Aristóteles, Kant e outros: as piores ideias de 5 grandes filósofos

Da cosmologia preguiçosa de Aristóteles ao racismo "científico" de Immanuel Kant, grandes mentes não são imunes a péssimas ideias.

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(Créditos: World Wide Kitsch)

Traduzido por Julio Batista
Original de Scotty Hendricks para o Big Think

Alguns filósofos são tão grandes que suas ideias influenciarão o pensamento humano para sempre. No entanto, isso não significa que eles eram gênios o tempo todo. Aqui, examinamos as piores ideias de cinco dos maiores filósofos do mundo.

Platão: sexismo confuso

A filosofia ocidental foi descrita como uma “série de notas de rodapé para Platão”. Sua influência no pensamento humano é difícil de exagerar. Ele escreveu sobre quase tudo e suas ideias influenciaram uma ampla gama de campos, do cristianismo à química.

A obra mais conhecida de Platão é provavelmente A República, na qual seu professor Sócrates define a justiça em si e um sistema justo. Ao longo do caminho, ele descreve a cidade perfeita, a natureza da alma e a história de um anel mágico que torna o usuário invisível. Embora sua cidade utópica seja um pesadelo totalitário, qualquer um que se mostre capaz poderá um dia liderá-la como um rei-filósofo – incluindo mulheres. Ele até argumentou que a educação deve ser idêntica para homens e mulheres se quiserem usar as mesmas ferramentas e fazer os mesmos trabalhos.

Esse feminismo, algo que na Grécia antiga era extremamente radical, é ampliado em sua obra Leis. Nesse texto, ele propõe que as almas — que são a parte importante do indivíduo — não têm gênero. Como resultado, ao lidar com a parte racional de uma pessoa, homens e mulheres devem ser razoavelmente iguais. Claro, as pessoas não são igualmente inteligentes, mas o sexo biológico não é um fator.

No entanto, suas obras são inconsistentes no que diz respeito à dignidade e à igualdade das mulheres. Isso pode ser encontrado até mesmo em A República onde, não muito longe de onde ele escreve que as mulheres são capazes de governar a cidade perfeita, ele argumenta que as mulheres parecem ser piores do que os homens na maioria das atividades. Em Timeu, uma continuação de A República que discute o mundo físico e apresenta a história da Atlântida, Platão argumenta que homens covardes são reencarnados como mulheres após a morte devido ao seu comportamento – dificilmente uma visão lisonjeira. Em suas obras, ele também geralmente considera as mulheres reservadas, mais fracas, menos importantes e emocionais. Em uma nota mais sutil, Platão geralmente apenas descreve Sócrates como tendo debates com homens.

Emily Hulme Kozey, da Universidade de Melbourne, sugere que Platão poderia ter observado que as mulheres tendiam a ter menos realizações do que os homens na Grécia antiga e simplesmente confundiu o sexismo ateniense com tendências naturais. Em um paper publicado na Feminist Studies, Christine Garside Allen sugere que Platão pode ser visto como consistente quando o foco é deslocado para a imortalidade da alma e as diferenças entre machos, fêmeas, homens e mulheres são vistas como resultado de suas encarnações. Em ambos os casos, o resultado líquido ainda é bastante confuso.

Aristóteles: cosmologia preguiçosa

Aluno brilhante de Platão, tutor de Alexandre, o Grande, e autor do primeiro livro decente sobre lógica, Aristóteles tem um currículo que poucos filósofos podem igualar. Enquanto muitas de suas ideias foram esquecidas, algumas de suas ideias ainda têm seus defensores.

Uma ideia que não tem nenhum defensor atualmente é sua visão do cosmos. Aristóteles colocou a Terra no centro do Universo, argumentou que todos os planetas eram objetos perfeitos e sem defeitos, e que esses objetos se moviam ao redor da Terra em círculos perfeitos em seus próprios planos celestes fixos.

Obviamente, Aristóteles viveu muito antes da astronomia moderna, mas seu raciocínio era particularmente pobre e mero achismo. Aristóteles determinou que a Terra era imóvel e que tudo o mais deveria se mover ao seu redor, observando as localizações das estrelas em diferentes pontos do ano. Ele raciocinou que, se a Terra estivesse se movendo, as estrelas pareceriam mudar ligeiramente de posição no céu à medida que a Terra se movia, um fenômeno conhecido como paralaxe.

Ele estava ciente de que as estrelas pareceriam não se mover se estivessem muito distantes de uma Terra em movimento. No entanto, ele descartou a noção de que o Universo era tão grande com base em nada. Aristóteles também afirmou que a Terra é o único lugar com vida no Universo porque está no centro e, portanto, é especial. Este é um raciocínio circular: a conclusão de que a Terra é especial é usada para provar que a Terra é especial.

Immanuel Kant: racismo “científico”

É difícil exagerar a importância de Immanuel Kant na filosofia. Ele escreveu sobre praticamente todos os tópicos disponíveis, resolveu grandes problemas de metafísica e epistemologia, e sua ética serve de base para muitas ideias modernas. No entanto, ele está nesta lista por um motivo, e esse motivo é o racismo “científico”.

Kant baseou seu argumento na teoria médica dos humores, a ideia de que existem quatro fluidos vitais – sangue, fleuma, bile amarela e bile negra – que as doenças eram frequentemente causadas por seu desbalanceamento, e que a temperatura e o clima poderiam influenciar esses fluidos. Com base nesses humores, Kant dividiu o mundo em quatro raças. Ele argumentou que os brancos gozavam de muitas vantagens e que os nativos-americanos e africanos estavam destinados à escravidão. Ele se opôs ao casamento inter-racial, pois argumentou que só acabaria mal para os brancos, e refletiu sobre como a superioridade da raça branca a levaria a sobreviver por mais tempo.

Embora isso não fosse totalmente inédito — já existia uma teoria da personalidade baseada nos humores —, a noção de Kant era nova e ia além de qualquer aplicação ou reinterpretação do pensamento humoral existente. Perto do fim de sua vida, as posturas de Kant mudaram, e ele começou a considerar a ideia de diferentes raças terem diferentes status morais, embora ainda fosse bastante tendencioso em favor dos europeus. Ele também começou a criticar o colonialismo.

John Stuart Mill: imperialismo administrado por empresas privadas

John Stuart Mill foi um filósofo inglês, membro do Parlamento e economista durante o século XIX. Ele é bem conhecido por seu utilitarismo e compromisso com os ideais liberais.

Talvez em sua obra mais popular, Sobre a Liberdade, ele defende a importância da liberdade individual do Estado e da dominação social. Só isso, ele argumenta, pode permitir o pleno desenvolvimento do indivíduo e o cultivo do gênio. Ele faz argumentos semelhantes em Considerations on Representative Government, mas eles são aplicados a liberdades políticas e não sociais. Sem autogoverno e liberdade para escolher um caminho de vida, ele argumenta que o indivíduo estagna e não pode se desenvolver. Uma sociedade dinâmica exige que as pessoas tenham liberdade e democracia.

No entanto, ele não estende totalmente essa noção a países e povos que ele achava que não estavam preparados para isso. Por exemplo, em Sobre a Liberdade ele argumenta que alguns países deveriam ser governados com um “despotismo benevolente” por estrangeiros mais esclarecidos, já que eram incapazes de se autogovernar. Ostensivamente, isso os guiaria a um ponto no qual eles poderiam governar a si mesmos. Ele faz observações semelhantes em Considerations on Representative Government, onde sugere explicitamente que a China precisa de regras estrangeiras para colocá-la de volta nos trilhos do progresso.

Embora Mill se opusesse fortemente à escravidão nos Estados Unidos, ele era mais ambivalente sobre sua prática em outros lugares. Além disso, como um oponente da ideia de que o Estado deveria fazer coisas que os indivíduos também poderiam fazer, ele achava que seu antigo empregador, a Companhia das Índias Orientais, deveria governar a Índia em vez do governo britânico. Mais tarde na vida, ele criticou algumas das operações da empresa e questionou o colonialismo britânico.

Gottfried Leibniz: Vivemos no melhor dos mundos possíveis

Gottfried Leibniz, que co-inventou o cálculo, idealizou as calculadoras mecânicas e descreveu projetos para computadores, tinha uma solução para o problema do mal: nós habitamos o melhor de todos os mundos possíveis.

Seu argumento era essencialmente que um Deus onipotente e onisciente poderia criar qualquer Universo que quisesse. Se esse Deus também for perfeitamente bom – como aquele em que Leibniz acreditava – Deus escolheria o melhor Universo possível para fazer. Como resultado, este Universo deve ser o melhor Universo que pode existir.

Além disso, Leibniz descreveu o mal como a ausência do bem. Ele postulou que qualquer mal que exista é necessário para que o bem exista. Por exemplo, ele argumentou que o contraste entre o bem e o mal nos torna mais capazes de apreciar o bem e, assim, o amplifica. Se houvesse menos mal, teríamos percebido menos bem no mundo. Assim, embora o mundo tenha o mal, ele também deve ter o máximo de bem possível logicamente.

Não demorou muito para que as pessoas percebessem que há muito sofrimento no mundo para que esse argumento pareça sensato. Voltaire, o extraordinário filósofo iluminista francês, caricaturizou a ideia de Leibniz em seu livro O Cândido: ele apresenta um grupo de otimistas suportando dificuldades após dificuldades enquanto ainda fingem que Leibniz estava certo. Outros filósofos também contra-argumentaram. O filósofo cristão Alvin Plantinga apontou que Deus poderia ter mandando mais pessoas justas, melhorando o mundo a baixo custo. Bertrand Russell argumentou que o argumento de Leibniz é contraditório, pois implica que o mal é tanto o bem quanto a falta do bem.