A educação contra o pensamento “à la carte”

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Em “Cérebro & crença”[1], o psicólogo e historiador da ciência Michael Shermer discute como formamos nossas crenças e como as mantemos, mesmo quando existem bons indicativos de que estamos errados. Um dos pontos discutidos por Shermer é como podemos saber se aquilo em que acreditamos é provavelmente verdade. Em questões que dizem respeito a como o mundo funciona, o autor afirma que é a ciência que nos dá as melhores respostas, mesmo que elas não possam ser consideradas verdades absolutas e que estejam sempre abertas ao escrutínio crítico. No entanto, muitas vezes o que a ciência nos indica como prováveis verdades (como a evolução biológica e o aquecimento global antropogênico, por exemplo) contradiz nossa concepção de como o mundo é, ou de como nós gostaríamos que ele fosse. A esse respeito, Shermer escreve:

Aquilo em que quero acreditar com base nas emoções e aquilo que devo acreditar com base em evidências nem sempre coincidem. Sou cético não porque não queira acreditar, mas porque quero saber. Como saber a diferença entre o que gostaríamos que fosse verdade e o que de fato é verdade?

            A resposta é: a ciência. Vivemos na era da ciência, na qual se espera que as crenças sejam fundamentadas em sólidas evidências e dados empíricos.

De fato, muitas pesquisas de opinião feitas em diversos países, especialmente nos Estados Unidos, mostram que parte significativa das pessoas não fundamenta suas crenças em “sólidasevidências e dados empíricos”. Meu objetivo aqui não é discorrer sobre as razões pelas quais muitas ideias pseudocientíficas – como a astrologia, a percepção extrassensorial e a homeopatia – desfrutam algumas vezes de maior aceitação do que teorias muito bem estabelecidas na ciência, como a evolução. O que pretendo discutir são as implicações do modo seletivo de pensar – do pensamento “à la carte” –, e como a educação pode atenuá-lo.

Segundo o biomédico Dennis Trumble[2], apresentamos uma atitude “à la carte” com relação à ciência: uma tendência a descartar as ideias que contrastam com nossavisão de mundo, e a abraçar aquelas que não são capazes de desestabilizar as nossas mais estimadas crenças. Por essa razão, há uma grande oposição à evolução biológica por parte de religiosos conservadores em vários locais do mundo, e em alguns contextos ainda se debate se o design inteligente deveria ser integrado às aulas de ciência como uma “alternativa” à evolução. Outras ideias também avalizadas pelo consenso da comunidade científica, como a de que determinados vírus estão associados a doenças, são aceitas por virtualmente todas as pessoas – um vírus como o causador de uma gripe não parece ser algo que interfira fundamentalmente em aspectos importantes da concepção de mundo de ninguém. Segundo Trumble, o fato de uma ideia ser pessoalmente ofensiva para alguém é motivo suficiente para que ela seja descartada, não importando a força das evidências que a suportam.The way of science

Existem questões que não podem ser entendidas (e resolvidas) sem a ajuda de evidências empíricas, mas que são carregadas de vieses ideológicos, e às vezes conduzidas por eles. Consideremos o caso do aquecimento global antropogênico (AGA, também denominado “mudança climática antropogênica”), a proposição de que a atividade humana tem impactado o clima de nosso planeta. Nos Estados Unidos, é comum que um cidadão alinhado ao partido democrata aceite a ideia do AGA, enquanto outro, alinhado ao partido republicano, a rejeite. No entanto, é possível que a aceitação ou rejeição da ideia do AGA tenha em seu âmago um forte componente ideológico[3]: se o mundo está ficando cada vez mais quente, e se isso se deve ao aumento da concentração de gases estufa na atmosfera, os quais, por sua vez, são em grande parte resultado de atividade industrial, então é razoável supor que se deva interferir nos sistemas de produção. Este cenário é visto com maus olhos por um republicano conservador, mas parece razoável para um democrata. Por outro lado, se o AGA não existe, isso significa que não há nenhuma razão em restringir, regular ou modificar qualquer aspecto da produção industrial, um cenário que agrada muito mais aos republicanos. Desse modo, o AGA – que deveria ser debatido no âmbito da ciência, pelo menos no que se refere à sua ocorrência (Existem evidências para ele? O que diz o consenso científico a respeito do tema?) – acaba se tornando uma discussão fundamentada na ideologia, e guiada por ela.

Em termos práticos, a aceitação “à la carte” de ideias é potencialmente perigosa. Descartar as evidências (e o consenso científico) quando é necessário tomar uma decisão, pessoal ou política, pode significar prejuízos às gerações futuras e às pessoas no presente. Obviamente, o que hoje é consenso na ciência pode se mostrar errado no futuro, mas não é esse o pensamento que se deve ter em conta quando a enorme preponderância das evidências aponta determinado caminho como provavelmente verdadeiro. Se a sua ideologia indica A, mas as melhores evidências que temos apontam para B, é hora de repensar seriamente a sua crença.

Estudos realizados por psicólogos cognitivos, psicólogos sociais e neurocientistas apresentam evidências de que, de modo contrário ao que normalmente supomos, parte considerável das decisões humanas é realizada de forma superficial, não-reflexiva, rápida e irracional (ou seja, sem a adequada consideração de razões para dar suporte às conclusões), e que, além disso, as pessoas estão sujeitas a inúmeros vieses cognitivos e falhas perceptuais, mesmo que não se deem conta disso[4]. A aceitação “à la carte” de ideias parece ser, portanto, consequência natural de nossa condição cognitiva “default”.

A propensão humana de pensar de modo “à la carte” é uma das justificativas para que o desenvolvimento do pensamento crítico seja uma das grandes preocupações das instituições escolares. Considerando que as habilidades do pensamento crítico precisam ser aprimoradas nas pessoas, e assumindo que elas são importantes para a vida de qualquer sujeito em uma sociedade democrática, é necessário que as escolas e universidades empreguem esforços para o desenvolvimento e fortalecimento dessas habilidades em seus estudantes. Mais do que as habilidades de pensamento crítico, é fundamental também incentivar os alunos para que eles se apropriem de atitudes e hábitos mentais que os predisponham a avaliar as razões que sustentam as suas próprias ideias e ações, bem como as ideias a que são apresentados, e que façam isso com frequência. Tais características, geralmente denominadas “disposições” do pensamento crítico, ou o “espírito crítico”, são tão importantes quanto as habilidades do pensar, pois são elas que tornam um sujeito inclinado à análise crítica e ao emprego das habilidades de pensamento de que dispõe. Essas habilidades e disposições de pensamento tendem a desenvolver nos alunos o que o filósofo americano Harvey Siegel[5] denominou de evidential style of belief, um estilo de crença baseado em evidências. E o incentivo ao pensamento crítico, nas escolas, pode desencorajar o modo de pensar “à la carte” entre os estudantes, fazendo com que eles entendam a importância de calibrar suas crenças de acordo com a qualidade de evidências disponíveis para elas, e fortaleçam o hábito de fazê-lo, mesmo que isso signifique revisar e, eventualmente, alterar suas concepções a respeito do mundo.

 

[1] SHERMER, M. Cérebro & crença: de fantasmas e deuses à política e às conspirações – como nosso cérebro constrói nossas crenças e as transforma em verdades. São Paulo: JSN Editora, 2012, p. 18.

[2] TRUMBLE, D. The way of science: finding truth and meaning in a scientific worldview. New York: Prometheus Books, 2013.

[3] Ver MOONEY, C. The republican brain: the science of why they deny science – and reality. Hoboken: John Willey & Sons, 2012. / ver também o artigo de Michael Shermer, “Why we should choose science over beliefs” em http://www.scientificamerican.com/article/why-we-should-choose-science-over-beliefs/

[4] Ver CHABRIS, C. & SIMONS, D. O gorila invisível – e outros equívocos da intuição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. /FINE, C. Ideias próprias: como o cérebro distorce a realidade e o engana.Rio de Janeiro: DIFEL, 2008. KAHNEMAN, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva: 2012. / MACKNIK, S. L. & MARTINEZ-CONDE, S. Truques da mente: o que a mágica revela sobre o nosso cérebro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. / MLODINOW, L. Subliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. / NOVELLA, S. Your deceptive mind: a scientific guide to critical thinking skills. Chantilly: The Great Courses, 2012.

[5] SIEGEL, H. Educating reason: rationality, critical thinking and education. Nova York: Routledge, 1990.

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