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Após a extinção em massa mais mortal da história, a vida oceânica pode ter florescido

Traduzido por Julio Batista
Original de Nikk Ogasa para o Science News Magazine

Após a mais severa extinção em massa conhecida na história da Terra, vibrantes ecossistemas marinhos podem ter se recuperado em apenas um milhão de anos, relataram pesquisadores na revista Science no dia 10 de fevereiro. Isso é milhões de anos mais rápido do que se pensava anteriormente. A evidência, que se encontra em um tesouro diverso de fósseis primitivos descobertos perto da cidade de Guiyang, no sul da China, pode representar as primeiras populações fundacionais dos ecossistemas oceânicos de hoje.

A história convencional é que o oceano ficou devastado por milhões de anos após essa extinção em massa, disse o paleontólogo Peter Roopnarine, da Academia de Ciências da Califórnia em São Francisco, EUA, que não participou da pesquisa. “Bem, isso não é verdade. O oceano estava muito vivo.”

A Grande Morte, ou extinção em massa do Permiano-Triássico, ocorreu há cerca de 251,9 milhões de anos, no final do Período Permiano, após uma série de grandes erupções vulcânicas.

“Os oceanos aqueceram significativamente e há evidências de acidificação, desoxigenação [causando zonas mortas generalizadas], bem como envenenamento”, disse Roopnarine. “Havia muitos elementos tóxicos, como enxofre, entrando em partes do oceano.”

A vida nos mares sofreu. Mais de 80% das espécies marinhas foram extintas. Alguns pesquisadores até propuseram que níveis tróficos inteiros – ramos na cadeia alimentar de um ecossistema – podem ter desaparecido.

Descobrir quanto tempo a vida levou para se recuperar totalmente após todas essas perdas tem sido um desafio. Em 2010, pesquisadores que estudavam fósseis da biota de Luoping na China propuseram que ecossistemas marinhos complexos se recuperaram totalmente em 10 milhões de anos. Mais tarde, outros achados fósseis, como a biota de Paris no oeste dos Estados Unidos e a biota de Chaohu na China, levaram os cientistas a sugerir que os ecossistemas marinhos se restabeleceram em apenas 3 milhões de anos.

Então, em 2015, uma descoberta reduziu a diferença novamente. O paleontólogo Xu Dai, então estudante de graduação na Universidade de Geociências da China em Wuhan, estava estudando rochas do início do Triássico durante uma viagem de campo perto da cidade de Guiyang, quando abriu um pedaço de xisto negro. Dentro da rocha, ele descobriu um fóssil surpreendentemente bem preservado do que mais tarde seria identificado como uma lagosta primitiva.

A condição imaculada do artrópode desencadeou uma série de viagens de retorno ao local. De 2015 a 2019, Dai, agora na Universidade da Borgonha em Dijon, França, e seus colegas descobriram uma enorme variedade de vida fossilizada: peixes predadores do tamanho de bastões de beisebol, amonoides em conchas com espirais, conodontes semelhantes a enguias, camarões jovens, esponjas, bivalves, cocô fossilizado etc.

Os celacantos (um mostrado fossilizado aqui), um tipo de peixe ósseo, são os maiores macrofósseis já encontrados na biota de Guiyang. (Créditos: Dai et al./Science, 2023)

E mais descobertas continuaram chegando. Tanto sob como dentro da biota de Guiyang, Dai e seus colegas descobriram leitos de cinzas vulcânicas. Uma análise das quantidades de urânio e chumbo nas cinzas revelou que a biota de Guiyang continha fósseis de aproximadamente 250,7 a 250,8 milhões de anos atrás. A datação foi apoiada pelos tipos de fósseis encontrados e por uma análise das diferentes formas de carbono nas rochas.

Encontrar uma relíquia de vida dessa idade sugere que os ecossistemas marinhos se recuperaram rapidamente após a Grande Morte, em apenas 1 milhão de anos, disse Dai.

Alternativamente, pode indicar que o evento de extinção não conseguiu eliminar níveis tróficos inteiros, disse o paleontólogo William Foster, da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, que não participou do estudo. “Você tem um mundo realmente estressante ambientalmente, mas alguns antigos ecossistemas marinhos sobreviveram.”

Independentemente disso, parece claro que esses ecossistemas eram resistentes. Devido ao movimento das placas tectônicas, a comunidade preservada na biota de Guiyang estava localizada nos trópicos durante o início do Triássico. Naquela época, a temperatura da superfície do mar era de quase 35⁰ Celsius, e pesquisas anteriores sugeriram que muitos organismos podem ter migrado para escapar do calor. Mas a descoberta da biota de Guiyang desafia isso, disse Foster. As criaturas marinhas “estavam tolerando isso de alguma forma, estavam se adaptando”.

De acordo com Dai, os fósseis podem ser evidências de que as raízes dos ecossistemas marinhos de hoje surgiram logo após a Grande Morte. “Esses grupos são parentes de peixes modernos, lagostas e camarões; seus ancestrais”, disse ele.

Mas Roopnarine é cético. Resta ver exatamente como a biota de Guiyang se conecta aos ecossistemas de hoje, disse ele. O conjunto fóssil pode representar um coletivo efêmero de vida, em vez de uma comunidade estável, acrescentou ele, apontando que amonoides e conodontes foram extintos

O trabalho futuro ajudará a resolver as muitas questões desenterradas com a biota de Guiyang, disse Dai. Ele e seus colegas planejam voltar ao campo neste verão do hemisfério norte pela primeira vez desde 2019. Quando perguntado se ele manterá os olhos abertos para outra lagosta, ele responde: “Claro”.

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Julio Batista

Sou Julio Batista, de Praia Grande, São Paulo, nascido em Santos. Professor de História no Ensino Fundamental II. Auxiliar na tradução de artigos científicos para o português brasileiro e colaboro com a divulgação do site e da página no Facebook. Sou formado em História pela Universidade Católica de Santos e em roteiro especializado em Cinema, TV e WebTV e videoclipes pela TecnoPonta. Autodidata e livre pensador, amante das ciências, da filosofia e das artes.