As calculadoras de Pickering – A história não contada das mulheres que mapearam nossa galáxia

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As calculadoras de Harvard, por volta de 1890. De pé, no centro: Williamina Fleming.

Texto inspirado no oitavo episódio da série Cosmos – A SpaceTime Odyssey, intitulado ”Sisters of The Sun” (As Irmãs do Sol).

Artigo traduzido e originalmente publicado no blog da National Geographic e Black Geoscientists. 

No início do século XX, a universidade de Harvard e o campo da ciência como um todo era dominada pelos homens. No entanto, um time de mulheres, foi a chave para nossa concepção moderna da galáxia, graças a sua catalogação de dezenas de milhares de estrelas. É hora de relembrar a história desta equipe feminina inovadora, cujo legado lamentavelmente não foi reconhecido pela história.

No início de 1877, o astrônomo de Harvard Edward Charles Pickering contratou uma equipe de mulheres qualificadas para processar dados astronômicos, contribuindo para a sua missão de mapear o cosmos. Diretor do Observatório de Harvard, Pickering acreditava que fotografias das estrelas capturadas pelo Observatório trariam a chave para a compreensão do Universo. Precisando de mão de obra para examinar dados fotográficos do Observatório, ele fez uma escolha sem precedentes na comunidade científica: contratar uma equipe toda de mulheres para analisar os resultados.

Pickering e suas calculadoras posando para foto.
Pickering e suas calculadoras posando para foto.
Williamina Fleming
Williamina Fleming, a antiga empregada de Pickering pioneira no grupo de astrônomas.

Desacreditada pela comunidade científica de Harvard, equipe de mulheres talentosas na verdade ajudou Pickering a publicar um catálogo de mais de classificações de mais de 10 mil estrelas. Seu trabalho veio em um momento quando as mulheres estavam lutando pela igualdade na ciência e no ensino superior. Em 1869, o presidente de Harvard Charles W. Eliot rejeitou a ideia de Harvard educar as mulheres, dizendo em um discurso, “o mundo sabe quase nada sobre as capacidades mentais naturais do sexo feminino.” Nas décadas que se seguiram, a equipe de Pickering desafiaria essas noções discriminatórias de Eliot no seu próprio território.

Apesar de suas importantes contribuições para a ciência, a equipe de mulheres que trabalhavam para Pickering ainda eram tratada como inferiores às suas contrapartes masculinas. Pickering formou a equipe de mulheres em 1881, depois que ele demitiu seu assistente masculino, que tinha provado ser incapaz de acompanhar as exigências do catálogo de estrelas e substituiu-o por sua empregada, Williamina Fleming. As mulheres da equipe ganhavam 25 a 50 centavos por hora pelo seu trabalho, cerca da metade do salário de um homem no momento para semelhante trabalho clerical.

Cannon, retratada em animação na série Cosmos.

Apesar dos baixos salários, longas horas e tarefas tediosas e repetitivas, o trabalho da equipe lançou importantes bases científicas ainda utilizadas hoje. Annie Jump Cannon, a líder da equipe, catalogou um quarto de 1 milhão de estrelas com equipe, descobrindo que as estrelas caíam em uma sequência contínua de acordo com padrões de linhas espectrais. Depois de um ataque de febre escarlatina que deixoua sem audição, Cannon passou a estudar no Wellesley College para perseguir sua paixão de infância de estudar astronomia e depois se transferir para a Universidade De Mulheres de Harvard Radcliffe College para trabalhar na equipe de Pickering.

Annie Jump Cannon em sua mesa.
Annie Jump Cannon em sua mesa.

Cannon levou décadas para classificar as centenas de milhares de estrelas de acordo com o esquema que ela criou. Este sistema que usou para distinguir esses espectros um do outro se tornou o quadro da classificação contemporânea das estrelas para os cientistas. Infelizmente, o sistema de classificação de Cannon não leva o nome dela – é chamado de sistema de “Harvard” em vez disso.

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Cecilia Payne, desacreditada porém precisa na Astrofísica.

Não foi apenas Cannon que se destacou em Harvard: outros grandes nomes eram Cecilia H. Payne e Henrietta Swan Leavitt.

Payne deixou a Inglaterra porque as mulheres ainda não eram tão bem vindas no meio acadêmico como na América. Ela trabalhou com Cannon, Leavitt e outras mulheres que estudavam as para Pickering. Sua dissertação, concluía que as estrelas são feitas principalmente de hidrogênio hélio, e que a composição das estrelas era muito diferente da composição da Terra. Isto foi contra pensamento da época. Payne foi desanimada por Henry Russell, sugerindo que suas conclusões eram impossíveis. E como mais pós-graduandos, ela duplicou sua dúvida em si mesma. Infelizmente ela eventualmente cedeu e editou sua dissertação para se conformar com pensamento da época.

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Henrietta Swan Leavitt: crucial para Hubble e para a cosmologia.

Henrietta Swan Leavitt ficou famosa por seu trabalho sobre estrelas variáveis. Seus resultados foram utilizados por Edwin Hubble para calcular as distâncias das galáxias(à época chamadas de “nebulosas”). Com isso, Hubble pôde mostrar que algumas destas “nebulosas” são na verdade outras galáxia e concluísse que o Universo está em expansão, o que demonstra a importância dos trabalhos de Henrietta. Durantemandato de 42 anos de Pickering no Observatório de Harvard, que terminou apenas um ano antes dele morrer, em 1919, ele recebeu muitos prêmios, incluindo a Medalha Bruce, da sociedade astronômica de maior honra do Pacífico. Crateras na Lua e em Marte são nomeadas ao homem que abriu o caminho para luta contra a discriminação na própria ciência.

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Ruan Bitencourt Silva
Nativo de Lages, Santa Catarina, eu sou cético, liberal, secularista, humanista, ateísta, pacifista, roqueiro punk, flamenguista e um fã assíduo da ciência, da música, do esporte e da literatura. Apaixonado por rock e pelo Universo, sonho em me tornar um guitarrista e astrofísico profissional (e, quem sabe, abocanhar um Nobel e um Grammy). Sou constantemente inspirado todos os dias por bandas como Nirvana e Green Day, por músicas como Smells Like Teen Spirit e Wake Me Up When September Ends, por guitarristas como Kurt Cobain e Billie Joe Armstrong, por livros como Cosmos e a série Mochileiro das Galáxias e por personalidades históricas como Carl Sagan e Albert Einstein. Atualmente ocupo meu tempo compondo músicas, escrevendo textos, lendo, tocando guitarra, assistindo minhas séries preferidas, cantando no chuveiro, dançando em festas ou puxando ferro na academia. Estou começando o terceiro ano do Ensino Médio com meus 17 anos e pretendo, após o término deste, iniciar um bacharelado no ramo da Astronomia.

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2 Comentários em "As calculadoras de Pickering – A história não contada das mulheres que mapearam nossa galáxia"

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Banks
Visitante

Que orgulho de ser representada por mulheres incríveis assim! Pode deixar que irei honrá-las!

Estelita Meira
Visitante

Acho-as geniais… é pena que a visão da ciencia, com relação à nós mulheres, caminha a passos de tartaruga para entender o nosso grandioso valor…mas chegaremos lá…me movo pela fé!!!

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