Como domesticar uma raposa?

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Como se pode domesticar uma espécie animal? Que características devem ser selecionadas para que possamos transformar animais de uma espécie em outra? Foram perguntas como essas que motivaram o geneticista soviético Dmitri Belyaev a pesquisar os processos de domesticação de animais no final da década de 1950, quando este cientista iniciou um dos trabalhos mais fascinantes na área das ciências biológicas no século passado.

Belyaev tinha um interesse especial na história da domesticação dos cães, e pensava em organizar um experimento que pudesse, de alguma maneira, imitar esse processo. Havia, no entanto, dois grandes empecilhos para que isso ocorresse. O primeiro deles era conseguir uma espécie que pudesse servir como “modelo” no experimento; além disso, era necessário que os pesquisadores tivessem acesso relativamente fácil a um grande número de animais, para que houvesse então a escolha daqueles com as características consideradas mais adequadas para o trabalho. O segundo empecilho dizia respeito ao ambiente científico hostil para projetos que envolviam “genética ocidental”, ou a “reacionária genética moderna”, como se referia Trofim Lysenko – o então diretor da Academia Soviética de Ciências – a estudos que se baseavam em pilares mendelianos e darwinistas, como era o planejado por Belyaev.

O primeiro problema foi resolvido com a escolha da raposa-prateada, uma variante da raposa-vermelha (Vulpes vulpes), espécie geneticamente próxima dos lobos (os ancestrais dos cães), mas de comportamento normalmente solitário. A escolha das raposas-prateadas também solucionou um potencial empecilho para a pesquisa, a quantidade de animais disponíveis para os acasalamentos. Na União Soviética e em outros países do leste europeu havia enormes fazendas de criação de raposas para a obtenção de peles, e Belyaev e seus colegas contataram os administradores de alguns destes locais para conseguir os primeiros animais para o experimento.

Para evitar a oposição de Lysenko à pesquisa com genética, Belyaev e sua equipe trataram incialmente o projeto como uma investigação sobre a fisiologia de raposas, focada especialmente em seus processos reprodutivos, o que poderia ajudar na obtenção de um maior número de ninhadas e de filhotes. Outra suposta finalidade seria a de conseguir peles de melhor qualidade. O grupo de Belyaev ainda esperaria alguns anos para poder anunciar publicamente o real objetivo do trabalho: mimetizar a evolução dos cães através das raposas-prateadas.

Belyaev pressupunha que a característica fundamental de todo animal domesticado é a mansidão. Assim, ele entendia que o início do processo de domesticação de qualquer espécie animal era dado a partir do cruzamento entre os indivíduos mais dóceis de um determinado grupo ou, mais especificamente, entre os indivíduos que melhor toleravam os seres humanos e eram os mais mansos conosco.

Nas fazendas de raposas, os pesquisadores começaram a fazer a seleção dos animais que participariam dos cruzamentos. Em geral, as raposas-prateadas eram bastante agressivas com os humanos, e a simples aproximação de uma pessoa a uma jaula já provocava reações violentas nelas. No entanto, as fazendas congregavam milhares de raposas, e entre estas havia alguns indivíduos que eram naturalmente mais tolerantes à presença humana. Estes foram os escolhidos pelos cientistas soviéticos para a pesquisa.

Como saber quais eram as raposas mais mansas? O procedimento elaborado pela equipe de Belyaev consistia primeiramente na aproximação vagarosa de uma pessoa ao recinto da raposa. A pessoa então levantava os braços ou deixava as suas mãos próximas da grade, e também poderia introduzir uma vareta dentro da jaula. Normalmente, os animais reagiam agressivamente, mordendo e rosnando. Mas cerca de 10% das raposas testadas não eram hostis aos humanos, e algumas delas até pareciam curiosas com a figura dos pesquisadores.

As raposas que inicialmente apresentaram as reações mais tranquilas à presença e ao contato humano – 100 fêmeas e 30 machos – constituíram a geração parental. Os mesmos testes comportamentais foram feitos com os filhotes destas raposas e, novamente, os animais mais mansos foram selecionados para acasalamento, e assim sucessivamente.

O experimento de Belyaev foi iniciado em 1959, e pouco tempo depois, no começo dos anos 1960, mudanças interessantes já podiam ser observadas nas raposas. Na terceira geração, por exemplo, os animais eram substancialmente mais calmos que os seus progenitores, embora ainda pudessem ocasionalmente agir agressivamente. Na quinta geração as raposas eram ainda mais mansas, e uma delas apresentou um comportamento até então inédito para os pesquisadores: o animal abanava o rabo como um cão quando encontrava humanos.

Na sexta geração era possível observar raposas que se comportavam de modo semelhante a cães quando pedem carinho a seus donos. Elas desejavam estar próximas dos pesquisadores (ou de qualquer outro humano que encontrassem), os seguiam e até lambiam o rosto das pessoas. Belyaev e sua equipe também verificaram alterações no ciclo reprodutivo dos animais, com um intervalo menor entre os cios das fêmeas (gerações mais tarde, as raposas do experimento teriam dois ciclos reprodutivos anuais, enquanto que as selvagens apresentam somente um).

À medida que novas gerações de raposas nasciam, outras mudanças foram aparecendo: filhotes mantinham orelhas caídas por até três meses (como acontece em algumas raças caninas, como os pastores alemães), algumas raposas apresentavam padrão de coloração diferente na cabeça, e outras tinham o focinho mais curto. Outras ainda vocalizavam de um modo parecido com os cães. Em conjunto, a maior parte dos novos traços indicava que as raposas estavam mantendo caracteres juvenis por mais tempo, como ocorre com nossos cães domésticos.

Um dos aspectos mais notáveis do experimento soviético com as raposas foi o quanto estes animais sofreram modificações anatômicas que não eram sequer objeto de seleção. A única característica que interessava aos pesquisadores era a mansidão dos animais, ou seja, o critério necessário para a inclusão de uma raposa no programa de domesticação era a sua tolerância à presença e ao contato humano. Assim, animais selecionados de acordo com uma única característica comportamental (mansidão) passaram a exibir mudanças em traços que não eram, aparentemente, relacionados ao comportamento.

Em 1974, Lyudmila Trut, uma das pesquisadoras que esteve com Belyaev desde o início do experimento, decidiu dar um passo adiante: levar uma raposa para viver em sua casa. Pushinka (“bolinha de pelos”) foi a escolhida, e apesar de a adaptação ter sido inicialmente difícil, a convivência da raposa com as pessoas da casa foi muito parecida com aquela que tutores de cães experimentam diariamente. Pushinka, inclusive, apresentava sinais de proteção às pessoas com quem dividia o lar. Em uma ocasião, por exemplo, a raposa correu e latiu para um estranho (um guarda que fazia a sua ronda noturna), comportamento que não era comum para ela, sempre dócil com humanos.

Pushinka era uma raposa “de elite” (Classe IE), uma figura amigável, que abanava a cauda para os humanos, e que ansiava pelo contato com os animais da nossa espécie. No outro extremo do espectro comportamental estavam as raposas de Classe III, aquelas que fugiam ou eram agressivas com humanos. Belyaev assumia que havia alguma base genética para explicar a diferença entre as raposas mansas, como Pushinka, e as raposas que tinham aversão a humanos. Para testar esta hipótese, os cientistas de seu grupo transplantaram embriões de raposas filhas de mães dóceis para mães agressivas, e vice-versa. O comportamento observado nos filhotes foi idêntico ao de suas mães genéticas. No livro “How to tame a fox (and build a dog)[i], Lee Alan Dugatkin e Lyudmila Trut escrevem que algumas mudanças observadas nas raposas, como em seus sistemas endócrino e reprodutor, ainda não são bem compreendidas, mas certas características, como modificações no cromossomo 12 (raposas têm 17 pares), podem explicar, pelo menos em parte, as diferenças comportamentais, anatômicas e fisiológicas entre as raposas.

Dmitri Belyaev morreu em 1985, e deixou uma obra que fornece uma série de insights sobre genética, evolução, comportamento animal e, principalmente, a história da domesticação de animais. Apesar de ter passado por grandes problemas de financiamento em décadas passadas, a pesquisa com as raposas domesticadas continua sendo feita em Novosibirsk, na Rússia. Os animais nascidos dos processos de seleção artificial somam dezenas de milhares desde 1959, e alguns deles têm tido o mesmo destino de Pushinka, vivendo como pets na Rússia, em outros países da Europa, e nos EUA.

[i] O livro “How to tame a fox (and build a dog): visionary scientists and a Siberian tale of jump-started evolution” (The University of Chicago Press, 2017), de Lee Alan Dugatkin e Lyudmila Trut é uma leitura recomendada para quem deseja conhecer detalhes da história do experimento de Belyaev.

Uma boa leitura sobre a domesticação de animais pode ser encontrada na edição de março de 2011 da revista National Geographic Brasil. A edição de junho de 2017 da revista Scientific American Brasil traz uma reportagem sobre o experimento das raposas soviéticas, escrita por Dugatkin e Trut.

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