Bitcoin consome mais eletricidade do que a maioria dos países do mundo. Eis o porquê

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Créditos: Reklamlar / Getty Images.

Por Joseph Sotinel
Publicado na ScienceAlert

O mercado de bitcoin agora ultrapassa US$1 trilhão com seu preço subindo dez vezes em um ano, mas o foco está mudando para os enormes requisitos de energia necessários para sustentar a moeda online.

Aqui estão algumas perguntas e respostas sobre bitcoin:

Quanta energia consome?

A energia total consumida pelo processo de mineração de bitcoin poderá chegar a 128 TWh (terawatt-hora) este ano, de acordo com o Cambridge Bitcoin Electricity Consumption Index (CBECI), compilado por pesquisadores da Universidade de Cambridge.

Isso é 0,6 por cento da produção total de eletricidade do mundo, ou mais do que todo o consumo de energia da Noruega.

“Esses números podem parecer grandes quando comparados a países de médio porte ou tecnologias emergentes como veículos elétricos (80 TWh em 2019), mas pequenos quando comparados a outros usos finais“, como ar condicionados e ventiladores, disse George Kamiya, analista da Agência Internacional de Energia.

Toda a operação do Google consumiu 12,2 TWh em 2019 e todos os centros de processamento de dados do mundo, exceto aqueles que lidam com bitcoin, juntos consomem cerca de 200 TWh anualmente.

O economista Alex de Vries, que montou um dos primeiros índices sobre o assunto em 2016, está ainda mais pessimista.

Ele acredita que o recente aumento no preço do bitcoin intensificará seu uso e aumentará seu consumo de energia ultrapassando todos os outros centros de processamento de dados combinados.

Por que o bitcoin consome tanta energia?

A promessa de uma recompensa farta alimentou o aumento de centros de processamento de dados gigantes dedicados ao bitcoin.

Bitcoins são obtidos por pessoas em rede chamadas de “mineiros”, que resolvem equações deliberadamente complicadas usando poder de processamento de força bruta, sob o chamado protocolo de “prova de trabalho”.

O protocolo é projetado para manter a integridade da rede, garantindo um suprimento estável de moeda, tornando os cálculos mais difíceis quando muitas pessoas estão minerando e mais fáceis quando poucas estão trabalhando com isso.

O sistema é projetado para que, a cada 10 minutos, a rede conceda algum bitcoin para aqueles que resolverem o quebra-cabeça com sucesso.

A “prova de trabalho” foi um dos princípios fundadores da mais conhecida criptomoeda, criada em 2008 por uma pessoa ou grupo anônimo que desejava uma moeda digital descentralizada.

“Se você tem novas máquinas mais eficientes, vai usar mais máquinas” para conquistar uma fatia maior do mercado de mineração, disse Michel Rauchs, que liderou a equipe que criou a CBECI.

Com o preço do bitcoin agora em mais de US$55.000 (305 mil reais, na atual cotação), as mineradoras estão operando com capacidade total.

O bitcoin atingiu um pico histórico de US$61.742 (cerca de 343 mil reais, na atuação cotação) no último sábado com a demanda fervorosa dos investidores.

Qual é o impacto ambiental?

Os defensores do Bitcoin dizem que o rápido desenvolvimento de energia renovável nos setores de usinas significa que a moeda tem um efeito moderado sobre o meio ambiente.

Mas pesquisadores da Universidade do Novo México (EUA) estimaram em 2019, antes da recente disparada dos preços, que cada dólar de valor criado pelo bitcoin gerou 49 centavos de dano à saúde pública e ao meio ambiente nos Estados Unidos.

Além disso, os críticos das criptomoedas destacam a forte concentração geográfica de seu uso em países como o Irã.

Atingidos por sanções internacionais que a impedem de exportar seu petróleo e de se beneficiar de eletricidade barata e abundante, as mineradoras se multiplicaram no país do Oriente Médio para escapar do alcance de Washington.

“Há cerca de 5 a 10 por cento da mineração que pode ser rastreada ao Irã”, calculou Michel Rauchs.

Mas a grande maioria da atividade está na China, onde durante parte do ano os mineiros chineses aproveitam a forte geração de energia hidrelétrica no sul do país, acrescentou.

Porém, eles migram para o norte durante a estação seca, onde a eletricidade é produzida por lignito, um carvão particularmente poluente.

“Se você tentar ver a pegada do bitcoin a qualquer momento, obterá números completamente diferentes”, explicou Rauchs.

A mudança é possível?

Os críticos se tornaram mais vocais com a popularidade crescente do bitcoin.

A segunda criptomoeda mais usada, ethereum, está considerando a mudança do protocolo de prova de trabalho para um sistema menos intensivo de energia que evitaria alguns dos processos que consomem muita energia.

Mas o bitcoin enfrentaria enormes dificuldades para adotar essas mudanças, que correm o risco de tornar a rede menos descentralizada e segura.

A prova de trabalho “está tão profundamente arraigada em seu valor, em sua cultura, que seria um sacrilégio” abandonar o protocolo, disse Rauchs.

Ele ressaltou que nenhuma grande reforma da criptomoeda foi adotada por sua comunidade, apesar das inúmeras tentativas.