É ruim ser cético?

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O filósofo Massimo Pigliucci[1] escreve que, certa vez, foi convidado por um programa de rádio americano para falar sobre a questão da evolução biológica e do criacionismo como explicações para a evolução da vida no planeta, um assunto bastante discutido em certas partes dos Estados Unidos, especialmente na região centro-sul do país. O outro convidado era o também cético Michael Shermer. Pigliucci afirma que o locutor do programa do qual estavam participando ficou intrigado ao perceber que os dois convidados pareciam pessoas bastante amigáveis, que sorriam e eram cordiais, ou seja, eram pessoas muito felizes e amistosas para “serem céticos”.

A visão do radialista americano sobre o que é um cético é compartilhada por muita gente. No início de novembro de 2013, a revista UFO, no Brasil, publicou em sua página do Facebook um manifesto – posteriormente deletado – contra os “céticos” que não aceitam que as marcas surgidas em uma plantação no interior de Santa Catarina no começo daquele mês sejam obras de alienígenas. O comunicado diz:

Amigos, deixando de lado estas discussões com céticos tolos, que há anos se repetem em sua incredulidade e perdem grandes chances de abrirem suas mentes para aquilo que não conseguem entender, vamos prosseguir com a conversa de maneira construtiva. Até porque, em mais de três décadas dedicadas à Ufologia, encontrei todo tipo de cético pela frente, menos um: O CÉTICO INTELIGENTE! Esse não existe, porque, quando há inteligência, não pode haver ceticismo.

Todos os céticos que conheci, infelizmente, são de uma pobreza mental de dar dó. Ultrapassados, limitados, ignorantes (no sentido de não buscarem informações que desafiem o que conhecem), ranzinzas e chatos. Deixemos os caras de lado, mas não sem antes relembrarmos a eles: moçada, Ipuaçu fica em Santa Catarina, não em Katmandu. Para se chegar lá e ver as coisas pessoalmente, há estradas e o local não é inacessível. Pode-se ir até lá por inúmeras rodovias, ok? Então, help yourself, senhores céticos!

De acordo com o texto da revista, ceticismo e inteligência são características incompatíveis. Um cético é um sujeito de mente fechada[2] e que, por isso, não percebe quantas coisas está deixando de saber. A mente fechada é um sinal de pobreza intelectual, segue o comunicado da revista, e os céticos são também ignorantes por não buscarem informações diferentes daquelas com as quais estão familiarizados. E, obviamente, céticos são “ranzinzas e chatos”.

Uma das melhores definições a respeito do que significa ser um cético vem de Massimo Pigliucci[3] (aqui, o autor se refere ao uso contemporâneo do termo, e não ao ceticismo radical, uma posição filosófica que sustenta que não é possível ter conhecimento do mundo): “Ser cético significa nutrir reservas razoáveis a respeito de certas afirmações. Significa querer mais evidências antes de chegar a alguma conclusão. Mais importante, significa manter uma atitude de abertura para calibrar as crenças de alguém de acordo com as evidências disponíveis”.

Contrariamente às visões comuns sobre o ceticismo, ser cético não significa ser chato, e também não significa uma obsessão por tentar mostrar que qualquer afirmativa é falsa. Significa, simplesmente, ter padrões de exigências mais refinados para aceitar alguma ideia como provavelmente verdadeira. Assim, se alguém diz que a falta de marcas aparentes de ação humana é suficiente para que se acredite que um desenho em uma lavoura de trigo foi feito por alienígenas, então, de fato, esse sujeito não é um cético, pois sua conclusão parte de evidências bastante fracas, da aceitação de falácias filosóficas (como o apelo à ignorância) e, basicamente, de suposições fantasiosas que não recebem nenhum endosso da ciência (ex: aliens inteligentes nos visitam).

Question
Fonte da imagem: http://tidysurveys.com

A falta de ceticismo é um dos maiores males do mundo contemporâneo, afirma o jornalista americano Guy Harrison em Think: why we should question everything (Pense: por que nós deveríamos questionar tudo, publicado pela Prometheus Books nos Estados Unidos, e ainda sem edição brasileira). Tendemos a acreditar em tudo sem demandar boas razões para isso. Aceitamos tranquilamente o que um político diz somente porque ele pertence ao partido de nossa preferência. Tomamos um “complexo vitamínico” porque o anúncio que vimos na TV é bem feito, com pessoas bonitas, e a empresa afirma que irá devolver nosso dinheiro se o produto não funcionar. Acreditamos que alienígenas viajaram por distâncias inimagináveis, chegaram à Terra e aqui nos deixaram alguma mensagem (que nunca conseguimos decifrar) em plantações de trigo, e chegamos a essa conclusão basicamente porque “isso não pode ter sido feito por seres humanos.” A aceitação de ideias que provavelmente são falsas nos leva a perder dinheiro, a arriscar nossa saúde, ou simplesmente a perder tempo, procurando coisas que provavelmente nunca encontraremos, como aliens fazendo os círculos.

Harrison afirma que devemos ter uma “dose saudável de dúvida”, e usarmos a razão para discernir entre aquilo que é provavelmente real e aquilo que não é. Isso significa não assumir que conhecemos alguma coisa sem ter boas razões que a sustentem. Essa postura cética – quando aplicada às mais diversas situações que vivenciamos – pode mudar nosso mundo, em termos individuais e sociais, para melhor.


[1] PIGLIUCCI, M. Tales of the rational: skeptical essays about nature and science. Smyrna: Freethought Press, 2000, p. 253.

[2] Para saber mais sobre a ideia de mente aberta (open-mindedness), vale consultar o trabalho do filósofo inglês William Hare. Muitos de seus artigos estão disponíveis gratuitamente em http://www.williamhare.org/

[3] PIGLIUCCI, M. Nonsense on stilts: how to tell science from bunk. Chicago: The University of Chicago Press, 2010, p. 137.

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