A quem incomoda o atual criticismo ao pós-modernismo? Simples: a quem tem medo da ciência, da razão e do cientificismo.

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Créditos da Imagem: The Huffington Post.

Em assuntos envolvendo principalmente política, ciência e filosofia, muito se tem falado nas redes sociais e blogosfera, do “pós-modernismo”. E é comum que muitos se perguntem o que significa este termo, devido à complexidade e a ampla gama de assuntos nas humanidades que ele encampa. Este texto fará um breve exame e algumas considerações sobre o assunto no que diz respeito à educação. Em especial a educação científica.

Pós-modernismo é um termo que diz respeito a uma rejeição contra os valores da modernidade. Em especial do Iluminismo e de suas contribuições para a sociedade moderna, a qual vivemos atualmente.

Esses valores são a racionalidade, a ciência, a tecnologia, a possibilidade do desenvolvimento de uma ética humanista (em especial humanista secular), do entendimento do mundo considerando a existência de uma realidade externa independente a nossas experiências sensoriais e à qual podemos estudar livremente, da possibilidade da busca por verdades objetivas; universais (ou absolutas) e a confiança no conhecimento como parcialmente verdadeiro, embora passível de erro e correção (este último ponto diz respeito principalmente ao conhecimento científico).

Pessoas com atitudes ou tendências pós-modernas costumam falar que não existe tal coisa como ciência ou verdades objetivas. Costumam aliar a ciência (isto é, quando consideram sua existência) e a tecnologia ao “poder”, ao “capitalismo”, à “ideologia”, ao “machismo”, ao “racismo”, ao “sexismo” e a vários “ismos”.

Costumam afirmar que “tudo é relativo”, especulando se tratar de uma “construção social” (incluindo da própria realidade externa a fenômenos biológicos ou físicos).

Confundem ciência básica com técnica aplicada, isto é, não sabem da diferença entre o que significam as reações do hidrogênio e o que significa uma comunidade que usa o conhecimento dessas reações para fabricar uma bomba de hidrogênio em nome de alguma causa ou a favor de algum governo (trata-se da confusão ignorante entre ciência básica e comunidade científica, uma outra confusão de tipo construtivista-relativista na sociologia).

Dizem que a moral e ética humanas são incondicionalmente fadados à cultura (relativismo cultural) e que não é possível buscar uma ética universal que vise tratar das diferenças culturais. Os pós-modernos dão muito mais ênfase nas diferenças e construções culturais (inclusive religiosas) que separam a humanidade do que se atentam a buscar a igualdade na condição de ser humano, posicionando-se frontalmente contra o humanismo secular. Há quem nessas condições, inclusive, simule defendê-lo.

Colocam a ciência em pé de igualdade com os mitos religiosos ou pseudociências, alegando que “tudo vale” por igual, ou são adeptos de posturas pragmáticas. Isto é, consideram que não há que falar de “ciência” ou “pseudociência” porque, por exemplo, se a medicina xamânica “funciona” ou é “útil” para os indígenas, não temos que compará-la com a medicina bioquímica moderna. Ao assumir tais tendências ou atitudes, os pós-modernos são avessos tanto à ciência quanto ao cientificismo.

Cientificismo é outro termo polêmico exatamente pela forma como é frequentemente mal visto e incompreendido. E ironicamente, parece ser mais por parte de acadêmicos (em especial literatos ou que não lidam com ciência) do que por parte do senso comum interessado em ciência. O cientificismo trata-se da postura que considera a ciência como sendo o melhor meio para se obter conhecimento preciso e factível sobre determinado campo de estudo. Seja nas ciências naturais e em boa parte das humanas.

São tão populares quanto erradas as visões de que cientificismo é a “única” (ao invés de “a melhor”) forma de se obter conhecimento sobre “qualquer coisa”, de que cientificismo significa “imitar nas ciências humanas o que se faz nas naturais” como se o cientificismo fosse reduzir as humanas à biologia ou às ciências exatas (o economista neoconservador Friedrich Hayek é o responsável por difundir esta errada visão da ciência e do cientificismo e é uma das principais razões pelas quais alguns “humanistas” demonstram confusa ojeriza ao termo) ou de que cientificismo significa excluir do saber humano, campos como as artes, a música, a literatura e outros. Muito comum também, é a crença de que o cientificismo visa tornar a filosofia como algo similar ou mesmo igual ao “método científico”. Uma tarefa impossível uma vez que a filosofia é uma ferramenta de investigação, que auxilia no trato da ética, da política, das discussões de senso comum e também auxilia no desenvolvimento, compreensão e análise dos conhecimentos que compõem as ciências quer naturais, quer sociais (uma vez que são repletas de conceitos filosóficos como “tempo”, “causalidade”, “evento”, “sociedade”, etc.).

São confusas as razões pelas quais muitas pessoas doutoradas, graduandas e pós-graduandas em humanidades têm medo da racionalidade científica, da ciência e do cientificismo. E é frequente que dizem ser defensoras da ciência, mas muitas vezes chegam a ponto de não ver – ou pior, também de se negar a ver – diferença entre psicanálise e neurociência, entre biologia evolutiva e criacionismo, entre astrologia e astronomia e etc. Isso parece ter a ver de certo modo com a popularização da internet e da supervalorização que se dá a ela com relação a ser uma ferramenta de ensino. Isso acaba substituindo bastante o hábito da leitura – em especial de livros físicos – e do pensamento pelo entretenimento (ao mesmo tempo que também transforma a busca por conhecimento num tipo de entretenimento). Parece também ter a ver com a crescente e maciça inclusão de pessoas no ensino superior, mas não acompanhando a uma qualidade na educação básica, em especial em disciplinas naturais e exatas, o que por sua vez parece afetar drasticamente a qualidade nas ciências humanas. A principal consequência desses fatores parece ser a profissionalização, isto é, a formação em massa de professores e “profissionais” que mais buscam promoção acadêmica (por simplesmente publicar e publicar artigos, muitas vezes repletos de falsidades ou embustes) ou conforto nas universidades para seus posicionamentos políticos, doutrinários e militantes.

Dizem que é bom verificarmos as razões pelas quais criticamos certas coisas e esta é uma ótima razão. Entretanto, em meio a tempos, como disse Carl Sagan, onde se depende tanto de ciência e tecnologia mas não se as compreende, é bom verificarmos as razões pelas quais pessoas – letradas ou não – têm medo da clareza, da racionalidade, da ciência e da tecnologia. E esta é uma tarefa que muitas vezes nos leva a descobertas reveladoras e esclarecedoras.

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Cético desde que me entendo por gente, quando comecei a questionar se Deus tinha face. Headbanger nas horas vagas, técnico em informática - buscando aperfeiçoamento - e em dúvida quanto a seguir carreira pública, acadêmica ou privada. Ávido autodidata. Interessado por filosofia da ciência (com ênfase às ciências naturais), história da filosofia, história da ciência, filosofia política, política geral, economia, direitos humanos, psicologia, psiquiatria (incluindo forense) e cultura em geral. Crítico das ditas "modas anti-intelectuais" tais como as pseudociências e correntes filosóficas como o existencialismo, a fenomenologia, diversas vertentes de idealismo, as correntes de pensamento "pós-modernas" e culturas comerciais. Buscador de um mundo moderno, mais justo e igualitário através da ciência e da tecnologia. Onde o charlatanismo e o "macaneo", que em espanhol platino é gíria para "embuste", ou mesmo, "delírio", não encontram lugar.