A Lógica e Beleza da Seleção Natural Cosmológica

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As opiniões expressas são as do autor e não são necessariamente da Scientific American – muito menos da Universo Racionalista.

Eu tenho uma previsão. Há uma hipótese científica formulada ao longo de vinte anos, que um dia todos olharão para trás, quando ela for provada, e pensarão: “Claro que estava certa! Que ideia espetacularmente poderosa!”

A hipótese é a seleção natural cosmológica, e seu poder, beleza e lógica fornecem o que pode ser a melhor explicação científica para a existência de complexidade e da vida no universo.

O poder explicativo da Seleção Natural Cosmológica aborda diretamente, ao invés de ignorar, um dos maiores mistérios científicos fundamentais. Se as leis e constantes fossem um pouco diferente, a formação da vida seria impossível. Se a relação de elétrons para prótons, a taxa de expansão do universo, as massas relativas das partículas elementares ou o valor de varias “forças físicas” não fossem extremamente próximas do que estão agora, as estrelas e moléculas complexas que levam à vida nunca poderiam ter se desenvolvido.

As chances de um universo que permita vida parece ser infinitesimal. Ao discutir como uma mudança relativamente pequena na magnitude da energia escura impeça a vida, o físico e autor Paul Devies escreveu[1]: “O clichê de que ‘a vida é equilibrada sobre um fio de navalha’ é um eufemismo impressionante, nesse caso: nenhuma faca no universo poderia trazer a vantagem que temos.” O problema é explicar porque as constantes e as leis do universo são tão precisamente afinadas, assim permitindo a complexidade e vida. Mesmo que, como outro físico e autor Victor Stenger argumenta, este “problema de sintonia fina” em parte parte pode ser explicado pela física já estabelecida, o profundo mistério é o porque nosso universo tem parâmetros e leis que permitem a complexidade e vida.

Ok, então temos um problema significativo de explicar a complexidade e o aparecimento da “ordem”.

Nós estivemos aqui antes.

Antes de Darwin, a visão predominante era de que cada espécie foi especialmente criada e não se alterou ao longo do tempo. Sabemos agora que as espécies não são atemporais ou concebidas, e que a mudança cumulativa é naturalista, através de gerações de evolução darwiniana[2].

Referindo-se à complexidade biológica, o biólogo evolucionário e autor Richard Dawkins escreveu: “A teoria da Evolução por Seleção Natural Comutativa é a única teoria que conhecemos que é, em princípio, capaz de explicar a existência de complexidade organizada.”[3] Alguns têm chamado a evolução por seleção natural a única e melhor ideia que alguém já teve.

Se isso é verdade, por que parar em biologia? “Nada em biologia faz sentido exceto à luz da Evolução”, escreveu o biólogo evolucionista Theodosius Dobzhansky[4]. É possível que, diante de um grande desafio como o de explicar a complexidade do universo, nada em cosmologia fará sentido exceto à luz da evolução, será? Obviamente, a prova é essencial em ciência, e nós vamos chegar nela. Se pensou muito na Biologia, e notamos que ela é Evolução até o fim. Talvez em cosmologia, é a evolução que iluminará nosso caminho.

A proposta mais completa para o mecanismo da Seleção Natural Cosmológica vem do físico Lee Smolin.

Ele elaborou uma fascinante hipótese em seu livro A Vida do Cosmos, em 1992. Em todo o universo, algumas estrelas se colapsam em buracos negros, espremem-se até atingir uma densidade extrema, como resultado do fenômeno quântico, o buraco negro “explode” em um big bang e se expande formando um novo universo bebê, separado do original. O ponto que não conseguimos medir dentro de um buraco negro é onde começa o big bang de outro universo. Smolin propõe que as condições extremas dentro de um buraco negro resultam em pequenas variações aleatórias das forças e parâmetros físicos do novo universo. Assim, cada universo bebê possui pequenas diferenças em relação ao universo pai.

Devidas às características herdadas, universos com parâmetros mais amigáveis produzirá mais estrelas que um universo hostil. Assim, os parâmetros que vemos hoje são do jeito que são, porque, depois de acumular pouco a pouco parâmetros de gerações de universos, o resultado é um universo “bom” para a produção de estrelas e vida como conhecemos.

Então, isso seria uma explicação lógica para o abismo da “problemática sintonia fina” – os parâmetros do nosso universo são do jeito que são por causa da natural acumulação herdada através do sucesso reprodutivo ao longo do tempo. Se estiver correta, nós vivemos em uma linhagem de universos prole – o que poderia ser visualmente representadas como os ramos em expansão na árvore da vida biológica.

A existência de estrelas é um pré-requisito para a formação de vida. Isso acontece porque o carbono e a maior parte das outras moléculas são criadas nas estrelas. Assim, as mesmas condições que promovem os novos universos seriam as mesmas condições para a existência da vida como conhecemos.

Smolin se esforça para tornar sua hipótese científica, por ser falseável. Ele propõe várias maneiras que a sua conjectura pode ser desmentida. Mas o ponto desse texto não é analisar especificamente se a proposta de Smolin é verdadeira, mas de demonstrar como essa hipótese pode trazer grandes mudanças para a cosmologia.

A real crítica a Seleção Natural Cosmológica como hipótese científica é a falta de evidências diretas atualmente. Não há nenhuma evidência direta que o universo se reproduz. Sem isso, não há seleção natural, antes mesmo das questões de variação e seleção entrarem no jogo. Mas tenha em mente que a partir da perspectiva de evidências diretas, a Seleção Natural Cosmológica não fica em estado mais desfavorável que as atuais alternativas científicas. Não há nenhuma evidência direta de que o universo tenha sido criado por uma flutuação quântica no vácuo quântico, que vivemos em um multiverso, que há uma teoria do tudo, ou que a teoria das cordas esteja certa, nem de universos cíclicos ou de branas cosmológicas.

E as principais alternativas propostas na Cosmologia não explicam diretamente o problema da “sintonia fina”. Em vez disso, elas sugerem coisas como uma espécie de inevitabilidade, design, sorte inimaginavelmente incalculável ou um número infinitos de universos múltiplos, onde existe cada universo possível. Essa última é o suficiente para fazer com que Occam corte a sua garganta com a sua navalha [risos][5].

Se, em ultimo caso, uma versão da Seleção Natural Cosmológica é provada, como eu acho que vai ser, teremos uma explicação lógica para os parâmetros do nosso universo. Haveria também grandes implicações nos debates sobre o sentido da vida humana e da existência.

Se a Seleção Natural Cosmológica for verdade, nós não vivemos em um mundo determinado, mas em uma mudança constante. Isso pode ser interpretado como otimista e esperançoso. Mas, enquanto processos como a seleção natural podem permitir o desenvolvimento de vida, isso não significa que o universo como um todo tenha “conscientemente se planejado” com nós, a vida é consequência.

Em última análise, vamos esperar pelas evidências diretas. Regras da ciência por evidência. Nossa mente se expande, enquanto o Deus das lacunas evapora.

Se evidências comprovarem qualquer uma das alternativas – as já propostas pela cosmologia ou outras novas -, vamos abraçar a realidade, não importa onde ela nos leve, e seremos invadidos pela admiração pela nossa capacidade de descobrir a maior das respostas cosmológicas do universo.


Texto escrito por Lawrence Rifkin, na Scientific American, com o título The Logic and Beauty of Cosmological Natural Selection.
Houve adaptações durante a tradução.

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