Esses peixes “falam” através da eletricidade, mas se comunicam da mesma forma que nós

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Crédito: Tsunehiko Kohashi.

Por Carly Cassella
Publicado na ScienceAlert

Conversas constantes não são a melhor maneira de transmitir sua mensagem. Respirar fundo antes de dizer algo importante pode fazer as pessoas ouvirem mais atentamente o que você tem a dizer.

E esse não é apenas um truque que nós, humanos, descobrimos.

Descobriu-se também que sapos e pássaros fazem pausas propositais em sua fala e, como se constatoupeixes mormirídeos, ou peixes-elefante, cronometram seu silêncio de maneiras semelhantes.

Debaixo d’água, esses peixes de água doce se comunicam por meio de pulsos fracos de eletricidade, e uma nova pesquisa descobriu que as informações que eles enviam uns aos outros também são marcadas por pausas oportunas.

Quando colocados em pares, os mormirídeos (Brienomyrus brachyistius) fazem ativamente pausas em seus sinais elétricos antes de enviar uma rajada de pulsos elétricos. Quando isolados, eles fazem isso com muito menos frequência, o que sugere que é uma característica da comunicação mormírida.

Acredita-se que esses momentos oportunos de silêncio impeçam os peixes próximos de se acostumarem tanto com o fluxo constante de sinais elétricos a ponto de não prestar mais atenção ao que está sendo dito.

Em vez disso, uma pausa de cerca de um segundo pode preparar um mormirídeo para receber futuras mensagens.

“Nossa descoberta de que as exibições de rajadas tendem a ocorrer imediatamente após as pausas em mormírideos é semelhante à descoberta de que falantes humanos tendem a colocar pausas antes de palavras com alto conteúdo de informação”, escreveram os autores.

Esta não é a primeira vez que mormirídeos foram vistos fazendo pausas antecipadas durante a comunicação elétrica. Na verdade, outros peixes elétricos, chamados sarapós, também fazem isso durante o cortejo sexual.

Dito isso, este novo estudo é o primeiro a propor um modelo celular que pode explicar essas pausas.

Usando gravação intracelular, os pesquisadores descobriram que os cérebros dos mormírideos são estimulados mais facilmente após um curto período de silêncio.

Ao inserir artificialmente pausas nos sinais elétricos de um peixe do par, os autores foram capazes de mostrar um aumento na atividade cerebral dos outros peixes.

“Curiosamente”, observou a equipe, “as escalas de tempo relevantes para as pausas na fala humana são mais ou menos semelhantes às da comunicação elétrica dos mormirídeos, ocorrendo na faixa de centenas de milissegundos a segundos”.

Isso sugere que um processo celular semelhante está ocorrendo em cérebros de peixes e humanos, e os autores acham que sabem o que é.

Quando os receptores no cérebro são estimulados continuamente, as sinapses enfraquecem com o tempo, diminuindo a atividade dos circuitos sensoriais em geral.

Isso é conhecido como depressão sináptica e é o que permite ao cérebro animal aprender quais sinais são mais importantes e, portanto, mais precisam de atenção.

Quando os pesquisadores estimularam artificialmente o mesencéfalo de peixes elétricos com um sinal constante, eles notaram que os circuitos sensoriais do peixe produziam respostas cada vez mais fracas ao “ruído” contínuo.

Uma pausa silenciosa, por outro lado, deu a esses neurônios um descanso, “maximizando assim o impacto das entradas sensoriais” quando a comunicação foi retomada.

“As pausas inseridas na fala elétrica redefinem a sensibilidade do cérebro do ouvinte, que ficava deprimido durante a parte contínua da fala”, explicou o neurobiologista Tsunehiko Kohashi, da Universidade de Washington em St Louis (EUA).

“As pausas parecem tornar a mensagem a seguir o mais clara possível para o ouvinte”.

Aliás, é quando os peixes elétricos enviam suas informações mais importantes. Os pesquisadores descobriram que uma pausa na comunicação entre esta espécie é geralmente seguida por uma rajada de alta frequência de pulsos elétricos.

Ao fazer uma pausa rápida, parece que os mormirídeos estão garantindo que terão toda a atenção de seus colegas.

Humano ou peixe, pulsos elétricos ou fala, a melhor comunicação animal depende do silêncio.

O estudo foi publicado na Current Biology.