10 respostas para perguntas de um defensor do Design Inteligente, por um leigo

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Por Francisco Quiumento

Dirigido à “Tréplica dos Defensores do Design Inteligente”, aqui.

1. Existe mecanismo viável para gerar vida a partir de pequenas moléculas inanimadas na sopa primordial?

Primeiro, o termo “mecanismo” é errôneo.

Implicaria num único passo, ou uma minimização desses.

Biopoese foi todo um processo de evolução química, com etapas de formação geológica de reagentes, inúmeras catálises minerais em inúmeras rotas orgânicas, de formação de sistemas auto-catalisantes, o surgimentos dos primeiros mecanismos de replicação, dos primeiros proto-metabolismos, a formação dos componentes do que viria a ser uma carga genética, a estruturação de proto-células, a evolução dos sistemas de transmissão da genética.

A descrição histórica destes processos todos e as minúcias de suas etapas e ordenamento detalhado no tempo pode vir a ser um problema insolúvel, perdido para sempre no passado na Terra.

Mas não por isso deixaremos e deixamos já de ter um quadro claro de como se deu.

Não há lacunas aí que tenham como resposta direta, pelo erro que é uma argumentação negativa, na verdade uma falácia, para dizer “então foi um designer”.

Sequer logicamente poderia ser afirmado como “uno”, sequer como uma divindade, sequer como o de qualquer religião.

Uma observação: Evolução, no que trata-se do biológico, não trata da origem da vida.

2. Processos químicos puramente materialísticos não guiados podem explicar a origem do código genético?

Sim. As próprias hipóteses de análogos ao PNA, vários intermediários, a mais corroborável das hipóteses do “mundo de RNA”, tendo dos vírus, viróides e virusóides de RNA seus “fósseis vivos” (o termo é apenas didático, pois no fundo, absurdo) corroboram com tais etapas.

As recentes descobertas em termos de síntese abiótica das bases nitrogenadas e seus intermediários, com catalisadores minerais e ação de outras substâncias abioticamente produzidas, corrobora com tais passos intermediários.

Novamente, pouco interessa para a evolução das formas de vida posteriores.

Como acréscimo, colocaríamos a seguinte sequência:

evol quimica 2

A partir de:

LE Orgel ;Prebiotic Chemistry and the Origin of the RNA World. Critical Reviews in Biochemistry and Molecular Biology, 39:99–123, 2004

http://www.d.umn.edu/~pschoff/documents/OrgelRNAWorld.pdf

ou

http://informahealthcare.com/doi/pdf/10.1080/10409230490460765

ou

http://bonhamchemistry.com/wp-content/uploads/2012/01/RNA_World.pdf

3. Mutações aleatórias podem gerar simultaneamente todo o grupo de informação genética requerida para a formação de estruturas irredutivelmente complexas?

Primeiramente, existem estruturas irredutivelmente complexas?

Toda a pesquisa que realiza-se em Biologia e nas áreas da Citologia e Biologia Molecular, destacadamente como divisões das ciências biológicas, tem mostrado que não.

Sim, mutações aleatórias em seus motores mais profundos, que sempre são relacionados à estrutura molecular, que inclui a instabilidade das ligações pela ação das radiações, os agentes presentes no meio e a própria instabilidade dos átomos, com seus decaimentos, permitem o surgimento de novo arranjos moleculares que são a carga genética com sua codificação produzindo características mais favoráveis ao meio.

Um exemplo que já se tornou clássico é a modificação da enzima da “bactéria comedora de nylon”.

O sistema enzimático e genético que o produz não surgiu com este objetivo. Para todos os efeitos de análise, surgiu, e apto ao meio, permitiu a digestão de enantiômeros peptídicos antes não metabolizáveis.

4. Por que a seleção natural luta para fixar características vantajosas nas populações?

Frase na verdade absurda.

As modificações selecionadas não “lutam”.

As modificações surgem, como a simples mudança na coloração da pena de uma ave, e sendo mais apta ao meio, torna-se dominante na população.

Não há teleologia, há sobrevivência. Não há planejamento detectável e sequer afirmável, pois só o que há é aptidão a condições que inclusive modificam-se no tempo, como pode-se entender banalmente com o simples mudar do pH de um lago por ação de um vulcão.

O designer da evolução é a morte, e a aptidão vantajosa que vemos hoje é a que sobreviveu a sua ação.

5. O surgimento abrupto de espécies no registro fóssil (Explosão Cambriana) e as “formas transicionais” até hoje lá encontradas apoia a evolução preconizada por Darwin?

Sim, coincide com questões em Ecologia, e as descobertas dos últimos anos tem apresentados passos intermediários anteriores, como a fauna de Ediacara.

Fato banal é que dos mais de 30 designs básicos surgidos no período, apenas três grandes grupos, os cordados, os moluscos e os artrópodes são as formas que produziram a imensa maior parte de toda a diversidade que vemos hoje.

Novamente, seleção e permanente produção de diversidade.

Antes do fenômeno, que sequer pode ser afirmado como algo próximo de “instantâneo”, os graus de liberdade que a vida possui, no ambiente que existia, permitiu a produção de tal diversidade.

Coisa alguma aí há que derrube a Teoria da Evolução, coisa alguma que afete a Genética nesta, e coisa alguma que derrube a evidente seleção natural, já no trabalho embrionário de Darwin.

6. A biologia moderna teve obtido êxito na corroboração de uma “Árvore da Vida”?

Sim. Não há mais lacunas significativas no cladograma maior da vida na Terra (e não existe outro).

Detalhes como certos passos da evolução das aves, da diversificação dos peixes, do próprio surgimento de todos os cordados terrestres, da evolução da imensa diversificação dos artrópodes, do surgimento dos mamíferos placentários e marsupiais, assim como diversos pontos na evolução dos vegetais e fungos, ou mesmo das bactérias e certos organismos unicelulares e a própria evolução da pluricelularidade podem até ser discutidos, mas o quadro geral já não apresente brechas.

É um dos principais resultados de centena de anos de Paleontologia, a Genética e seus métodos inclusive contemporâneos na Teoria Sintética da Evolução.

Uma observação: o desconhecimento de inúmeros aspectos, ou mesmo o completo desconhecimento de relacionamentos de uma ou mesmo muitas espécies não derrubaria os fatos da evolução e as questões do modelo para inúmeras outras espécies, sequer para qualquer uma única, ou mesmo permitiria como resposta diretamente uma ação de um ente sobrenatural externo ao processo.

7. A evolução convergente fortalece o Darwinismo ou destrói a lógica da ancestralidade comum?

A questão é em suma, tola, lamento.

A convergência de formas hidrodinâmicas de um ictiossauro e de um golfinho é fruto da seleção natural sobre a economia de energia, a eficiência nas ações de um ser vivo, seja de sobrevivência, seja de predação – que gera sobrevivência pelo alimentar.

O mesmo para a cabeça “comedora de vegetais” de um cervo ou de um canguru.

O mesmo para as mandíbulas de um marsupial carnívoro ou de um carnívoro como o cão.

O mesmo para aparatos cranianos de atrativos sexuais de um protomamífero ou um veado contemporâneo.

São questões distintas, tão claras como uma criança pode entender, de que uma “cobra voadora” pode ter direcionado à forma de um corpo sustentante aerodinâmico, pelos mesmo mecanismos que um “esquilo voador”, ou as asas das inúmeras formas esqueletais de cordados voadores são similares ainda que com sutis diferenças, porém, a convergência não afirma nem sustenta que possuem entre si direta ancestralidade, como um pterodátilo não é o ancestral de um morcego, banalidade em Zoologia, mas que possuem ancestralidade com outras formas de vida, como os pterodáctilos com outros amniotas mais antigos e os morcegos com outros mamíferos mais antigos, e por fim, recuando-se no tempo, possuirão ancestralidade comum, como temos com todas as formas de vida, até uma evidência em contrário, de uma forma de vida não relacionada com nenhuma da Terra em toda a sua história.

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Créditos: http://goo.gl/x17iSu

Obs.: Mesmo uma trivial imagem de um blog mostra onde está o erro de uma argumentação por este caminho, que confunde convergência com necessaria ancestralidade direta:

8. As diferenças entre os embriões de vertebrados fortalecem ou contradizem as predições de ancestralidade comum?

Fortalecem, porém, óbvio que a “Teoria da Recapitulação” com sua máxima “A Ontogenia recapitula a Filogenia ” não é mais paradigma válido, e sequer é tratada além de certo nível, digamos, histórico.

Porém o embrião de uma ave, dentro de seu ovo de casca seca, mostra exatamente a ancestralidade que esta ave possui com um embrião de um dinossauro fóssil, da mesma maneira que meu embrião mostraria a ancestralidade em comum com um embrião de elefante, ou de um golfinho, formas morfologicamente tão diversas de mamíferos.

E os dois conjuntos comparados mostrariam a ancestralidade em comum de todos os amniotas. e estes, com os anfíbios, e estes novos em tratamento dois conjuntos, como os diversos táxons de peixes.

Similaridade poderiam ser evidenciáveis entre os diversos outros táxons dos animais, especialmente nas fases mais primordiais da formação de tecidos, por exemplo mais amplo, com todos os animais de simetria bilateral, como os moluscos e os artrópodes, e entre estes, novas similaridade, táxon a táxon.

Logo, a similaridade de estruturas, tanto reprodutivas como embrionárias e seus processos no tempo, fortalecem claramente a ancestralidade comum.

Obs.: Imagens explicando o que há de sólido e o que há a ser plenamente entendido como não podendo ser afirmado abundam na internet e literatura especializada:

Créditos: evoled.dbs.umt.edu
Créditos: evoled.dbs.umt.edu

9. O neodarwinismo tem obtido êxito em explicar a distribuição biogeográfica de muitas espécies?

Sim, por isso que tatus existem na América do Sul, e no seu passado, seus aparentados gliptodontes, ou as siriemas com as extintas enormes “aves assassinas”, ou os inúmeros unglulados da África, ou os proboscídeos entre os diversos continentes, ou os felinos pelo mundo, assim como os canídeos e os ursos, as inúmeras aves, os insetos, inclusive no eixo tempo correlato com o plano geográfico, ou os marsupiais distintos da história da Oceania, distintos dos da América do Sul, mas relacionados no passado concordando com a Geologia e o histórico que mostra das terras.

O mesmo valeria para os animais oceânicos, como as baleias e os diversos golfinhos, ou as diversas espécies de tubarão.

O mesmo valeria para todas as formas vegetais.

As populações e seu histórico fóssil mostram o processo evolutivo, e explica a distribuição geográfica e no tempo.

Observemos novamente que lacunas, por maior que fossem neste campo, não seria algo para “derrubar” as afirmações da Teoria da Evolução, e mais uma vez, jamais para colocar um designer explicando, por exemplo, porque araucárias tem um ‘desenho corporal’ que mostra um período de convivência com certos animais, enquanto as coníferas do hemisfério norte, aparentadas, outro.

10. O que fazer quando uma teoria faz previsões equivocadas, como o neodarwinismo e sua longa história de tais predições, como as dos órgãos vestigiais, a abundância de formas transicionais no registro fóssil, a do DNA “lixo” e da redundância do código genético?

Desculpe-me.

Apresente as previsões equivocadas, como por exemplo os claros ossos vestigiais de cetáceos, os similares de cobras pré-históricas, etc, para que vejamos onde pode tal ser algo que “derrube” a capacidade preditiva da teoria Da Evolução, esperando que não haja aqui confusão com afirmações da Paleontologia, que trata doutras questões, no histórico dos seres vivos.

Quanto as formas transicionais, novamente, destacamos que lacuna alguma significativa exista no cladograma, e mesmo em inúmeros cladogramas, em especial, para as formas mais recentes de vida, como os mamíferos e as aves.

DNA “lixo” ou mesmo DNA “não-codificante” não seria de forma nenhuma um problema para a Teoria da Evolução, sequer para a Genética contemporânea, que inclusive, não considera a questão como uma “informação inútil” a priori.

Idem para a redundância da informação no código genético.

Mas tratemos a coisa mai tecnicamente com tradução do texto da Rational Wiki, rápido e simples para o tema:

Papel evolutivo para o DNA lixo

Embora a existência de DNA “lixo” possa ser problemático para os criacionistas, é realmente útil para a teoria da evolução. Não conservado, o DNA não codificante dentro do cromossomo, ou seja, o que classicamente pensamos como “lixo”, pode sofrer mutação rápida e extensivamente, sem danos ao organismo. Tem sido colocada a hipótese, e extensivamente estudada, que estas regiões não codificadoras podem servir basicamente como “caixas de areia” para a evolução do gene, onde alterações podem ocorrer aleatoriamente sem alterar o organismo, e, em seguida, ser posta em jogo de uma só vez, a produção de novas sequências de aminoácidos inteiras numa proteína existente. Para expressar isto como um exemplo: se um intrão (uma segmento não codificante colado dentro de um gene funcional) sofre mutações descontroladamente (como intrões estão aptos a fazer) e, em seguida, é reintroduzida no sistema de codificação da proteína por uma mutação que elimina a parte que diz “eu sou um intron, me ignorar”, o resultado seria a introdução de uma nova seqüência de aminoácidos na estrutura da proteína. Isto pode resultar na proteína se tornar disfuncional, mas muitas proteínas são surpreendentemente resistentes a tais alterações: se a proteína permanece funcional pode ser significativamente alterada por este mecanismo. Este é um subconjunto da teoria neutra de Moto Kimura . Alguns organismos mesmo possuem regiões conhecidas como “pseudogenes” que se acredita existir apenas por esta razão não codificante.

http://rationalwiki.org/wiki/Junk_DNA

Podemos acrescentar alguns pontos da EvoWiki:

  1. Algum DNA anteriormente visto como lixo tem sido demonstrado que possui uma função biológica. Isso não quer dizer que uma função necessariamente seja encontrado para todo o DNA lixo. Em 2004, os investigadores relataram a criação de ratos em que faltam cerca de 3% do seu genoma. As sequências eliminadas incluem mais de 1.000 que foram altamente conservada com seqüências equivalentes em seres humanos para trechos de mais de 100 bases. Os camundongos resultantes eram saudáveis em todos os sentidos analisadas pelos pesquisadores, incluindo longevidade e reprodução. Assim, uma quantidade substancial de DNA lixo, incluindo sequências que foram acumulados durante a evolução dos mamíferos, são ou dispensáveis ou redundantes com outras regiões do lixo.
  2. A função de junk DNA ou a falta dela não nos diz nada sobre se a evolução ou criação é verdade.
  3. Os baiacus da família Tetraodontidae têm os genomas mais rápidos de todos os vertebrados. Isto é porque as pressões evolucionárias levaram à remoção de quase todos os intrões e DNA extragenético, e aqueles que permanecem são extremamente curtos em comparação com os intrões e DNA extragenético de outros peixes e outros vertebrados. Se o DNA “lixo” é tão importante como alegado, então por que baiacus floresceu com tão pouco?
  4. Se tudo “DNA lixo” têm funções, então como é que nenhum criacionista ou defensor do design inteligente tem sido capaz de prever o que essas funções são?

http://evolutionwiki.org/wiki/Junk_DNA_is_not_really_junk

Na natureza, repetimos mais uma vez, com outras palavras, não há o projeto evidente, ou sequer afirmável. Há a sobrevivência, e a presença de desvios de uma máxima eficiência não seriam problemas.

Mas por outro lado, o desconhecimento de funções de certas estruturas não seria também um argumento que “refute” a evolução e a genética nesta.

Apenas seria outra falácia de apelo à ignorância, e novamente, uma argumentação negativa.

Um erro da afirmação científica seria dizer o que é a estrutura inútil; não o sendo, um erro seria dizer que para coisa alguma serve. Um erro maior seria não corrigir tais afirmações.

O erro absurdo seria dizer que em havendo tais erros, a resposta seria que todas as outras afirmações da Teria da Evolução, assim como de qualquer teoria científica em seus casos, estariam erradas, e um erro ainda pior seria apresentar uma outra solução, totalmente diversa e não corroborável por coisa alguma, como uma resposta direta, não o sendo.

Eis o que é uma argumentação negativa.

Por isso que mesmo com erros, a Teoria da Evolução é ciência e o Design Inteligente não o é.

Por isso que mesmo com lacunas, a Teoria da Evolução responde perguntas, o dito design inteligente só as consegue produzir, e em muitas e repetidas vezes, como vemos acima, só repetindo erros antigos e levantando até questões sem nexo.

Por isso que a Teoria da Evolução é a “teoria eixo” em Biologia, e a dita “teoria do design inteligente”, apenas uma conjectura, o argumento do relojoeiro de Paley “requentado”, que apenas é uma argumentação por lacunas, com um erro de método fundamental – a argumentação negativa – e uma argumentação teleológica enterrada como tal já no século XVIII jamais será resposta para coisa alguma, e é destinada ao lixo da história como todas as conjecturas similares, apenas disfarçando sustentar o já insustentável, ou desesperada e infrutiferamente, derrubar o solidamente estabelecido.

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