas 0,5 grau teria sido suficiente para desviar o navio da área de segurança e colocá-lo em sua rota de colisão fatal em direção a um iceberg, disse Zinkova no estudo.

“Esse erro aparentemente insignificante pode ter feito grande diferença entre colidir com o iceberg e evitá-lo”, escreveu ela.

O naufrágio do RMS Titanic, descrito pelo sobrevivente Jack Thayer e esboçado por LP Skidmore, um passageiro do RMS Carpathia, em 15 de abril de 1912.

Sinais “estranhos”

Os sinais de rádio naquela noite também estavam “estranhos”, informaram os operadores do transatlântico RMS Baltic (o Baltic foi um dos navios que respondeu ao pedido de socorro do Titanic, mas o RMS Carpathia chegou primeiro, de acordo com a Biblioteca Armstrong Browning na Universidade Baylor em Waco, Texas, EUA). Os sinais de SOS enviados pelo Titanic para navios próximos não foram ouvidos, e as respostas ao Titanic nunca foram recebidas, de acordo com Zinkova.

“O relatório oficial do naufrágio do Titanic sugeriu que entusiastas que usavam um rádio amador causaram a interferência, bloqueando as ondas de rádio, e assim impedindo a disseminação precisa de sinais de emergência para outros navios nas proximidades”, escreveu ela.

“No entanto, na época, eles tinham conhecimento incompleto da influência que as tempestades geomagnéticas podem ter na ionosfera e na interrupção da comunicação. O estudo propõe aqui que uma tempestade geomagnética moderada a forte em curso perto da aurora teve um impacto negativo sobre o recepção de dados precisos dos Sinais SOS por navios próximos, bem como uma possível interferência de operadores de rádio amadores”.

Se a interrupção geomagnética de uma tempestade solar ocorreu, “isso poderia ter afetado todos os aspectos da tragédia”, incluindo os erros de navegação que causaram a colisão do iceberg e as comunicações de SOS que atrasaram a chegada dos navios de resgate, escreveu Zinkova.

Embora o Titanic tenha afundado há mais de 100 anos, a história dessa viagem fatídica e sua trágica conclusão continuam a intrigar e fascinar as pessoas. Objetos recuperados daquele dia fatídico estão sendo vendidos a preços altíssimos em leilão, como um menu de almoço da primeira classe do dia 14 de abril que foi vendido por US$ 88.000 em 2015 (equivalente a R$ 293,172, na época) e a “bengala com uma lanterna” carregada por bateria de um passageiro e sobrevivente que foi vendida por US$ 62.500 em 2019 (equivalente a R$ 246,568, na época).

Mas, embora a fama do navio não tenha diminuído, o próprio naufrágio está se deteriorando nas águas rapidamente. Quando uma equipe de exploradores visitou o Titanic em agosto de 2019, os primeiros mergulhadores em 14 anos, eles descobriram que parte do lado estibordo do navio – onde muitos dos salões nobres estavam localizados – havia sido corroída por poderosas correntes oceânicas, micróbios que destroem metais e sal corrosivo, conforme relatou a Live Science anteriormente.