Centenas de cópias dos Principia Mathematica de Newton são encontradas em novo censo

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Cópia do Principia na Caltech, que foi propriedade no século 18 do matemático e filósofo natural francês Jean-Jacques d'Ortous de Mairan. Mais recentemente, estava na coleção do físico Earnest Watson da Caltech. Crédito: California Institute of Technology.

Por Whitney Clavin
Publicado na California Institute of Technology

Numa história que envolve livros perdidos e roubados e um trabalho de detetive escrupuloso em todos os continentes, um historiador da Caltech e seu ex-aluno desenterraram cópias anteriormente não registradas ​​do livro científico inovador de Isaac Newton Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, conhecido mais coloquialmente como Principia ou Principia Mathematica. O novo censo mais que duplica o número de exemplares conhecidos da famosa primeira edição, publicada em 1687. O último censo desse tipo, publicado em 1953, identificou 187 exemplares, enquanto a nova pesquisa da Caltech encontrou 386 exemplares. Cerca de mais 200 cópias, de acordo com os autores do estudo, provavelmente ainda existam sem documentos em coleções públicas e privadas.

“Sentimo-nos como Sherlock Holmes”, disse Mordechai (Moti) Feingold, professor de História da Ciência e Humanidades do Centro Kate Van Nuys Page na Caltech, que explica que ele e seu ex-aluno Andrej Svorenčík da Universidade de Mannheim, na Alemanha, passaram mais de uma década rastreando cópias do livro em todo o mundo. Feingold e Svorenčík são coautores de um estudo sobre a pesquisa publicado na revista Annals of Science.

Além disso, ao analisarem marcas de propriedade e notas rabiscadas nas margens de alguns dos livros, além de cartas relacionadas e outros documentos, os pesquisadores encontraram evidências de que os Principia, antes considerado reservado para apenas um grupo seleto de matemáticos especialistas, foi mais amplamente lido e compreendido do que se pensava anteriormente.

“Uma das constatações que tivemos”, diz Feingold, “é que a transmissão do livro e de suas ideias foram muito mais rápidas e abertas do que pensávamos, e isso terá implicações em nosso trabalho futuro sobre esse assunto”.

Nos Principia, Newton introduziu as leis do movimento e da gravitação universal, “unificando os mundos terrestre e celestial sob uma única lei”, diz Svorenčík.

“No século 18, as ideias newtonianas transcenderam a própria ciência”, diz Feingold. “Pessoas em outras áreas esperavam encontrar uma lei única semelhante para unificar seus respectivos campos. A influência de Newton, assim como a de Charles Darwin e Albert Einstein, exerceu uma influência considerável em muitos outros aspectos da vida, e foi isso que fez ele uma figura tão canônica durante o século 18 e em diante”.

Principia encontrado atrás da Cortina de Ferro

Svorenčík diz que o projeto nasceu de um estudo que ele desenvolveu para um curso de história da ciência ministrado por Feingold. Originário da Eslováquia, Svorenčík escreveu um trabalho de conclusão de curso sobre a distribuição dos Principia na Europa Central. “Eu estava interessado em saber se haviam cópias do livro que pudessem ser rastreadas até a minha região natal. O censo feito na década de 1950 não listou nenhuma cópia da Eslováquia, República Tcheca, Polônia ou Hungria. Isso é compreensível, já que o censo foi feito antes do fim da Cortina de Ferro, o que tornou o rastreamento das cópias muito difícil”.

Para surpresa de Svorenčík, ele encontrou muito mais cópias do que Feingold esperava. Antes das férias de verão depois da aula, Feingold sugeriu a Svorenčík que transformasse seu projeto na primeira busca sistemática e completa de cópias da primeira edição do Principia. Seu trabalho de detetive em todo o mundo resultou em cerca de 200 cópias não identificadas em 27 países, incluindo 35 cópias na Europa Central. Feingold e Svorenčík até encontraram cópias perdidas ou roubadas da obra-prima. Por exemplo, descobriu-se que uma cópia encontrada em um livreiro na Itália foi roubada de uma biblioteca na Alemanha meio século antes.

“Entramos em contato com a biblioteca alemã para informá-los, mas eles demoraram muito tempo para tomar a decisão de comprar de volta a cópia ou apreendê-la de alguma forma, então ela acabou voltando ao mercado”, diz Feingold.

Um item colecionável raro

De acordo com os historiadores, as cópias da primeira edição do Principia são vendidas hoje por US$300.000 e US$3.000.000 (entre R$1.637.010,00 e R$16.370.100,00, respectivamente, em novembro de 2020) em casas de leilão como a Christie’s e a Sotheby’s, bem como no mercado negro. Eles estimam que cerca de 600 e, possivelmente, até 750 cópias da primeira edição do livro foram impressas em 1687.

A principal pessoa por trás da publicação do livro foi Edmond Halley, um conhecido cientista inglês que fez várias descobertas sobre nosso Sistema Solar, incluindo a periodicidade do que mais tarde ficou conhecido como o Cometa Halley. Feingold explica que, antes do Principia ser escrito, Halley pediu a Newton alguns cálculos relativos às órbitas elípticas dos corpos em nosso Sistema Solar. Quando Halley viu os cálculos, “ele ficou tão animado que correu de volta para Cambridge e, basicamente, forçou Newton a escrever os Principia“, disse Feingold. Na verdade, Halley financiou a publicação da primeira edição do livro.

Logo após sua publicação, o livro foi reconhecido como uma obra de gênio. “Como Halley já havia preparado o público para o que estava por vir”, disse Feingold, “houve um reconhecimento generalizado de que o Principia era uma obra-prima”. Mais tarde, uma “mística” sobre Newton começou a se desenvolver, de acordo com Feingold, exemplificada em uma história sobre dois estudantes caminhando em Cambridge que avistaram Newton na rua. “‘Lá vem um homem'”, disse um deles, “‘que escreveu um livro que nem ele nem ninguém entende'”, diz Feingold.

A ideia de que o Principia era incompreensível e pouco lido é questionada com os novos resultados da pesquisa. A pesquisa não apenas mostra que havia um mercado maior do que se pensava para o livro, mas também que as pessoas estavam compreendendo seu conteúdo em uma extensão maior do que se imaginava.

“Quando você olha as próprias cópias, pode encontrar pequenas notas ou anotações que dão pistas sobre como foram usadas”, diz Svorenčík, que inspecionou pessoalmente cerca de 10% das cópias documentadas em seu censo. Ao viajar para conferências em diferentes países, ele reservava tempo para visitar as bibliotecas locais. “Você olha a condição das marcas de propriedade, a encadernação, deterioração, diferenças de impressão, etc.”. Mesmo sem inspecionar os livros de perto, os historiadores podiam rastrear quem os possuía por meio de registros da biblioteca e outras cartas e documentos, e aprender como as cópias eram compartilhadas.

“É mais difícil mostrar o quanto as pessoas se engajaram com um livro do que simplesmente o possuíam, mas podemos olhar as notas nas margens e como o livro foi compartilhado”, diz Feingold. “Pode-se supor que, para cada exemplar, haja múltiplos leitores. Não é como hoje, onde você compra um livro e é o único a lê-lo. E aí, a gente pode buscar uma troca de ideias entre as pessoas que compartilham exemplares. Você começa a juntar as peças e resolver o quebra-cabeça”.

Svorenčík e Feingold esperam que seu censo, que eles chamam de preliminar, produza informações sobre outras cópias existentes guardadas com proprietários privados, livreiros e bibliotecas. Com meta de prosseguir com essa linha de pesquisa, os historiadores planejam refinar ainda mais nossa compreensão de como os Principia moldaram a ciência do século 18.