Bolsonaro está errado: os indígenas não estão “evoluindo”

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Foto: Dal Marcondes.

“Com toda a certeza, o índio mudou, tá evoluindo. Cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós. Então, [precisamos] fazer com que o índio se integre à sociedade”, disse o presidente Jair Bolsonaro. Inclusive, não é a primeira vez que ele faz comentários do tipo: “Por que no Brasil devemos mantê-los reclusos em reservas como se fossem animais em zoológicos? O índio é um ser humano igual a nós — afirmou Bolsonaro”.

Mas será que Bolsonaro está correto, de acordo com a ciência?

Antropologia Cultural e a crítica ao “evolucionismo” cultural

Bolsonaro claramente fala em evolução no sentido cultural, que abarca crenças, costumes e moralidade. Mais que isso, é evidente que Bolsonaro fala de evolução enquanto sinônimo de progresso e melhorias materiais e morais, e não no sentido normalmente utilizado por cientistas. Portanto, para Bolsonaro, parece existir uma escala de culturas mais e menos evoluídas. Para os cientistas de diversos campos de estudo, mesmo antropólogos culturais e biológicos, que lidam com os conceitos advindos da Teoria da Evolução, que inclusive vem sendo combatida/desacreditada pelos seus indicados políticos, o conceito indica mudanças qualitativas significativas, mas nada diz sobre se estas são positivas ou negativas moralmente. Segundos suas declarações, para Bolsonaro evoluir significa algo melhor, estar cada vez mais “humano”, “igual a nós”, isto é, aos “civilizados” não indígenas que vivem a cultura ocidental.

O problema antropológico com esta fala é muito antigo. A visão de mundo de Bolsonaro remonta os preconceitos da sociedade e mesmos os estudos antropológicos cientificamente defasados do século XIX. De acordo com a Enciclopédia Routledge de Antropologia Social e Cultural [1], as teorias evolucionistas sociais/culturais do século XIX  começaram a receber críticas desde suas primeiras versões: “Logo ficou claro, no entanto, que a nova abordagem [evolucionista] apresentava muitos problemas teóricos e metodológicos. E, embora tenha sido dada muita atenção e criatividade à solução desses problemas, o conhecimento do século XIX dispunha de poucos dados confiáveis para ter sucesso nessa tarefa”. (p. 266) Ainda segundo a enciclopédia, “O argumento central era que a cultura humana havia evoluído de princípios muito simples para sistemas grandes e complexos. Na corrida ao topo, muitas sociedades foram deixadas para trás”. (p. 267) No entanto, “A falta de dados confiáveis, por um lado, e esquemas bastante rígidos, por outro, produziu muitos erros. […] O interesse em teorias especulativas sobre o passado chegou a um fim temporário”. (p. 267)

Um bom resumo do evolucionismo na Antropologia cultural pode ser encontrado na introdução do livro sobre Evolucionismo Cultural do antropólogo brasileiro Celso Castro [2], professor de graduação e pós-graduação da FGV. A seguir, alguns trechos essenciais para se entender os erros de Bolsonaro:

“Há diferenças entre os autores do período clássico do evolucionismo cultural em relação a aspectos tanto teóricos quanto de interpretação etnográfica. Também ocorreram mudanças ao longo da produção acadêmica de cada um deles, tomados individualmente. No entanto, pode-se, com relativa facilidade, sintetizar as principais ideias gerais dos autores evolucionistas da antropologia, que eram em grande medida convergentes.

Antes, porém, é preciso desfazer um equívoco bastante comum: pensar que a ideia de evolução como explicação para a diversidade cultural humana é decorrência direta da ideia de evolução biológica, tendo como marco a publicação, em 1859, do livro do naturalista inglês Charles Darwin […]. Muitas vezes, no entanto, a compreensão de sua teoria era vaga e superficial. Um dos fatores fundamentais para a aceitação da ideia de evolução era sua associação com a ideia de progresso, cuja imagem mais comum é a de uma “escada” cujos degraus estão dispostos numa hierarquia linear. Geralmente, o evolucionismo era percebido como a expressão científica desse princípio mais antigo e geral.

No entanto, para aqueles que, nas décadas de 1860 e 1870, se dedicaram a estudar a história do progresso humano [dentre eles os principais antropólogos evolucionistas do século XIX] […] a influência da obra do filósofo inglês Herbert Spencer (1820–1903) teve maior impacto do que as teorias darwinistas […]. Enquanto a teoria biológica de Darwin não implicava uma direção ou progresso unilineares, as ideias filosóficas de Spencer levavam à disposição de todas as sociedades conhecidas segundo uma única escala evolutiva ascendente, através de vários estágios. Essa se tornaria a ideia fundamental do período clássico do evolucionismo na antropologia.

Aplicada à antiga questão da enorme diversidade cultural humana, percebida tanto nas sociedades que existiram no passado como nas que conviviam contemporaneamente no espaço, a perspectiva evolucionista em antropologia baseava-se num raciocínio fundamental: reduzir as diferenças culturais a estágios históricos de um mesmo caminho evolutivo. O diagrama seguinte, feito por Roberto DaMatta, permite visualizar esse procedimento:

Fonte: DAMATTA, Roberto. Relativizando: Uma introdução à antropologia social (Petrópolis: Vozes, 1981, p.99). [3]

O postulado básico do evolucionismo em sua fase clássica era, portanto, que, em todas as partes do mundo, a sociedade humana teria se desenvolvido em estágios sucessivos e obrigatórios, numa trajetória basicamente unilinear e ascendente […]. Toda a humanidade deveria passar pelos mesmos estágios, seguindo uma direção que ia do mais simples ao mais complexo, do mais indiferenciado ao mais diferenciado.

Como decorrência da visão de um único caminho evolutivo humano, os povos “não ocidentais”, “selvagens” ou “tradicionais” existentes no mundo contemporâneo eram vistos como uma espécie de “museu vivo” da história humana — representantes de etapas anteriores da trajetória universal do homem rumo à condição dos povos mais “avançados”; como exemplos vivos daquilo “que já fomos um dia””.

Em suma, Bolsonaro, sem provavelmente saber, reivindicou uma teoria ultrapassada da Antropologia Cultural. Esta teoria comete um erro muito simples: o etnocentrismo [4]. Ao tentar classificar e ordenar as diferentes sociedades ao redor do mundo, os teóricos sempre colocavam a própria sociedade como a mais evoluída e a ser atingida pelas demais. Como se sabe, esta alegação não é propriamente científica, uma vez que é profundamente imbuída de valores morais. Ela assume que todas as culturas seguem ou deveriam seguir os mesmos caminhos e ter os mesmos fins. Além disso, ela toma civilização enquanto sinônimo de cultura material, como se pudéssemos medir o que é mais “avançado” por critérios tecnológicos. O problema é: há consenso em definir o que é mais ou menos avançado em termos culturais? Não há tal consenso na Antropologia Cultural contemporânea.

Para além do erro científico, a fala de Bolsonaro na verdade ajuda a revelar tanto sua visão de mundo como seu projeto de governo em relação aos indígenas. O atual presidente é conhecido pela sua posição de evitar demarcações de terras indígenas. Suas falas são marcadas por preconceitos recorrentes aos povos indígenas e por menosprezar os conflitos de terra na Amazônia. Bolsonaro errou e tem uma postura anticientífica e imoral perigosa para com os indígenas e o meio-ambiente, posto que esta fala não está descolada de seus interesses de governo de avançar a fronteira do agronegócio e do extrativismo mineral para áreas indígenas protegidas.

Em primeiro lugar, os indígenas não estão “evoluindo” no sentido que Bolsonaro falou porque esta evolução, de cunho moral e normativo, simplesmente não tem respaldo científico contemporaneamente. Não faz sentido científico uma classificação que ordene as culturas e sociedades humanas por toda sua vasta e rica história de modo que organize os “menos evoluídos” e os “mais evoluídos” em uma conotação normativa.

Em segundo lugar, as mudanças culturais devido a interação entre sociedades distintas são inevitáveis e sempre produzem mudanças para as mesmas. Assim, os indígenas não deixaram de ser indígenas por aderirem a certos costumes, práticas e bens materiais de origem ocidental. Mais que isso, os indígenas não estão se tornando mais humanos posto que “parecem animais” por viverem em suas reservas: eles são humanos e merecem respeito, dignidade e direito a autodeterminação de suas culturas e, acima de tudo, suas vidas, que correm riscos consideráveis sob o atual governo. Não é por menos que a fala de Bolsonaro remete tanto as danosas políticas indigenistas anteriores a Constituição de 1988.

Por fim, é absurdo que esta visão cientificamente ultrapassada e de cunho racista, datada do século XIX – e que ajudou a justificar a escravidão, a violência e todo tipo de exploração de milhares de povos e culturas por meio do colonialismo e do neocolonialismo europeu nos últimos séculos [5] – seja repetida acriticamente pelo presidente da República Jair Bolsonaro. Não é sem razão que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) se posicionou contrariamente a fala do presidente.

Referências

  1. BARNARD, Alan; SPENCER, Jonathan. The Routledge Encyclopedia of Social and Cultural Anthropology. 2ª ed. Londres: Routledge, 2009.
  2. CASTRO, Celso. Evolucionismo cultural: Textos de Morgan, Tylor e Frazer. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. Coleção Antropologia Social. Tradução: Maria Lúcia de Oliveira.
  3. DAMATTA, Roberto. Relativizando: Uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1981.
  4. BOLAFFI, Guido et al. Dictionary of Race, Ethnicity and Culture. Londres: [s.n.], 2003.
  5. LEWIS, Diane. Anthropology and Colonialism. Current Anthropology, v. 14, n. 5, p. 581–602, 1 dez. 1973.