Urna de 4.000 anos revela os restos cremados de uma mulher grávida de gêmeos

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Cemitério com urna em Szigetszentmiklós, Hungria. Créditos: Cavazzuti et al., PLOS One, 2021.

Por Mike McRae
Publicado na ScienceAlert

Nas mãos de um arqueólogo treinado, uma sepultura bem preservada pode ser lida como um obituário, detalhando a saúde, morte, viagens e até fortunas de uma vida há muito tempo perdida.

Os avanços na tecnologia têm pressionado os limites de quão bem preservado um corpo precisa estar para que os especialistas extraiam uma biografia. No caso de uma jovem mulher da Idade do Bronze no que hoje é a Hungria central, nem mesmo a cremação conseguiu esconder sua trágica história.

Pesquisadores de instituições na Itália e Hungria analisaram várias amostras de restos mortais e artefatos humanos descobertos em um cemitério de 4.000 anos perto da cidade húngara de Szigetszentmiklós.

Composto por centenas de potes de barro enterrados a meio quilômetro da margem do rio Danúbio, o cemitério ‘campo de urnas‘ preserva um tesouro de dados arqueológicos que representam uma cultura perdida conhecida como Vatya.

O pouco que sabemos atualmente sobre a cultura Vatya se baseia na dispersão de estruturas fortificadas e cemitérios de corpos cremados enterrados em urnas de cerâmica. É apenas o suficiente para dar uma ideia de um povo que ocupou a bacia do Danúbio por cerca de meio milênio, começando por volta de 2100 aC.

O maior desses campos de urnas é um local perto de Szigetszentmiklós, descoberto durante uma escavação antes da construção de um novo supermercado.

No total, 525 sepultamentos foram encontrados dentro de meio hectare (cerca de um acre), a maioria consistindo de fragmentos de ossos, cinzas e artefatos de sepultura ocasionais feitos de cerâmica ou bronze.

Os pesquisadores coletaram 41 amostras de 29 dos cemitérios, que incluíam 26 cremações de urna, e realizaram uma variedade de testes de laboratório e medidas para desenvolver uma imagem mais clara de quem eram essas pessoas.

Uma dessas urnas se destacou das demais. Codificado no cemitério 241, ele continha itens mais luxuosos que incluíam um anel de prender cabelo de ouro e um anel de pescoço de bronze, bem como duas agulhas de osso.

Anel de pescoço de bronze, anel de prender o cabelo de ouro, alfinetes/agulhas de osso. Créditos: Cavazzuti et al., PLOS One, 2021.

E a urna do 241 continha sinais do respeito que sua comunidade tinha, com seu design refletindo de forma única um dos primeiros ritos conhecidos da culura Vatya.

Entre seus fragmentos ósseos também havia sinais de que a ocupante – uma mulher com cerca de 20 ou 30 anos – não foi sepultada sozinha. Dois bebês pequenos, quase fetos com cerca de 30 semanas de gestação, foram para o túmulo com ela.

Onde a maioria das urnas continha uma mera porção do corpo cremado do falecido, o conteúdo da 241 era comparativamente mais completo, quase como se um nível extraordinário de cuidado tivesse sido tomado para coletar cada minúsculo fragmento da pira funerária antes do sepultamento.

Ossos da mulher (esquerda) e os de seus fetos (direita). Créditos: Cavazzuti et al., PLOS One, 2021.

Embora fragmentado, seu corpo ainda continha pequenos detalhes sobre sua história de vida que poderiam ser revelados por meio de uma análise de seus isótopos.

Seus molares, por exemplo, contêm camadas de material chamadas dentina, que capturam eventos biográficos significativos como uma assinatura química. A parte cônica de seu fêmur teria sido remodelada em uma taxa padrão ao longo dos anos, preservando os sinais de nutrição e movimento.

A análise dessas assinaturas ajudou os pesquisadores a desenvolver a imagem de uma antiga mulher com informação de até quando ela era uma criança de cerca de 8 a 13 anos de idade, possivelmente tendo nascido na Morávia do Sul – onde hoje é a República Tcheca – senão no alto Danúbio.

Análises semelhantes dos restos em outras urnas revelam que sua integração não era incomum, com outras mulheres também vindo de vários lugares bem fora da localidade do cemitério.

Podemos imaginar esta estimada jovem casando-se com os respeitados membros do alto escalão da comunidade Vatya, segurando seu anel de pescoço de família como um emblema de sua educação distante; seus alfinetes de osso na roupa e anel para prender o cabelo dados como presentes de boas-vindas a sua nova casa.

Tragicamente, ela faleceria muito jovem, grávida de gêmeos. Por tudo o que seus restos mortais podem nos dizer, só podemos adivinhar se sua morte foi consequência de um nascimento prematuro ou algo totalmente diferente.

Deixando de lado a história emocional da vida da número 241, é notável que alguns restos mortais possam nos dizer muito sobre a cultura Vatya.

Em uma pilha de ossos, podemos encontrar vestígios de mulheres viajando de longe para criar laços distantes, talvez reforçando alianças, mas quase certamente afetando o poder e a política de uma época muito longínqua.

Quantas histórias ainda estão por aí, esperando para serem traduzidas pela tecnologia certa?

Esta pesquisa foi publicada na PLOS One.