Pular para o conteúdo

Aranhas no espaço revelam coisas estranhas que acontecem com teias na microgravidade

Por Jacinta Bowler
Publicado na ScienceAlert

Com teias impressionantemente grandes e cores impressionantes nas aranhas fêmeas, as Araneidae não são apenas legais – elas também têm sido uma ajuda incrível para a ciência, com sua seda sendo investigada como um biomaterial para reconstruir nervos.

Agora, um estudo envolvendo aranhas orbeiras (Trichonephila clavipes) no espaço revelou que esses aracnídeos inteligentes podem se orientar com a luz quando não há gravidade para lhes dizer qual é o caminho “para cima”.

Os cientistas realizaram inúmeras experiências de gravidade de aranhas ao longo das décadas. As aranhas tiveram pequenos pesos presos a elas, foram colocadas em uma centrífuga, foram colocadas para construir suas teias horizontalmente (relatando que as aranhas não ficaram muito impressionadas com isso) e giraram continuamente enquanto tentavam construir uma teia.

“Essas observações e experimentos sugerem fortemente que a gravidade é um fator importante durante a construção da teia, mas não podem responder às perguntas de se as aranhas podem construir teias em gravidade zero e, se sim, como o ambiente de gravidade zero afetará a teia concluída”, escreveu uma equipe de pesquisadores da Suíça e dos Estados Unidos em um novo estudo.

“Essas perguntas só podem ser respondidas trazendo aranhas para um ambiente de gravidade zero, ou seja, trazendo aranhas para o espaço”.

O estudo recém-publicado não é a primeira vez que aranhas são enviadas ao espaço, mas é a primeira vez que obtemos resultados tão conclusivos, porque experimentos anteriores com aranhas no espaço tiveram alguns contratempos.

Em 1973, duas aranhas-de-jardim europeias (Araneus diadematus) foram para o espaço na primeira estação espacial americana Skylab, como parte da competição de experimentos para estudantes do Skylab da NASA. Nenhuma fotografia foi tirada de todas as teias, e as aranhas não receberam comida ou água – então as irregularidades da teia podem ser devido à perda de condicionamento.

Em 2008, um experimento na Estação Espacial Internacional (EEI) usou duas espécies de aranhas orbeiras – uma para o estudo e outra em uma câmara separada como auxiliar – e desta vez, os cientistas as mantiveram com alimentos, na forma de colônias de mosca-das-frutas.

Mas no que só pode ser descrito como o pior cenário, a aranha auxiliar escapou para a câmara principal, o que significava que as duas teias interferiram uma na outra, e então as moscas-das-frutas se multiplicaram muito rapidamente para as duas aranhas manterem a população sob controle.

De acordo com os pesquisadores, “as larvas e pupas da mosca-das-frutas começaram a cobrir a janela de observação cerca de duas semanas após o lançamento. Depois de aproximadamente um mês, elas cobriram completamente a janela de visualização, tornando impossível ver as aranhas”.

Mas os pesquisadores conseguiram uma segunda chance para seu experimento em 2011 e a aproveitaram. Desta vez, não houve fugas de aranhas, fotografias perdidas ou proliferação de mosca-das-frutas.

Em vez disso, uma fotografia das teias espirais das orbeiras era tirada a cada cinco minutos, enquanto as luzes no alto acendiam e apagavam a cada doze horas para simular a luz do dia.

Embora tenha ocorrido um acidente (dois dos quatro supostos machos eram fêmeas), os resultados do experimento de dois meses na EEI foram incrivelmente bem-sucedidos.

As duas aranhas que foram enviadas para o espaço eram bastante resistentes em suas novas casas na microgravidade: o macho sobreviveu à gravidade zero por 65 dias e ainda estava vivo depois de retornar à Terra, enquanto a fêmea construiu 34 teias e fez ecdise três vezes – ambas são registros espaciais.

Mas foi o uso das luzes, que estavam todas apontando “para baixo”, que realmente levou a uma descoberta surpreendente.

“Como na gravidade normal, e independentemente de as luzes estarem acesas ou não, as aranhas consistentemente construíram teias assimétricas e se voltaram para baixo quando estavam no centro, concluímos que a gravidade é o guia de orientação mais relevante para as aranhas”, escrevem os pesquisadores.

“Concluímos ainda que o estímulo visual da direção da luz pode servir como um guia de orientação na ausência de gravidade”.

Quando a gravidade está envolvida, as aranhas orbeiras ficam felizes em construir suas teias assimétricas e se acomodam voltadas para baixo à espera de uma presa. No espaço, suas teias eram mais simétricas, porém quando havia luz, as aranhas a usavam como ponto de referência e construíam suas teias como se a luz fosse o oposto de ‘para baixo’.

“Não teríamos imaginado que a luz desempenharia um papel na orientação das aranhas no espaço”, disse o biólogo conservacionista da Universidade da Basileia, Samuel Zschokke.

“Tivemos a sorte das lâmpadas estarem fixadas no topo da câmara e não em vários lados. Caso contrário, não teríamos sido capazes de descobrir o efeito da luz na simetria das teias em gravidade zero. […] O fato das aranhas terem um sistema auxiliar para orientação como esse parece surpreendente, já que nunca foram expostas a um ambiente sem gravidade no curso de sua evolução”.

Para descobrir se isso pode ser o caso – e o que isso significa para as aranhas do nosso planeta – parece que vamos precisar de mais ‘aracnautas’.

A pesquisa foi publicada na The Science of Nature.

Julio Batista

Julio Batista

Sou Julio Batista, de Praia Grande, São Paulo, nascido em Santos. Professor de História no Ensino Fundamental II. Auxiliar na tradução de artigos científicos para o português brasileiro e colaboro com a divulgação do site e da página no Facebook. Sou formado em História pela Universidade Católica de Santos e em roteiro especializado em Cinema, TV e WebTV e videoclipes pela TecnoPonta. Autodidata e livre pensador, amante das ciências, da filosofia e das artes.