Câncer sequestra processo celular natural para sobreviver

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Publicado na EurekAlert

Tumores cancerígenos manipulam um processo celular natural para promover sua sobrevivência, sugerindo que controlar esse mecanismo pode ajudar a parar a progressão da doença, de acordo com uma nova pesquisa liderada pela University of Oxford.

Degradação Mediada por Mutação Sem Sentido (NMD, abreviado em inglês) é um processo fisiológico natural que fornece às células a habilidade de detectar erros chamadas de mutações nonsense, ou sem sentido. Também permite que essas células eliminem a mensagem mutada (decaimento) que vem desses genes defeituosos, antes que possam ser traduzidos em proteínas que causem a formação de doenças. NMD é conhecida pela comunidade médica pelo papel que ela possui no desenvolvimento de doenças genéticas como a Fibrose Cística e algumas formas hereditárias de câncer. Mas nem todas as mutações sem sentido podem causar NMD, e portanto, ao menos até agora, seu completo impacto sobre o câncer era desconhecido.

Pesquisadores biomédicos e cientistas computacionais da Divisão de Ciências Médicas da University of Oxford e a Universidade de Birmingham desenvolveram um algoritmo computacional para minerar sequências de DNA do câncer para predizer com acurácia se uma NMD iria ou não eliminar genes com mutações nonsense. O trabalho originalmente se focou em câncer ovariano, e descobriram que um quinto desses cânceres usam o NDM para ficarem mais fortes. Isso ocorre porque o NMD faz com que mensagens de um gene chamado TP53, que originalmente protegem as células do desenvolvimento de câncer, sejam quase que completamente eliminadas. Na ausência de NMD, uma TP53 mutada pode ainda manter alguma atividade, mas NMD certifica-se que isso não ocorra.

Baseado nessa pesquisa, a equipe prediz que já que cânceres essencialmente se alimentam de NMD, eles se tornam dependentes desse processo em alguns casos. Se cientistas forem capazes de inibir ou controlar o processo, é possível que eles possam também controlar o câncer e prevenir a progressão da doença.

Dr. Ahmed Ahmed, co-autor do estudo, disse: “Nossas primeiras observações de evidências do papel da NMD em câncer ovariano foram tentadoras. Nós descobrimos que a NMD explicou precisamente porque quase não há expressão de TP53 em certos cânceres ovarianos. Nós demos seguimento, testando o papel do NMD em outros cânceres, e as evidências foram convincentes. Isso abre as portas para possibilidades empolgantes em tratamentos customizados, incluindo imunoterapias individualizadas para pacientes no futuro”.

Após a análise de câncer ovariano, a equipe expandiu o estudo para incluir outros tipos. Eles analisaram cerca de um milhão de diferentes mutações celulares em mais de 7 mil tumores do Cancer Genome Atlas, cobrindo 24 tipos de câncer. A equipe foi capaz de mapear como cada tipo de câncer usa o NMD, revelando a notável medida em que o NMD ajuda o câncer a sobreviver.

Katherine Taylor, CEO da Ovarian Cancer Action, que ajudou a financiar o estudo, disse: “Essa é uma notícia muito empolgante. O Professor Ahmed e sua equipe identificaram como células cancerígenas dependem de um processo chamado NMD para sua sobrevivência. Essa descoberta pode ajudar clínicos a identificar e inibir o processo, dando a eles um controle muito maior sobre o câncer de um indivíduo”.

“O câncer ovariano é uma doença muito complexa e as taxas de sobrevivência são baixas, com apenas 46% das mulheres vivendo 5 anos após o diagnóstico. Então, entender como nós podemos prevenir a doença é imperativo se queremos melhorar a sobrevivência dessas mulheres”.

“É fantástico ver como o nosso financiamento está ajudando a causar progresso verdadeiro e nós não poderíamos ter feito isso sem a generosidade de nossos apoiadores. Nós estamos ansiosos para ver o que o Professor Ahmed fará em sequência com essa pesquisa”.

Os próximos passos da equipe serão focar em testar sua teoria e entender o quanto interromper o processo de NMD irá permiti-los controlar os tumores.

O coautor Dr. Christopher Yau, cientista computacional da University of Birmingham, disse: “Como resultado desses achados, nós agora planejamos aplicar o mesmo algorítimo computacional para determinar se o NMD afeta pacientes de câncer no 100.000 Genomes Project. Essas investigações pavimentarão o caminho para novas possibilidades de tratamento para pacientes no futuro”.

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