Comentário de John Searle sobre a ingenuidade do behaviorismo

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“Ao asseverar que as pessoas têm estados mentais intrinsecamente Intencionais, afasto-me de muitas, senão da maioria, das concepções atualmente difundidas no campo da filosofia da mente. Acredito que as pessoas tenham de fato estados mentais, alguns conscientes e outros inconscientes, e que, pelo menos no que diz respeito aos estados mentais conscientes, tenham em larga medida as propriedades mentais que parecem ter. Rejeito toda forma de behaviorismo ou de funcionalismo, inclusive o funcionalismo baseado nos princípios da máquina de Turing, que acaba por negar as propriedades especificamente mentais dos fenômenos mentais […] Acredito que as várias formas de behaviorismo e de funcionalismo nunca foram motivadas por uma investigação independente dos fatos, mas por um temor de que, a menos que fosse encontrada uma maneira de eliminar os fenômenos mentais ingenuamente concebidos, ficaríamos com o dualismo e com um problema mente-corpo aparentemente insolúvel. Segundo meu ponto de vista, os fenômenos mentais possuem uma base biológica: são ao mesmo tempo causados pelas operações do cérebro e realizados na estrutura do cérebro. Segundo este ponto de vista, a consciência e a Intencionalidade são tão parte da biologia humana quanto a digestão ou a circulação sanguínea. Trata-se de uma fato objetivo sobre o mundo ele conter certos sistemas, a saber, cérebros com estados mentais subjetivos e é um fato físico desses sistemas que eles possuam características mentais. A solução correta para o “problema mente-corpo” não está em negar a realidade dos fenômenos mentais, mas em estimar adequadamente sua natureza biológica.”

Searle, John R. Intencionalidade. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

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8 Comentários em "Comentário de John Searle sobre a ingenuidade do behaviorismo"

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Daniel
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Bem equivocado o que Searle disse, visto que o behaviorismo radical ( e não o metodológico) nunca negou os fenômenos ditos mentais. O que Skinner diz é que os eventos privados não tem natureza diferente dos eventos públicos. (negação do dualismo mente-corpo e mente-cérebro).Para o behaviorismo skinneriano todos os tipos de comportamento, sejam eles públicos ou privados são de natureza material. Ele nunca negou o fato de esses estados mentais serem gerados pelo cérebro, alias como todos os outros fenômenos também o sejam. O que ele criticava era o fato de atribuirmos à mente a causa dos comportamentos. Para ele,… Read more »
Fábio Yuto Yabuchi
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Você deu um descuido ao afirmar que: ”Para ele, a causa está no ambiente e não no próprio organismo.” O descuido está no conceito de causa: só as mudanças ambientais que geram mudanças no comportamento? Ou mudanças no organismo (cérebro, composição hormonal, etc) também podem gerar mudanças no comportamento? Aliás, não seria uma combinação desses dois tipos de fatores, isto é, ambas são causas do comportamento? ” E por fim, quando o autor diz: “os fenômenos mentais possuem uma base biológica: são ao mesmo tempo causados pelas operações do cérebro e realizados na estrutura do cérebro. Isso é obvio e… Read more »
Gustavo Assi
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No behaviorismo metodológico, Watson não negava a existência da mente, mas apenas afirmava que esta não deveriar ser o estudo da psicologia e, mais especificamente, de uma ciência do comportamento. Temos ai um behaviorismo baseado no positivismo lógico e dualista. Já para skinner, a explicação do comportamento estaria na relação ambiente-organismo-ambiente na qual organismo está ou esteve. Ele sim negava a existencia da mente, passando a atribuir “o mundo sob a pele de cada um” como algo material, fisiológico, como os sistemas nervoso interoceptivo, propioceptivo e exteroceptivo. Vale ressaltar que ele partilhava da visão monista, esses sistemas não iniciavam comportamentos,… Read more »
Fabio
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Gustavo, acho que ainda não entendi, a priori, precisamente o que seria Skinner negar a “existência da mente”: seria negar o conceito dualista de alma? Se for, confundi-me por eu frequentemente usar “mente” como sendo o sistema que inclui os processos cognitivos, mesmo considerando-os materiais (o que não implica em fisicalismo, pois os fenômenos psíquicos/cognitivos tem propriedades emergentes, assim como a química tem propriedades emergentes em relação à física, as ciências biológicas para com a química, e a psicologia para com a biologia).

Diego
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Searle não apontou para nenhum behaviorismo em específico, e qualquer estudante iniciante de psicologia ou filosofia da mente sabe, ou deveria saber, que os behaviorismos são tudo menos iguais entre si. Logo: “A science of behavior has been said to dehumanize man because it is reductionistic. It is said to deal with one kind of fact as if it were a different kind—as is done for example, by physiological psychology. But behaviorism does not move from one dimensional system to another. It simply provides an alternative account of the same facts. It does not reduce feelings to bodily states; it… Read more »
Rafael
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Ora, se ele rejeita todos os tipos de behaviorismo, por que se dar ao trabalho de apontar algum em específico? Mas pode ter certeza de que o behaviorismo radical está entre esses.

Diego
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Porque todos e nenhum é praticamente a mesma coisa, a não ser que se defina o que é, afinal, comum a todos, coisa que, como eu disse, basicamente não existe.
E se, como você disse, o behaviorismo radical está entre esse (e certamente está, para o Searle), então o ônus da prova é dele, apesar de essa citação do Skinner (para não dizer o livro todo, que é uma excelente resposta a algumas dessas distorções comuns) dizer justamente o contrário do que a passagem citada afirma sobre “os behaviorismos”.

Rafael
Visitante

Não é uma resposta pq pressupõe precisamente o que está sendo posto em causa pelo Searle.