Cérebros de cães têm um talento especial para números, assim como o nosso

Por Virginia Morell
Publicado na Science

Os cães podem não ser capazes de contar até 10, mas mesmo os não treinados têm uma noção aproximada de quantas guloseimas alguém coloca na tigela de comida. Essa é a descoberta de um novo estudo, que revela que nossos amigos caninos compreendem inatamente as quantidades da mesma maneira que nós.

O estudo é “convincente e empolgante”, diz Michael Beran, psicólogo da Georgia State University, em Atlanta, que não participou da pesquisa. “Isso aumenta ainda mais nossa confiança de que [essas representações de quantidade no cérebro] são antigas e generalizadas entre as espécies”.

A capacidade de estimar rapidamente o número de ovelhas em um rebanho ou frutos amadurecidos em uma árvore é conhecida como “sistema numérico aproximado”. Estudos anteriores sugeriram que macacos, peixes, abelhas e cães têm esse talento. Mas grande parte dessa pesquisa utilizou animais treinados que recebem vários testes e recompensas. Isso deixa em aberto a questão de saber se a capacidade é inata nessas espécies, assim como nos seres humanos.

No novo estudo, Gregory Berns, neurocientista da Universidade Emory, em Atlanta, e colegas recrutaram 11 cães de várias raças, incluindo border collies, misturas de pitbull e cruzamentos de golden retriever com labrador, para ver se podiam encontrar atividade cerebral associada a uma sensibilidade aos números. A equipe, pioneira na varredura do cérebro canino (fazendo com que os cães entrassem voluntariamente em um scanner de ressonância magnética funcional e permanecessem imóveis), fez com que seus animais entrassem no scanner, apoiassem a cabeça em um bloco e fixassem os olhos em uma tela na extremidade oposta (veja o vídeo). Na tela, havia uma série de pontos cinza em um fundo preto cujo número mudava a cada 300 milissegundos. Se cães, como seres humanos e primatas não humanos, têm uma região cerebral dedicada para representar quantidades, seus cérebros devem mostrar mais atividade quando o número de pontos é diferente (3 pontos pequenos contra 10 grandes) do que quando eram constantes (4 pontos pequenos contra 4 pontos grandes).

8 dos 11 cães passaram no teste, informou a equipe na Biology Letters. Curiosamente, regiões cerebrais ligeiramente diferentes se acenderam em cada cão, provavelmente por serem raças diferentes, diz Berns.

“Essas descobertas apoiam nossa compreensão do sistema de números aproximados. Anteriormente, esses efeitos haviam sido demonstrados apenas comportamentalmente em cães, portanto, essa é uma contribuição importante para a nossa compreensão da cognição canina”, diz Krista Macpherson, pesquisadora de cognição canina da Western University, em Londres, Canadá. E, ela acrescenta, é provável que o estudo seja de interesse dos treinadores de cães, porque sugere que os cães prestam mais atenção ao número de itens – como recompensa, por exemplo – apresentados em vez do volume de itens.

Os cães e os humanos são separados por cerca de 80 milhões de anos de evolução, observa Berns. Portanto, essa descoberta “fornece algumas das evidências mais fortes até agora” de que a maioria dos mamíferos nasceu para contar, senão para fazer cálculos mais altos.