É falso ou não? Pergaminho controverso é tido como a cópia mais antiga dos Dez Mandamentos

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Fac-símile do pergaminho de Shapira, 1883. (Créditos: Domínio público)

Traduzido por Julio Batista
Original de Owen Jarus para a Live Science

Um texto bíblico rejeitado como uma falsificação no século 19 não é apenas autêntico, mas na verdade é um predecessor do Livro de Deuteronômio, segundo um estudioso. Nem todo mundo concorda.

O livro de Deuteronômio descreve alguns dos eventos no início da história de Israel e fala de várias leis aprovadas por Deus, incluindo os Dez Mandamentos. Muitos estudiosos acreditam que o Livro de Deuteronômio foi escrito por volta de 2.700 anos atrás. Este texto dataria de antes.

A alegação gerou uma quantidade considerável de atenção da mídia, incluindo um longo artigo no The New York Times; no entanto, a maioria dos estudiosos contatados pelo Live Science expressou dúvidas, dizendo que pensam que o texto é, na verdade, uma falsificação.

O texto foi escrito em paleo-hebraico em 16 fragmentos de couro. Em 1883, Moses Wilhelm Shapira, um negociante de antiguidades baseado em Jerusalém, trouxe o texto para a Europa. Ele o mostrou a um comitê de acadêmicos na Alemanha, que o considerou uma farsa.

Shapira então viajou para a Grã-Bretanha, onde ofereceu vender os fragmentos ao Museu Britânico por 1 milhão de libras. Um especialista que trabalha para o museu também considerou uma falsificação, recusando a oferta. No ano seguinte, em 1884, Shapira morreu por suicídio na Holanda.

Após a morte de Shapira, sua viúva vendeu o texto para um livreiro chamado Bernard Quaritch, e ele se perdeu por volta do ano 1900. Mas várias cópias manuscritas do texto sobrevivem até hoje.

O texto é real?

Em um artigo publicado na edição de março da revista Zeitschrift für die Alttestamentliche Wissenschaft, e em um livro publicado recentemente The Valediction of Moses: A Proto-Biblical Book (Mohr Siebeck, 2021), Idan Dershowitz, um estudioso da Bíblia Hebraica, com seus exegeses para a Universidade de Potsdam, Alemanha, mostrou por que o texto não só é autêntico, mas é um predecessor do Livro de Deuteronômio.

O texto, que Dershowitz chama de “The Valediction of Moses” (A Despedida de Moisés), conta uma história na qual Deus ordena que Moisés conquiste as terras de um rei chamado Sihon.

“Moisés e os israelitas então atacam Sihon em [um lugar chamado] Jahaz, matam todos e capturam todas as cidades do rei. É uma narrativa curta e direta”, escreveu Dershowitz em seu livro recente.

Apesar de ser mais curto que o Livro de Deuteronômio, o texto, disse ele, inclui os Dez Mandamentos. Ambos os textos também falam da conquista das terras de Sihon, mas o Livro de Deuteronômio inclui uma descrição mais longa da história.

Dershowitz diz que este texto, com sua narrativa mais curta, foi escrito antes do Livro de Deuteronômio. “Longe de ser derivado de Deuteronômio, este texto é, na verdade, o ancestral de Deuteronômio”, escreveu Dershowitz no artigo do periódico.

Dershowitz apresenta vários argumentos para apoiar sua afirmação de que o texto é autêntico. Por um lado, ele disse que as próprias anotações de Shapira mostram que o negociante de antiguidades estava tendo muitas dificuldades para entender o texto. No mínimo, disse Dershowitz, isso deveria provar que Shapira não falsificou o documento.

Os papéis têm “um grande número de pontos de interrogação, reflexões marginais e leituras rejeitadas; parece ser uma decifração preliminar. Na verdade, Shapira ainda estava no processo de descobrir a ordem correta dos fragmentos inscritos em couro”, escreveu Dershowitz no artigo do período.

“Se Shapira foi o falsificador – ou um dos falsificadores – dos manuscritos, por que seus papéis particulares incluem uma tentativa não totalmente bem-sucedida de decifrá-los? Certamente seria incomum um falsificador ter muitas dificuldades para entender um texto que ele ele mesmo havia planejado ou inscrito.”

Em segundo lugar, Dershowitz argumenta que a história de como o texto foi descoberto é notavelmente semelhante a como os Manuscritos do Mar Morto foram descobertos na década de 1940.

“De acordo com o testemunho de Shapira, foi no verão de 1878 que ele ouviu pela primeira vez sobre alguns fragmentos de manuscritos de couro antigos que foram descobertos por beduínos em uma caverna perto do Mar Morto, acima de Wadi al-Mujib”, escreveu Dershowitz.

Shapira alegou tê-los comprado dos beduínos por uma quantia modesta. Esta história de um texto encontrado por beduínos em uma caverna perto do Mar Morto é muito semelhante a como o Manuscritos do Mar Morto foram encontrados na década de 1940, escreveu Dershowitz. Essa semelhança existe apesar do fato de que os Manuscritos do Mar Morto não foram encontrados até décadas após a morte de Shapira.

Dershowitz apresenta muitos outros argumentos para apoiar suas conclusões. Por exemplo, Dershowitz afirma que um falsificador do século 19 provavelmente não teria conhecimento de algumas das palavras paleo-hebraicas usadas no texto.

Ele também observa que o beduíno, de quem Shapira alegou ter comprado o texto, teria poucos motivos para criar uma falsificação elaborada, visto que recebeu apenas uma pequena quantia em dinheiro.

O que os estudiosos da Bíblia têm a dizer

A Live Science conversou com mais de meia dúzia de acadêmicos não afiliados à pesquisa para obter suas opiniões sobre as alegações. A maioria deles expressou ceticismo e disse que o texto é provavelmente uma falsificação.

Um problema que os estudiosos notaram é que o texto está perdido há mais de um século, tornando impossível a realização de testes científicos nele. Além disso, Shapira tinha um histórico de vendas de falsificações, eles observaram. Na década de 1870, Shapira vendeu vários objetos com inscrições supostamente feitas pelos antigos moabitas que se revelaram falsos.

A escrita no texto, disseram os estudiosos, contém uma série de características incomuns que sugerem que um falsificador do século 19 os criou, como letras escritas em posições que um escritor da antiguidade normalmente não escreveria.

“Alegações dramáticas exigem evidências dramáticas e convincentes, e nós simplesmente não as temos em relação aos fragmentos de Shapira. Em vez disso, temos evidências hipotéticas e circunstanciais, na melhor das hipóteses. E isso simplesmente não vai resultar numa conclusão”, disse Christopher Rollston, um professor de línguas e literaturas semíticas na Universidade George Washington (EUA), que deu uma longa lista de razões pelas quais o texto é provavelmente uma falsificação.

“O enredo dos fragmentos de Shapira tem falhas, e essas falhas são semelhantes aos tipos de falhas frequentemente encontradas em falsificações modernas ao longo das décadas”, disse Rollston.

Sidnie White Crawford, professor emérito da Universidade de Nebraska-Lincoln (EUA), especialista em Bíblia e língua hebraica, também achou os argumentos de Dershowitz pouco convincentes.

“A questão da autenticidade é baseada nos restos de material – que agora estão faltando e não podem ser testados – e em uma análise da paleografia – a caligrafia”, disse Crawford, observando que estudos paleográficos anteriores do texto descobriram que eles contêm características incomuns que indicam uma falsificação.

Os estudos do texto conduzidos nos séculos 20 e 21 basearam-se em cópias manuscritas, enquanto alguns dos estudos feitos no século 19 usaram o texto real.

Dershowitz rebateu em seu livro e artigo que os erros paleográficos que os estudiosos identificaram podem ser o resultado de não termos o texto real para estudar; os estudiosos do século 19 podem ter introduzido esses erros ao copiar o texto à mão.

Em outras palavras, o texto real pode ter parecido diferente das cópias manuscritas que sobreviveram hoje.

Alguns estudiosos deixaram em aberto a possibilidade de que o texto seja autêntico. “Com base nas poucas cópias que foram feitas na época, os fragmentos parecem ser falsificações mal executadas, o que não seria surpreendente, pois Shapira já havia se envolvido em um caso de falsificação alguns anos antes”, disse Michael Langlois, teólogo e professor da Universidade de Estrasburgo, França.

“Por outro lado, é possível que as cópias – e não os fragmentos em si – tenham sido mal executadas. Infelizmente, não temos os fragmentos em si. Daí o dilema. Então, eu diria que é tecnicamente possível que os fragmentos eram, de fato, genuínos”, disse Langlois ao Live Science.