Altruísmo Eficaz: uma introdução para humanistas desconfiados

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O altruísmo eficaz pode mudar o mundo?

Texto escrito por Fernando Moreno, em colaboração com Leo H. M. Arruda. Veiculado no Universo Racionalista a pedido dos autores.

Quando ouvimos a palavra altruísmo, geralmente uma ou outra imagem nos vem à mente: talvez cenas de pessoas (quase sempre crianças) morrendo de fome na África, voluntários atuando em meio a catástrofes, pedidos de doações para o combate ao câncer, referências como Dalai Lama ou Santa Teresa, etc. Quase todas as técnicas de marketing que buscam promover caridade apelam diretamente para nosso lado emocional.

Bastante conectados ao altruísmo estão os conceitos de filantropia e caridade. Essa última deriva do latim caritas (afeto, amor), que tem origem no vocábulo grego chàris (graça), e foi escolhida pela Igreja Católica como uma das sete virtudes. Não à toa, portanto (supondo que o leitor dessas linhas é ocidental como eu), a ideia de altruísmo costume vir acompanhada de uma rede de outros conceitos da moral cristã, que, por sua vez, irão disparar uma série de outros gatilhos cognitivos também fortemente emocionais. Sendo assim, não acho que eu esteja exagerando ao supor que você, leitor humanista, já começou a leitura com alguma desconfiança desde a primeira palavra que abre esse artigo: altruísmo.

Mas proponho aqui suspendermos julgamentos prévios e colocar toda essa “rede de conceitos” de lado, por um minuto apenas, enquanto desenvolvemos o argumento do altruísmo eficaz. E se esse tópico, tratado com extrema emotividade, passasse a ser tratado com extrema racionalidade? E se, ao invés de simplesmente seguir seus apelos emocionais, as pessoas começassem a orientar seus comportamentos altruístas à luz das melhores evidências científicas? E se, ao invés das imagens de dor e sofrimento sem fim, passássemos a abordar essas situações como problemas a serem de fato estudados e solucionados? O Altruísmo Eficaz propõe justamente essa abordagem. Diante deste tratamento “incomum”, não é estranho que grande parte da comunidade de “altruístas eficazes” seja composta de racionalistas e humanistas, tendo sua divulgação ganhado força em comunidades como LessWrong. Também não surpreende que, de acordo com o último censo de “altruístas eficazes”, 87% deles se identificam como ateus, agnósticos ou não-religiosos.

Se você acha que é ao menos possível e minimamente interessante rever aquilo que entendemos como altruísmo sob essa nova abordagem, racionalista e cientificamente informada, convido a continuar a leitura dos parágrafos seguintes – contendo seu exército de objeções por alguns minutos.

Explicando os conceitos

Sendo o Altruísmo Eficaz além de uma ideia também um movimento (e portanto uma forma de ativismo político/social), não há uma concepção única ou consensual de todas as suas características. Peter Singer, importante filósofo e divulgador do conceito do altruísmo eficaz, prefere uma abordagem que não desconsidere totalmente o lado emocional envolvido no altruísmo. Para ele, o altruísmo eficaz: “une o coração à cabeça. Com o coração, é claro, você sente. Você sente a empatia pela criança. Mas é realmente importante usar a cabeça para ter certeza que aquilo que você está fazendo é efetivo e bem-direcionado”.

De todo modo, podemos definir o AE como a tentativa de “aplicar evidências e a razão para encontrar as maneiras mais eficazes para melhorar o mundo. Os altruístas eficazes buscam considerar todas as causas e ações a fim de agir da maneira que traga o maior impacto positivo”. Queremos, portanto, saber onde teremos o melhor uso do tempo e dinheiro que investirmos. Em outras palavras: como podemos ter o maior impacto para cada centavo gasto?

No Brasil, um cão guia custa cerca de 25 mil reais para ser treinado ou importado. Contudo, custa de 1,50 a 34 reais curar uma pessoa de tracoma, uma doença que causa cegueira, num país em desenvolvimento.  Faça as contas e você poderia, com os mesmos 25 mil reais, prevenir a cegueira de 700 a 16 mil pessoas.

Observando ainda que o cão-guia não cura o cego, mas tão somente o auxilia em seu dia-a-dia. Claro que, em um mundo ideal, gostaríamos de atender a ambas as necessidades. Não teríamos nem pessoas sofrendo de tracoma e todos cegos que precisassem de cães-guia teriam o seu. Contudo, como bem sabemos, não vivemos em um mundo ideal e precisamos priorizar nossas escolhas. Pensando racionalmente, se você tivesse 25 mil reais para doar, qual decisão você tomaria?

Parece conversa de economista? Sim, o AE se serve de um amplo arsenal de instrumentos técnicos e conceituais de diversas áreas para auxiliar na mensuração e priorização de causas, intervenções e investimento de recursos, juntando filósofos, economistas, cientistas sociais, empreendedores, dentre outros. Disso decorre que os debates dentro da comunidade trazem diversos pontos de vista que se confrontam e evoluem de modo interessante e surpreendente para tratar de temas diversos como eliminar a pobreza global, erradicar epidemias, prevenir riscos globais ou reformar leis de uso do solo nas grandes cidades. Para ter uma visão geral de quais seriam as principais questões globais recomendo iniciar por este artigo.

Organizações eficazes

Diante disso tudo, você pode estar pensando: E afinal, quais são as organizações mais eficazes na tentativa de solucionar os principais problemas globais? Bem, como você deve imaginar, também não há uma resposta simples para essa questão. Primeiramente, porque há uma pergunta específica que nenhum estudo poderá responder por você: O que você valoriza? Quais coisas você acha mais importantes?

Por exemplo: veganos tem muita preocupação em reduzir o sofrimento animal. Por conta disso, há todo um debate sobre quais os meios mais eficazes para combater esse sofrimento. A Animal Charity Evaluators busca aplicar os princípios do altruísmo eficaz a fim de determinar as melhores organizações nesse sentido. Entretanto nem todas as pessoas dão a mesma importância ou peso ao sofrimento animal, preferindo assim contribuir para outras causas.

Na questão humanitária da qualidade de vida global, há uma lista de organizações atualmente recomendadas pela GiveWell, uma avaliadora de organizações considerada uma das principais referências do movimento. Entre elas estão:

A Against Malaria Foundation (AMF), organização responsável pela distribuição de redes antimosquito tratadas com inseticidas que previnem a malária. Cada rede custa aproximadamente 2,50 dólares para serem produzidas e cerca de 5 dólares quando inclusos todos custos administrativos, de transporte, instrução de uso, etc. A malária é uma doença com grande impacto social e econômico, podendo inclusive levar à morte. As estimativas são de que uma vida é salva a cada 3282 dólares doados em redes!

A Schistosomiasis Control Initiative (SCI) dedicada ao trabalho de vermifugação (deworming), financiando programas governamentais de combate a verminoses, fornecendo apoio consultivo, monitorando e avaliando tais programas. Estima-se que o custo por criança imunizada seja de 1,19 dólares, com um impacto de difícil mensuração mas extremamente significativo no ganho de qualidade de vida, desempenho escolar, entre outros. O programa Deworm the World Initiative, da organização Evidence Action, conduz trabalho similar e também consta na relação das organizações mais eficazes.

Por fim, temos a GiveDirectly, que realiza transferência direta de dinheiro, sem cobrar qualquer tipo de contrapartida! Eles trabalham atualmente com famílias pobres do Quênia, tendo recentemente expandido para mais alguns países. Com rigor científico, experimentam as abordagens as mais diversas, por exemplo: que tipo de gastos são realizados quando entregamos uma renda mensal, digamos de 22 dólares, quando comparado a dar de uma só vez uma única contribuição de 700 dólares?

No caso do experimento mensal, bastam 25 dólares para financiar uma pessoa, sendo que 22 dólares são entregues diretamente para a pessoa, enquanto 3 dólares são usados para cobrir todas as despesas administrativas, dos experimentos, etc. O próximo projeto deles se comprometerá a dar uma renda mensal neste valor por 12 anos (!), para cada indivíduo, sem excluir nem uma única pessoa dos vilarejos selecionados (serão depois comparados a vilarejos de controle, que não receberão ajuda) a fim de mensurar os impactos de longo prazo de um programa desse tipo.

Particularmente, tenho especial interesse por essa organização por conta de suas implicações para além da ajuda imediata: com sua abordagem a GiveDirectly promove estudos concretos que também acabam sendo úteis no debate sobre outros programas de transferência incondicional de renda ou, como são mais conhecidos no Brasil, programas de renda básica, renda mínima ou renda cidadã.

Para encerrar, é interessante notar que a The Life You Can Save possui um leque mais amplo de organizações recomendadas (incluindo todas citadas anteriormente) que talvez você tenha interesse em conferir.

E no Brasil?

O Altruísmo Eficaz se propõe a ser um movimento global e convida a todos a pensar nos problemas do mundo para além de fronteiras. O Brasil tem problemas sociais graves, contudo eles já são bem menores do aquele de países como Quênia ou Nigéria. Discutimos esses e outros aspectos de um modo mais detalhado nesse artigo.

Ainda assim, caso você considere muito importante priorizar iniciativas dentro do Brasil, quaisquer que sejam os motivos, temos a recém formada doebem: seu objetivo é conduzir o mesmo trabalho realizado pela GiveWell e a The Life You Can Save, recomendando organizações brasileiras de eficácia comprovada. Atualmente a doebem recomenda três organizações: o Saúde Criança, que faz uma intervenção ampla a fim de ajudar famílias de crianças com doenças crônicas a se estruturarem social e financeiramente, a Renovatio, que distribui óculos de baixíssimo custo, e o Caviver, que realiza cirurgias para prevenção da cegueira infantil. As três organizações atuam em intervenções bem amparadas por estudos de impacto e apresentam bons resultados.

O movimento de Altruísmo Eficaz propriamente dito tem diversos núcleos incipientes Brasil a fora e um site que busca unificar todos os esforços da comunidade lusófona.  E temos também os grupos locais, onde você poderá nos encontrar, conhecer pessoalmente, tirar dúvidas e participar das iniciativas para divulgação do AE, se assim desejar. Os grupos locais também costumam se reunir para discutir tópicos de interesse que não sejam estritamente relacionados ao AE mas que venham a interessar a todos (vale por um café filosófico rs). E caso você seja de outra cidade, participe do grupo de discussão geral. Quem sabe não encontra mais pessoas da sua cidade querendo montar um grupo local?

Por fim, há também um app feito por brasileiros envolvidos com o Altruísmo Eficaz. Trata-se do Ribon. Com esse app você pode realizar doações lendo reportagens. Ao fim da reportagem há a propaganda da patrocinadora que banca as doações. O app não é irritante pois limita-se a apenas uma notificação diária.

Obs.: As ideias apresentadas nesse artigo expressam tão somente a opinião do autor e não são necessariamente endossadas pelas organizações citadas ou pela comunidade brasileira de Altruísmo Eficaz.

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