As 4 causas do ateísmo – segundo a ciência

0
160

Embora muita gente ache que os ateus são pessoas que se decepcionaram com Deus, parece não haver evidências científicas que corroborem isso. No artigo intitulado “As origens da descrença religiosa” – publicado em 2013 na revista Trends in Cognitive Sciences –, os pesquisadores Ara Norenzayan e Will Gervais concluíram que existem pelo menos 4 variáveis que determinam o desenvolvimento do ateísmo. Eles trabalharam com a noção de que os ateus são pessoas que descreem em seres sobrenaturais em geral (e.g., deuses, anjos e demônios), e revisaram diversos estudos que investigaram as causas da descrença.

A primeira causa mencionada por Norenzayan e o Gervais é a dificuldade que algumas pessoas têm de imaginar esses seres sobrenaturais.

A despeito de esses seres supostamente não terem corpos físicos, eles possuiriam capacidades psicológicas como pensar, desejar e sentir emoções. Isso significa que, de certa forma, anjos e demônios seriam como “mentes desencarnadas”. E isso implica que, se uma pessoa for pouco habilidosa pra compreender os pensamentos, os desejos e as emoções dos outros, ela vai acabar tendo mais obstáculos pra imaginar que existem “espíritos pensantes” perambulando por aí. Seria como esperar que uma pessoa que tem sérias dificuldades visuais conseguisse ler perfeitamente as letras miúdas de um contrato.

Por exemplo, um estudo verificou que pessoas com menos capacidade de mentalização, que é essa habilidade de compreender a mente dos outros, são menos inclinadas a crer em Deus (Willard & Norenzayan, 2013). Há também evidências de que homens e pessoas com autismo tendem a ser menos crentes (Caldwell-Harris, Murphy, Velazquez & McNamara, 2011), o que ocorreria, em parte, porque esses grupos tendem a ter um desempenho pior em situações que requerem mentalização (Norenzayan, Gervais & Trzesniewski, 2012).

Tal como pessoas que compreendem mal a teoria da evolução são mais propensas a rejeitá-la (Weisberg, Landrum, Metz & Weisberg, 2018), pessoas menos capazes de compreender a mente dos outros são mais suscetíveis a rejeitar que existem “mentes fantasmagóricas” num universo paralelo.

A segunda causa do ateísmo é o que os pesquisadores chamaram de “segurança existencial”.

Não é de hoje que existe a noção de que as pessoas tentam se aproximar de Deus apenas quando estão em apuros, né? Em outras palavras, quanto mais sofremos, mais temos motivação pra nos perguntar se existe alguém poderoso “do lado de lá” pra nos ajudar. Por exemplo, há evidências de que as pessoas se tornam mais crentes ou religiosas após refletirem sobre a própria morte (Vail, Arndt & Abdollahi, 2012), caso sobrevivam a um terremoto (Sibley & Bulbulia, 2012), caso passem por experiências de falta de controle ou previsão (Kay, Moscovitch & Laurin, 2010; Rutjens, Pligt & Harreveld, 2010) e caso levem uma vida mais solitária (Epley, Akalis, Waytz & Cacioppo, 2008)

Pelo contrário, um estudo verificou que, quanto melhores eram os indicadores de “segurança social” de um país, menos os seus habitantes faziam orações (Rees, 2009). Exemplos desses indicadores eram uma melhor distribuição de renda, uma expectativa de vida mais alta e taxas menores de mortalidade infantil, de corrupção e de homicídio. Como concluíram o Norenzayan e o Gervais, “onde a vida é segura e previsível, as pessoas são menos motivadas a recorrer aos deuses para lhes socorrer”.

A terceira causa do ateísmo é a convivência com pessoas que não são muito crentes ou religiosas.

Aqui, a ideia é que a crença em seres sobrenaturais é aprendida socialmente, ou seja, conviver com os nossos pais (Hayes & Pittelkow, 1993), avós (Bengtson, Copen, Putney & Silverstein, 2009) e amigos (Patacchini & Zenou, 2016) exerce uma influência sobre isso – principalmente se eles forem muito devotos. Por exemplo, há evidências de que crianças que estudam em escolas não religiosas e que não vão à igreja com seus pais são mais propensas a duvidar de histórias sobre milagres ou magia (Corriveau, Chen & Harris, 2015). Além disso, há alguns achados sugestivos de que, quanto menos um casal se envolvia com sua religião quando seus filhos eram crianças, menos elas acreditavam em seres sobrenaturais quando se tornaram adultas (Lanman & Buhrmester, 2016; Turpin, Andersen & Lanman, 2018).

Os pesquisadores também mencionam que pessoas que vivem em países menos religiosos, como aqueles do norte da Europa, têm uma chance maior de se tornarem ateias. Como diz aquele ditado popular – que, apesar das aparências, não está na Bíblia –, “diga-me com quem andas, e eu te direi quem tu és”.

A quarta causa do ateísmo é a nossa propensão a pensar de forma analítica.

Basicamente, o pensamento analítico é um modo de raciocinar mais lento e trabalhoso, mas que nos ajuda a lidar com tarefas novas e a identificar falhas em nossos pensamentos mais rápidos, fáceis e intuitivos. Pra te explicar isso na prática, imagine que uma pequena superfície de um lago está coberta por plantas aquáticas. Como essas plantas se reproduzem muito, essa cobertura dobra de tamanho todo santo dia. Se levassem 48 dias pra essas plantas cobrirem todo o lago, quanto tempo elas gastariam pra cobrir apenas a metade desse lago?

De forma rápida e intuitiva, muitas pessoas respondem “24”, que é a metade de 48. Contudo, se a gente para pra analisar, descobrimos que a resposta correta é “47 dias”. Acontece que pessoas mais analíticas desconfiam mais de suas intuições, e essa desconfiança pode acabar sendo aplicada aos assuntos religiosos. Por exemplo, uma vez que somos cercados por coisas complexas que foram criadas por nós – como um relógio ou um celular–, então… nossa intuição diz que, como também somos muito complexos, devemos também ter sido criados por um ser inteligente. Por outro lado, se pensarmos bem, não temos provas convincentes disso, e tem sido cada vez mais corroborada a teoria de Darwin sobre as nossas origens evolutivas – a qual descarta o papel de um Criador. Deu pra entender, né?

Pois é, e há evidências de que, quanto mais somos “pensadores analíticos”, menos acreditamos em Deus (Pennycook, Ross, Koehler & Fugelsang, 2016); que evolucionistas apresentaram um desempenho melhor em uma tarefa de raciocínio analítico do que criacionistas (Gervais, 2015); que ateus e agnósticos pontuam mais em testes desse tipo do que religiosos (Pennycook, Ross, Koehler & Fugelsang, 2016); e, curiosamente, que pessoas com um estilo de raciocínio mais analítico são menos suscetíveis a achar que paralisias do sono são experiências sobrenaturais (Cheyne & Pennycook, 2013).

Ainda não está claro por que algumas pessoas são “mais analíticas” do que outras, e é importante apontar que raciocínio analítico não é a mesma coisa que inteligência. Os ateus seriam apenas um pouco mais céticos, ou um pouco mais desconfiados ao lidar com respostas fáceis e intuitivas. E o caso é que as crenças religiosas parecem ter se desenvolvido justamente a partir de respostas fáceis e intuitivas – tal como a ideia controversa de que corpo e mente são coisas substancialmente diferentes.

Pra fechar…

O Norenzayan e o Gervais comentam que, geralmente, essas quatro causas não atuam isoladamente, e sim em interação umas com as outras. Mas é claro que, dependendo da pessoa, uma causa ou outra pode acabar tendo um peso um pouco maior. E é bom também esclarecer que, por exemplo, filhos de ateus podem vir a se tornar religiosos, e nem toda pessoa “fera” no raciocínio analítico vai negar a existência de Deus. As causas que eu mencionei não são uma espécie de “receita infalível”, e sim condições que aumentam a chance, a probabilidade de o ateísmo surgir.

Mas, e só pra brincar um pouco, se você fosse um deus tolerante, amoroso e que curte os ateus, pra criá-los a partir dessa “receita científica”, bastaria misturar aqueles quatro ingredientes, ou seja:

  • Uma capacidade relativamente reduzida pra imaginar o que se passa na cabeça dos outros;
  • Uma boa dose de segurança existencial;
  • Um lar onde a fé não seja algo muito importante; e
  • Uma tendência a desconfiar de crenças intuitivas que podem até parecer verdadeiras, mas que, se a gente parar pra analisar, podem ser apenas “pegadinhas do Malandro”.

***

Pra acompanhar meus vídeos de divulgação científica e reflexões críticas sobre religião e paranormalidade, me siga no Instagram (@prof.danielgontijo) e se inscreva no meu canal do YouTube.

Referências

  • Bengtson, V. L., Copen, C. E., Putney, N. M., & Silverstein, M. (2009). A longitudinal study of the intergenerational transmission of religion. International Sociology, 24(3), 325–345.
  • Caldwell-Harris, C. L., Murphy, C. F., Velazquez, T., & McNamara, P. (2011). Religious belief systems of persons with high functioning autism. Proceedings of the Annual Meeting of the Cognitive Science Society, 33(33), 3362–3366.
  • Cheyne, J. A., & Pennycook, G. (2013). Sleep Paralysis Postepisode Distress. Clinical Psychological Science, 1(2), 135–148.
  • Epley, N., Akalis, S., Waytz, A., & Cacioppo, J. T. (2008). Creating Social Connection Through Inferential Reproduction. Psychological Science, 19(2), 114–120.
  • Gervais, W. M. (2015). Override the controversy: Analytic thinking predicts endorsement of evolution. Cognition, 142, 312–321.
  • Hayes, B. C., & Pittelkow, Y. (1993). Religious belief, transmission, and the family: An australian study. Journal of Marriage and Family, 55(3), 755–766.
  • Kay, A. C., Moscovitch, D. A., & Laurin, K. (2010). Randomness, attributions of arousal, and belief in God. Psychological Science, 21(2), 216–218.
  • Lanman, J. A., & Buhrmester, M. D. (2016). Religious actions speak louder than words: Exposure to credibility-enhancing displays predicts theism. Religion, Brain & Behavior, 7(1) 3–16.
  • Norenzayan, A., & Gervais, W. M. (2013). The origins of religious disbelief. Trends in Cognitive Sciences, 17(1), 20–25.
  • Norenzayan, A., Gervais, W. M., & Trzesniewski, K. H. (2012). Mentalizing deficits constrain belief in a personal God. PLoS ONE, 7(5), 1–8.
  • Patacchini, E., & Zenou, Y. (2016). Social networks and parental behavior in the intergenerational transmission of religion. Quantitative Economics, 7(3), 969–995.
  • Pennycook, G., Ross, R. M., Koehler, D. J., & Fugelsang, J. A. (2016). Atheists and agnostics are more reflective than religious believers: Four empirical studies and a meta-analysis. PLoS ONE, 11(4), 1–18.
  • Rees, T. J. (2009). Is personal insecurity a cause of cross-national differences in the intensity of religious belief? Journal of Religion & Society, 11, 1–24.
  • Rutjens, B. T., Pligt, J. V. D., & Harreveld, F. V. (2010). Deus or Darwin: Randomness and belief in theories about the origin of life. Journal of Experimental Social Psychology, 46(6), 1078–1080.
  • Sibley, C. G., & Bulbulia, J. (2012). Faith after an earthquake: A longitudinal study of religion and perceived health before and after the 2011 Christchurch New Zealand earthquake. PLoS ONE, 7(12), 1–10.
  • Turpin, H., Andersen, M., & Lanman, J. A. (2018). CREDs, CRUDs, and Catholic scandals: Experimentally examining the effects of religious paragon behavior on co-religionist belief. Religion, Brain & Behavior, 9(2), 143–155.
  • Vail, K. E., Arndt, J., & Abdollahi, A. (2012). Exploring the existential function of religion and supernatural agent beliefs among Christians, Muslims, Atheists, and Agnostics. Personality and Social Psychology Bulletin, 38(10), 1288–1300.
  • Weisberg, D. S., Landrum, A. R., Metz, S. E., & Weisberg, M. (2018). No missing link: Knowledge predicts acceptance of evolution in the United States. BioScience, 68(3), 212-222.
  • Willard, A. K., & Norenzayan, A. (2013). Cognitive biases explain religious belief, paranormal belief, and belief in life’s purpose. Cognition, 129(2), 379–391.