Em defesa da filosofia científica

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Em defesa da filosofia científica

Ciência vem do latim scientia e significa conhecimento, enquanto filosofia vem do grego philos/shopia e significa “amor a sabedoria”. Logo, filosofia e ciência andam de mãos dadas. E realmente é assim.

“Procure em sua mente, ou preste atenção às conversas que você tem com outras pessoas, e você vai descobrir que não há limites reais entre ciência e filosofia — ou entre estas disciplinas e qualquer outra que tente fazer afirmações válidas sobre o mundo com base em evidência e lógica. Quando tais alegações e seus métodos de verificação admitem a experiência e/ou descrição matemática, tendemos a dizer que as nossas preocupações são “científicas”; quando elas se relacionam com questões mais abstratas, ou até com a consistência de nosso próprio pensamento, muitas vezes dizemos que estamos sendo “filosóficos”; quando apenas queremos saber como as pessoas se comportaram no passado, rotulamos os nossos interesses como “históricos” ou “jornalísticos”; e quando o compromisso de uma pessoa com a evidência e a lógica torna-se perigosamente superficial ou simplesmente se dobra sob o peso do medo, pensamento positivo, tribalismo, ou êxtase, reconhecemos que ela está sendo “religiosa”.” – Sam Harris[1]

Diferentemente dos pré-modernos, que baseiam sua epistemologia na fé e no misticismo, os céticos[2] se baseiam na razão e experimentação. Embora ainda existam pessoas que se agarram desesperadamente ao seu livro sagrado defendendo o criacionismo, a proibição de vacinas, o pecado das transfusões de sangue, entre outros, como new ages que defendem o poder da mente sobre a matéria, os cristais mágicos e abduções alienígenas, fato é que a ciência já os venceu[3]. Uma a uma, todas essas afirmações foram refutadas pela ciência, veja o caso da astrologia[4], por exemplo.

No entanto, temos visto que além dos persistentes defensores derrotados da idade média, hoje temos os ateus, seculares e céticos radicais que defendem o pós-modernismo. E o que é o pós-modernismo? O pós-modernismo é a conclusão de que verdades não existem e, consequentemente, todas as formas de conhecimento são igualmente válidas[5]. Os pós-modernistas tentam puxar o tapete da ciência e desacreditar séculos de conhecimento estabelecido à base de evidências. E eles têm convencido a muitos. Hoje vemos ataques pós-modernos sendo usados por religiosos, políticos, místicos, entre outros.

A ciência precisa de uma defesa, mas essa defesa não é apenas uma demonstração matemática ou um experimento em laboratório. Embora as evidências sempre devam ser respeitadas, ainda falta aos cientistas, aos estudantes de ciências e céticos, o amor pela filosofia. Sem uma filosofia sofisticada não teremos uma base para refutar os pós-modernos. E, inclusive, a própria ciência Iluminista é assentada em diversos pressupostos filosóficos: afinal, o que mais seria valorizar a verdade, a lógica, as evidências, os modelos teóricos, as experimentações e seus resultados? A ciência é justamente a razão aplicada[6].

Steven Pinker, por exemplo, ao falar sobre o método científico diz que não existe um método científico imutável porque as técnicas científicas mudam com o passar do tempo, assim o que guia a ciência no final das contas é justamente a razão, a racionalidade desses métodos. A ciência é, em outras palavras, a razão na sua forma concentrada.[7]

Mas o que os pós-modernos alegam contra a ciência, afinal? Dentro do arcabouço de argumentos pós-modernos, vemos diversos conceitos irracionais. O primeiro dele, que falha logo de início numa investigação séria, é a afirmação de que a epistemologia da ciência é apenas qualquer dentre várias[8], até mesmo pensadores anarquistas, como o linguista Noam Chomsky, repudiam essa ideia.

Os pós-modernistas querem nos fazer crer que sua alegação de que verdades não existem, seja uma verdade. Isso é uma contradição lógica patente. Os pós-modernos alegam que a ciência faz parte do jogo de poder político, mas não explicam como diversas teorias científicas não são aceitas ainda pela sociedade, burguesia e Estado, como a ciência dos canabionides, a descoberta feita por Charles Darwin da evolução por seleção natural, etc. Até o presente momento, mais da metade da população da Terra aguarda o Juízo Final em algum momento para serem julgados por Deus. Se a ciência é usada para manter o poder, algo deu muito errado.

Os céticos radicais afirmam que não existe progresso na ciência, e que tudo não passa de uma luta de poderes e egos. Um conhecimento científico desbanca outro e silencia ele, não existe progresso, harmonia, e sim choques, guerras, lutas pelo poder. Eles usam basicamente a dialética hegeliana para defender essa ideia. Mas é claro, essa é a visão de um punhado de filósofos que não compreendem a ciência e abusam dela devido à ignorância científica que ostentam.

Alan Sokal, por exemplo, já refutou muitos desses abusos[9] mostrando que a natureza da investigação científica é verdadeira e busca a realidade. Pós-modernistas são relativistas, afirmam que tudo é relativo, inclusive o conhecimento científico diante de outros. Relativistas querem desconstruir o “poder” da ciência, mesmo que ele seja baseado em evidência. Como os religiosos, defendem que as provas não fiquem acima dos dogmas. É por isso que surgem teorias insanas, como a teoria queer (e outras parecidas), por exemplo, que sustentam que não existem influências biológicas, psicológicas e hormonais inatas nos humanos, pois tudo, segundo eles, é uma construção social[10].

O mais interessante dessas afirmações sem pé nem cabeça vindas da pós-modernidade é que o tempo todo eles lutam para dizer que a verdade não existe, mas defendem as suas concepções de mundo como sendo as únicas verdadeiras. Seja como for, a grande realidade é que de fato o pós-modernismo é a alegação de que não existem verdades, pelo menos não para aqueles que rejeitam às evidências[11] e querem ser tolos na Terra.

          Adaptado do livro “Explicando o Pós-modernismo” (pp.25) de Stephen Hicks

Escrito por Bruno Leopoldino

Referências:

[1] Cf. http://www.universoracionalista.org/nossa-definicao-restrita-de-ciencia/ e também no livro Despertar um Guia para a Espiritualidade sem Religião (pp. 211)

[2] Por cético, quero dizer os praticantes do ceticismo científico e não os céticos radicais que negam a realidade, a existência de verdades etc.

[3] Cf. https://www.youtube.com/watch?v=HRlQ1_KRCCw

[4] Cf. http://www.projetoockham.org/pseudo_astrologia_1.html

[5] Cf. https://www.youtube.com/watch?v=bUBAXx8Np3g

[6] Para mais informações sobre filosofia científica ver http://www.universoracionalista.org/conceitos-erroneos-em-torno-do-cientificismo/

[7] Cf. https://www.youtube.com/watch?v=9_bjlZK2j2Y

[8] Veja esse debate entre Noam Chomsky e Michel Foucault: https://www.youtube.com/watch?v=9_HaHtcKG9c

[9] Ver o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=pJlJo-Bl7Bs e ler a obra “Imposturas Intelectuais – o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos”.

[10] Por falta de espaço, não temos como abordar esse assunto amplamente aqui, recomendamos que vejam o documentário “Lavagem Cerebral” https://www.youtube.com/watch?v=G0J9KZVB9FM&list=PL3RHKpx6MPvQh2hiMBP3FQ-uLy57bf6TK

[11] Favor conferir uma crítica ao relativismo de Richard Rorty no livro de Harris, “A Morte da Fé”, pp. 206-211. Ver também Carl Sagan, em “O Mundo Assombrado”, capítulo 14 “A anticiência” nele, Sagan refuta a pós-modernidade com maestria.

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Bruno Leopoldino Dias Batista
Sou um cético, interessado em ciência e filosofia de forma geral, bem como em tópicos específicos, a saber: a regulamentação das drogas, ciência da moralidade, meditação, crítica à religião e pseudociências. Estou terminando uma graduação em direito. Escrevo o que penso também na página e blog Foco Cético: Página Foco Cético e Blog Foco Cético. As opiniões expressas por mim, em qualquer lugar, representam apenas as minhas visões pessoais e não devem ser interpretadas, de maneira alguma, como a posição da empresa na qual eu trabalho (Monsanto do Brasil), da Universidade na qual eu estudo (UNIP) ou até mesmo do grupo Universo Racionalista como um todo. Minhas visões são particulares, pessoais e representam apenas o que eu penso. Por falta de tempo hábil para participar de debates, eu criei um Ask para aqueles que se interessarem em me dirigir perguntas ou argumentos sobre meus artigos, ou qualquer outro assunto. Responderei na medida do possível, sinta-se a vontade para fazer perguntas com um login ou de maneira anônima: ask.fm/brunolbatista

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Betina
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Betina

Haveríamos nós de convir de que inclusive as nossas críticas são produtos da semiologia do sistema que nos aprisiona, logo, é impossível abandonar a realidade e as suas multifacetas. Nesse ponto, inclusive o nosso despertar é governado… a nossa humanidade não passaria de uma manifestação mais amena da perversidade, bem como o contrário. Falo isso porque nós não vamos achar a “resposta científica”, a “certeza absoluta” que a Teoria da Razão Pura anseia… Não vamos viver a paz permanente, nem mesmo a treva permanente, o erro permanente e a certeza permanente. Nada que vem da gente é puro e estável.… Read more »

Jean
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Jean

Texto peca ao relacionar indiscriminadamente o ateísmo e o socialismo ao pós-modernismo, e com claro viés ideológico deixa subentendido que o capitalismo liberal e o individualismo são posturas filosóficas com respaldo em evidências.

Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Admin

Você tem certeza que entendeu a tabela do Stephen Hicks?

Hicks, em Explicando o Pós-modernismo, disserta sobre como o pós-modernismo emergiu a partir das correntes socialistas e não que o socialismo seja pós-moderno.

Carlos
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Carlos

Só não entendi a citação a ateus no início do texto…

Willian
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Willian

Pseudo-altruísmo, coletivismo social hipócrita e uma pitada de populismo/demagogia, essa é a formula para bestializar a sociedade.

Betina
Visitante
Betina

Tenho a certeza que se refere a estes termos de maneira diversa da minha, mas não há de negar que no final todos utilizamos das mesmas artimanhas, bem como somos bestializados por elas.