Como falar e escrever em pós-moderno

Por Stephen Katz
Publicado no Journal of the Sydney University Arts Association

Antes de tudo, você precisa se lembrar que a linguagem simples (ou cotidiana) está fora de questão. É demasiada realista, modernista e evidente. A linguagem pós-moderna requer que você use metáforas, jargão universitário e expressões indeterminadas para que suas devastadoras e profundas contribuições saltem à vista. Muitas vezes, isso pode ser requisito difícil de cumprir – em especial, no caso em que uma linguagem indecifrável é o substituto perfeito. Por exemplo, imagine que quero dizer algo como: “A sabedoria milenar dos indígenas pode nos ajudar a ver de outra forma o mal-estar da cultura ocidental”. Isso é claro, mas muito simples. Peguemos a expressão “sabedoria milenar”. Um falante pós-moderno pode mudá-la para “o discurso”, ou, melhor, para “os discursos”, ou, ainda melhor, para “os efeitos da realidade dos discursos”. Adicione um adjetivo como “intertextual”, e pronto. “Indígenas” também é curto. Que tal “o outro pós-colonial”?

Mas falar em pós-moderno também implica em usar com propriedade termos que indiquem sua familiaridade com a maior quantidade de preconceitos possíveis; além do insubstituível ingrediente racista e sexista, é indispensável estar familiarizado com a psicanálise (seja para administrá-la ou para sofrê-la). Por exemplo, com o falogocentrismo (fixação masculina combinada com a racionalidade da lógica binária). E isso de “ver de outra forma” também está fora de questão, é melhor “a apreensão de um futuro alternativo”. Finalmente, “o mal-estar da cultura” é demasiado raso, e já foi usado por Freud. Use verbos e frases mais engenhosas como “mediar nossas identidades”. Assim, a oração final pode dizer algo como: “Devemos desconstruir a intertextualidade dos fatos da realidade dos discursos de outro pós-colonial, fora da metanarrativa do Ocidente, para aprender o futuro alternativo dos desvios falogocêntricos que medem nossas identidades”. Agora, você está falando como um pós-moderno!

Às vezes, você pode estar em algum apuro. Neste caso, deve-se dispor de um número mínimo de sinônimos pós-modernos e neologismos necessários para enfrentar um evento público. Lembre-se, não saber do que está falando não é ruim, desde que, diga o que diga, diga convictamente e de forma adequada. Isso me leva a um segundo aspecto básico para se expressar em pós-moderno: usar muitos sufixos, prefixos, hifens, itálicos, marcações e qualquer outra coisa que seu computador (essencial se você quiser escrever em pós-moderno) puder oferecer. Para não perder tempo, desenhe um quadro com três colunas.

Na coluna A, coloque os prefixos: pós-, hiper-, pré-, dis-, re-, ex- e conta-. Na coluna B, coloque os sufixos e termos relacionados: -ismo, -itis, -alidade, -ação, -itividade e -tricidade. Na coluna C, coloque uma série de nomes respeitáveis, conhecidos e que impressionem, como, por exemplo, Barthes (barthesiano), Foucault (foucaultian, foucaultianismo), Derrida (derrideano, derrideanismo). Citar “Canclini” (o filho perdido de Bordieu), ou as “culturas híbridas” cai como uma luva. Não há problema também citar como “García Canclini”; parece ser do mesmo tipo. Se for um seguidor New Age e ter visto os filmes de Dalai Lama ou Jackie Chan, não duvide em adicionar o ingrediente oriental do conhecimento interior, a harmonia social e o relativismo de todas as religiões, e cubra com algum aforismo (de leitura múltipla) de Nietzsche, Cioran ou Walter Mercado.

Agora, tentemos. Você quer dizer algo como: “O sujeito é uma criação histórica e social”. Este é um bom pensamento, mas, desde já, um mal começo. Você não vai chegar em sua segunda xícara de chá usando uma frase do tipo. Na verdade, depois de dizer algo assim, pode ser que o público vá embora, ou que não voltem prestar mais atenção. Relaxe. Vá até suas três colunas. Primeiro, o prefixo meta-  é útil, tanto como o pós-, e se vários se encaixarem no mesmo lugar será formidável. Melhor será usar algo como “metanarrativa pós-histórica”, mas seja criativo. “O sujeito é uma desconstrução de metanarrativas transhistóricas” é promissor. Em contrapartida, “criação histórica” deixa muito a desejar. Sugiro que veja a coluna B. Que tal “vanguardismo”?, ou pode ser mais pós-modernos ao introduzir uma categoria indeterminadas como “transvanguardismo híbrido”. Agora, vá até a coluna C e escolha um autor renomado, ou seja, importante, mas do qual seja quase impossível falar em termos simples, porque ninguém tem tempo ou vontade de lê-lo com juízo.

Os teóricos do continente europeu são os melhores, e em caso de dúvidas, o ideal é um autor francês decepcionado com o maio de 68. Recomendo o filósofo Michel Foucault, que escreveu vários tratados sobre o sujeito e o poder. Não precisa lê-los por completo nem sequer entendê-los; basta fazer qualquer alusão com “episteme” e mencionar de passagem o famoso senhor. Finalmente, agregue algo de suspense e emoção para que dê a impressão de que está interessado em falar algo de concreto, e não se esqueça de usar traços e parênteses. O que temos agora? “O sujeito contemporâneo é uma desconstrução de metanarrativas transhistóricas que, dentro do novo episteme do transvanguardismo híbrido, transcende as nacionalidades fictícias (produto de preconceitos etnocêntricos) inscritas em lógicas diferenciais e polivalentes que, como demonstrou Foucault (não se esqueça de que se pronuncia “Fucô”), são habilmente reconstituídas da semente do pensamento primitivo”.

Deve estar atento quando escutar uma oferta de trabalho de algum pós-industrial que esteja interessado em você para que dirija seu departamento de assistência social, ou, ainda melhor, para que dê aulas particulares para a filha. No caso de que alguém chegue a te perguntar de que diabos estás falando, fique tranquilo. Esse risco existe com todos aqueles que falam em pós-moderno, mas tente evitá-lo, sempre que possível. Caso chegue a acontecer, olhe para o seu interlocutor com estranheza, como um bicho raro, como se ele não tivesse captado a essência de seu discurso, e, neste momento, você deve dizer que a pergunta “simplifica o discurso”. Se isso não funcionar, você pode ser tomado pela tentação e pronunciar essa terrível resposta modernista de duas palavras: “Não sei”. Mas não, mantenha a calma, respire, olhe para o lado com olhar de oportuno, depois olhe para o auditório como alguém que olha para a chuva, e diga algo como: “Sua pergunta é muito interessante. No entanto, sua intertextualidade define um grupo de relações entre enunciados dispersos e decorativos, cuja eficácia simbólica e significado me parecem arbitrários. Isso mostra que o princípio de individuação geradora do sujeito é um tema que não pode se esgotar em uma conferência, talvez nem em um semestre”. Mais perguntas? Não? Pois bem, que agora se sirvam de chá com biscoitos.

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