Descobrimos que as espécies podem ser extintas duas vezes – e a segunda vez é para sempre

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Representação de um esqueleto de tiranossauro. Créditos: Mark Garlick / Science Photo Library / Getty Images.

Por David Nield
Publicado na ScienceAlert

As espécies podem realmente ser extintas mais de uma vez. Em um sentido biológico, as espécies se extinguem quando o último animal de uma espécie para de respirar. Mas eles também podem ser extintos uma segunda vez, disseram os pesquisadores.

Quando uma espécie desaparece de nossa memória coletiva e conhecimento cultural, ela se extingue de uma forma diferente. Essa segunda forma de extinção – a extinção social – é objeto de um novo estudo que investiga o quão prejudicial esse fenômeno pode ser.

Por exemplo, as extinções sociais mudam a forma como vemos o ambiente ao nosso redor e podem afetar os esforços de conservação.

Os pesquisadores estão pedindo mais esforços para evitar a extinção social – porque à medida que mais e mais espécies desaparecem de nossas memórias, há evidências de que isso altera nossa percepção de quão importante é proteger o que resta.

“As extinções sociais podem afetar os esforços de conservação destinados a proteger a biodiversidade porque podem diminuir nossas expectativas sobre o meio ambiente e nossas percepções de seu estado natural, como o que é padrão ou relativamente saudável”, disse o pesquisador de sistemas biológicos Josh Firth, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Os pesquisadores analisaram dezenas de estudos anteriores para identificar como a extinção social acontece, identificando fatores contribuintes como importância simbólica ou cultural, há quanto tempo uma espécie estava viva e quanta conexão ela tinha com os humanos.

A extinção social geralmente, mas nem sempre, acontece após a extinção biológica, observam os pesquisadores. Às vezes, ambas as extinções podem acontecer ao mesmo tempo, dependendo de quão bem e amplamente conhecida é uma determinada espécie.

Um exemplo são as plantas medicinais. Muitas delas provavelmente se tornarão socialmente extintas, embora ainda estejam na natureza, porque com o tempo substituímos os medicamentos tradicionais à base de plantas por alternativas mais modernas, perdendo conhecimento delas ao longo do caminho.

A maioria das espécies – como aquelas distantes da civilização, ou aquelas muito pequenas para serem notadas exceto através de um microscópio – nunca teve uma presença social para começo de conversa. Enquanto isso, para outras espécies, a presença social pode se tornar realidade após uma extinção biológica.

“As espécies também podem permanecer conhecidas coletivamente após serem extintas, ou até mesmo se tornarem mais populares”, disse o biólogo conservacionista Uri Roll, da Universidade Ben-Gurion do Negev, em Israel. “No entanto, nossa consciência e memória de tais espécies gradualmente se transformam e muitas vezes se tornam imprecisas, estilizadas ou simplificadas e dissociadas da espécie real”.

Tome-se como exemplo a arara-azul, atualmente extinta na natureza: um relatório de conservação de 2013 do Brasil fez uma pesquisa com 242 crianças do antigo habitat da ave, e quase todas acreditavam incorretamente que a espécie era originária do Rio de Janeiro, por causa de seu aparecimento no filme de animação Rio de 2011.

Em última análise, os pesquisadores encontraram várias ligações entre a extinção social e a falta de apoio à conservação da biodiversidade. Em outras palavras, é importante manter as memórias e os registros das espécies extintas para perceber o que foi perdido.

As atividades prejudiciais dos seres humanos e a falta de conexão com a natureza estão se combinando para criar uma dívida de extinção social, concluiu a equipe – e muito mais ocorrências de extinção social provavelmente acontecerão, a menos que algo seja feito para evitá-las.

“Sustentar a conscientização sobre as espécies e suas ameaças também traz consequências cognitivas e emocionais para os indivíduos”, escreveram os pesquisadores. “Resolver esses problemas exigirá abordagens multidisciplinares que vão além da ecologia e da biologia da conservação”.

A pesquisa foi publicada em Trends in Ecology & Evolution.