As razões pelas quais todos os melhores enxadristas são homens

O menor desempenho das mulheres em relação aos homens nos mais altos níveis de esportes intelectuais pode não ter nada a ver com talento inato, e tudo a ver com a estatística e fatores sociais.

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Anya Taylor-Joy faz o papel de Beth Harmon em "O Gambito da Rainha", uma minissérie que envolve o jogo de xadrez. Créditos: Phil Bray / Netflix.

Por Wei Ji Ma
Publicado no Slate

O Gambito da Rainha vem conquistando recordes de audiência na Netflix de forma similar como sua protagonista, uma enxadrista chamada Beth Harmon, conquista o mundo do xadrez. A história é envolvente e inspiradora. O conteúdo de xadrez foi escolhido com muito esmero, o que é bastante raro para uma peça de entretenimento popular sobre xadrez. No entanto, um aspecto do seriado é bem pouco realista, conforme apontado por Monica Hesse, do Washington Post, e Dylan Loeb McClain, escrevendo para o New York Times: Os homens que Beth Harmon encontra em geral apoiam a carreira dela no xadrez.

Uma Beth Harmon da vida real teria que lidar com todo o tipo de comentário sobre habilidades inferiores das mulheres no xadrez. Declarações misóginas são comuns nos escalões mais altos do jogo. “Provavelmente, elas não têm a mesma inteligência…”, disse em 1962 Bobby Fischer, campeão mundial de xadrez. “O xadrez não é para as mulheres. (…) As mulheres são lutadoras mais fracas”, disse o campeão mundial Garry Kasparov em 1989. “O cérebro dos homens é naturalmente melhor no xadrez do que o das mulheres”, disse o Grande Mestre e vice-presidente da Federação Mundial de Xadrez (FIDE) Nigel Short em 2015, adicionando ainda, “é preciso aceitar isso graciosamente”.

Não são apenas os homens que pensam dessa forma. Eva Repková, que é mestre internacional e lidera a Comissão da FIDE Para o Xadrez Feminino, comentou recentemente, “Esse jogo não é muito intuitivo para as mulheres. Algumas pessoas podem não gostar do fato de ser mais natural que os homens se interessem pelo xadrez ou as mulheres por música ou o arranjo de flores”. A melhor jogadora mulher da Índia, Grande Mestre Koneru Humpy, disse que “é preciso aceitar” que os homens são jogadores melhores.

Sim, esses comentários são duros e desencorajadores. Mas muitos acreditam que é a verdade nua e crua que as mulheres são piores no xadrez que os homens. Os fatos parecem incontestáveis: Nunca houve uma campeã mundial. A melhor jogadora mulher sempre teve classificação substancialmente mais baixa do que o melhor jogador homem e, provavelmente, perderia para ele em uma partida. E dos 100 melhores enxadristras do mundo, somente um é mulher (a Grande Mestre chinesa Hou Yifan).

No entanto, sendo um enxadrista e um acadêmico, posso dizer que nada disso justifica a conclusão de que as mulheres são inerentemente piores no xadrez do que os homens. O fato de que os melhores jogadores homens têm classificação consistentemente maior do que as melhores jogadoras mulheres pode não ter nada a ver com o talento, e tudo a ver com estatística e fatores externos.

Comecemos pelas estatísticas. Um estudo de 2008 liderado pelo psicólogo Merim Bilalić aponta a falha de lógica em se citar diferenças nos escalões mais altos como sendo evidência de diferenças inerentes: Se um grupo (enxadristas mulheres) é muito menor do que outro (enxadristas homens), então apenas devido ao acaso, é de se esperar que o melhor membro do grupo maior tenha maior desempenho do que o melhor membro do grupo menor.

Para explicar isso, gosto de usar um experimento mental. Imagine que você reúne 12 pessoas e aleatoriamente dá a 10 delas um chapéu azul e a 2 delas um chapéu verde. Você então designa aleatoriamente a cada pessoa um número entre 1 e 100. Você declara que a pontuação da Equipe Azul é o maior número que uma pessoa com chapéu azul possui, e que a pontuação da Equipe Verde é o maior número obtido por alguém com chapéu verde. O que acontece é que a Equipe Azul irá, em média, ter pontuação substancialmente maior (91,4) do que a Equipe Verde (67,2). Obviamente, isso não se deve a qualquer diferença inerente entre os membros das equipes Azul e Verde (os quais, deve-se lembrar, receberam os chapéus de maneira aleatória). Isso se deve somente ao acaso: A Equipe Azul, tendo 10 membros, simplesmente tem mais oportunidades de conseguir um número alto do que a Equipe Verde, com apenas 2 membros. A lição chave: Se um grupo é muito maior do que outro, comparar as pessoas com o maior desempenho em cada grupo é fundamentalmente injusto.

A mesma lógica se aplica ao xadrez: Por exemplo, na lista de classificação da FIDE, dos jogadores que jogaram em 2019, somente 10,1% eram mulheres; nos Estados Unidos, esse número foi de 8,2%. Eu calculei recentemente que esse desequilíbrio de participação, por si só, pode explicar a diferença de classificação entre o melhor jogador homem e a melhor jogadora na Índia. Em outras palavras, o desequilíbrio nos níveis mais altos na Índia pode ser inteiramente explicado pelo desequilíbrio de participação. Quando corrigimos para o fato de que muito, muito mais homens jogam xadrez do que mulheres, simplesmente não há nenhuma evidência de que os homens têm desempenho inerentemente melhor – pelo menos na Índia.

Declarações generalizadas por parte de pessoas famosas no meio do xadrez sobre homens serem superiores às mulheres tipicamente não incluem a análise estatística necessária, e sendo assim, não se deve confiar nelas. Mas e se realizarmos essa análise para países diferentes da Índia – o desequilíbrio nos níveis mais altos pode ser explicado pelo desequilíbrio de participação em todo o mundo? Jose Camacho Collados, um cientista da computação e mestre internacional, e Nikos Bosse, um estatístico, fizeram essa mesma pergunta. Eles descobriram vários países onde o desequilíbrio de participação não pode explicar totalmente o desequilíbrio nos níveis mais altos. Ainda assim, o primeiro sempre pode explicar parcialmente o segundo, e portanto, olhar somente para o desequilíbrio nos níveis mais altos sempre vai passar a impressão errada.

Mesmo se o desequilíbrio de participação não explicar totalmente a diferença nos níveis mais altos, isso não apoia a noção de que as mulheres são inerentemente piores no xadrez (e Collados ou Bosse nunca afirmaram tal coisa). Há muitos fatores externos – sociais, culturais, e econômicos – que poderiam fazer a melhor jogadora ter classificação pior do que o melhor jogador, mesmo levando-se em conta o desequilíbrio de participação. As melhores jogadoras muitas vezes ficam limitadas a torneios somente para mulheres e somente por convite, o que provavelmente limita a capacidade delas de aumentar sua classificação. É possível que as federações nacionais invistam menos em suas melhores jogadoras do que em seus equivalentes homens, por exemplo, em termos de treinamento ou busca de patrocinadores. É muito mais fácil para os homens ganhar dinheiro somente com o xadrez. Entre os melhores enxadristas com filhos, as mulheres podem ser mais encarregadas do cuidado dos filhos do que os homens, tendo portanto menos tempo para jogar e se preparar para torneios. As melhores jogadoras podem ser vítimas da ameaça do estereótipo (onde um membro de um grupo negativamente estereotipado tem desempenho pior devido à pressão ou ansiedade induzida pelo estereótipo), o que parece de fato se manifestar nos resultados dos jogos de xadrez.

Também é provável que as melhores jogadoras encontrem um ambiente particularmente hostil, levando-as a desistir em proporções maiores que as mulheres com classificação menor. Psicólogos sociais, incluindo minha colega da Universidade de Nova York Madeline Heilman, mostraram que mulheres de sucesso em papéis tradicionalmente masculinos com frequência são insultadas e malquistas. Para exemplos concretos, veja o projeto de arte da Grande Mestra Jennifer Shahade, Not Particularly Beautiful (“Não É Muito Bonita”), um tabuleiro de xadrez gigante pendurado em uma parede no qual cada casa foi preenchida com um insulto misógino que ela e outras jogadoras sofreram.

Todos esses fatores são externos, e nenhum deles tem algo a ver com inteligência ou habilidade natural. Eles podem ser difíceis de decifrar; por exemplo, você não pode isolar enxadristas jovens, fazê-los ser criados por pais com crenças sobre gênero diferentes, e então observar como eles se saem em torneios. Mas na matemática – um campo muito parecido com o xadrez em vários aspectos – um fascinante “experimento natural” ocorreu quando a Alemanha se dividiu em Alemanha Ocidental e Oriental. O desequilíbrio entre os sexos na matemática acabou sendo muito menor na Alemanha Oriental do que na Ocidental, possivelmente porque o sistema radicalmente igualitário da Alemanha Oriental encorajava a autoconfiança e competitividade em matemática por parte das garotas. Isso demonstra que diferenças entre os sexos no desempenho intelectual podem ser provocadas por crenças societais.

No xadrez, separar os componentes do desequilíbrio nos níveis mais altos é desafiador, foi assunto de estudos acadêmicos durante décadas, e continuará sendo assim no futuro próximo. É muito difícil quantificar todos os fatores sociais, culturais e econômicos, e como eles podem tornar jogadoras que de outra forma seriam campeãs em jogadoras um pouco piores. Mas os enxadristas com frequência se voltam a uma explicação mais simples do que a estatística ou o tratamento: a biologia. Recordemos que Short falou de cérebro diferente e que Repková disse que o xadrez simplesmente não era intuitivo para as mulheres. “Provavelmente a resposta está nos genes”, Kasparov cogitou em 1989. Ele agora voltou atrás nessa declaração, mas basta dar uma olhada em fóruns de xadrez para se constatar que esse tipo de pensamento está bem vivo. O xadrez possui uma cultura onde o brilhantismo puro e inato é visto como a chave do sucesso, e os enxadristas tendem a explicar a diferenças de desempenho no xadrez entre os sexos em termos de diferenças inerentes ou biológicas.

Gostaria de declarar inequivocamente que, no momento, não existe nenhuma evidência de diferenças biológicas de habilidade no xadrez entre os sexos. É claro, isso não quer dizer que certamente não existem tais diferenças. Mas qual seria o sentido de pesquisas focadas em detectá-las, sendo que são exatamente as diferenças que ninguém pode fazer nada para mudar? Para mim, vale mais a pena perguntar por que os enxadristas têm uma predileção por explicações biológicas. O psicólogo Andrei Cimpian, outro colega da Universidade de Nova York, relatou que “explicações inerentes” servem para reforçar hierarquias. Isso é conveniente para aqueles em posições de grande status – os quais, no mundo do xadrez, tendem a ser homens. É difícil reconhecer que fatores externos, como uma distribuição injusta de recursos ou um ambiente hostil, têm impedido as melhores enxadristas mulheres de brilhar. É claro, a negação veemente de privilégios por parte dos privilegiados tem um papel em praticamente todas as lutas pela justiça social.

A ideia de que habilidade inata para o xadrez é essencial para o sucesso – ao invés de um compromisso em estudar o jogo para ficar cada vez melhor nele – pode ela mesma manter o desequilíbrio de participação grande. Andrei Cimpian, a filósofa da Princeton University Sarah-Jane Leslie, e colegas estudaram 30 disciplinas acadêmicas nos EUA e descobriram uma forte correlação negativa entre a presença de crenças de habilidade inata e a proporção de Ph.Ds mulheres. Além disso, crianças muito jovens já internalizam crenças de que os homens são mais brilhantes do que as mulheres. Um estudo de 2017 mostrou que garotas de 6 anos de idade nos EUA já têm menor probabilidade de acreditar que membros do mesmo sexo são “muito, muito inteligentes”, e que elas começam a evitar atividades ditas ser para crianças “muito, muito inteligentes”. Aí está: um começo chocantemente precoce para o desequilíbrio de participação no xadrez.

Isso resulta em um ciclo vicioso: Os homens acreditam que as mulheres (e meninas) não são inerentemente brilhantes e portanto são ruins no xadrez, as atitudes tóxicas resultantes afastam as mulheres, o desequilíbrio de participação aumenta, o desequilíbrio nos níveis mais altos aumenta, e os homens que não entendem de estatística acreditam ainda mais que as mulheres são ruins no xadrez.

Como em outras áreas com cultura de brilhantismo e um desequilíbrio de participação gritante, como a física e a ciência da computação, esse ciclo é incrivelmente difícil de quebrar. Apesar disso, precisamos tentar. A Iniciativa de Mulheres no Xadrez pela Federação de Xadrez dos EUA investe dinheiro e apoio em torneios voltados para meninas e mulheres. Conforme explica Sarah-Jane Leslie, enfatizar a importância de se trabalhar duro em vez de ser brilhante pode evitar que meninas e mulheres desistam. Projetos como o Not Particularly Beautiful forçosamente expõem declarações enviesadas e mostram o papel que a cultura tem em manter as mulheres do lado de fora. Mesmo uma série da Netflix que pinta um quadro demasiadamente otimista da vida no mundo do xadrez pode ajudar. O Gambito da Rainha parece ter dado à participação feminina no xadrez uma ajuda impressionante, pelo menos no xadrez online. Mas esses ganhos serão de vida curta na ausência de mudanças sistêmicas.

Wei Ji Ma é professor de neurociência e psicologia na Universidade de Nova York. Ele foi um jogador competitivo de xadrez e detém o título de mestre pela FIDE. Também é Ph.D em Física.