As poderosas mandíbulas de um megalodonte racharam as costas de uma baleia, sugerem fósseis

A baleia escapou, mas não ilesa.

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Representação visual do ataque predatório de Otodus megalodon a uma pequena baleia, com possível origem da vértebra esmagada. (Créditos: Arte de Clarence (Shoe) Schumaker, imagem cortesia do Museu Marinho de Calvert)

Traduzido por Julio Batista
Original de

Cerca de 15 milhões de anos atrás, em um mar costeiro quente cobrindo o que hoje é o sul de Maryland (EUA), a superfície do oceano de repente emergiu em violência quando um tubarão do tamanho de um prédio de cinco andares – o poderoso e maciço megalodonte (Otodus megalodon) – se lançou sobre uma baleia perto da superfície, apertando seus 250 dentes serrilhados ao redor da barriga da baleia. Quando o par em luta rompeu a superfície em um desfecho sangrento, a força do ataque dobrou as costas da baleia e causou uma violenta fratura por compressão.

Esse é o cenário proposto por cientistas que examinaram recentemente duas das vértebras fraturadas da baleia e um dente de megalodonte, que foram encontrados próximos em Calvert Cliffs, em Maryland, um local que data da época do Mioceno (23 milhões a 5,3 milhões de anos atrás). Os pesquisadores descreveram os ferimentos da baleia – e o que pode tê-los causado – em um novo estudo, publicado online em 25 de agosto na revista Palaeontologia Electronica.

“Só temos evidências circunstanciais, mas são evidências circunstanciais convincentes”, disse Stephen J. Godfrey, curador de paleontologia do Museu Marinho de Calvert em Maryland e principal autor do estudo. “É assim que vemos a história se desenrolando”, disse Godfrey à Live Science. “Embora existam limitações para o que podemos afirmar, e queremos que as evidências falem por si mesmas.”

Os escassos restos do que provavelmente era uma baleia de 4 metros, datada de cerca de 15 milhões de anos atrás, foram inicialmente descobertos por Mike Ellwood, voluntário do Museu Marinho de Calvert e colecionador de fósseis. Não foi possível determinar se o espécime era uma baleia dentada, uma baleia de barbatanas ou mesmo um grande golfinho, mas Godfrey ficou instantaneamente encantado.

“Em termos dos fósseis que vimos em Calvert Cliffs, esse tipo de lesão é extremamente raro”, disse ele. “A lesão foi tão desagradável, tão claramente o resultado de um trauma sério, que eu queria saber a história de fundo.”

Godfrey suspeitava que poderia aprender mais olhando dentro das vértebras danificadas com tomografias computadorizadas, e um hospital local se ofereceu para ajudar a avaliar o fóssil com técnicas modernas de imagem médica. Os exames mostraram uma fratura por compressão – um tipo de fratura em que as vértebras desmoronam e colapsam – que era tão distinta em seu padrão que era instantaneamente reconhecível.

“Qualquer radiologista olharia para isso e reconheceria a patologia”, disse Godfrey.

Uma das duas vértebras de baleia encontradas em Calvert Cliffs, com o fundo exibindo extenso trauma que ocorreu durante a vida, não na fossilização. (Créditos: Imagem cortesia do Museu Marinho de Calvert)

Os cientistas também descobriram que a membrana que envolve o osso, conhecida como periósteo, produziu um novo osso após a lesão. Independentemente do osso periosteal ter se formado para reparar a ferida, como costuma acontecer em humanos, ou como resultado de uma infecção ou artrite, o crescimento de um novo osso após a lesão sugere que a baleia viveu por várias semanas após sofrer a fratura.

Mas, por mais convincente que seja a hipótese do megalodonte, outros fatores podem ter fraturado as vértebras da baleia há milhões de anos. A megafauna marinha extinta que não inclui um megalodonte – como seu parente próximo Otodus chubutensis, o falso tubarão-mako (Parotodus benedenii), o tubarão-branco do Mioceno (Carcharodon hastalis) ou mesmo um cachalote macroraptorial (Physeteroidea) – poderia ter desferido golpes igualmente punitivos. É até possível que a baleia tenha ingerido algas tóxicas e convulsionado vigorosamente até que o animal essencialmente quebrou suas próprias costas, sugeriram os autores do estudo.

Uma tomografia computadorizada mostra danos na vértebra e crescimento ósseo que ocorreram após a lesão. Tradução da imagem: espinha neural (neural spine), canal neural (neural canal), fratura exposta aqui (open fracture here), osso quebrado aqui (broken bone here) e novo crescimento ósseo após a lesão (new bone growth following the injury). (Créditos: Imagem cortesia do Museu Marinho de Calvert)

Mas Godfrey acha que um ataque de megalodonte é a explicação mais plausível. Por um lado, há a magnitude do trauma – uma vértebra realmente telescópica para dentro da força da outra vértebra colidindo com ela. “É tão exagerado em termos de violência”, disse Godfrey, acrescentando que é difícil imaginar qualquer ataque ou convulsão com tamanho impacto.

E depois há o dente de megalodonte, encontrado ao lado das vértebras. Um exame mais detalhado do dente revelou que sua ponta quebrou durante o Mioceno, provavelmente depois de atingir algo como osso. E embora seja possível que um megalodonte do Mioceno tenha simplesmente perdido seu dente velho enquanto nadava sobre uma carcaça de baleia morta por muito tempo, ou o perdido enquanto caçava uma baleia ferida e se alimentava de seus restos, é tentador reconstruir uma cena em que o superpredador da época atacou e acabou perdendo o dente ao lidar com a própria fratura por compressão.

“Não conhecemos o repertório completo de técnicas predatórias que o megalodonte poderia ter empregado, mas é possível que, como tubarões vivos, eles emboscassem suas presas por baixo”, disse Godfrey. Durante uma brecha de alta energia com a presa entre suas mandíbulas, ele explicou, o megalodoten poderia facilmente ter flexionado a espinha dorsal da baleia contra a gravidade com força suficiente para criar os ferimentos observados.

Mas Godfrey não descarta explicações alternativas. “Nosso paper cobre a amplitude e o escopo das condições que podem ter causado esse tipo de dano, e esperamos que isso estimule mais pesquisas”, disse ele. “Essas são histórias incríveis. Nós podemos contar a história inicial, mas se essa será a melhor explicação realmente só o futuro dirá.”