A psicologia pode ajudar a combater a pseudociência?

Por Christian Jarrett
Publicado no The British Psychological Society

Da homeopatia para suplementos nutricionais duvidosos, o apoio à pseudociência e o charlatanismo prosperam em pessoas acreditando falsamente que uma coisa faz outra, quando, na verdade, isso não acontece. Enquanto isso, os psicólogos estudam a formação da crença e, especificamente, a ilusão de controle, em que as pessoas acreditam erroneamente que elas estão controlando alguma coisa, quando elas não estão. Em um novo estudo, três psicólogos da Universidade de Deusto, em Bilbau, argumentam que a literatura psicológica pode ser extraída de uma maneira que ajude a combater a pseudociência, e eles realizaram um pequeno estudo para testar o princípio.

Uma das descobertas psicológicas que Helena Matute e seus colegas colocaram em pauta é o de que as pessoas são particularmente susceptíveis a formar uma ilusão de controle quando: (1) um resultado desejado ocorre com frequência e (2) eles, ou outra pessoa, realizam algumas ações ineficazes por vezes. No contexto da saúde, isso seria semelhante a ter uma condição a partir da qual a recuperação ocorre frequentemente sem intervenção (por exemplo, dor nas costas), enquanto que, ao mesmo tempo, recebe um frequente, mas ineficaz, tratamento. Isso leva ao emparelhamento inevitável do resultado desejado com a intervenção ineficaz, dando assim origem à falsa crença de que a intervenção está causando o resultado positivo.

A equipe de Matute testou isso em um cenário fictício. 108 participantes (recrutados online) leram sobre um medicamento fictício, o ‘Batarim’, que poderia curar a dor causada por uma doença fictícia, com nome de ‘Síndrome de Lindsay’. Eles foram informados sobre 100 pacientes com o objetivo de aprender, em cada caso, se eles tinham recebido o remédio e se a dor havia diminuída.

Crucialmente, metade dos participantes ouviu em torno de 80 pacientes que tinham tomado o medicamento e outros 20 que não tinham, enquanto os outros participantes ouviram em torno de 20 pacientes que tinham tomado o medicamento e 80 que não tinham. Para ambos os grupos, as taxas de recuperação, em 80%, eram as mesmas, independentemente se os pacientes tinham tomado ou não ‘Batarim’ – em outras palavras, a respeito dessa evidência, o medicamento não fez qualquer diferença para as taxas de recuperação.

Em seguida, os participantes foram convidados para avaliar o medicamento. Todos eles acreditavam que a substância tinha tido algum efeito, mostrando assim como as pessoas confundem facilmente questões de causa e efeito. A principal conclusão, no entanto, é que esses participantes do grupo que tinham ouvido falar de apenas 20 pacientes que tinham tomado Batarim, eram muito mais precisos em suas avaliações. Presumivelmente, isso é porque eles tiveram a oportunidade de ver que a recuperação geralmente ocorreu sem o medicamento, enquanto que os participantes do outros grupo foram cegados pelo emparelhamento mais frequente da substância com a recuperação (ainda que também tenham testemunhado a recuperação ocorrendo no mesmo ritmo sem o medicamento).

Matute e seus colegas disseram que isso sugere uma maneira simples para desafiar a pseudociência na TV e no noticiário: “Simplesmente mostrando aos participantes a proporção real de pacientes que se sentia melhor sem seguir o tratamento alvo e ajudando a detectar a ausência de contingência para si. Isso deve contraria o efeito de todas aquelas propagandas de produtos milagrosos, que concentram suas estratégias na apresentação de casos confirmatórios”.

Outra constatação da literatura psicológica que a equipe de Matute apresentou está relacionada com a formulação utilizada nas perguntas sobre causa e efeito. Eles previram que as pessoas são mais propensas a apoiar crenças pseudocientíficas quando perguntadas sobre o quão eficaz um determinado tratamento é, em comparação com quando perguntam se ele causou o resultado desejado. Esse último deve concentrar as mentes das pessoas nas probabilidades envolvidas. Isso é exatamente o que foi encontrado no presente estudo – os participantes deram ao medicamento fictício classificações mais realistas quando perguntados se ele tinha sido “a causa das curas” em comparação com quando perguntados sobre o quão “eficaz” tinha sido.

O ponto principal desse estudo foi demonstrar, em princípio, que as descobertas da psicologia podem ser exploradas para ajudar a combater a onipresença da crença pseudocientífica. A equipe de Matute acredita que eles obtiveram êxito. “Nossa pesquisa mostra que o desenvolvimento de programas educacionais baseados em evidências deve ser eficaz para ajudar as pessoas a detectar e a reduzir as próprias ilusões”, eles disseram.

Referência

  • Matute, H., Yarritu, I., and Vadillo, M. (2010). Illusions of causality at the heart of pseudoscience. British Journal of Psychology DOI: 10.1348/000712610X532210
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