Como é a filosofia de Mario Bunge? Uma síntese conceitual

Na imagem, o físico e filósofo da ciência Mario Bunge.

No dia 21/09/2014, fizemos uma postagem em homenagem ao aniversário de 95 anos do físico e filósofo da ciência Mario Bunge, apresentando suas 20 famosas frases contra a pseudociência e a ignorância. Hoje, iremos apresentar um pouco da filosofia bungeana, e mostrar os princípios pelos quais ela se distingue de outras. O trecho a seguir, retirado do livro “Ser, Saber, Hacer”, pode ser lido aqui.


Por Mario Bunge. “Ser, Saber, Hacer”.

1. Materialismo: Tudo o que realmente existe, dentro ou fora do sujeito, é material ou concreto. As propriedades não existem em si, mas são possuídas por objetos concretos e conceituais. Tampouco há ideias autônomas: todas as ideias são processos cerebrais. Por exemplo, o número três não existe na natureza e nem na sociedade; só existe como é pensado por alguém.

2. Sistemismo: Tudo o que existe – seja concreto, conceitual ou semiótico – é como um sistema ou pacote de coisas, é como um componente de algum sistema.

3. Emergentismo: Os sistemas possuem propriedades que carecem de seus componentes.

4. Dinamicismo: Tudo o que há realmente muda. Apenas os objetos conceituais (por exemplo, matemáticos) são imutáveis, mas são por convenções.

5. Realismo: O mundo exterior existe independentemente do observador e é cognoscível, pelo menos parcialmente e gradualmente.

6. Cientificismo: A melhor maneira de investigar como as coisas são, sejam naturais, sociais, artificiais ou conceituais, é a adoção do método científico. É a melhor maneira de avaliar os princípios filosóficos que são expostos, e sua compatibilidade com a ciência e a tecnologia atual, e seu valor heurístico na investigação científica ou técnica, e seu valor na concepção de políticas que tendem a melhorar a qualidade de vida.

7. Racioempirismo: Combinação de componentes válidos do racionalismo e empirismo. Esta filosofia tem como objetivo ser clara, coerente e hipotético-dedutiva, ao mesmo tempo em que coloca suas hipóteses à prova dos fatos.

8. Precisão (em espanhol, Exactitud): Tenta exatificar ideias intuitivas interessantes, ou seja, transformá-las em ideias que possuem uma precisão lógica ou matemática.

9. Agatonismo: Não há direitos sem deveres, nem deveres sem direitos. O mais alto princípio moral deveria ser «Aproveitar a vida e ajudar a viver». É uma combinação do egoísmo com altruísmo, do utilitarismo com deontologismo, e do cognitivismo com o emotivismo.

10. Holotecnodemocracia (em espanhol, Tecno-holo-democracia): Democracia integral (biológica, econômica, política e cultural) guiada pela moral agatonista e sócio-técnica.

Quase todas estas características já apareceram anteriormente na história da filosofia, mas nunca tinham sido apresentadas em conjunto. Por exemplo, tanto Kant e os positivistas lógicos tentaram unir o racionalismo com o empirismo, mas ambos falharam porque eles eram limitados às aparências: eles não eram realistas e nem, portanto, cientificistas, embora tenham elogiado a ciência.

Segundo exemplo: o marxismo é materialista, mas apenas a sua metade, e os autores postulam que a superestrutura ou cultura é o ideal. E ele afirma ser científico, mas ignora os contra-exemplos, incluindo o jargão dialético, e propaga apenas especulações imprecisas.

Terceiro exemplo: as filosofias morais centralizam-se nos deveres, como kantismo, e nos direitos, como o utilitarismo. Mas os seres humanos normais combinam os direitos com os deveres, e o altruísmo com o egoísmo, que é o que propõe a minha ética agatonista.

Também apareceram esporadicamente elementos novos na literatura filosófica contemporânea, mas são apenas pedras soltas (em espanhol, gemas). Que eu saiba, o único sistema filosófico construído na segunda metade do século XX é o que eu acabo de expor. Isto não é coincidência: a própria ideia de sistema filosófico foi desacreditada como obsoleta tanto pelos analíticos como pelos seus adversários viscerais. Isto foi um erro: o mal não é a sistematicidade, mas o sistema especulativo.

A ideia de sistematizar a filosofia, ou seja, para colocar em evidência as ligações entre seus componentes, deveria ser natural para qualquer um que estude os sistemas, quer coisas concretas ou ideias, naturais ou artificiais, pois não é concebível que algo exista ou possa compreender isoladamente a partir de algum sistema. Por exemplo, não há nenhuma ideia de coisas isoladas, assim como não há palavras que não se relacionam com outras palavras.

Espero que este passeio turístico através de meu sistema filosófico desperte a curiosidade de alguns leitores e os incentive a melhora-los ou repensá-los futuramente por um outro, mais profundo, mais verdadeiro, ou as três coisas de uma só vez. Animem-se: tal empreendimento requer apenas 20 anos de amadurecimento em um país normal, livre de crises políticas puramente destrutivas que só respondem apenas aos interesses de mesquinhos.

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Graduando em Filosofia (2014) pela Universidade de Franca (UNIFRAN); estágio de iniciação científica em Microbiologia com enfoque em Astrobiologia (2016) pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP); estudante da disciplina de Filosofia da Mecânica Quântica de pós-graduação (2016) pela Universidade de São Paulo (USP); experiência na área de Divulgação Científica com enfoque em Ciências Planetárias (Astronomia e Astrobiologia) e Ciências Cognitivas (Neurociência e Psicologia); fundador da Organização Universo Racionalista (UR); colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (IERFH); membro-estudante da Rede Brasileira de Astrobiologia (RBA). Tem interesse nas áreas de Astronomia, Astrobiologia, Biologia Evolutiva, Física, Filosofia da Ciência, História da Ciência, Microbiologia, Neurociência, Psicobiologia e Sociologia da Ciência. Abaixo, segue o endereço do currículo na plataforma Lattes.

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2 Comentários em "Como é a filosofia de Mario Bunge? Uma síntese conceitual"

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Reinaldo Cristo
Visitante

Achei todos os principais livros de Mario Bunge para download aqui:https://drive.google.com/folderview?id=0B-IzSwsM47neMG1YdlVLbnZ0X1E&usp=sharing

Rafael Bossoni
Visitante
Depois de ler aquela postagem da época do aniversário de 95 anos do Mario Bunge, eu me interessei muito pelo autor, acabei de terminar de ler seu livro Epistemologia e não vejo a hora de começar os outros dele. Por consequência, me interessei por filosofia da ciência também. Eu curso psicologia (UFPR) e confesso que ler seu livro me fez reconsiderar toda a minha formação acadêmica. No meu curso, estudamos 4 abordagens psicológicas: Psicanálise, Psicologia Behaviorista, Psicologia Fenomenológica e Psicologia Sócio-Histórica. No capítulo do Bunge sobre filosofia da psicologia, ele aborda a vertente da psicobiologia, que foi o que me… Read more »
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