As intuições na filosofia contemporânea

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S. Kripke e P. Strawson (1975).

Publicado em Alter
Autor: Elan Marinho

Sem dúvida, muitos filósofos (especialmente, os analíticos) têm a imagem de que as intuições seriam indispensáveis para a atividade filosófica. Afinal, é bem comum que os filósofos ressaltem a intuitividade de uma tese como uma virtude, utilizem experimentos de pensamento para testar intuições e que digam que a intuição é um bom modo de decidir sobre a verdade de uma teoria. Em contrapartida, esse paradigma sobre o papel da intuição está sendo colocado contra a parede por diversos autores das últimas décadas. De um lado, existem aqueles que aproximam-se da tese de que a intuição possui valor epistêmico e que deve ter um papel importante na atividade filosófica; mas também existem aqueles que distanciam-se dessa tese. No primeiro grupo, estão Williamson (2004), Bealer (1998), Chalmers (2014) e Sosa (2007, 2008). No segundo, estão Benovsky (2013), Cappelen (2012, 2014), Erlenbaugh e Molineaux (2009) e Weinberg et. al. (2010).

Indo em direção a uma teoria da intuição, Bealer (1998) defende que os psicólogos acabam estudando a intuição como uma espécie de “crença acrítica”, mas o sentido relevante de intuição – que a coloca como uma atitude proposicional sui generis, irredutível e racional – mostraria que ela possui valor epistêmico suficiente para fundamentar a autonomia da filosofia e sua autoridade sobre a ciência. Chalmers (2014) defende que as alegações intuitivas justificariam crenças, mas não precisariam ser justificadas (de maneira inferencial, perceptual, memorial ou testemunhal); por isso, as intuições possuiriam um status epistêmico especial. Sosa (2007, 2008) também defende o valor epistêmico das intuições, mas reconhece que haveria um problema caso trabalhos em filosofia experimental revelassem que elas variam significativamente entre as culturas – sua estratégia é mostrar que os experimentos que testam intuições não parecem ser suficientes para provar uma variação transcultural significativa. Em uma defesa mais moderada das intuições, Williamson (2004) reconhece que a discussão sobre as intuições é importante, que existe uma obscuridade sobre essa noção na filosofia analítica. Propõe que aquilo que chamamos de “intuições” são meras aplicações das nossas capacidades ordinárias de julgar. Nesse sentido, empregar a intuição em experimentos de pensamento pode ser, na verdade, empregar um complexo de capacidades cognitivas. Além disso, Williamson posiciona diversos argumentos contra o ceticismo sobre as intuições.

A ideia de que existem intuições intelectuais ou puramente racionais é abalada por Benovsky (2013). O autor considera que algumas intuições, que consideraríamos racionais, podem estar baseadas em nossas experiências fenomênicas cotidianas. Nesse sentido, uma metafísica com apelo às intuições não estaria necessariamente afastada da experiência. Indo em direção ao problema metodológico da intuição, Cappelen (2012, 2014) fala da tese da “Centralidade” segundo a qual os filósofos utilizariam as intuições como evidências para as suas teses filosóficas. Com base em uma análise criteriosa de diversos argumentos e textos filosóficos, Cappelen (2012) mostra que essa tese não só é falsa como também os filósofos que acreditam nela estariam errados sobre seus próprios métodos. Assim, cabe perguntar: por que mesmo assim os filósofos acreditam que utilizam as intuições como evidências em suas teorias? Erlenbaugh e Molineaux (2009) parecem nos indicar uma resposta ao alegarem que a intuição possui o papel meramente retórico de tornar os argumentos mais persuasivos. Por fim, caso os argumentos a favor do valor epistêmico da intuição se esgotarem, uma possível saída seria dizer que as intuições relevantes são as dos filósofos especialistas treinados. No artigo de Weinberg et. al. (2010), essa saída é examinada à luz da literatura psicológica sobre expertise, mas não foram encontrados motivos suficientes para defendê-la.

Não poderia deixar de citar que, por trás desse grande debate, está a obra Naming and Necessity (na tradução portuguesa: O nomear e a necessidade) de Saul Kripke (1980, 2012). O autor propõe que, se as intuições dos leigos produzirem as respostas que ele espera (para, por exemplo, um apanhado de experimentos de pensamento), então isso evidencia que ele está certo sobre a tese de que nomes próprios são designadores rígidos. De fato, as intuições do leigo parecem ser relevantes para determinar qual teoria da referência dos nomes próprios está correta, porque o falante faz uso da própria intuição (talvez o sentido de “intuição” aqui seja de um raciocínio rápido e acrítico fundado nas nossas experiências culturais) na hora de utilizar as expressões da linguagem. Desse modo, pelo menos no âmbito da filosofia da linguagem, parece ser possível utilizá-la para definir qual teoria filosófica está correta. Entretanto, esse é um uso extremamente específico de intuição como evidência para uma tese. Nesse caso, não precisamos que a intuição seja puramente intelectual ou que tenha as virtudes que seus defensores assumem que ela possui. A grande questão atual é ver se a intuição possui valor epistêmico e papel em outros âmbitos da filosofia, como os da ética, filosofia da mente e metafísica. Caso possua, parece-me que a sua natureza não pode ser a de um raciocínio rápido e acrítico fundado nas nossas experiências culturais.

Bibliografia

  • Bealer, George. (1998). Intuition and the Autonomy of Philosophy. In: Michael DePaul & William Ramsey (eds.), Rethinking Intuition: The Psychology of Intuition and Its Role in Philosophical Inquiry. Rowman & Littlefield. pp. 201-240.
  • Benovsky, J. (2013). From Experience to Metaphysics: On Experience-based Intuitions and their Role in Metaphysics. Noûs 47(3): 1–14.
  • Cappelen, H. (2012). Philosophy Without Intuitions. Oxford: Oxford University Press.
  • Cappelen, H. (2014). X-Phi Without Intuitions. In: A. Booth; D. P. Rowbottom (eds.) Intuitions. Oxford: Oxford University Press. 1–18.
  • Chalmers, D. (2014). Intuitions in Philosophy: a Minimal Defence. Philosophical Studies 171(3): 535–544.
  • Erlenbaugh, J.; Molineaux, B. (2009). If Intuitions Must Be Evidential then Philosophy is in Big Trouble. Studia Philosophica Estonica: 35–53
  • Kripke, Saul. (2012). O nomear e a necessidade. Lisboa: Gradiva.
  • Kripke, Saul. (1980). Naming and Necessity. Oxford: B. Blackwell.
  • Sosa, E. (2007). Experimental Philosophy and Philosophical Intuition. Philosophical Studies 132 (1):99-107.
  • Sosa, E. (2008). A Defense of the Use of Intuitions in Philosophy. In M. Bishop; D. Murphy (eds) Stich and His Critics. Oxford-New York: Blackwell.
  • Weinberg, Jonathan M. et. al. (2010). Are Philosophers Expert Intuiters? Philosophical Psychology 23 (3):331-355.
  • Williamson, Timothy (2004). Philosophical ‘Intuitions’ and Scepticism About Judgement. Dialectica 58 (1):109–153.
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