Ceticismo científico ou metodológico?

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Saudações racionalistas a todos! Publicaremos mais um texto sobre ceticismo. Acredito ser de grande utilidade, esclarecer ainda mais sobre esta postura filosófica útil a quem ama a ciência e nela acredita para que busquemos um mundo melhor. Porém, o ceticismo é muitíssimo mal compreendido por muita gente supostamente esclarecida, diplomada e que vulgarmente, se intitula “cético” (ou cética). Com este post, pretendemos direcioná-lo em sentido de esclarecer a um certo tipo arrogante – ou muito inocente, ou infantil – de pessoas que acham que ciência não precisa de filosofia para progredir (ou que tendam a pensar assim).

Muitas pessoas pensam que ceticismo, em nível de senso comum, possui um quê de “excelência científica” ou algo do tipo. O que, aplicado à ciência, é amplamente verdadeiro, mas não totalmente. Insistindo nessa lógica, muita gente por exemplo, acha que “ser cético” é estar mais próximo da mentalidade científica, da mentalidade ética e chega a pensar numa “ausência de crenças”, ou pior, na impossibilidade do conhecimento e da verdade objetiva. Se acreditamos que não possuímos crenças, ou que a busca pela verdade objetiva, universal, deve ser suprimida de alguma forma, estaremos sendo tanto inimigos da ciência quanto do conhecimento e da ética. Assumindo posturas tão dogmáticas quanto aqueles que estão nos caminhos do charlatanismo, do fanatismo (político ou religioso), do totalitarismo e das pseudociências. É é aí, onde os enganos, dos mais inocentes e principalmente aos mais perniciosos, surgem à tona.

Trata-se de mais um texto do excelente filósofo da ciência argentino, Mario Augusto Bunge. Professor de metafísica e lógica na McGill University, Canadá. Nele, esclarece-se a diferença entre dois tipos de ceticismo: metodológico e radical. Onde um é auxiliar à ciência e outro, é inimigo da mesma; apesar de ambos aparentemente combaterem o dogmatismo e o obscurantismo. O ceticismo radical é logicamente insustentável e perigosamente dogmático.

Boa leitura!

Ceticismo científico ou metodológico?

Por Mario Bunge

Aqueles que se simpatizam com o CSICOP (Comité para la Investigación Científica de lo Presunto Paranormal, em português, Comitê para a Investigação Científica da Alegação Paranormal) ou organizações similares, costumam se autodenominar “céticos”. Com isto queremos dizer que adotamos a famosa dúvida metodológica (ou metódica) defendida por Descartes, o fundador da filosofia moderna. Dúvida metódica não é nada mais que, inicialmente, desconfiar com cuidado sobre o que eles dizem. Bem quanto ao que percebemos e pensamos, por meio de testes através de novas experiências e pensamentos novos. A dúvida metódica se opõe à credulidade ou a aceitação ingênua pela primeira coisa que vemos ou pensamos.

A dúvida metódica é o núcleo do ceticismo metodológico. Este ceticismo deve ser distinguido do ceticismo sistemático ou radical, que nega a possibilidade de todo o conhecimento e, portanto, afirma que a investigação é inútil e a verdade, inacessível. Ambas as variedades de ceticismo criticam a ingenuidade e o dogmatismo, mas o ceticismo metodológico nos estimula a investigar. O sistemático bloqueia a investigação, e assim, paradoxalmente, leva ao mesmo resultado que o dogmatismo, ou seja, a imobilidade.

O artesão e o técnico, o administrador e o organizador, assim como o cientista e o filósofo autêntico, atuam como céticos metodológicos mesmo quando nunca ouviram falar desta definição. De fato, em seu trabalho profissional, não são sistematicamente crédulos ou descreem de tudo, mas têm cuidado com qualquer ideia que não foi testada e exigem o controle dos dados e testes de hipóteses: buscando novas verdades, ao invés de se contentar com um punhado de dogmas. Mas também têm crenças.

Por exemplo, o eletricista faz medições e testes de sua instalação antes da entrega; o farmacologista testa o novo medicamento antes de recomendar a produção em massa; o administrador de empresas responsabiliza-se por uma pesquisa de mercado antes de lançar um novo produto à venda; editor lê os originais de uma nova obra antes da impressão; o professor testa o aproveitamento de seus alunos; o matemático tenta demonstrar o teorema que planejou; o químico, físico e biólogo verificam suas medidas e cálculos, e desenham e redesenham seus experimentos para testar suas hipóteses; os sociólogos, economistas e cientistas políticos sérios, estudam amostras das populações analisadas antes de anunciar generalizações sobre elas, e assim por diante.

Mas os teólogos e filósofos de escola, os economistas neoclássicos, políticos messiânicos, assim como os pseudocientíficos e os gurus da contracultura, dão-se ao luxo de repetir dogmas, que não são testáveis ou já foram refutados. Os demais, aqueles que ganham a vida trabalhando com as mãos, produzindo ou difundindo conhecimento, organizando ou gestionando empresas privadas e públicas, praticam a dúvida metódica. Este é um procedimento moral e metodológico. Acreditamos que é tanto imprudente como imoral, anunciar, implementar ou pregar crenças que não foram testadas, ou pior, foram convincentemente refutadas. Porque temos fé na investigação e ação guiada pela ciência, não somos céticos radicais. Desacreditamos o que é falso e duvidamos do que não é confirmado, mas acreditamos no que é contrastado, pelo menos por agora, e estamos convencidos da pesquisa cultural, moral e prática para a verdade. Somos, em suma, os céticos construtivos.

O credo de um cético

É impossível processar uma ideia em si mesma, independentemente de um conjunto de ideias que são tidas como um sistema de referência. Ao examinar uma ideia qualquer, o fazemos à luz de outras ideias que não questionamos no momento. Por esse motivo, o ceticismo radical é logicamente insustentável. Pela mesma razão, todo cético metodológico tem algum credo, mesmo que temporário.

Por exemplo, podemos avaliar um teorema matemático à luz de suas premissas e das leis lógicas. Nós avaliamos uma teoria física por sua coerência lógica e clareza matemática, bem como em sua harmonia com outras teorias físicas e sua correspondência com relevantes dados empíricos. Julgamos uma teoria química segundo as leis físicas que a pressupõem, e se elas se ajustam ou não a outras teorias e dados experimentais pertinentes. Com outras ciências, procede-se da mesma forma. Em particular, exigimos que a psicologia não viole as leis da biologia e que as ciências sociais respeitem a psicologia e se concordem entre si.

Além disso, em todos os casos, os céticos metodológicos ou moderados, assumem, embora de modo tácito, que as teorias e métodos científicos satisfazem certos requisitos filosóficos… Eles são:

(1) O materialismo científico, isto é, a hipótese segundo a qual tudo o que existe, na realidade – ao contrário do que se imagina – é concreto ou material. Por implicação, não existem ideias duras ou processos que não sejam mudanças acentuadas em coisas materiais (isto não exclui a possibilidade de que um cérebro vivo conceba ideias puras, apenas descarta que estas possam adquirir existência autônoma).

(2) O realismo científico, ou seja, a hipótese de que o mundo existe por si só e é cognoscível, embora apenas parcialmente e de forma gradual. Por implicação, o idealismo, o convencionalismo, o ficcionismo, o pragmatismo e o ceticismo radical são falsos, e pior ainda, são obstáculos para a investigação da realidade.

(3) O racionalismo científico, segundo o qual toda ideia e todo sistema de ideias deve ser logicamente consistente e deve ser submetido a um exame crítico à luz de outras ideias. Por implicação, o racionalismo científico inclui não só o ceticismo metodológico, mas também o melhorismo epistemológico, ou seja, a tese da perfectibilidade do conhecimento humano.

(4) O empirismo científico, segundo o qual qualquer hipótese sobre coisas reais deve ser testada por dados empíricos, seja diretamente ou através de outras hipóteses que por sua vez sejam diretamente testáveis. O empirismo científico se opõe ao racionalismo radical, segundo o qual a razão é suficiente para conhecer a realidade. Também se opõe ao empirismo ingênuo, segundo o qual cada fato empírico é irrefutável e portanto, a experiência é o tribunal de última instância. O empirista científico critica alguns dados à luz de hipóteses bem confirmadas. A rigor, é tão empirista como racionalista: é racioempirista.

(5) O sistemismo científico, segundo o qual, a coleção dos conhecimentos humanos num determinado momento, é um sistema cujas partes se sustentam ou se enfraquecem entre si. Por implicação, não há nenhuma ciência isolada: qualquer disciplina que não se relacione parcialmente com alguma outra ciência, é uma pseudociência. Outra implicação é que todo progresso científico em um campo pode ter repercussões em outro. Uma terceira implicação é que a estagnação ou o declínio de uma disciplina pode parar o progresso de outras ciências. A moral prática é óbvia: se queremos uma cultura equilibrada e próspera, devemos estimular a pesquisa em todos os campos. Se negligenciamos as ciências sociais, empobrecemos nossa compreensão de sociedade e com isso, dissipamos a esperança de melhorá-la de maneira eficaz e humana. E se negligenciamos as ciências humanas, incluindo a filosofia, cultiva-se uma visão ciclópica e míope do mundo…

Em suma, a verdade ou a falsidade de uma proposição ou sistema de proposições não é absoluta, ou seja, independente do resto do conhecimento científico, é relativa ao volume do mesmo. A consequência que isto tem para com o ceticismo é óbvia, a saber, questionar não é possível em todos os momentos. Todos questionamento é parcial: questionamos um pedaço de conhecimento assumindo um corpo de conhecimento muito maior. A dúvida é sempre parcial, nunca completa: colocamos em dúvida esta ou aquela ideia científica. Por esta razão, a partir da constituição da ciência moderna no século XVII, não houve revoluções científicas totais ao estilo das imaginadas por T. S. Kuhn e P. K. Feyerabend. Todas as revoluções científicas que se seguiram foram parciais.

Em outras palavras, o ceticismo do cientista é metodológico e parcial, e não total e sistemático. O pesquisador não é ingênuo: não acredita na primeira coisa que vê ou pensa, mas submete essa coisa à revisão e, em particular, busca possíveis contraexemplos ou exceções. Mas também não é um epistemológico niilista ao estilo de Nietzsche ou Heidegger, mas acredita, pelo menos pro tempore, em uma grande quantidade de dados experimentais e teorias científicas (eu digo pro tempore, porque está sempre disposto a ouvir dados ou razões que coloquem em causa este ou aquele fato, a hipótese disto ou daquilo). Em suma, o ceticismo metodológico é construtivo, e não meramente crítico. A crítica é apenas um meio para alcançar a verdade…

Conclusão

Os cientistas ou céticos metodológicos não são ingênuos, mas tampouco duvidamos de tudo ao mesmo tempo. Acreditamos no que é demonstrado, colocamos em dúvida ou suspendemos aquilo que ainda não tenha sido testado e rejeitamos o que não está em harmonia com o grosso do conhecimento científico.

Portanto, o nosso ceticismo não é total e desesperado, mas parcial e esperançoso: defendemos muitos princípios e temos fé na capacidade do ser humano para fazer avançar o conhecimento da realidade. Nossa fé é crítica, e não cega. Nós não acreditamos em superstições, mas acreditamos em teoremas bem estabelecidos, experimentos bem desenvolvidos e teorias bem confirmadas, bem como axiomas coerentes e férteis. Ao mesmo tempo, estamos alertas para a possibilidade de erro e engano e acreditamos na capacidade de detectar e corrigir.

Pessoalmente, eu também acredito em certas ideias gerais, que são básicas e férteis na natureza filosófica: o materialismo, o realismo, o racionalismo o empirismo, e o sistemismo científico. Estes princípios não são apenas confirmados por todo o avanço científico, mas estimulam a investigação, a longo prazo. Ao mesmo tempo, esses princípios servem para questionar qualquer doutrina que os viole, enquanto contradiz fundamentais resultados científicos.

Por exemplo, não há necessidade de realizar investigações experimentais para negar que se possa fazer funcionar uma máquina com pensamento puro, que existam cristais que irradiam energia psíquica, que se possa fazer uma cirurgia sem bisturi ou feixes de laser, que se possa curar com palavras mágicas ou com soluções de uma parte de 10 a 100, ou que hajam teorias que resolvem tudo. Essas experiências são necessárias apenas para expor os charlatões e persuadir o público leigo.

A pseudociência e a pseudotécnica são a versão moderna do pensamento mágico. É preciso criticá-las, não apenas para limpar os cérebros do lixo intelectual, mas também para impedir que seus exploradores nos limpem os bolsos. E para criticá-los não é suficiente mostrar que carecem de suporte empírico, já que se poderia pensar que isso poderia ser produzido no futuro, também é necessário mostrar que tais doutrinas contradizem a filosofia inerente à pesquisa científica.

Portanto, a crítica ao pensamento mágico, e em particular à pseudociência e a pseudotécnica, é uma companhia comum de cientistas, engenheiros, filósofos e educadores. Dada a comercialização massiva de lixo intelectual e o declínio do ensino de ciência e tecnologia em muitos países, se não colocarmos mais empenho neste esforço crítico, o Homo Sapiens será totalmente substituído pelo Homo Ignarus.