A falsa dicotomia da Islamofobia

Mulheres otomanas.

Por Massimo Pigliucci
Publicado no Scientia Salon

A falsa dicotomia é um tipo básico de falácia da lógica informal, que consiste em enquadrar um problema como se houvesse apenas duas escolhas disponíveis, quando, na verdade, existe uma gama de posições que podem ser ofertadas após uma reflexão cuidadosa. Embora eu tenha argumentado juntamente com meus colegas Maarten Boudry e Fabio Paglieri que, muitas vezes, as chamadas falácias lógicas são estratégias heurísticas bastante razoáveis [1], há, no entanto, uma abundância de casos em que se identificam verdadeiramente os maus raciocínios. Recentemente, tenho discutido um desses casos em referência aos chamados avisos de gatilho no contexto das aulas da faculdade [2], mas o outro é, sem dúvida, representado pelo interminável “debate” sobre Islamofobia.

É fácil encontrar exemplos gritantes de pessoas que defendem o que parecem ser duas posições irreconciliáveis sobre como apresentar o Islã em mundo pós 11/9. Para fins de discussão, vou ignorar especialistas e outros pseudointelectuais, e usar apenas dois comediantes como representantes de posições contrastantes: Jon Stewart [3] e Bill Maher [4].

Antes de prosseguir, devo reconhecer que, apesar de que eu tenha gostado do Stewart por um longo tempo e ter evoluído de um comediante para um comentarista social esclarecido durante o seu trajeto no Daily Show [5], o meu apreço por Maher tem caído mais e mais. Eu costumava gostar de seu estilo brusco quando ele estava fazendo seu show “Politicamente Incorreto”, o primeiro canal Comedy Central, em seguida, na ABC [6]. Eu fiquei horrorizado quando a ABC (alegadamente) deixou ele ir porque ousou fazer a politicamente correta (mas claramente correto) declaração de que os culpados pelo 11/9 poderiam ser devidamente identificados com um vasto número de apelidos negativos, mas que covardes não eram parte deles. Mas, em seguida, ele fez seu filme Religulous [7], onde ele destilou um crasso novo estilo ateísta de “crítica” à religião e, finalmente, saiu como um anti-vaxxer ao mesmo tempo que castigava alguns de seus convidados que eram “céticos” sobre as alterações climáticas por serem anticiência. Ao mesmo tempo, a minha transição consciente foi de uma jovem predileção por agressão retórica para um ainda mais nuançado, se ainda irônico, discurso que também marcou definitivamente a mudança no meu gosto de Maher (um bom representante do primeiro estilo) para Stewart (um excelente exemplo do segundo).

Voltando para o Islã e a islamofobia. Maher tem sido repetidamente acusado deste último, enquanto ele se defende como simplesmente possuidor da coragem de ser politicamente incorreto e, abertamente, crítico de uma religião que ele considera como a maior de todas (embora, de qualquer forma, ele rejeite todas as religiões). Stewart, por outro lado, recebeu muitas vezes convidados, cujas suas posições referem-se de que não há nada inerentemente errado com o Islã, e que a atual tendência inegável de um número de sociedades islâmicas que abrigam grandes reservas de extremistas potencialmente violentos nada tem a ver com a religião, mas tem a ver com as circunstâncias externas que afetam as sociedades – circunstâncias que, normalmente, são detectadas de uma forma ou de outra com o rescaldo do colonialismo (ocidental).

Observe que parte do que me interessa nesse debate é o contraste sobre esse tema entre os indivíduos que se mantém na esquerda do espectro político, como no caso acima, onde foi mencionado os avisos de gatilho. E, novamente, como no outro caso, não estou interessado na retórica inflamatória e, intelectualmente, grosseira vinda da extrema-direita. Assim, consequentemente, será deixada de fora da discussão atual.

Agora, em termos gerais, eu não acho que as religiões em geral tenham, particularmente, boas ideias. Em minha mente, são originárias a partir de uma combinação de falsos pressupostos (que existem seres mais elevados de um tipo sobrenatural) e uma tomada de poder por indivíduos (ou seja, líderes religiosos) que, às vezes, inconscientemente (e, às vezes, não), acabam explorando medos e esperanças das pessoas que eles deveriam liderar. Mesmo assim, reconheço que o instinto religioso é praticamente universal entre os seres humanos e não é provável que ele vá embora tão cedo, talvez nunca. Reconheço também que as religiões têm feito muitas coisas boas no mundo ao longo da história, e que ainda não está totalmente claro se um mundo seria melhor sem elas, como um número de ateus superconfiantes continuam reivindicando [8].

O que estou dizendo é que eu não acredito que a religião, qualquer religião (incluindo o Islã), seja, particularmente, uma boa ideia, mas, ao mesmo tempo, eu também não acredito que qualquer religião (novamente, incluindo o Islã) seja um “amontoado de más ideias” [9].

Mas é claro que não estamos falando das religiões em geral, estamos falando do Islã pós 11/9. O que devemos fazer com ele? Embora as estatísticas sobre o terrorismo internacional sejam complexas e possam ser lidas de inúmeras maneiras [10], existe pouca dúvida até mesmo na mente de comentaristas simpáticos como Fared Zakaria, da rede CNN, que o Islã contemporâneo tem um problema com a violência e opressão (especialmente de mulheres e gays).

Zakaria (um convidado frequente no Daily Show), no entanto, coloca as coisas no contexto certo quando ele nos lembra que tudo o que precisamos fazer é olhar para a história comparativa relativamente recente do Islã e de outras religiões abraâmicas para estar convencido de que lá não há nada particularmente pernicioso, a longo prazo, com o antigo quando comparado com o último [11]. O Império Otomano (Muçulmano), por exemplo, foi um dos lugares mais tolerantes na fronteira com a Europa durante séculos, enquanto muitos países europeus (Cristãos) estavam ocupados suprimindo ou expulsando violentamente as minorias religiosas, incluindo as diferentes vertentes do cristianismo. Isso, conclui Zakaria, deveria dissipar qualquer ideia simplista de que uma das religiões abraâmicas seja, intrinsecamente, a pior dentre outras, mesmo que comentaristas modernos (em ambos os lados), comumente, apelem para citações seletivas do Alcorão. (Como é sabido, o jogo de citação pode facilmente ser jogado por mais de um lado, como escrituras judaicas e cristãs que estão cheias de passagens severamente censuráveis, pelos padrões modernos morais.)

Parece, então, que Maher & cia. simplesmente não se preocupam em estudar história e entender que é uma combinação de fatores sociais, econômicos e políticos que está criando um problema especial para o Islã no mundo contemporâneo – assim como as diferentes circunstâncias que não conduziram o mesmo problema durante o Império Otomano, que levou os países a ficar sob o controle do Cristianismo por muitos séculos.

Bem, não tão rápido (e aqui vem a abordagem esperançosamente mais diferenciada que podem nos salvar de dicotomias simplistas). Também é simplesmente convincente argumentar, como Stewart e um número de seus convidados fizeram – que o Islã qua religião e a ideia mencionada acima não tem nada a ver com a cultura de violência e opressão. Se alguém perguntar aos recrutas da Al Qaeda ou ISIS por que eles estão fazendo esse tipo de coisa, eles responderão com uma combinação de motivos políticos (tirar bases militares norte-americanas de suas terras sagradas, por exemplo) e a sua própria interpretação sobre o que é o Islã e os mandatos do Alcorão.

Claro, pode-se argumentar que tais interpretações são equivocadas (embora seja difícil julgar debates teológicos, uma vez que não podemos pedir a suposta fonte divina), mas mesmo assim essas ideias claramente desempenham um papel altamente motivador, propício a violência e a repressão. Negar isso é simplesmente não prestar atenção ao que está claramente na frente de nossos olhos e ouvidos.

O que precede claramente implica na dicotomia que nos é apresentada de que “é mãe de todas as más ideias” contra “isso não tem nada a ver com o Islã”, onde a maioria está simplesmente equivocada. Essa confusão acontece por razões que, novamente, deveriam ser óbvias para qualquer pessoa, mesmo que ela não esteja superficialmente familiarizada com a história. Temos muitos exemplos de como certas combinações de circunstâncias sociais externas e internas tornaram-se um terreno fértil para ideias extremistas, religiosas ou não, e o quanto más ideias, ou más interpretações, alimentam o comportamento das pessoas em sua volta, dando-lhes uma maneira de racionalizar e ampliar as suas ações e pensamentos.

Tomemos, por exemplo, a ascensão dos países “comunistas”, durante o século XX, particularmente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao. Ao contrário de, digamos, o nazismo e o fascismo – que eu acho que realmente são irremediavelmente más ideias – o comunismo como desenvolvido por Marx e Engels [12] não está nem de perto de ser do mesmo patamar. Pode ser inviável e até mesmo indesejável, mas não é intrinsecamente mal. No entanto, o ideal comunista foi facilmente distorcido por “líderes” inescrupulosos e com fome de poder, como Stalin e Mao (e uma série de outros), resultando em muitas décadas de violência não-religiosa e opressão que matou muitas vezes mais pessoas do que o Islã contemporâneo tem conseguido até agora. Por quê? Porque milhões compraram as ideias que foram sendo apresentadas a eles e as utilizavam como uma justificativa para o que estavam fazendo, mesmo que eles estivessem fazendo isso, pelo menos em parte por causa das circunstâncias sociais, políticas e econômicas externas (basta lembrar em qual contexto ocorreu a revolução russa e chinesa [13]).

Assim, enquanto algumas pessoas podem muito bem ser “Islamofóbicas” (ou seja, eles podem realmente abrigar um preconceito irracional contra o Islã), apontar, simplesmente, que as ideias islâmicas desempenham um papel no terrorismo contemporâneo e na repressão não faz de ninguém um Islamofóbico, e usar o rótulo cegamente é, simplesmente, uma maneira antidemocrática e antirreflexão de cortar o discurso crítico. Então, novamente, aqueles que se concentram no Islã como exclusivamente problemático podem se beneficiar tirando a poeira dos livros de história e aprendendo uma ou duas coisas sobre a complexa interação de ideias e situações sociopolíticas nos assuntos humanos, antes de fazer os próprios Paladinos simplistas e discursos altamente enganosos.


Massimo Pigliucci é um biólogo e filósofo da Universidade da Cidade de Nova York. Seus principais interesses estão em filosofia da ciência e pseudociência. Ele é o editor-chefe da revista online Scientia Salon e seus livros mais recentes são a Filosofia da Pseudociência: Reconsiderando o Problema da Demarcação (Chicago Press, co-editado com Maarten Boudry) e Respostas para Aristóteles: Como a Ciência e a Filosofia Pode Nos Conduzir a Uma Vida Mais Significativa (Basic Books).


[1] The Fake, the Flimsy, and the Fallacious: Demarcating Arguments in Real Life, by M. Boudry, F. Paglieri and M. Pigliucci, Argumentation:1-26, 2015.

[2] The false dichotomy of trigger warnings, by M. Pigliucci, Scientia Salon, 28 May 2015.

[3] Jon Stewart, Wiki entry.

[4] Bill Maher, Wiki entry.

[5] See: The Ultimate Daily Show and Philosophy: More Moments of Zen, More Indecision Theory, ed. by J. Holt. I contributed chapter 17, “Evolution, Schmevolution.”

[6] Politically Incorrect, Wiki entry.

[7] Religulous, 2008, IMDB entry.

[8] See: Would the World Be a Better Place Without Religion?, Rationally Speaking podcast, 8 March 2015.

[9] Sam Harris Defends Assertion That ‘Islam Is the Motherlode of Bad Ideas’, Media ITE, 13 October 2014, commenting on an episode of Bill Maher’s show.

[10] Take a look at the Global Terrorism Database, though this article by the BBC clearly shows a recent, sharp, increase in terrorist attacks, mostly of an extremist Islamic nature.

[11] Let’s be honest, Islam has a problem right now, by F. Zakaria, Washington Post, 9 October 2014.

[12] The Communist Manifesto, by F. Engels and K. Marx, Project Gutenberg.

[13] Russian Revolution, Wiki entry; Chinese Communist Revolution, Wiki entry.

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Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Sou fundador da Universo Racionalista | Graduando em Tecnologia em Redes de Computadores pela Universidade de Franca | Especialista em Fundamentals of Computing Network Security ( • Design and Analyze Secure Networked Systems • Basic Cryptography and Programming with Crypto API • Hacking and Patching • Secure Networked System with Firewall and IDS ) pela University of Colorado | Especialização em andamento em Cybersecurity ( • Computer Forensics • Network Security • Cybersecurity Fundamentals • Cybersecurity Risk Management • Cybersecurity Capstone ) pela Rochester Institute of Technology | Certificação em Information Security Specialist ( • InfoSec Foundation • Ethical Hacking Essentials • Computer Forensics Foundation ) pela ITCERTS | Certificação em Information Security Analyst ( • Information Security Policy Foundation • Vulnerability Management Foundation ) pela ITCERTS | Cursei integralmente as disciplinas teóricas em Licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franca, mas não realizei o estágio supervisionado para a obtenção do diploma de Ensino Superior | Especialista em Journey of the Universe: A Story for Our Times pela Yale University | Colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade | Colunista da Climatologia Geográfica | Membro da Rede Brasileira de Astrobiologia | Abaixo, segue o endereço do currículo na plataforma Lattes e LinkedIn.