“Curar Algumas Vezes, Aliviar Quase Sempre, Consolar Sempre” é o bastante?

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Imagem: Domenico di Bartolo - Care of the Sick

Há algum tempo, foi passada, no local em que estudo, uma interpretação de um texto baseado no aforisma “Curar Algumas Vezes, Aliviar Quase Sempre, Consolar Sempre”, princípio para a prática da medicina, de forma a relacioná-la a minha vida de médico. O texto, que pode ser encontrado aqui, faz uma abordagem histórica da sentença; no entanto, ao lê-lo completamente, percebi que, da forma que estaria, permitir-se-ia a presença de brechas no discurso, dando margem a atitudes anti-éticas ou desumanas, e foi com base nisso que se estruturou minha resposta.

Gostaria de compartilhar meu texto com vocês, leitores, pois, como envolve a ética e a crítica a determinado princípio, achei que os interessaria.

Curar Algumas Vezes, Aliviar Quase Sempre, Consolar Sempre”. O aforisma referido é, como muitas tradições (tal qual o “Parabéns para você”), de origem e criador indefinidos. No entanto, sua repetição é observada por muito tempo (o que faz pensarmos mais profundamente sobre quem iniciou o pensamento) como o princípio-motriz da relação entre médico-paciente. As repetições são bastante variadas; porém, em uma análise minuciosa de todas as frases, podemos chegar a um consenso que englobe o verdadeiro compromisso de um médico para com seu paciente, e que, ao longo de minha carreira, serão essenciais para todos os procedimentos que eu venha a realizar como profissional: “curar, aliviar, cuidar, consolar e confortar na medida do possível, independentemente de quem esteja a precisar de ajuda”.

A frase de consenso de todos os princípios é, aparentemente, mais realista e rigorosa na fundamentação de seus termos, preenchendo lacunas que, antes, poderiam ser usadas para ir contra o próprio princípio. Uma das tais lacunas é a variação “Curar algumas vezes/às vezes”. O médico não deve curar apenas algumas vezes. Ele deve tentar de todos os métodos a seu alcance para tentar curar todas as vezes, sendo indiferente a quem ele esteja a ajudar. O médico deve esforçar-se para curar um assassino em série na mesma medida que se esforçaria para curar um ganhador do Prêmio Nobel da Paz. O médico não é nenhum justiceiro, mas sim um mantenedor da saúde.

Outra variação nas citações é “Aliviar muitas vezes/outras vezes/frequentemente”, que também pode servir de brecha para atitudes dilemáticas. Por exemplo, uma das questões discutidas pela parte da Filosofia Moral e Ética é a eutanásia. Se meu paciente sente uma dor insuportável, eu tenho de aliviá-la na medida do possível. Entretanto, algumas pessoas com alguns tipos de alterações patológicas (tal qual o câncer terminal) podem sentir dores tão insuportáveis que alegam que o único alívio é a própria morte. Particularmente, tenho a eutanásia como um procedimento que deveria ser liberado em favor da autonomia do paciente. No entanto, não posso deixar minhas cosmovisões intervirem em minha atividade profissional. Tanto a lei não permite quanto a medicina possui um princípio que me impede de causar, propositalmente, a morte do paciente. Então, por mais que eu saiba que haja uma concordância entre médico e paciente acerca de seu destino, a eutanásia é inviável. Sendo assim, devo tentar aliviar a dor do paciente da medida do possível (ou do que me é permitido).

Entretanto, por mais que o médico se esforce, muitas vezes, suas atitudes não conseguem sobrepor uma modificação drástica na saúde de um indivíduo. Assim, notícias não muito agradáveis surgem, e precisam ser comunicadas de uma forma eufêmica ou pouco trágica. E é aí que surge a parte do princípio que fala em “consolar e confortar na medida do possível”, que é a única alteração que não foge muito das variações principais (“consolar/confortar sempre”), já que essas não permitem brechas tais quais as citadas anteriormente. Um médico deve ter uma formação psicológica suficientemente boa para comunicar fatos desagradáveis a um paciente e consolá-los com seu conhecimento e experiência do que foi comunicado.

Por fim, em resumo, estabeleço que o médico responsável é aquele que age conforme conhecimentos pré-estabelecidos para promover a melhora ou o empecilho à piora do paciente; e quando, em algumas conjunturas, não lhe for permitida a alternativa que ache mais coerente, seu esforço deve ser consideravelmente grande para sobrepor a racionalidade e o profissionalismo a suas convicções.

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Josikwylkson Costa Brito
Olá, meu nome é Josikwylkson Costa Brito (não, meu pai não deu uma cabeçada no teclado), mais conhecido como o Príncipe do Cosmos Nordestino, e nasci na cidade de Campina Grande, na Paraíba, onde moro atualmente. Tenho 18 anos atualmente, estou no segundo ano do curso de medicina e publico textos de cunho científico ou filosófico para o presente site, porém, em virtude dos estudos, não estou a fazê-lo com muita frequência. De todas as minhas publicações, gosto de publicar no âmbito de minha área (saúde), mas também arrisco em postar textos que contradigam o senso comum e que criticam as pseudociências, o que me faz ser esquartejado por muitos irracionalistas (que, inclusive, andam vagando por essa página). As críticas que mais recebo desses senhores são as de que não tenho autoridade o suficiente para falar de determinado assunto (mesmo que eu poste artigos científicos advindos de sites e/ou universidades de confiança). Então, em razão dos 'amigáveis' seguidores que se travestem de conhecedores de argumentação lógica e que rejeitam qualquer postagem minha por tal status, por favor, finjam que eu sou uma pessoa com 40 anos doutor em filosofia, cosmologia, biologia e medicina.