A cautela necessária ao divulgar achados arqueológicos – por que não beber da fonte da pseudociência

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Fonte de Siloé. Um dos locais citados pela Revista Galileu onde há indícios que corroboram certos relatos bíblicos.

A Revista Galileu recentemente publicou um texto interessante, porém intrigante. É válido como um achado, mas perigoso em mentes ingênuas e de má-conduta, pelo fato da revista poupar palavras em não delimitar até onde os achados podem nos levar.

O Brasil está sofrendo cada vez mais com o ataque de grupos religiosos fundamentalistas e quem sofre é quem depende de uma educação de qualidade e da divulgação de ciência. As citações da Revista Galileu, apesar de pertinentes e interessantes, se não conduzidas com cautela acabam por “pontuar” a favor de posturas pseudocientíficas e fanáticas.

Nunca na história da humanidade se interpretou a bíblia tão literalmente (Armstrong, 2013), e a informação postada pela Revista Galileu pode ser utilizada por grupos religiosos na tentativa de validar uma posição que obviamente não é justificável nem cientificamente, e tão pouco teologicamente.

Mas o que ela fez de tão mal? Apenas poupou palavras ao destacar certos fatos e não separar dos boatos. A revista pontuou 5 indícios arqueológicos que comprovam a existência de grandes personagens e locais citados na bíblia.

Porém, é ai que mora o perigo. Isto porque o jogo da pseudociência nunca é honesto, especialmente quando envolve assuntos religiosos. É comum ver criacionistas pegando artigos científicos e distorcendo-os, descontextualizando-os, tentando interpreta-los segundo a luz de suas próprias crenças (inclusive pessoais) para justificar-se, e ao mesmo tempo, não interpretar elementos figurativos da bíblia (embora convencionalmente deturpa-os), tomando um posicionamento literalista e por vezes fundamentalista.

Sim, eles interpretam o que não é interpretável, e entendem literalmente figuras de linguagem, as parábolas bíblicas. Assim caminha, por exemplo, a pseudociência do criacionismo/Design Inteligente.

Nessas pontuações feitas pela Revista o autor deixa a informação muito solta, e isto obviamente será utilizado para “justificar” concepções que não tem absolutamente nada a ver com o que foi publicado. Desta forma, o que proponho aqui é fazer uma crítica cética ao que for pertinente dentro do que foi informado na revista, e posteriormente tecer uma crítica mais curta e direta a outros dois textos publicados em sites de procedência duvidosa que propagaram esta semana notícias como se fossem científicas validas, mas sem respaldo e rigor algum.

Especificamente no caso da Revista Galileu, a principal argumentação que abordamos aqui, é que a ciência muitas vezes não suporta as “verdades” que desejamos.

Quando a ciência faz sua observação a um fenômeno, ou faz algum achado, ela o faz sob um olhar técnico. Observar não o que desejamos ver, mas o que as informações que aquele fenômeno nos fornece. Obviamente, dois observadores distintos podem tirar premissas ou conclusões distintas de um mesmo fenômeno, pois o simples ato de observar, embora seja factual para ambos pode formular premissas e conclusões distintas devido a bagagem cultural, conhecimento prévio, expectativas individuais (Chalmers, 1993). O cientista precisa saber para o que esta olhando, como esta observando e o que o fenômeno nos oferece de informação quantitativamente e qualitativamente válida para gerar conhecimento.

Usemos o próprio Galileu (o cientista, não a revista) para exemplificar. Quando ele observou Júpiter, soube o que observar, como observar e como abstrair informações da dinâmica dos planetas que estudou. A inicial rejeição aos achados de Galileu não refere-se exatamente a um preconceito de sua época em relação a sua descoberta, mas pelo fato de que as pessoas de sua época não tinham o olhar treinado para a observação apurada e científica dos fenômenos astronômicos tal qual Galileu os notou (Chalmers, 1993).

A divulgação e ensino da ciência têm como objetivo estimular e ensinar o olhar crítico, cético e criterioso desses fenômenos para abstrair informações mensuráveis que sejam relevantes do ponto de vista do conhecimento. O aluno de medicina ao olhar o primeiro raio-X apenas nota manchas escuras, resultado das densidades dos ossos e órgãos do corpo humano.

Com o passar do tempo aprende a observar onde estão as evidências que o possibilitam fazer um diagnóstico cada vez mais preciso. É este olhar clínico, cético, criterioso que faz com que a ciência produza conhecimento (Chalmers, 1993). É este olhar cético, clínico, criterioso que não vemos na pseudociência, que não busca extrair informações dos fenômenos observáveis. Ela busca firmar-se no dogma, no que não é observável, no que não é científico, na ausência de critérios e por fim, ajustar o método a uma conclusão pré-concebida.

É na filosofia da ciência e nas publicações que vou fundamentar meus escritos críticos ao que a Revista Galileu publicou, e ao que possivelmente a pseudociência vai tentar fazer para se justificar usando as informações desta revista. É nesta prévia que usarei a biologia e a arqueologia para desfazer tais falácias.

A primeira citação da Revista Galileu refere-se á informação de que a arca de Noé “Aguenta 51 milhões de quilos, ou um casal de cada espécie“.

Surgem então as perguntas: sabemos quantas espécies há no mundo? Sabemos o peso delas?

Um barco que carregar 51 milhões de quilos em caixas de algum produto (frutas, que seja) não é o mesmo que carregar uma grande diversidade de espécies de animais, com suas especificidades zoológicas; ainda que fossem baramins.

Em questão de diversidade relativamente importante a ser levada dentro de uma arca para a fundação da dinâmica ecológica após o dilúvio teríamos de abrigar as 5.900 espécies de libélulas (Zhang, 2006), 4 mil de cupins (Kuma, 2013), 5 mil de baratas, 2.400 de louva-a-deus (Otte et al, 2012), 2.600 espécies de bichos-pau, 20 mil de gafanhotos e grilos (Zanetti et al, 2003), 67.500 de Hemipteras (pulgões, cigarras e marias-fedidas), 360 mil espécies de Coleopteras (besouros), 174 mil mariposas e borboletas (Mallet, 2007), 150 mil de moscas (Wiegmann, 1996), 2.500 espécies pulgas, 150 mil espécies distribuídas entre abelhas, formigas e vespas (Hoell, 1998), somando a outras ordens menos conhecidas temo um total de 900 mil espécies de insetos.

Temos ainda 85 mil espécies de moluscos (Little et al, 1964), 32 mil espécies de peixes de água doce (Fish base, 2011), 100 mil espécies de aranhas (Cracraft & Donoghue, 2004). Atualmente, existem mais de 6.677 espécies de anfíbios (Blackburn & Wake, 2011), 9.413 espécies de répteis (Gauthier et al, 1988), 10.214 de aves (Gill, 2006), 5.416 de mamíferos (Wilson & Reeder, 2005), 20 mil briófitas (Shaw et al, 2011), 12 mil pteridófitas (Smith et al, 2006), 56 mil gimnospermas (Campbell, 2005), 250 mil angiospermas (Jeffrey et al, 2004) totalizando cerca de 1 milhão e 528 mil espécies conhecidas pela ciência e que são relativamente relevantes para reestruturar a dinâmica ecológica.

Infelizmente para os que pretendem usar a informação da Revista Galileu para se justificar precisam lidar com o fato de que o espaço físico da arca e sua bagagem biológica com seus aspectos idiossincráticos não suportam tal versão literalista. Imagine um Zoológico dentro de um Barco sem receber qualquer auxílio externo sob condições dietéticas, higiênicas, veterinárias e sanitárias.

Ainda que baraminologia fosse uma proposta cientificamente aceita (e não é), não faz sentido algum pressupor arquétipos básicos precursores dos estados biológicos atuais, pois não há evidências científicas de descontinuidades das formas de vida. Os agrupamentos biológicos feitos por gráficos de nuvem de pontos feitos pelos criacionistas quebra a própria descontinuidade da vida que eles mesmos propõem (Gishlick & College, 2006). Além disto, a baraminologia não faz uso de critérios genéticos para estabelecer as descontinuidades, e sim critérios bíblicos (Robinson e Cavanaugh 1998).

As evidências mostram um relacionamento em forma de árvore da vida (genética, comportamento, cariótipo, fósseis, ecologia etc e tal) e não em fragmentos de galhos isolados.

Além disto, a arca de Noé não passa de um mito sumério citado na Epopeia de Gilgamesh, e outros contos regionais, como já demonstrado arqueologicamente (na tabula 11 dos achados arqueológicos) (George, 1999 & Amin, 2015) e pela análise exegética do livro de gêneses no geral.

O conto sumério (2300-2000 a.c) de Gilgamesh é registrado em fragmentos de textos traduzidos pelo povo Hitita e Hurrita e é também retratado em grego por Babiloniaka de Berose, um sacerdote que difundia a cultura helenística no século III a.c (História viva, 2015).

Epopeia de Gilgamesh. Tablete de argila com escrita cuneiforme, 15,2 cm x 13,3 cm. Exposto no Museu Britânico, Inglaterra.
Epopeia de Gilgamesh. Tablete de argila com escrita cuneiforme, 15,2 cm x 13,3 cm. Exposto no Museu Britânico, Inglaterra.

No conto babilônico, o deus supremo Enlil queria destruir a humanidade, mas Ea, uma divindade clemente e precavida advertiu tal intenção de Enlil ao seu fiel escudeiro humano Uta-Napishtim-Ruqu. Ea ordenou que ele fizesse um barco de 120 côvados para salvar sua família, amigos, riquezas, seus mestres e obras antes do dilúvio. Ele o fez, lacrou a arca com betume e salvou-se. Tal dilúvio apavorou até outros deuses do panteão. Após o dilúvio Uta-Napishtim-Ruqu soltou uma pomba, e posteriormente uma andorinha, na qual regressaram a embarcação. Após alguns dias, liberou um corvo que nunca regressou. Então, sua arca repousou sobre o monte Niçir e ao sair preparou um banquete em oferenda aos deuses. Enlil notou a sobrevivência do homem e furioso cobrou explicações de Ea, que se justificou afirmando que sem os homens não haveria refeições e oferendas aos deuses destacando os motivos pelos quais salvou a humanidade (História viva, 2015).

No conto acadiano (1750-1600 a.c), o poema de Atrahasis (que apresenta poucos fragmentos) relata a mesma história, com o deus Enlil, porém, a motivação de tal dilúvio veio porque ó homem era muito barulhento e não deixava os deuses descansar em paz. No conto sumeriano, o rei Ziuzudra é avisado em um sonho por Enki (que representa o deus Ea) que um dilúvio de 7 dias e 7 noites viria, e ele ficou encarregado de criar uma arca para salvar a humanidade. Após o dilúvio, Ziuzidra ofertou os deuses com o sacrifício de um boi. O conto de Ugarit também apresenta as mesmas descrições mitológicas com ligeiras variações (História viva, 2015). Considerando que Abraão viveu na cidade de Ur, que era a cidade dos sumérios, fica evidente que o conto passou por adaptações para construir a versão mitológica de Adão e Eva. Isto demonstra as diferenças mitológicas presentes em diferentes estruturações teológicas e o processo de apropriação cultural dos contos por diferentes correntes religiosas.

Também não é de espantar que o filme “Noé” (lançamento em 2014 e interpretado por Russell Crowe) tenha despertado certa indignação nos países cuja religião oficial é o cristianismo. Isto ocorreu porque a leitura que enredou o filme foi feita sob a perspectiva judaica, e não cristã.

A segunda crítica é em relação á uma pedra que traz alguns dizeres de Pôncio Pilatos e que corresponde a primeira evidência física de referência a pessoa de Pilatos. A partir daqui, a arqueologia nos presta mais um grande serviço.

O fato de Pôncio existir não a novidade, e tão pouco relevante. A relevância esta no ato dito pelo Pôncio, o “lavar as suas mãos” diante da morte de Jesus, como citado em Mateus 27:24.

O perfil pessoal de Pôncio Pilatos não é conhecido, ele é retratado por algumas literaturas como um administrador cruel em sua época, frio e impiedoso; um burocrata fraco e atormentado (Philo – Legatio ad Gaium) ou a versão bíblica dele isentando-se da morte de Jesus em um gesto de benevolência e piedade (Harris, 1985).

Embora alguns arqueólogos argumentem que o ato de eximir Pilatos da culpa pela morte de Jesus foi uma introdução feita pela Igreja Católica posteriormente feita para isentar a culpa do Império Romano em ter matado aquele que agora tornara-se sua referência religiosa.

Uma argumentação que justifica isto esta no fato de que os pergaminhos referentes ao evangelho de Mateus (encontrados no Egito) serem fragmentados e incompletos, mas aparecerem perfeitamente escritos e detalhados (datados do ano 200.dc) nos códices que foram utilizados para compor a bíblia (Grenfell & Hant 1898; Hatch, 1939) no Concílio de Nicéia (325 d.c) e de Laodicéia (363 d.c).

Outra crítica feita ao caso de Pilatos é com base no “Evangelho apócrifo de Pedro” que exonera Pilatos da responsabilidade pela crucificação de Jesus, colocando em vez dele o Herodes e os judeus que se recusaram a “lavar as mãos” (Harris, 1893). Esta citação é feita também no evangelho apócrifo de “Atos de Pilatos”, conhecido também como “O evangelho de Nicodemos” datado do século IV depois de Cristo (Catholic Encyclopedia, 1913).

A principal crítica se faz exatamente em relação ao que é afirmado pela Revista Galileu. A pedra com os dizeres de Pilatos ainda é debatida como um relato de Pôncio Pilatos, embora a datação e citação sejam contemporâneas ao indivíduo (Vardamen, 1962 & Craig, 2003). Tal pedra foi encontrada em uma escadaria do teatro romano em Cesaréia, cidade que serviu como centro administrativo de Roma, na província da Judéia. Procuradores romanos só iam até a Cesaréia em ocasiões especiais ou em tempos de agitação social. O artefato é um fragmento das inscrições dedicatórias de um templo que foi construído em honra ao imperador Tibério (Tacitus, Annals, 15.44 & Freedman, 1992) entre 26-36 d.c (Vardamen, 1962). A dedicatória afirma que Pilatos era “praefectus Iudaeae”, ou seja, “prefeito da Judéia”. A pedra não afirma, ou confirma absolutamente nada a respeito dos relatos bíblicos serem factuais. Ela relata que houve um indivíduo chamado Pôncio Pilatos, que é citado na bíblia. Ela não relata absolutamente nada sobre quem foi ele (exceto sua ocupação), o que ele disse, ou o que fez.

A terceira crítica se faz com base na citação de “No livro de João na Bíblia, após curar um cego de nascença, Jesus lava os olhos deste com as águas do Reservatório de Siloé“.

O fato de encontrarem a citação de Pilatos ou o canal de Siloé não implica que os relatos bíblicos sejam factuais. Não devemos confundir relatos apresentadas dentro de um livro com fatos históricos. Relatos de livros contém certa historicidade, mostrando a organização e/ou ocorrência de eventos ao longo de um período de tempo, mas não precisam ser necessariamente históricos.

Um relato místico não faz parte da história de um povo, faz parte de sua cultura. A história de um povo é contada segundo as ações dos homens ao longo do tempo e no espaço. Todos estes relatos fazem parte da tradição judaica–cristã e muitas vezes, acabam abarcando relatos, mitos e contos de outras tradições (como o conto de Gilga Mesh citado acima), mas não compõem a historia em si, e sim sua cultura. A historia é muito mais do que os relatos místicos de um povo. A teologia estuda o papel da religião em uma sociedade em um período de tempo, e como esta influenciou civilizações futuras. Mas a história de um povo não pode ser contada somente pela sua formação religiosa (a formação religiosa apenas exerce influencia). A história da humanidade, de uma civilização ou de uma nação é mais do que simples citações místicas.

Presumir que uma citação bíblica é factual porque há evidências da existência do personagem citado é uma conclusão superficial feita sob uma falsa premissa e pode trazer implicações sérias até mesmo para o cristianismo. Usarei dois exemplos, usando o Novo e o Velho Testamento para ilustrar isto com mais clareza.

São poucas as pessoas que afirmam que Jesus não existiu (História viva, 2015). Considerar que Jesus de fato existiu não significa que ele seja o homem citado pela bíblia, com todos aqueles feitos sobrenaturais, ainda mais considerando a própria formulação da bíblia ao longo dos concílios e reformas cristãs.

O Jesus bíblico é bastante diferente do Jesus histórico. A busca pelo Jesus histórico se apoia na literatura bíblica e extra-bíblica do Século I; nas descobertas arqueológicas; nos estudos sociológicos e historiográficos; para reconstruir e entender o contexto histórico, sociológico e religioso do tempo de Jesus, tentando entender e imaginar o impacto de sua pessoa e de sua mensagem dentro deste mesmo contexto, portanto, parte-se do pressuposto que Jesus deve ser entendido dentro do contexto da Galileia daquela época (Schiavo, 2009). Sendo assim, a citação de Jesus com seus aspectos sobrenaturais não estão de pleno acordo com o que se sabe a respeito dele como homem comum com suas vicissitudes e idiossincrasias.

O segundo exemplo refere-se a uma citação do Velho Testamento, especificamente do local exato do paraíso, em Gênesis 2:10-14

10 E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços.

11 O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro.

12 E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica.

13 E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe.

14 E o nome do terceiro rio é Tigre; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates

Apesar da citação destes 4 rios, Giom e Pisom nunca foram encontrados, sejam resquícios geológicos ou arqueológicos. Não existe nenhum relato científico que valide a ideia de que Pisom seja algum rio da Armênia ou o Ganges, e que Giom seja o rio Nilo, como foi dito pelo historiador Flávio Josefo (Projeto Gutenberg, 2009). Como a ausência de evidência não significa que algo não existe, a fé das pessoas se prende no fato de que o paraíso existe, e para elas isto basta, pouco importando se o relato ao condiz com os fatos sob as observações regionais. O que torna a existência de Siloé irrelevante para o relato bíblico.

A quarta crítica é feita com base na afirmação de que parte de um muro que o rei Salomão mandou construir ao redor de Jerusalém foi descoberto; “Em 2010, uma parte da construção foi encontrada durante uma escavação“.

E com base no que foi discutido aqui até o presente momento; qual a implicação disto para a veracidade do relato bíblico como um todo?

Até mesmo os arqueólogos são céticos quanto a validade factual de um relato com base na identificação exata de um local ou estrutura. A afirmação dada sobre a muralha de Salomão na Revista Galileu foi retirada de uma fonte da National Geographic (2010). Bebendo da mesma fonte de informação, notei que há informações adicionais fazendo um adendo sobre a validação de um relato como base em um achado.

A crítica partiu de um Arqueólogo da Universidade de Tel Aviv chamado Israel Finkelstein, que não estava envolvido na escavação e que de fato concorda que é possível que o muro tenha sido construido a mando do rei Salomão. O que Finkelstein adverte é que não se deve inclinar demais em aceitar a bíblia como um fato com base em um único resultado.

A familiaridade com textos religiosos ou históricos ligados a um determinado local arqueolgicamente estudado é importante, mas a sua utilidade pode variar muito, especialmente porque depende do texto usado como referência. Cada relato tem seus próprios aspectos idiossincráticos, e precisa ser abordado de forma diferente. Por exemplo, no presente relato que cita a construção do Muro de Jerusalém é preciso saber se tal relato foi escrito, 300 anos depois do evento, ou no momento do evento. E descobrir a ideologia do relato, ou seja, a ideia defendida pelo autor do relato e por que ele foi escrito (National Geographic, 2010).

Eilat Mazar, que liderou a escavação para a Universidade Hebraica de Jerusalém, acredita que é natural para os arqueólogos que escavavam na Terra Santa consultar textos bíblicos, juntamente com outros documentos antigos e ele mesmo assume que “Eu não acredito que exista um arqueólogo que iria escavar um local em que os textos foram escritos sem estar familiarizado com esses textos” (National Geographic, 2010). O grande problema desta postura é que para os que acreditam há uma grande parcialidade na crença. Quando a descoberta corrobora a citação do relato, o livro é destacado com uma verdade absoluta devido a “precisão”; quando o relato falha (como demonstrado acima em Gênesis, Pilatos, Jesus histórico) cai na rejeição. Se o relato é inerrante esperaríamos encontrar certezas e validações absolutas em todas suas afirmações e não divergências a cada versículo. Por esta razão, o estudo arqueológico é importante, para separar os relatos dos fatos. Por exemplo, para ressaltar este exemplo vou usar a quinta crítica, na qual refere-se a descoberta da cidadela primavera, onde a revista cita “Os arqueólogos acreditam que essa é a mesma estrutura conquistada pelo rei Davi em passagem de Samuel e o mesmo local onde Salomão foi ungido rei“.

A cidadela foi construída a fim de salvar e proteger a água da cidade de inimigos que costumeiramente tentavam conquistá-la. Essa fonte de água era a fonte de Giom. Vale aqui ressaltar que Giom, neste caso, refere-se a fonte e não a um rio Giom, citado em Genesis para localizar o Éden. Este último jamais foi encontrado.

A Fonte de Giom minava água e servia para o abastecimento e foi construído um canal que a ligava até o reservatório de Siloé, citado acima.

Quando foi descoberta, em uma escavação arqueológica, em 2009, um fragmento de uma inscrição em pedra foi datado de forma segura sendo do século VIII a.c. Embora apenas fragmentos tenham sido encontrados, ele traz uma evidência forte de que a cidade teve inscrições públicas monumentais (inclusive com torres encontradas) e os correspondentes grandes edifícios públicos (Berrett & Ogden, 1996).

Novamente, devemos destacar que a citação de um local não torna o relato um fato. Se por um lado o relato bíblico esta de acordo com o achado arqueológico, por outro, temos relatos que passam longe do destacado pela arqueologia bíblica. Vejamos mais um exemplo.

O Velho Testamento cita a batalha entre Davi e o gigante Golias, um filisteu que viveu em uma cidade filisteia chamada Gate; segundo o livro de Samuel. Esta cidade já foi encontrada pelos arqueólogos e não tem grandes dimensões como se esperaria encontrar em locais onde viviam filisteus; considerando o relato bíblico em relação a altura de Golias (certamente 2,90 metros de altura).

Os papiros do mar morto (século II a.c), assim como o historiador Flavio Josefo e a Septuaginta (versão mais antiga do velho testamento escrita em grego antigo), e mais tarde (935 d.c) pelo Codex Aleppo, todos estes documentos concordam que Golias possuía a altura de quatro côvados e um palmo (1 palmo de 25cm ou 2,92 metros). Segundo o livro de Reis, no combate que houve contra Davi, Golias usava uma malha de bronze que pesava 5000 ciclos (cerca de 57 kg).

O local de Gate foi encontrado, mas a localidade não confirma um relato místico. Mesmo porque, as próprias cidades podem trazer pistas sobre a concepção religiosa e mística do povo que ali vivia e não implica em uma descrição factual.

Antigamente, Ishtori Haparchi e outros escritores judeus (Mazar, 1954) apresentaram a proposta de que a cidade de Ramla era a antiga cidade de Gate. A arqueologia atual indica que Ramla não foi construído no local da antiga cidade (Nimrod, 1997). Atualmente, a identificação de Gate é dada no local de Tell es-Safi e é aceita pela grande maioria dos estudiosos (The Tell es-Safi/Gath Archaeological Project, 2012), e é motivo de disputa, no sentido da criação de novos assentamentos urbanos sob domínio árabe na Terra de Israel/Palestina, onde hoje é o Parque Nacional Tzafit (Harris, 2011).

Quadro retratando a vitória do pequeno rei Davi, após a batalha contra o filisteu Golias usando uma funda para dar uma pedrada. Posteriormente cortou sua cabeça.
Quadro retratando a vitória do pequeno rei Davi, após a batalha contra o filisteu Golias usando uma funda para dar uma pedrada. Posteriormente cortou sua cabeça.

Tell es-Safi, ou Tel-Zafit (nomes em árabe e hebraico) é um aterro antigo aceito como Gate, uma das cinco cidades cananéias antigas e filisteia, fazendo parte do Pentápolis (juntamente com Gaza, Ekron, Ashkelon e Ashdod). Portanto, todas elas são cidades filisteias e nenhuma evidência de gigantismo foi encontradas nas escavações arqueológicas destas 5 cidades.

Desde 1996, escavações e outros estudos lexicográficos têm sido realizados no local, com foco em diversas culturas, períodos e aspectos relacionados com a sua cultura e história, e seus arredores (Hasson, 2012).

O local foi habitado por diversas culturas antes dos filisteus. Na Idade do Bronze, o local tornou-se um importante ponto geográfico para o povo filisteu, e Gate passou a ser mais vista pelas outra cidades locais. Razão pela qual ficou conhecida a partir de fontes bíblicas e extra-bíblicas.

Desde as primeiras fases da cultura filisteia (aproximadamente a partir de 1.175 a.c), evidências das diversas fases da cultura filisteu foram encontradas. Em particular, encontrou-se evidências claras indicando a substituição gradual dos filisteus por culturas não-locais, passando por um período de “aculturamento” (perda de cultura) como a chegada da Idade do Ferro. Com o tempo houve o declínio da civilização filisteia, especialmente em Gate. Estudos arqueológicas ainda descobriram que a destruição de Gate foi feita por Hazael, um rei de Aram-Damasco por volta de 830 a.c (Hatman, 2010).

Achados arqueologicos da Idade do Ferro citam dois nomes não-semíticos (ALWT (אלות) e WLT (ולת), que são etimologicamente semelhantes ao nome Golias (גלית). Entretanto, estes dois fragmentos de nomes podem indicar que nomes semelhantes ao de Golias estavam em uso durante a Idade do Ferro, aproximadamente ao mesmo tempo em que o de Golias é descrito na Bíblia. Isso não evidência a existência de Golias, mas fornece evidências do meio cultural deste período. De qualquer modo, eles fornecem um exemplo útil dos nomes usados pelos filisteus durante esse tempo, e as primeiras evidências para o uso de um sistema alfabético na cultura filisteia (Maeir et al, 2008).

O fato de encontrar cidades e presumir que elas criam a condição de que os relatos em torno dela sejam reais é como presumir que os hieróglifos comprovam a existência física de Anubis, um Deus quimérico homem e animal. Ou ainda, presumir, como fez o falsário Erick Von Danikken que a civilização egípcia surgiu com base em ajuda extraterrestre. Este tipo de pensamento acrítico recrutou pessoas a defender concepções informais, pseudocientíficas como se fossem verdades absolutas. Culminou em um desserviço ao ensino da arqueologia e ao pensamento crítico nas pessoas, gerando dividendos somente ao criador da falácia, que até hoje é defendido como referência entre vertentes pseudocientíficas dado o poder que tais mitos exercem sobre o pensamento.

Quanto a cidadela, alguns arqueólogos podem acreditar nisto afim de satisfazer a crença deles, mas o olhar sobre estas descobertas bíblicas precisa ser treinado, e um olhar mais crítico, ainda que ligeiramente cético, precisa ser dado sobre estas descobertas.

Quebrando a vidraça da Criação – Adão e Eva de novo

Outras duas notícias que foram vinculadas quase que concomitantemente a da Revista Galileu referem-se a “validação” científica do mito de Adão e Eva, e a comprovação científica de Deus.

As supostas evidências que validam o mito de Adão e Eva foram publicadas não tem artigos científicos, mas divulgadas em um site religioso. O autor da reportagem afirma, dentre tantas outras falácias, que:

“Uma conceituada geneticista molecular decidiu fazer um documentário para mostrar a historicidade de Adão e Eva….descobertas modernas no campo da genética confirmam os ensinamentos da Bíblia que todos os seres humanos descendem de um casal original. Além de trabalhar como professor de biologia, tem se dedicado a apoiar o ministério de apologética cristã Answers in Genesis.”

A primeira falha desta alegação é teológica, já que é sabido que o mito de Adão e Eva não é literal, e um documento estruturalmente compilado segundo a historicidade de culturas que não são cristãs. É o caso do conto de Adapa e Eva (no conto acadiano), com a serpente alada (Mark, 2011) que invadiu o Jardim do Éden – ou Jardim de Deus, que deriva da raiz etimológica do Acadiano/Sumério cuja palavra Ednu ou Edkin, que significa estepe, uma fitofisionomia regional) (Historia viva 2015). Na época, tal estepe era vista como um paraíso, com grande diversidade e abundância de recursos. De fato, a palavra “Jardim” foi traduzida do grego para o hebraico através do idioma persa, cuja tradução ficou “paradeiso”, no sentido de um local bastante verde onde se refugiavam vários animais (Historia viva 2015 & Mark, 2011). Desta forma, a própria descrição do local de onde supostamente viveu Adão e Eva, e claro, os próprios personagens, são resultado de processos de aculturamento regional.

Adapa era um homem mortal que vinha de uma linhagem piedosa, era filho de Ea (e de Enki na mitologia suméria), o deus da sabedoria e da antiga cidade de Eridu, que trouxe as artes da civilização àquela cidade (de Dilmun, de acordo com algumas versões) (Mark, 2011). A história de Adapa nas versões sumérias e acadiana citam com riqueza de detalhes o mito de Adão e Eva, e contos como o de Gilgamesh ressaltam a cooptação de mitos de origem suméria.

A segunda falha de argumentação é genética e molecular. E nesta perspectiva, o ponto é da evolução, e não da criação.

Na genética do DNA mitocondrial (DNAmit), a herança é passada diretamente de mães para os descendentes de ambos os sexos, a linha matrilinear pode ser rastreada e a descendência pode nos guiar para nossas origens, nossa mãe, ou mães, de todas as linhagens femininas, e podemos entender quando e como a linhagem começou a convergir. Essa linhagem comum de todas as linhagens subsequentes são popularmente chamadas de Eva-mitocondrial (Giles et al, 1980 & Birky, 2008).

Ao analisar o DNA dos descendentes, partes do genoma ancestral são estimadas pelos cientistas. O DNAmit da mulher e o DNA do cromossomo Y, proveniente dos homens (e portanto existe o Adão-Y na genética) são usados ​​para rastrear estes ancestrais. Como o DNAmit é passado diretamente de mães para descendentes podemos entender quando e como a linhagem começou a convergir. Desta forma, não existe somente uma Eva-mitocondrial, mas várias delas respeitando períodos distintos em que linhagens se separaram deste a origem do homem, sendo as mais antigas respeitando os dados paleontropológicos sobre a origem do homem pela evolução do Homo sapiens (Takahata, 1993).

A Eva mitocondrial foi nomeada com base nesta linhagem ancestral e ao contrário da concepção bíblica, ela não era uma fêmea humana única vivendo em um tempo próximo. Devido à sua referência figurativa para a primeira mulher no livro bíblico de Gênesis, a teoria da Eva Mitocondrial inicialmente encontrou um nome de referência para o método de datação com base em DNAmit, que é transmitido pela linhagem maternal (Birky, 2008). Isso, as vezes chama a atenção de alguns grupos propagadores de má-ciência, ou pseudociência, como os literalistas do livro de gêneses, os chamados criacionistas da Terra jovem, que viram na teoria da Eva uma validação do relato bíblico da criação. Não é!

É um equívoco, a respeito da Eva mitocondrial, acreditar que todas as mulheres vivas hoje descendem de uma linha ininterrupta direta, e que ela deve ter sido a única mulher viva na época. Pelo contrário, há várias linhagens mitocondriais, que são filogeneticamente relacionadas e extrapolam o limite proposto pelos defensores da terra jovem e do literalismo bíblico (Dawkins, 2004 & Takahata, 1993). Como diversos estudos com DNA nuclear indicam que o tamanho da antiga população humana nunca ficou abaixo de dezenas de milhares. Outras mulheres que viveram durante o tempo da Eva mitocondrial têm descendentes vivos hoje, mas em algum momento no passado cada uma de suas linhas de descendência não produziu uma fêmea que reproduziu, quebrando assim as linhas diretas com o DNAmit. Sempre que um dos dois ramos mais antigos morre, o MRCA irá se mover para um mais recente ancestral feminino, que será sempre a mãe mais recente que tem uma filha que segue com a linha de descendentes maternal viva. O número de mutações que podem ser encontrados em povos modernos é determinado por dois critérios: o tempo e as taxas variáveis ​​em que novos ramos vieram à existência além dos ramos velhos que tornaram-se extintos (Gibbons, 1998).

Com o desenvolvimento desse método e os primeiros resultados alguns grupos criacionistas chegaram a afirmar que a Eva mitocondrial refutava a evolução, especialmente dito pelo “Answer in Genesis”. Para complicar mais a situação para o lado desta pseudociência, datações feitas com o cromossomo-Y (Adão do cromossomo Y em relação a Eva mitocondrial), mostraram que a ideia de haver um Adão era também geneticamente improvável, já que não havia suporte de que ele tenha sido o parceiro sexual de Eva (embora ambos sejam populações e não indivíduos), ou seja, nem mesmo eram contemporâneos (Rohde et al, 2004).

Sendo assim, a citação da doutora em genética não tem qualquer fundamentação prática na genética, e ao que nos diz respeito a questões teológicas, falta-lhe conhecer o significado das escrituras nas quais ela mesmo acredita.

Deus comprovado?

Neste último tópico destaco uma reportagem publicada em outro site de conteúdo religioso na qual afirma que um pesquisador ganhou um prêmio científico por provar a existência de Deus.

A reportagem destaca alguns pontos, como:

“Através de leis da física e da filosofia, pesquisador polonês Michael Heller mostra que Deus existe…Keller chegou, fazendo- se aqui uma comparação com a medicina, valendo-se do que se chama diagnóstico por exclusão: quando uma doença não preenche os requisitos para as mais diversas enfermidades já conhecidas, não é por isso que ela deixa de ser uma doença….Com repercussão no mundo inteiro, o seu estudo e sua coragem em dizer que Deus rege a ciência…Keller montou a sua metodologia a partir do chamado “Deus dos cientistas”: o big bang, a grande explosão de um átomo primordial que teria originado tudo aquilo…Um estado precedente é uma causa para outro estado que é seu efeito. E há sempre uma lei física que descreva esse processo”, diz ele. E, em seguida, fustiga de novo o pensamento: “Mas o que existia antes desse átomo primordial?”

A física tem sim muito da filosofia (Veja Os físicos também são filósofos), e para isto deixo o link de um texto sobre esta abordagem (1 2), mas o critério de exclusão não leva a comprovação de uma alegação. Este é um problema muito grave e que é a fonte de onde os criacionistas puxam suas falsas premissas. Em resumo, a argumentação deste doutor é simplesmente falha do ponto de vista da filosofia da ciência. O problema dela é que ele usa o critério de exclusão para concluir sua premissa.

Ora, a lógica dedutiva sozinha não funciona como fonte de informação, ela exige muito mais do que meramente concluir pela exclusão.

Vejamos dois exemplos que ilustram exatamente o mesmo pensamento adotado pelo doutor acima.

Um médico pode chegar a um diagnóstico com base no método de exclusão e concluir uma possível causa, mas ainda sim, o paciente pode morrer por diversos motivos: não ter cura porque a doença é desconhecida, rara, nova ou simplesmente devido a um diagnóstico errado feito por uma exclusão precoce.

Podemos diagnosticar o paciente segundo os sintomas que ele apresenta: febre, dor de cabeça, fraqueza, dormência, dor muscular e nos pés. Podemos notar uma inflamação afetando as aortas e concluir que o paciente sofre da síndrome de Guillain-Barré. Podemos matar o paciente com um diagnóstico precoce e não notar que na verdade ele sofria com a doença de Tayasu, e ter excluído o fato desta doença ser mais comum entre orientais.

Novamente, o cientista precisa saber para onde olhar e fazer mais do que simplesmente deduzir.

Obviamente esta é uma situação hipotética, mas em uma situação mais próxima da realidade, usando um exemplo vindo do processo inflamatório. O uso único e exclusivo da dedução sem o devido cuidado levou cientistas a presumir que inflamações são sempre úteis. Hoje sabemos que algumas delas têm efeitos negativos à saúde, pois quando excessivas danificam tecidos adjacentes e ampliam ainda mais a lesão inicial. Sabemos agora que o ciclo de desmontagem do complexo bioquímico dos inflamossomos é fundamental para a homeostase seja reestabelecida no individuo e que a inflamação por si nem sempre é um indicativo de um processo sadio (Mehal, 2015).

O autor desta falácia a sobre a constatação de Deus precisa fazer mais do que usar método de exclusão para justificar sua alegação.

Outro problema é referente ao que se entende por sobrenatural. Se Deus tem uma explicação natural ele deve ser mensurável e aprovado pelo rigor da ciência. Se de fato ele é constatável e de fato existir, como sugere o autor, então não é sobrenatural, mas sim natural. E de modo inverso, se ele é natural, precisa ser constatado como fenômeno segundo método científico.

Ainda sim, a ação e o agente sobrenatural continua a não existir, exceto na cogitação informal dos seus proponentes.

Outro ponto que chama atenção é que o autor parece presumir que o átomo primordial é efeito de uma causa maior, Deus. A questão então é; quem disse que átomo primordial não pode ser naturalmente concebido sem a necessidade de uma entidade criadora?

Oscilações quânticas de um vácuo metaestável podem explicar singularidade naturalmente sem recorrer a misticismos. Por exemplo, os físicos He, Gao e Qing-yu da Academia Chinesa de Ciências, em 2014 publicaram um artigo na revista Physical Review D na qual destacam a origem espontânea do universo a partir do nada (menor estado de energia, e não o nada absoluto, ou inexistência).

Os chineses então calcularam as flutuações quânticas de um vácuo metaestável, na qual o resultado foi a criação de uma pequeno vácuo, que então infla esporadicamente e cessa, exatamente como se previa nas modelagens sobre a origem do Universo.

Um vácuo metaestável tem um estado baixo de energia e é considerado metaestável porque representa um estado que não se suporta por muito tempo, podendo decair a um estado de vácuo verdadeiro por flutuações quânticas. Uma vez que tal vácuo é criada a partir dessas flutuações quânticas, pode expandir exponencialmente. Quando se torna grande o suficiente em um estado de expansão exponencial culmina na formação do universo. Como destacado por Krauss, partículas são virtualmente criadas e desaparecem devido a sua aniquilação ao se combinar com suas anti-partículas. No estado em que o universo se expande exponencialmente não permite que certas partículas virtualmente criadas na expansão se aniquilem e deem origem a matéria do universo (Qing-yu et al,2014).

Assim sendo, a exclusão não é um método científico.

Se A não explica B então só pode ser C?

Isso é uma conclusão errada, não sustentada pelas premissas, e pior, não foi constatada. Foi simplesmente deduzida sem qualquer rigor científico.

Eu poderia afirmar que: 1) Todos gatos têm 5 patas; 2) Tom é um gato; 3) Tom têm 5 patas.

É uma dedução perfeitamente válida, mas as premissas 1 e 3 são falsas. A lógica dedutiva sozinha não funciona como uma fonte de afirmações válidas sobre o mundo. Ela precisa se relacionar com derivações de afirmações e serem corroboradas (Chalmers, 1993). O que o autor propõe é exatamente isto, uma dedução por critério de exclusão sem qualquer comprometimento com derivações ou rigor.

Não é possível dizer que a ciência encontrou Deus, pela própria estruturação da ciência no método científico. Também não é possível dizer que Deus se manifesta pela ciência.

Presumir que moléculas falam, ou que as estruturas biológicas foram intencionalmente desenhadas por um arquiteto universal é um empobrecimento científico e teológico.

É uma falha científica por não se encaixar na estrutura do método cientifico, e no caso dos criacionistas porque fere, inclusive, aspectos básicos de sua teologia.

O que ele parece propor é o argumento aristotélico de motor imóvel (causa causadora não causada) ou uma argumentação próxima argumentação de Craig. Mas sabemos que as premissas de Craig são falhas filosoficamente e morrem diante da física, especialmente a de Sean B. Carroll (Veja: Será que o Universo precisa de Deus?).

Somando-se ao fato da fonte na qual a descoberta foi publicada ser religiosa, e o autor se padre, há de se entender porque tal afirmação foi vista com tanto ceticismo. Além disto, qualquer descoberta que justifica-se uma evidência sobre a existência de Deus cientificamente seria assunto mundial, com artigos publicados e acompanhamento midiático, coisa que não vemos.
Para concluir nossa análise, o autor Michael Heller é padre católico pertencente à Diocese de Tarnow. Ele ganhou o prêmio por razões especificas. Tal premiação era chamada de Templeton Prize for Progress in Religion entre 2002 a 2008 ele foi chamado de Templeton Prize for Progress Toward Research or Discoveries about Spiritual Realities, pois esta vinculado a pesquisas feitas por grupos religiosos que defendem causas próprias.

Conclusão

No que se refere a Revista Galileu, quero deixar claro que não estou criticando o ato de divulgar indícios que corroboram localidades bíblicas, mas o fato de eles não manifestarem os limites destas afirmações. De maneira alguma devemos nos opor a divulgação de conhecimento e ser favorável a censura. O conhecimento produzido pelos arqueólogos e divulgado pela Revista Galileu é valido dentro de limites bem estabelecidos, omitidos na revista. A manifestação da presente crítica é fundamentada na necessidade de cuidados ao divulgar tais informações para que não se veicule falsas justificativas e falsos conceitos como se fossem cientificamente validados, como nos dois últimos casos. Ressalta-se também a necessidade de reconhecer que fatos não corroboram relatos; ou deveríamos presumir que os achados arqueológicos do templo de Atenas e do Monte Olimpo na Grécia corroboram uma versão factual da mitologia grega?

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