Diferenças genéticas entre homens e mulheres: qual o peso delas em nossas escolhas?

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Créditos: Dimitri Otis.

O memorando publicado por James Damore, ex-funcionário da Google, causou uma grande repercussão e tem trazido à tona a discussão sobre as diferenças biológicas entre homens e mulheres. Em seu manifesto ele defende que a discrepância observada na ocupação de alguns cargos, como a engenharia de softwares, por homens e mulheres se deve a causas biológicas, que seriam responsáveis por influenciar as escolhas de cada gênero, causando essa divergência. Sendo assim, propostas de igualar o percentual de vagas disponíveis para homens e mulheres e o incentivo despendido as mulheres, como cursos gratuitos, estariam fadados ao fracasso por ser uma medida “anti-natural”. Afinal, se as escolhas que fazemos na hora de optarmos pela nossa carreira tem um peso biológico (natural) por que deveríamos confrontá-las? Nesse texto pretendo fugir um pouco da discussão padrão que gira em torno da existência ou não desses fatores. Partirei da premissa de que eles existem para fazer a pergunta: qual o peso desses fatores biológicos em nossas escolhas?

Sendo, nós, seres biológicos moldados pela evolução, tanto nossas características físicas quanto nosso comportamento estão a mercê da seleção natural. E graças a esse processo nascemos equipados com algumas características que nos auxiliam em nossa jornada. A ideia da mente como uma Tabula Rasa, que diz que nascemos como uma folha de papel em branco, pronta para ser preenchida com ensinamentos, experiência e vivência do meio ambiente, já foi descartada há tempos. Nascemos com uma carga de predisposições biológicas e, experimentos realizados com bebês tem sugerido que nascemos equipados com empatia e compaixão, mostrando que os bebês já são seres morais capazes de julgarem as ações dos outros. Mas somos mais do que isso. Somos seres biológicos imersos em uma cultura complexa e também somos moldados pelo ambiente sócio-cultural. Começamos a sentir os efeitos do ambiente a nossa volta ainda no útero, captando sons e reconhecendo a voz de nossa mãe. Apesar dos bebês já apresentarem essas características morais elas são rudimentares e serão aprimoradas através do nosso desenvolvimento e história individual.

Falar em características inatas do comportamento humano costuma gerar polêmicas por conta de visões equivocadas sobre esse assunto que permeiam o senso comum. Uma delas é uma repulsa criada ao associar tais características ao termo “instinto”, já abandonado pela ciência, pois invoca uma visão de algo incontrolável e imutável. Quando gatos machos miam desesperadamente atrás de uma fêmea e saem esguichando urina para marcar território, mesmo estando dentro de casa, dissemos que eles fazem isso por instinto. Tal raciocínio é replicado quando nos referimos as bases biológicas do comportamento e pelo medo disso revelar ou justificar o pior do ser humano alguns preferem evitar, ignorar e/ou repelir esse tipo de pensamento. Negligenciar a natureza humana não é o melhor caminho se pretendemos entender quem somos e por que fazemos o que fazemos.

O segundo equivoco usa a mesma linha de raciocínio, só que ao invés de gerar uma repulsa, gera um apreço. O adepto dessa visão aceitará que os fatores biológicos para o comportamento estão lá e que nada podemos fazer a não ser entende-los e aceita-los. E isso é um tanto perigoso. Da mesma forma que podemos justificar a diferença de gênero em cargos de engenharia de software usando a biologia, poderíamos justificar também o adultério masculino, o racismo e a xenofobia. Como é bem conhecido pela ciência, os machos, por produzirem os gametas menos custosos e em maior quantidade, tendem a procriar com um maior número de parceiras. Nossos parentes primatas mais próximos e tribos de caçadores coletores tendem a tratar com hostilidade membros de outros grupos. Comportamentos que fazem sentido do ponto de visto evolutivo, mas que podem não ser vistos com bons olhos nas sociedades atuais. Acreditar que algo é bom, moral ou deve ser aceito por que é “natural” é uma falácia e pode trazer resultados desagradáveis. Então como proceder?

Precisamos lembrar que falar de comportamento humano é considerar características inatas em conjunto com desenvolvimento individual. Você já deve ter ouvido falar da famosa disputa inato vs aprendido (nature vs nurture, em inglês). Essa dicotomia não tem mais espaço na ciência. Já foi superada. Quando o assunto pu o objeto de pesquisa é o comportamento humano é impossível considerar apenas “predisposições biológicas”, precisamos levar em conta todo o desenvolvimento neurológico dos indivíduos além da influência de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais (sócio-culturais). Reduzir o comportamento humano a supostas predisposições biológicas é cometer um erro grave e estar sujeito a cair na falácia naturalística ou no determinismo biológico.

Vale ressaltar também que a reprodução é algo natural e se reproduzir/replicar é a regra desde que a vida surgiu em nosso planeta. O comportamento reprodutivo está repleto de características biológicas e é de total interesse dos seus genes que você passe eles adiante. Só que você pode voluntariamente, para a infelicidade dos seus genes, escolher não deixar descendentes, seja através do uso de métodos contraceptivos ou pela adoção de ideais celibatários e de castidade. Se é tão simples sobrepujar algo tão complexo como o impulso para a reprodução, por que os defensores do tal manifesto querem fazer parecer que algo tão subjetivo quanto uma “predisposição biológica que provavelmente pode influenciar as preferências entre os gêneros por ocupação de cargos em áreas de engenharia e ciência da computação” tem um peso tão grande, sendo algo tão determinístico a ponto de tornar ineficaz políticas de incentivo, inclusão e de equidade de vagas?

A verdade é que todo esse alvoroço que foi criado a partir desse manifesto parece demonstrar pouca preocupação com a ciência do comportamento humano. A biologia está, na verdade, sendo usada como ferramenta para dar suporte a motivações políticas. Só que, como muito bem explicitado pela Suzanne Sadenin, o manifesto apresenta evidências fracas, ignora dados importantes de áreas que estudam as diferenças biológicas entre os gêneros e está cheio de incoerências e contradições. Além disso, alguns trabalhos têm demonstrado que o aumento da diversidade no ambiente de trabalho é responsável por melhorar o desempenho dos trabalhadores e o aumento da produtividade. Como os seres humanos possuem uma extraordinária habilidade para o aprendizado e o ensino e as pesquisas sobre capacidades cognitivas entre homens e mulheres não encontraram qualquer diferença significativa, muito menos para habilidades em construção de softwares, ficamos com a impressão de que essa briga por políticas de diversidade no meio de trabalho (adotadas pelo Google) é mais ideológica do que cientifica ou biológica.


  • Publicado em: https://goo.gl/2QzVNZ


Referências e leituras recomendadas:

  • Paul Bloom: O que nos faz bons ou maus?
  • Google demite funcionário que escreveu memorando contra diversidade de gênero. – http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/google-demite-funcionario-que-escreveu-memorando-contra-diversidade-de-genero.ghtml
  • O memorando do cara do Google: ofuscados pela ciência. http://carlosorsi.blogspot.com.br/2017/08/o-memorando-do-cara-do-google-ofuscados.html
  • Como é que é? – Mulheres evitam empregos estressantes? – http://genereporter.blogspot.com.br/2017/08/como-e-que-e-mulheres-evitam-empregos.html
  • Suzanne Sadedin – What do scientists think about the biological claims made in the document about diversity written by a Google employee in August 2017? – https://www.quora.com/What-do-scientists-think-about-the-biological-claims-made-in-the-document-about-diversity-written-by-a-Google-employee-in-August-2017
  • Should men care about feminism? – https://www.quora.com/Should-men-care-about-feminism/answer/Suzanne-Sadedin
  • Is masculine brain biologically or from an evolutionary perspective better suited to concentrate / focus than feminine brain? – https://www.quora.com/Is-masculine-brain-biologically-or-from-an-evolutionary-perspective-better-suited-to-concentrate-focus-than-feminine-brain/answer/Suzanne-Sadedin
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